Comer com os olhos: o impacto invisível do celular à mesa

(Imagem: Montagem por Lara Paiva)

Entre distrações digitais e garfadas automáticas, o celular se impõe como terceiro elemento nas refeições — afetando corpo, mente e vínculos

Por Duda Ventura

As batatas fritas pisoteadas grudadas nos fios de cabelo do chão tiravam meu apetite. Mas a culpa não era da dona daqueles mocassins: sem querer, a mãe pisoteava a comida que as filhas jogavam no chão, entediadas, e os fios apenas já estavam ali antes. Ou talvez tivessem caído do seu rabo de cavalo já tombando para a esquerda, provavelmente preso às pressas numa tentativa de disfarçar o calor do shopping. 

“Esse é um dos perfis mais comuns aqui da praça de alimentação”, explica Albino, estendendo o braço com o cardápio para mais um casal que passava pela frente do restaurante de massas, mas não entrava. “Mães com filhos. Talvez os solitários sejam mais, mas elas também aparecem bastante e ficam por muito tempo.” 

Meu macarrão esfriara entre uma tentativa e outra da mãe de fazer as crianças comerem. Antes das batatas fritas e do Guaraná de refil do fast-food mais próximo a nós, ela havia tentado arroz, feijão e bife de frango, de uma steak house cuja fila era a maior de todos os estabelecimentos da praça, e legumes de um self-service. As filhas só concordaram em comer quando o celular foi colocado apoiado numa garrafa de água e passou a mostrar desenhos em cores neon. Tudo isso demorou 40 minutos. A mãe, agora, beliscava os legumes. 

“Aqui enche mais aos finais de semana, claro, mas nos dias úteis vem muita gente comer com pressa”, conta o maître, que trabalha no mesmo restaurante há 12 anos. “Eles passam por mim já no celular, ficam nas filas ainda no celular e comem em menos de dez minutos enquanto digitam. Mas eu não. Ninguém quer comer num lugar que o garçom está no TikTok, né?”

E ele não estava exagerando: quando cronometrei, percebi que as pessoas nas mesas ao nosso redor não demoravam nem dez minutos para engolir as refeições, independentemente dos alimentos ou utensílios usados – até mesmo as que comiam com hashis tinham desenvolvido a destreza de levar os peixes à boca sem olhar para o prato. Muitas delas ficavam mais de meia hora completa sem tirar os olhos da tela, sentadas depois de largar os talheres para auxiliar no teclar. Comiam, equilibravam o celular na bandeja enquanto caminhavam até as lixeiras, e iam embora ouvindo algo nos fones, completamente alheias aos acontecimentos ao redor. 

Nos grupos, a média de tempo era maior. Mas assim que o primeiro aventureiro pega o celular para checar as horas – normalmente já no final da refeição –, o movimento era espelhado pelos dois lados da mesa e as conversas passam a rarear. 

Sentada em um restaurante fechado na praça de alimentação, o movimento interno parecia se diferenciar: mesmo que os aparelhos estivessem ao lado dos garfos, naquela tarde, apenas uma das nove mesas não fez uma refeição “offline”. “Deve ser porque é mais caro, então, a pessoa que vem comer aqui numa terça-feira à tarde quer relaxar, aproveitar cada garfada.”

Marcela, que senta sozinha em uma das mesas centrais da praça, aproveita o horário de almoço no trabalho em uma das lojas de calçados para “se atualizar do mundo”: “Com só 50 minutos de pausa, o objetivo é comer rápido e não pensar muito, aí nem olho pro lado pra não correr o risco de encontrar com a chefe e ter que bater papo.” Ela ficou 39 minutos com o hambúrguer e o copo de milk-shake de morango em sua bandeja. Todos com o celular na mão.

“Não diria que estamos mais introvertidos, mas estamos perdendo traquejo e regras sociais básicas por essa nova forma digitalizada de socializar. Nos desacostumamos com o outro”, explica a professora do Programa de Pós-graduação Mestrado e Doutorado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida (UVA) Joana de Vilhena Novaes. “Essa nova forma de socialização forma pessoas mais narcisistas e solitárias”. 

Estudos indicam um aumento na quantidade de calorias ingeridas por pessoas que utilizam o celular à mesa (Reprodução/Duda Ventura)
LEGENDA ALTERNATIVA DA FOTO/PARA CEGO VER: Há um prato branco fundo redondo sobre uma mesa de madeira marrom com linhas aparentes em tom mais escuro. Sobre ele, há uma porção grande de batatas fritas cortadas em cubos. Três mãos se estendem sobre o prato, cada uma de uma direção, como se fossem pegar a comida. Uma delas é negra, outra, branca enrugada por uma doença nas articulações com uma blusa de moletom azul marinho e uma terceira é branca com dois anéis, um no dedão e outro no dedo anelar, uma pulseira grossa branca e um suéter cinza. Perto de cada mão há um celular. No perto da mão negra está o catálogo de um streaming de vídeos. No perto da mão deficiente, um jogo colorido, e, embaixo da mão branca, está aberto um perfil do Instagram colorido. Não é possível ver em detalhes as telas dos celulares.

Dados da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Lavras (FCS/UFLA) associam o vício em smartphones a transtornos mentais, como ansiedade, depressão e estresse na população brasileira. Eric Francelino, coordenador da pesquisa, explica que, embora não haja comprovações de ligações diretas de causalidade entre os dois fatores, a coexistência deles acende um sinal de alerta. “Não à toa, o grupo com maior dependência em celular indicou maior insatisfação corporal e predisposição a desenvolver distúrbios alimentares”. Isso porque fazer uma refeição na companhia do celular pode aumentar em até 15% a ingestão de calorias. A conclusão é de um estudo realizado pela UFLA com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Segundo Novaes, é essa publicização digital extrema de um ato individual e privado, o comer, que leva aos transtornos alimentares. “Quando se come sem o olhar do outro, de maneira offline, não há performance. Nos tornamos mais seletivos, porque não queremos likes no nosso prato ou aprovação, mas, como fazemos isso a todo momento, muitas pessoas se tornam reféns do status que advém do digital”, explica. 

A psicóloga ainda comenta que o efeito do uso de telas à mesa também pode ser sedativo, dopaminante, como no caso das crianças que comiam batatas fritas de maneira tão distraída que caíam aos pés da mãe: “Alienado de si, você não está refletindo. E esse comer sem prestar atenção em nada tem uma série de prejuízos, porque você se desacostuma ao atencional.” 

Para Daniela Cerro, consultora técnica da Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN), nas crianças, o desafio é ainda maior, porque desordena não apenas a forma como elas lidam com a comida, mas, também, com as emoções no geral: “Nessa fase de vulnerabilidade, desenvolvimento e construção do hábito, o uso de dispositivo para acalmar as crianças pode interferir em habilidades de autorregulação emocional: elas acabam não aprendendo a lidar adequadamente com emoções como frustração e tédio.”

Anne Fishel é professora associada na Universidade de Harvard e organizou o projeto The Family Dinner, uma iniciativa sem fins lucrativos que investigou o impacto do uso de telefones à mesa para as relações familiares e defende o jantar em família como uma oportunidade para os membros da família se conectarem. “Como em muitas áreas da vida moderna, nosso uso da tecnologia ultrapassa em muito nossa compreensão científica.” Talvez por isso, os resultados obtidos beiram a ironia: “Dos 300 pais que entrevistamos, apenas 18% permitem que seus filhos usem tecnologia à mesa. Mas quase o dobro desse número acredita que é aceitável que eles usem seus celulares e telas à mesa.” 

A pesquisadora, porém, acredita que os dados do projeto são otimistas: “56% das pessoas dizem que é pelo menos um pouco irritante quando outras usam seus celulares durante uma refeição compartilhada, e 77% dos pais acham que suas famílias se beneficiariam de pelo menos uma hora de intervalo longe das telas todos os dias.” Há esperança para os que querem comer offline. 

No Brasil, o Ministério da Saúde disponibiliza, desde 2014, um guia para refeições mais saudáveis – e não apenas do ponto de vista dos macronutrientes e escolhas por frutas e legumes. Nas mais de 150 páginas, há dicas sobre comportamento, rotina e, mesmo que desenvolvido mais de uma década atrás, as citações aos perigos do uso do celular estão presentes. Para Daniela, da ASBRAN, as dicas ali são valiosas e podem ajudar a quem busca um direcionamento simples e gratuito. 

“Locais limpos, tranquilos e confortáveis ajudam a concentração no ato de comer e convidam a que se coma devagar. Nesta medida, permitem que os alimentos e as preparações culinárias sejam apreciados adequadamente e contribuem para que não comamos em excesso. Telefones celulares sobre a mesa e aparelhos de televisão ligados devem ser evitados.” 

Guia Alimentar para a População Brasileira, p. 94.

“Retomar o hábito de refeição em grupo é possível. E o grande objetivo, além de fortalecer vínculos afetivos e sociais, é retornar para esse essencial que é o estar presente, ouvir, compartilhar e nutrir não só o corpo, mas as relações”, defende Cero com base em pesquisas da American Heart Association. “Jantares em família promovem melhor desempenho acadêmico, maior autoestima e menor risco de depressão e transtornos alimentares.”

Para Novaes, a questão do comer conscientemente, fora das telas, toca também a capacidade de auto regulação, porque, no início, a sensação pode ser de uma espécie de abstinência: “Comer offline exige treino. É um reapreandizado de atenção ao outro e a nós mesmos. Gera desconforto e exaustão mental inicialmente. Queremos a satisfação do postar. Entra no lugar do ‘cuidar de si’, da saúde, do controle”, defende. “É necessário um treino atencional e de maturidade. Quanto tempo eu aguento exercendo a prática do comer? Se você resiste, com o tempo, se acostuma”. 

Fishel aconselha a usar a tecnologia como aliada: “Use-a para estimular conversas, como um apoio às relações offline. Mas, se perceber que está passando dos limites, o ideal é evitar a tentação e silenciar os dispositivos.” 

Na busca por menos batatas pisoteadas e mais risadas à mesa, alguns restaurantes, como o Al Condominio, na Itália, passaram a presentear clientes que não usam os aparelhos à mesa com garrafas de vinho e outros brindes. Para Albino, a ideia de presentear os clientes é animadora, mas ganhar comissão pelo uso de celular seria melhor “Se eu ganhasse uma taxa de serviço por cada pedaço de comida que já caiu no meu pé por desatenção vindo do celular, hoje estaria rico”, brinca. 

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