A construção dos movimentos

(Imagem: Montagem por Beatriz Ferreira)

A coordenação motora fina é um traço de autonomia e permeia nossa interação com o mundo  

Por Maria Trombini (mariatrombini@usp.br)

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Escrever, amarrar os cadarços e escovar os dentes são tarefas automatizadas do cotidiano de muitas pessoas. Os dedos sabem exatamente onde ir, quanta força usar e quando parar. Por trás dessa fluidez, existe uma habilidade que envolve uma orquestra de movimentos precisos e controlados, construída desde os primeiros meses de vida: a coordenação motora fina. Diretamente relacionada às experiências sensoriais do corpo no mundo, a construção desse mecanismo tem sido enfraquecida pela presença constante das telas, que exigem um repertório de movimentos mais limitado e repetitivo.

A coordenação motora é a capacidade do corpo de realizar os mais diversos tipos de movimento. A coordenação motora grossa diz respeito aos movimentos mais amplos do corpo, como andar, correr e pular. Já a coordenação motora fina são movimentos mais precisos e delicados, geralmente realizados com as mãos, ou também pés e boca, relacionados ao manejo de objetos. 

A pesquisadora Camila Ximenes de Souza salienta que a coordenação motora fina não envolve apenas pequenos grupos musculares ou segmentos específicos do corpo, como muitas vezes é descrita. “Se estamos pintando, não estamos usando só a mão e o dedo para segurar o pincel, mas sim o corpo inteiro. Enquanto a nossa mão está desenhando, há uma série de estruturas em funcionamento, como para estabilizar outras partes do corpo enquanto faço um desenho super preciso, por exemplo. Essa tensão constante nos músculos do corpo é chamada de tônus muscular, essencial para manter a postura e o equilíbrio”.  

Camila é formada em Terapia Ocupacional pela Universidade de São Paulo e, atualmente, desenvolve trabalhos de pesquisa no Laboratório de Estudos em Reabilitação e Tecnologia Assistiva (REATA) da USP. Ela acrescenta que, durante as atividades, estruturas do sistema nervoso trabalham avaliando a qualidade dos movimentos desempenhados e sinalizando ajustes necessários. Ainda que composto por diferentes estruturas, o corpo funciona como uma unidade. 

A pesquisadora alerta para o uso do termo “estímulo” ao falar sobre o desenvolvimento motor infantil. Para ela, esse termo carrega a ideia de um corpo-máquina, que apenas reage aos comandos externos. “Como se o corpo funcionasse por causa e consequência: você aperta uma tecla e algo abre, como num computador. Eu prefiro pensar o corpo por outras bases”, explica. Segundo ela, o aprendizado motor, incluindo o da coordenação motora fina, está ligado à experiência concreta do corpo no mundo.

Da infância para a vida  

As habilidades de coordenação motora fina são elaboradas majoritariamente na primeira infância, com destaque para alguns marcos do desenvolvimento ainda nos primeiros meses de idade. 

Camila aponta que os marcos do desenvolvimento motor são referências importantes, mas não regras rígidas e absolutas. “Se minha criança não transfere as coisas de uma mão para a outra ou não acerta uma dobradura, preciso levar ao médico? Não sei, né? Precisamos ver quais atividades têm sido oferecidas e entender que cada criança tem seu tempo”.

Uma oferta excessiva e constante de experiências também não implica diretamente em um desenvolvimento melhor ou mais rápido de uma criança. O sistema nervoso central precisa passar por um processo de amadurecimento, o que leva tempo e varia de acordo com cada indivíduo. 

“O que eu diria para os responsáveis é observar e comparar com crianças do mesmo convívio. Tentar comparar com crianças da mesma família, por exemplo. Em algumas famílias, é comum as crianças demorarem mais para falar ou começarem a andar sem passar pela fase de engatinhar. Caso sinta que uma delas está um pouco diferente das demais e que há algo suspeito, procure a ajuda de um profissional para avaliação.”

Além do tempo biológico, o contexto social também influencia na forma como os gestos são aprendidos e desenvolvidos. “Aprender envolve também uma determinada cultura. Os movimentos vão se transformando em gestos”, diz Camila. 

Para ela, o gesto é um movimento com sentido social: “Esse movimento de pinça, encostar um dedo no outro, pode virar uma das grandes descobertas desse bebê para a participação social dele no mundo, para produzir coisas, para se relacionar com outras pessoas, com outras crianças, para poder usar os brinquedos que ele ganha, porque os brinquedos também vão exigindo certo aprimoramento motor à medida que as crianças crescem”.

“É preciso garantir, com as políticas públicas, uma série de acessos: à educação, à saúde, à cultura e ao lazer. É um trabalho muito maior do que só o treino motor.”

A alimentação, na fase da introdução alimentar, está diretamente relacionada a essa construção da autonomia motora. “Uma criança que pode comer sozinha, mesmo sem conseguir segurar a colher, botar a mão dentro do prato, amassar a comida, jogar no chão, passar na cara e aí comer, vai ter uma experiência muito diferente da criança que todo mundo alimenta, que precisa ficar quieta, sem se sujar, porque a mãe precisa trabalhar e está apressada. São crianças que vão ter consciência do corpo e das possibilidades do próprio corpo no mundo muito diferentes. Nisso, as possibilidades do desenvolvimento também, da coordenação motora de uma criança para outra são bastante diferentes”.

Tela não é brinquedo

O uso precoce e prolongado de telas também impacta diretamente o desenvolvimento motor das crianças. Camila observa que celulares, tablets e outros dispositivos vêm substituindo as brincadeiras, e que muitas crianças resistem quando são afastadas deles. “A tela vai exigir um repertório motor bastante limitado, simplificado e repetitivo. Se a criança aprende onde aperta para dar play, vai ser sempre igual — em qualquer vídeo, em qualquer aplicativo.”

Além da repetição, esses ambientes digitais costumam evitar frustrações. Os jogos e aplicativos são pensados para que as crianças errem pouco, enfrentem menos situações inesperadas e não precisem lidar com o desconforto que o próprio corpo gera quando algo sai do controle. É uma experiência bem diferente daquela oferecida por brincadeiras analógicas.

“Desenhar no tablet não é o mesmo que desenhar no papel”, afirma Camila. “O papel tem textura, o lápis oferece uma resistência diferente da canetinha ou do giz de cera. Existe o atrito, o cheiro, a variação da cor e da força necessária. O resultado nem sempre sai como a criança espera e ela terá que lidar com isso, com o desenho feio, com o pai perguntando ‘o que é isso? eu? você?’’’. Brincadeiras como mexer na terra, modelar massinha, pintar com diferentes materiais ou empilhar blocos exigem repertórios motores diversos, e essas vivências contribuem para a construção da coordenação motora fina. 

Camila lembra que a Organização Mundial da Saúde recomenda que bebês de até 12 meses não tenham nenhum tempo diante de telas. O excesso de estímulos digitais, especialmente nas fases iniciais do desenvolvimento, pode comprometer o surgimento de marcos importantes — não só motores, mas também sociais, cognitivos e afetivos. “E aí eu fico pensando: como nós, adultos, que inventamos uma vida inteira nas telas — trabalho, lazer, socialização —, vamos querer que nossas crianças não fiquem nas telas? Para que elas também tenham outras experiências, a gente precisa inventar uma vida diferente fora das telas”.

Intervenções e atividades

Em alguns casos, o desenvolvimento da coordenação motora pode ser afetado por condições físicas ou neurológicas que exigem intervenção médica — cirúrgica ou não. Independentemente do tipo de tratamento, os pacientes são geralmente encaminhados para programas de reabilitação, nos quais profissionais como fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos desempenham um papel central.

Mayara Coutinho Zambonini é terapeuta ocupacional e atua em um centro de reabilitação e em um hospital de transição de cuidados. Segundo ela, o trabalho da terapia ocupacional pode ser feito de forma individual ou em grupo, sempre focado nas habilidades comprometidas de cada paciente, sejam motoras, sejam percepto-cognitivas, sejam emocionais. 

A atuação é multidisciplinar e abrange áreas como saúde mental, saúde da criança, do idoso, TO social, reabilitação física e educação. Esse alcance permite uma abordagem ampla, integrando diferentes dimensões da saúde e evitando uma visão fragmentada do indivíduo. 

Com o público infantil, a linguagem precisa ser lúdica e adaptada à faixa etária. As atividades são mediadas por brincadeiras, jogos e recursos criativos. Criar vínculo com a criança demanda tempo e estratégias: muitas vezes, há medo, resistência ou dificuldade de compreensão. Por isso, o trabalho com a família é indispensável. Os responsáveis precisam estar ativamente envolvidos no acompanhamento das estratégias em casa, na adaptação do ambiente e no estímulo à autonomia. Segundo Mayara, esse é um dos principais desafios do trabalho com crianças, pois exige escuta ativa, paciência e uma articulação cuidadosa com a rotina familiar.

As intervenções costumam envolver tanto habilidades motoras quanto cognitivas. No campo motor, são trabalhados aspectos como mobilidade, coordenação, força e amplitude de movimento. Já entre as habilidades cognitivas, estão o planejamento, a atenção, a memória e o raciocínio lógico. Também são estimuladas a percepção corporal e a adoção de estratégias compensatórias para tarefas cotidianas.

A intervenção também envolve reconhecer os limites e as possibilidades de cada criança. O objetivo não é fazer com que todas desenvolvam as mesmas habilidades, mas entender o que é necessário para cada uma, dentro do que ela é capaz de realizar. Nem todas vão conseguir executar todos os movimentos esperados, e não há problema nisso. 

Camila argumenta: “Uma criança com deficiência que não consegue fazer o movimento de pinça, por exemplo, não deve ser responsabilizada por isso. O problema não está no fato de ela não conseguir escrever com lápis, mas sim na expectativa de que todas as crianças escrevam com lápis. Ela não pode escrever num computador? Pode ditar um texto para que o computador escreva para ela? Essas adaptações fazem parte do trabalho de inclusão”.

Acessibilidade

Camila destaca que vivemos em um mundo que valoriza muito a coordenação motora fina. “Desde cedo, vemos se a letra da criança é bonita ou se ela desenha bem. E vamos tendo objetos construídos para usar muito essas habilidades para acessar o mundo.” Coisas simples, como cortar um pão, passar manteiga ou servir café, são tarefas complexas do ponto de vista motor. Essa exigência revela que o mundo não é tão acessível e inclusivo para todas as pessoas.

Quando alguém não consegue realizar essas tarefas, é preciso pensar em alternativas. “Como o mundo não é acessível para todo mundo, a gente precisa adaptar coisas para cada pessoa em específico.” Um ambiente mais adaptado, com computadores que tenham recursos de acessibilidade, celulares com comandos de voz e espaços públicos acessíveis, pode fazer uma grande diferença. “Se conseguirmos construir objetos que não exijam tanto uso da coordenação motora fina, teremos soluções mais coletivas para desafios que são também coletivos.”

Algumas adaptações simples podem facilitar bastante o dia a dia. “Lápis jumbo ou com formato triangular são mais fáceis de segurar. Mas esses materiais ‘diferentes’ costumam ser mais caros. Tesouras para canhotos existem, mas também são caras e nem toda papelaria tem. Imagine então uma tesoura adaptada para alguém que não tem determinados movimentos da mão — normalmente é preciso importar ou fabricar artesanalmente. Tudo isso interfere no acesso.”

Essas adaptações melhoram a qualidade da atividade e também a socialização na escola. “Quando uma criança consegue realizar uma atividade, ela participa mais do grupo e se sente incluída.”

Mas é importante questionar: a criança precisa mesmo daquela atividade para aprender? “Ela precisa recortar a folha? Copiar a lousa? Isso é o que vai fazer ela entender o conteúdo? Ou a professora pode trazer o material impresso, substituir a escrita pela gravação da fala, pensar em outras adaptações?” O papel das pedagogas é fundamental, pois elas conhecem a relação entre atividade e aprendizado e podem propor estratégias para incluir as crianças com mobilidade reduzida.

Adultos e idosos 

Camila ressalta que adultos e idosos frequentemente encontram-se em uma situação de negligência quanto às suas necessidades motoras. Muitos adultos acreditam não precisar de auxílio, enquanto familiares e cuidadores frequentemente desconsideram as limitações físicas dos idosos, presumindo que, por estarem em uma fase avançada da vida, certas atividades deixam de ser necessárias. Essa percepção incorreta pode levar à falta de intervenções simples que facilitem a execução de tarefas cotidianas.

Além disso, o acesso limitado a uma educação de qualidade, bem como a oportunidades de participação em atividades culturais, esportivas e de lazer, afeta diretamente as funções executivas desses grupos. Camila destaca a importância dessas experiências, que, embora muitas vezes subestimadas, contribuem significativamente para a manutenção da coordenação motora e do funcionamento cognitivo. Com o envelhecimento, ocorrem alterações naturais que dificultam a resposta rápida a situações imprevistas e a adaptação a novas atividades, tanto no âmbito mental quanto motor. A tendência é que as pessoas prefiram executar tarefas familiares, dificultando a aprendizagem de novos movimentos.

Por fim, Camila chama atenção para a escassez de políticas públicas e programas voltados para o estímulo da atividade física e cognitiva na terceira idade. “É incomum encontrar, em bairros e centros comunitários, programas de futebol, dança ou outras práticas corporais destinadas a idosos.” A ausência dessas oportunidades compromete o desenvolvimento das funções executivas e a capacidade de enfrentar as mudanças inerentes ao processo de envelhecimento.