(Arte: Julia Magalhães)
Por Gabriel Eid
Seguindo os efeitos do pós-pandemia e das diversidades de plataformas surgindo, artistas buscam se equilibrar na vida digital para renovar as formas de se fazer arte; ao mesmo tempo, aqueles que preferem se manter distantes desses meios também buscam por seu espaço
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As artes nascem da interação e da troca presencial. Em um mundo onde as relações virtuais, rápidas e atraentes, prendem atenções e moldam maneiras de pensar, é tentador que o trabalho artístico – com todas as suas carências de investimentos e financiamentos – beba da fonte da influência virtual para conquistar o público.
Segundo pesquisa do Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) com 14.556 respondentes, apenas em 2024 a audiência dos teatros e casos de shows conseguiu recuperar o público de 2018. Antes disso, sofreu uma forte retração durante a pandemia. Neste cenário de isolamento causado pelo Coronavírus, as redes sociais se tornaram ainda mais centrais e, consequentemente, atraentes para o cenário cênico, visual e audiovisual.
Maria Amélia Bulhões, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisa há anos as formas como o ecossistema digital vem se relacionando, coexistindo e impulsionando jovens artistas visuais que procuram um espaço de trabalho. Para a professora, o período da pandemia foi justamente um divisor de águas neste quesito e permitiu muitas mudanças nas formas de produzir.
Com base em seus trabalhos acadêmicos, produziu o livro Desafios: Arte e Internet no Brasil. A professora vai na contramão dos pessimistas e defende que a internet pode ser uma aliada dos artistas, se utilizada de forma correta. Ela indica que é muito importante que estes profissionais estejam presentes no ambiente digital como uma forma de resistência cultural.
“Eu acho que a internet precisa dos artistas porque eles têm posições críticas e criativas que este meio precisa. No campo da arte você vai trabalhar para romper com aquilo [o mainstream] – extrapolando o papel da divulgação e da ampliação de público”, afirmou.
Ofícios diferentes
Em 2022, a novela Travessia, produzida pela Rede Globo, à época a principal novela do catálogo da emissora, trouxe pela primeira vez a influenciadora e ex-bbb Jade Picon para o papel de protagonista. A decisão expôs um dilema, já que Jade não tinha registro profissional, e provocou reações de alguns segmentos da classe artística.
Na ocasião, em entrevista ao Splash UOL, o presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos (Sated-RJ), Hugo Gross, sustentou a posição do sindicato de exigir um registro profissional para atuações em produções audiovisuais. O Registro da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) é um meio de ampliar direitos trabalhistas e garantir a valorização profissional.
A atriz Flávia Trapp defende que a questão por trás do uso de influenciadores em obras audiovisuais carrega algo mais profundo, que envolve a dificuldade das produções em angariar investimentos e público em um ambiente hiper-plataformado.
Flávia Trapp é atriz formada pela USP e trabalha como preparadora de elenco. “Pessoalmente, eu encaro meu instagram há alguns anos como uma ferramenta de auto divulgação”. Ela administra um perfil de casting que divulga oportunidades de trabalho para jovens atores em curtas-metragens universitários, realizados por estudantes de cinema. Apesar da presença profissional intensa nas redes, ela possui uma postura crítica e aponta que é fundamental esse trabalho de reflexão.
“Para o público em geral, o acesso ao teatro é muito pouco. E se eu te perguntar quantas vezes você acessa o instagram por semana você vai dizer todos os dias. Então, eu entendo também ser uma jogada de marketing de certas produções escolher um ator que na verdade tem um engajamento mais voltado para as redes sociais, porque é uma forma de divulgação.”
Flávia faz questão de diferenciar o trabalho do influenciador – que tem o seu valor comunicacional – com o do ator e, por isso, defende que é muito importante ir atrás de pesquisa e formação para exercer o ofício. “É uma pessoa de outro trabalho da área de comunicação, mas que é muito diferente de um trabalho de atuação, da construção de personagens e da disponibilidade de jogo para a cena.”
Entre a plataforma e o conteúdo
Flávia observa que a presença de artistas nas redes sociais pode ser vantajosa em diversos aspectos, desde que realizada de uma forma crítica. Ela conta que percebeu que, a partir da sua experiência como preparadora de elenco, muitos dos estudantes têm dificuldade de apresentar seus trabalhos e experiência profissional no ambiente virtual.
“Sinto uma falta muito grande de formação dos atores de auto divulgação. Porque falar de atuação é falar de auto imagem. E muitas vezes, quando você está procurando alguém, infelizmente às vezes interessa mais o rosto dele do que qualquer outra coisa. E você recebe portfólios que não consegue ver o rosto, então o Instagram do ator é a primeira coisa que você vai procurar. Querendo ou não, você ter um perfil digital apresentável faz diferença.”
Da mesma forma que a professora Maria Amélia, Flávia Trapp afirma que a tecnologia não pode ser abandonada, mas sim ressignificada pelos artistas para se aproximar do público. Diante do desinteresse crescente pelos meios tradicionais, ela reflete sobre as formas possíveis de ampliar a interlocução entre diferentes plataformas. “Quando a gente entra em um lugar de recusar isso cem por cento é prejudicial. Porque é muito mais interessante olhar e entender se quer estar ou não de forma crítica.”
A artista defende que os limites entre o virtual e o artístico estão em saber separar a formação como ator do que é pura e simplesmente autopromoção sem cuidado com o conteúdo. “Mais do que a qualidade técnica num lugar de formação e de experiência, estamos falando de um lugar de disposição mesmo. Em dedicar a sua vida à pesquisa para a atuação.”
Flávia indica que os recursos virtuais dentro da profissão precisam ser utilizados com responsabilidade – como uma forma de divulgação do portfólio e até como plataforma cênica, mas nunca substituindo as interações tradicionais e presenciais.
O também ator Eduardo Martini, por sua vez, contou que sente falta de uma maior troca presencial, especialmente nos testes de elenco. “Em um passado muito recente os diretores iam ao teatro ver seu trabalho. Os testes eram feitos presencialmente, as histórias eram feitas cara a cara.”
O artista critica testes – muito comuns na atualidade – em que atores precisam filmar suas próprias performances de dentro de suas casas. Segundo ele, nada substitui um teste presencial conduzido por um preparador de elenco. “A coisa humana no teatro, no cinema e na televisão é muito importante”, completa.
Mas e como ficam os ‘low profile’?
Alexandre Dill é ator e diretor no Grupo Jogo, que ficou marcado por ser pioneiro no uso dos meios digitais para amplificar, não só a divulgação, mas também o fazer teatral. O artista conta que, principalmente durante a pandemia, eles continuaram mantendo os espetáculos através de transmissões ao vivo no Instagram e garantindo uma interação com o público através destes meios.
Alexandre indica que o trabalho do grupo nas redes está pautado principalmente na vontade de adaptar as redes para os espetáculos teatrais, e não o contrário – priorizando projetos mais experimentais do que as trends do momento. “Nos posicionamos na internet a partir do que a gente faz e não da moda”, afirma.
Mesmo muito presente nas redes e se utilizando delas em benefício do trabalho artístico, ele rejeita iniciativas que pressionem artistas a serem populares digitalmente. Ele conta que o Grupo Jogo descobriu um edital promovido por um banco do Rio Grande do Sul que exigia determinado número de seguidores para a participação. Contrariado, afirma que nem pensou em participar da seletiva.
“A gente não tem muita paciência com esses editais por número de seguidores. A gente não entra nessa disputa. Hoje em dia você recebe uma inscrição de um aluno para entrar em uma oficina e já pede o Instagram dele”, critica.
Apesar de defender a integração entre o mundo digital e as artes e fazer disso seu ofício no Grupo Jogo, Alexandre não concorda com as pressões que muitas vezes envolvem os artistas na necessidade de estar nas redes. “O jeito das pessoas consumirem mudou. E tem muitos artistas que não conseguem acompanhar essas mudanças tão drásticas e rápidas porque aquela pessoa pesquisa de um jeito e porque ela é muito mais artesanal. Às vezes, o artista é tão bom que ele não cabe nesse lugar”, afirma.
Flávia Trapp vai no mesmo sentido e apresenta sua experiência pessoal para indicar que a integração com as redes precisa vir com uma proposta, sentido e criticidade, não como um fim por si só. “No início eu tive uma fase de pensar que eu precisava me engajar nas redes sociais porque sem isso minha carreira não seria nada. E não é sobre isso. É sobre você saber se auto divulgar mas em um lugar saudável, sem se expor e sem perder seu tempo por uma coisa que talvez não dê tanto resultado”, defende.

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