(Imagem: Montagem Canva/Elaine Borges)
O que o detox digital revela sobre nossos hábitos, limites e os privilégios da (des)conexão
Por Elaine Borges
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Cinquenta dias longe do Instagram. Essa foi a decisão de Duda Schietti, criadora de conteúdo, ao perceber que a linha entre o que vivia e o que mostrava na rede social estava “cada vez mais borrada”. Mesmo com um estilo de vida consciente, ela se viu presa em um ciclo de comparação, ansiedade e excesso de estímulos.
Duda tinha 23 anos quando sofreu um AVC. Sua trajetória como influenciadora começou ali, quase sem querer. Sentiu um chamado para transformar sua rotina e passou a compartilhar esse processo de cura no Instagram. Dividia suas descobertas no universo do wellness (bem-estar): receitas saudáveis, rotina de treinos, hábitos que a faziam bem e reflexões sobre uma vida mais equilibrada. O perfil funcionava como um diário para amigos e familiares.
Com o tempo, entendeu que essa troca podia se tornar um trabalho, mas sem abrir mão da essência que carregava desde o início, quando tudo ainda era muito pessoal. “Minha proposta sempre foi criar com intenção, inspirando outras pessoas a olharem com mais carinho para si mesmas e para o que realmente importa”, conta.

Anos depois, porém, percebeu que o consumo havia ultrapassado os limites do trabalho, já que estava sempre com o celular na mão, respondendo mensagens, consumindo tudo. A decisão de se afastar por 50 dias veio como um movimento para se reconectar com sua essência e com o silêncio que já não ouvia há tempos.
“O gatilho foi perceber que, mesmo em momentos lindos e significativos, minha presença estava sempre dividida com a tela. Eu queria viver mais e registrar menos.”
O desconforto vivido por Duda é cada vez mais comum. Em setembro de 2024, Bárbara Heck, ex-BBB, modelo e comunicadora, passou 21 dias sem tecnologia e sem contato com familiares em um retiro, após sentir que o tempo estava passando rápido demais. Com a experiência, entendeu que as redes sociais eram as principais causadoras dessa sensação. Outras celebridades, como Bianca Andrade (Boca Rosa) e Manu Gavassi aderiram à prática para preservar a saúde mental.
Pausas prolongadas, voluntárias ou programadas, em que o usuário abandona temporariamente o uso de redes sociais, aplicativos ou da tecnologia como um todo. Esse é o detox digital. A proposta é interromper o ciclo de estímulos constantes e reconectar com o tempo real, o corpo, o ambiente e as emoções, buscando restabelecer o equilíbrio entre vida online e offline.
No TikTok, a hashtag #digitaldetox reúne relatos de influenciadoras, nacionais e internacionais, que optaram por se afastar das redes. Compartilham dicas para quem busca um relacionamento mais saudável com a internet ou recomendam lugares que oferecem essa experiência — de retiros como o escolhido por Bárbara a cabines afastadas do sinal.
O privilégio de sumir
O detox digital tem sido uma resposta intuitiva à hiperconexão. Mas o movimento virou moda, e com a moda, surgiram os pacotes de luxo. Quando desconectar vira um privilégio de quem pode pagar para sumir, a experiência se afasta da realidade da maioria. Retiros caros, em cenários paradisíacos, prometem silêncio e reconexão, desde que você tenha um bom 4G para divulgar depois.

Bruno Gurgel, CEO e cofundador da startup EquilibriON, fez um alerta para a mercantilização desse conceito. “Muitas vezes essas influenciadoras fizeram detox porque conseguiram publi. Então, na mídia social, temos que ter um discernimento e uma consciência muito grande de como o influenciador influencia. Isso é um problema econômico”, explica.
A EquilibriON atua com consultorias, palestras, workshops e outras experiências que promovem práticas saudáveis para o uso da tecnologia, voltadas a empresas e famílias. Seu foco, segundo Bruno e o cofundador Erick Melo, é educar para o uso consciente da tecnologia, em vez de propor uma abstinência radical.
“Uma vez que eu uso uma tecnologia que sequestra minha atenção e consequentemente sequestra o meu tempo, eu adoeço. Se você souber usar bem o seu tempo, você não vai adoecer, porque você não estará imerso na tecnologia. Se proponha a ficar 10 minutos se entretendo no Instagram e depois vai fazer o que é importante para você”, diz Bruno.
Na experiência de Duda, a decisão de pausar as redes por 50 dias não afetou sua renda. Em 2018, quando a experiência ocorreu, ela ainda não monetizava seu conteúdo. Mas, ao refletir sobre o tema atualmente, ela reconhece que esse tipo de pausa nem sempre está ao alcance de todos.
“Acho que a discussão sobre detox digital é super necessária, mas ainda é um privilégio. A forma como usamos a internet é muito desigual. Enquanto alguns estão tentando diminuir o tempo de tela, outros estão usando o celular como única forma de acesso à informação, lazer ou oportunidade de trabalho”, afirma. Para ela, mais do que se afastar, o importante é trazer consciência ao uso, isto é, perceber como nos sentimos ao usar, o que estamos consumindo e o que isso gera em nós.
Essa perspectiva também aparece em falas de usuários comuns. Em entrevista à Babel, Caio Braga compartilhou sua relação cotidiana com o celular. O aparelho, para ele, é um instrumento multifuncional, onde joga Call of Duty, se comunica e busca oportunidades de trabalho. Hoje está fora do mercado de trabalho formal, e vive, como tantos outros, uma relação ambígua com a tecnologia — de dependência, mas também de sobrevivência. Mas ainda impõe limites aos seus filhos, porque reconhece o seu próprio excesso.
“Se eu sair sem celular, parece que tô pelado”, disse Caio, com honestidade e humor. A frase, embora espontânea, revela uma dimensão mais séria do problema. Para quem vive em contextos onde o digital é o principal meio de acesso ao mundo, desconectar não é uma opção simples.
É nesse cenário que o detox elitizado escorrega. A solução parece não estar em spas ou em um resort de luxo, mas em pequenas mudanças cotidianas. Anna Lucia King, psicóloga, doutora em Saúde Mental e fundadora do Instituto Delete — organização que trabalha na conscientização e tratamento da dependência digital —, defende um modelo de convivência mais equilibrado com o digital: não radical, mas intencional. O uso saudável da tecnologia deve ser aprendido, assim como se aprende a escovar os dentes ou a comer com moderação.
Ela também ressalta que, em muitos casos, afastar-se totalmente das tecnologias pode trazer efeitos colaterais. “Ao se afastar totalmente, a pessoa pode acumular demandas importantes, como e-mails, compromissos, atualizações do trabalho e informações essenciais, o que gera estresse posterior”, explica.
Ao fim dos 50 dias, Duda incorporou hábitos simples em sua rotina, semelhantes aos defendidos pela psicóloga. Entre eles, evitar as redes sociais nas duas primeiras horas do dia, cultivar momentos de presença total no offline, como caminhadas sem fone, refeições sem tela, encontros com o celular longe, e silenciar perfis que ativam gatilhos emocionais.
“Comecei a respeitar meu tempo, minha intimidade. E entendi que não preciso mostrar tudo, nem estar o tempo todo presente. Isso me deu mais leveza e clareza sobre o que eu quero comunicar”, compartilha. Para quem sente que está perdendo o controle, mas não pode simplesmente “desaparecer” ela recomenda micro-pausas, como deixar o celular em outro cômodo, desativar notificações e escolher momentos específicos para entrar nas redes.
O que as empresas têm a ver com isso?
Se o uso intenso das redes sociais tem gerado desconforto, fadiga e necessidade de pausa na vida pessoal, os impactos no ambiente de trabalho não são menores, apenas menos visíveis. A cultura da hiperconexão também atravessa o mundo corporativo, onde a produtividade é frequentemente medida pela disponibilidade constante. Não basta estar online, é preciso estar sempre online, a qualquer hora.
Em tempos de conexão onipresente, a dependência digital já é quase regra, ainda que não seja nomeada como tal. Mas nem todo uso frequente configura vício, e nem toda pausa é um detox. A diferença? O vício exige intervenção clínica. A desatenção exige orientação.
“Muitas pessoas acham que são viciadas porque passam muitas horas conectadas, mas, na maioria dos casos, não se trata de uma doença, e sim de uma falta de educação digital. A dependência patológica digital precisa ser avaliada por especialistas, como psicólogos ou psiquiatras. Quem usa por lazer ou trabalho de forma excessiva, mas ainda funcional, precisa de limites e regras no dia a dia”, explica Anna Lucia.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 15% dos adultos em idade produtiva apresentam algum transtorno mental, o que impacta diretamente a produtividade e contribui para o absenteísmo, isto é, a ausência dos funcionários em seus locais de trabalho. Burnout, ansiedade, queda de desempenho e afastamentos recorrentes estão frequentemente ligados ao uso desregulado da tecnologia, algo que nem sempre as empresas estão preparadas para reconhecer.
“As empresas não estão preparadas para essa relação tóxica que temos com a tecnologia. O gestor, por exemplo, não é orientado e manda mensagem fora do horário de trabalho”, apontou Bruno Gurgel, esclarecendo que a situação pode se tornar um risco trabalhista. “Quando o funcionário é afastado por adoecimento mental, ele pode processar a empresa e ganhar. Mas essa pessoa acordou dentro do telefone e foi dormir dentro de uma tela. Então, esse adoecimento não começou no trabalho — ele provavelmente foi a gota d’água”.
Bruno e Erick defendem que o uso saudável da tecnologia seja tratado como política organizacional, assim como já se faz com o compliance ou o assédio moral. Aos poucos, essa pauta tem ganhado espaço nas normas trabalhistas. A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata das disposições gerais sobre saúde e segurança no trabalho, passará a incluir “riscos psicossociais” em sua nova versão.
Embora os detalhes ainda não estejam claramente definidos, a entrada em vigor da nova versão da norma, antes prevista para 2025, foi adiada para 26 de maio de 2026. Enquanto isso, a obrigatoriedade de medidas voltadas à saúde mental no ambiente de trabalho também permanece adiada.
“Todos os grupos de RH que eu participo dizem que não sabem o que é risco psicossocial. E perguntam: ‘Se eu mapear síndrome do pânico e não mapear depressão, eu posso ser responsabilizado?’. Mas um dos riscos psicossociais que ninguém está falando é o uso de telas”, explicou Bruno. Segundo ele, essa indefinição contribuiu para o adiamento da norma, justamente para que o governo tenha tempo de apoiar as empresas no mapeamento desses riscos.
O trabalho dos cofundadores tem tentado preencher essa lacuna com pesquisas e propostas de diagnóstico digital dentro das empresas. Eles destacam, no entanto, que não basta criar ambientes que apenas aceitem pausas, é necessário incentivá-las e entender que desconectar também pode ser um ato de produtividade.
Reconectar para comunicar
Em um cenário em que até o trabalho exige conexão constante, e grande parte das funções e do nosso dia a dia dependem da internet, tratar o detox digital como uma prática individual e isolada é insuficiente. É necessário repensar nossa cultura e a maneira como nos relacionamos com a tecnologia.
Foi o que Duda percebeu depois de seus 50 dias longe das redes. “O detox não me afastou da internet — ele me ensinou a ficar ali de forma mais saudável”. Hoje, ela cria conteúdo com mais intenção, respeitando seus próprios limites e priorizando momentos offline como fonte de inspiração.
Ela acredita que a reconexão não é incompatível com a vida online, desde que haja presença, limites e escuta. “Quanto mais eu vivo o offline, mais genuíno é o que compartilho online”, ressaltou.
Essa talvez seja a chave. Não se trata apenas de sair das redes, mas de repensar o modo como nos relacionamos com elas, individualmente e coletivamente. De criar tempo, silêncio e presença em uma rotina de estímulos. De lembrar que a vida não é só o que cabe em um story, e que há coisas que não precisam ser postadas para valerem a pena.

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