(Imagem: Julia Magalhães)
Entre a magia da leitura e a realidade desigual, a contação de histórias e o faz-de-conta permanecem imbatíveis
Por Ricardo Thomé (ricardo.thome@usp.br)
Versão em áudio:
“Feche os olhos e escute a respiração, o ar entrando e saindo…Quanto ar você é capaz de inspirar? Pode respirar até os dedos dos pés? Se fizer isso, pode voar como os pensamentos. Os pensamentos podem levá-lo a qualquer lugar, principalmente com a ajuda de uma lanterninha mágica. Apanhe essa lanterna, acenda-a e fique em pé no meio de um círculo de luz. Esse círculo aumentará cada vez mais e vai criar um Caminho Encantado…Aonde ele o levará nesta noite?”. O trecho é do conto “A loja de brinquedos de Ângela”, primeira das vinte histórias presentes no livro Noites Iluminadas: Histórias para ler na hora de dormir que estimulam a calma, a confiança e a criatividade em seu filho (Publifolha, 2004) — que tem introdução por David Fontana e contos por Anne Civardi, Kate Petty, Joyce Dunbar e Louisa Somerville.
O livro já não é dos mais recentes — a reportagem, inclusive, pretendia entrevistar pelo menos um dos autores, mas esbarrou no fato de que alguns deles já tomaram o rumo de seus próprios caminhos encantados. O tempo passou. Mas a mensagem trazida pelas histórias e, principalmente, pelo preâmbulo intitulado “Recado aos pais”, assinado por David Fontana (1934-2010), é atemporal, e poderia resumir, sozinha, todo o trabalho de entrevistas e dessa matéria. Fato é que Noites Iluminadas foi o cerne de inspiração para que o ler para e com crianças se tornasse tema de uma reportagem. A Revista Babel conversou com professoras e especialistas do ramo da psiquiatria, da psicologia e da pedagogia, além de pais de crianças pequenas e de um escritor, a fim de entender por que a lanterninha mágica de algumas crianças tem sido mais acendida do que a de outras no Brasil dos dias de hoje — e o quão importante é mantê-la funcionando.

O faz de conta na escola: mais do que uma descontração, uma necessidade
O conceito de infância tal como conhecemos hoje é relativamente recente na sociedade ocidental. Por muitos séculos, as crianças eram tratadas como “pequenos adultos” e eram colocadas para trabalhar desde cedo, por exemplo. A diferenciação oficial do que seria uma criança só veio na segunda metade do século 20, em 1959, com a Declaração Universal dos Direitos da Criança — reforçada em 1989, com a Convenção sobre os Direitos da Criança. Em ambos os documentos, há a menção ao “brincar” como um direito. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) também têm essa ideia, que, pela primeira vez, trazia a educação como algo que transcendia o aprendizado de habilidades práticas visando à alguma funcionalidade futura.
Em fevereiro de 2006, foi aprovada a lei nº 11.274, que fez com que o Ensino Fundamental obrigatório no Brasil durasse, a partir de 2010, nove anos — em vez de oito, como costumava ser. Cinco anos antes, o Plano Nacional da Educação (PNE) de 2001 passou a determinar que o Ensino Infantil fosse mais do que um programa de recreação, mas, sim, uma ferramenta de desenvolvimento integral da criança, em que a interpretação do mundo fosse uma habilidade a ser desenvolvida. Diante de todas essas transformações, a transição entre Ensino Infantil e Ensino Fundamental — que passaria a receber crianças ainda mais novas, a partir dos seis anos de idade — fez-se digna de atenção. E é sobre a importância do lúdico na educação que se debruçou O Brincar e o aprender a ler e a escrever na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental: a infância em foco, dissertação de mestrado defendida por Rafaela Barbosa Américo na Faculdade de Educação (FE) da Universidade de São Paulo (USP), em 2022.
Em seu trabalho, Rafaela observou os efeitos das transformações na educação brasileira tendo como base a Escola de Aplicação da FE-USP, e trouxe como uma das constatações a relevância do eixo magia/arte para aproximar as crianças do universo artístico por meio de um “encantamento”. Assim como nas histórias de Noites Iluminadas, ela considera o brincar como chave em qualquer proposta educacional até os 11 anos de idade. Mais do que isso, as crianças devem ter o poder de escolha sobre como — e de quê — querem brincar. De volta ao livro, ainda na sessão “Recado aos pais”, David Fontana é claro ao trazer a ideia de que esse desenvolvimento, intimamente ligado à imaginação e à criatividade, pode — e deve — ser desenvolvido com o auxílio da leitura: “ler não estimula apenas a imaginação das crianças: também ajuda-as a vivenciar o amplo espectro das próprias emoções”, as quais aumentam de complexidade conforme as crianças vão crescendo.
É nesse intuito que, ao final de cada história, o livro traz pensamentos e reflexões que podem ser inferidos a partir do texto. Mais do que uma coletânea de contos, é um tutorial de leitura para os pais (ou para quem quer que vá ler para a criança) e um poço de imaginação para os pequenos — o livro é indicado para crianças a partir de sete anos.
Luz piscante

Mas a orientadora da dissertação de mestrado da FE-USP, a professora sênior livre-docente Idmea Semeghini-Siqueira alerta para o fato de que muitas crianças não têm acesso às condições ideais para que a leitura seja parte natural de seu dia a dia e do seu desenvolvimento: “Muitas mães não têm tempo de cuidar das crianças, porque têm que trabalhar, porque têm que cuidar da casa…às vezes, elas também não são alfabetizadas”.
Casos como esses estão computados e contemplados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em conjunto com o Ministério da Cultura e na qual Idmea tem participação. Na edição mais recente, a sexta, referente a 2024, 10% das pessoas consideradas leitoras — que leram um livro ou partes de um livro nos três meses anteriores à entrevista para a pesquisa — tinham pais analfabetos, número que quase dobra em se tratando de pessoas não leitoras (19%). No que diz respeito à falta de tempo, essa é a principal alegação de pessoas leitoras para justificar por que não leem mais (46%) e de pessoas não leitoras para justificar por que não leem (33%). No caso de quem não lê, porém, a alegação é seguida de perto por não gostar de ler (32%).
Sobre o gosto pela leitura, a pesquisa aponta que existe uma correlação entre crianças que tiveram pessoas que liam com elas e que são, hoje, leitoras: na faixa etária entre os 5 e os 13 anos, 46% dos leitores teve pessoas próximas que liam com elas sempre ou às vezes, enquanto 72% dos não leitores nunca tiveram isso. Indo além, Idmea lembra que o gosto pela leitura tem participação importante das creches — e menos de 40% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos estão matriculadas em creches, de acordo com o IBGE.
De uma forma ou de outra, a falta de contato com os livros é o principal fator para que o hábito da leitura não seja presença constante no dia a dia de muitos brasileiros, mesmo dentre aqueles que dizem não gostar. É o que defende a pedagoga, mestre em formação de professores e especialista em literatura infantil e práticas de leitura na escola, Silvia Zerbini: “Comecei a estudar literatura infantil e práticas de leitura na escola quando eu percebi, justamente, que as crianças amavam quando líamos livros para elas. Elas paravam de brincar para poderem ler”. Ela ressalta a importância, também, de que o livro seja acessível para toda a comunidade escolar de forma a promover reflexões e interações: “Às vezes, não adianta o livro ir para casa. É necessário que se escute alguém contando aquele livro, porque é nessa conversa que a leitura se expande: cada um vai falar sobre como foi afetado por aquela história, e aí todo mundo vai ouvir e vai aumentar a compreensão e a experiência compartilhada, que ampliam o olhar”.
Outro dado da pesquisa do Instituto Pró-Livro que não surpreende, mas que também não deixa de alarmar, é a disparidade entre o número de leitores nas classes sociais mais e menos privilegiadas financeiramente. Em famílias com renda de até um salário mínimo — hoje, 1518 reais —, 87% não compram livros, valor que vai diminuindo conforme a renda mensal aumenta, até que, em famílias com ganho mensal superior a 10 salários mínimos, 61% compram livros. Essa diferença poderia ser compensada por bibliotecas públicas, por exemplo, mas a cultura de bibliotecas no Brasil ainda é incipiente: 46% dos consumidores de livros no Brasil o fazem por meio da compra, enquanto somente 16% vão a bibliotecas.
Contar histórias é arte, não instrumento

Foi unânime entre os especialistas consultados pela Babel a opinião de que existe, no Brasil, um ideal de que a leitura deve servir para fins didáticos ou objetivos — e que essa cultura deve mudar. “Se pegarmos o histórico tanto europeu, quanto brasileiro, a literatura infantil surge como uma demanda escolar, como uma demanda para alfabetização. Não dá para fingir que não é assim. E não é à toa, também, que a literatura infantil esteja tão presente nas escolas infantis”, observa Cássia Bittens, psicóloga especialista em psicoterapia analítica. Silvia complementa a ideia, e ressalta a importância de estar presente, de fato, quando se está lendo com uma criança: “Eu falo para as professoras com quem eu faço formação que elas precisam parar de olhar para a leitura como um componente curricular da escola, como uma tarefa. Precisa olhar como uma experiência. A criança sempre está presente, o difícil é o adulto estar”. Ela cita a pesquisadora colombiana Yolanda Reyes, que afirma que, quando essa presença do adulto existe, forma-se um triângulo amoroso entre o adulto, a criança e o livro. “O leitor, que alarga sua própria fronteira de experiências sensíveis, vai ler de outro jeito para a criança. Mesmo as pessoas que não são alfabetizadas, quando se interessam por ouvir uma história, por ir a uma exposição, por ter experiências subjetivas com a arte, vão ter esse espaço alargado”, completa.
A alfabetização é, portanto, só uma parte dos potenciais da literatura no contato com crianças. Para Pedro Bandeira, escritor de livros infanto-juvenis, o mais importante é que elas sejam letradas: “Não existe outra forma de se engajar na sociedade e de progredir na vida. Quando uma criança nasce, ela não fala, mas ouve, e o vocabulário passivo dela já vai se formando”. Segundo ele, o desenvolvimento do letramento das crianças passa por conversar bastante com ela e por deixá-la agir como criança que é: “E falar certo, não o ‘nhé, nhé, nhé’. Quando estiver lendo histórias, deixe ela pegar o livro — porque, nesse momento, o tato é na boca”. Aos poucos, a criança vai entendendo como o livro funciona.
Bandeira comenta, ainda, sobre os livros didáticos, que, na visão dele, estão utilizando, cada vez mais, de recursos típicos dos romances e das novelas a fim de tornarem o conteúdo mais atrativo: “O livro didático também é escrito, mas é como se ele desse conselhos. A literatura é o que faz você pensar e chegar a conclusões. E todos descobriram que a literatura é a mãe de todas as artes. E é a mãe do futuro”. Nesse sentido, ele enxerga o ler como um “ato de liberdade”: “É um ato em que você é completo, você é, também, o autor, porque você compartilha tudo o que não está no livro, como rostos e cenários”. O escritor traz o exemplo da personagem Capitu, de Dom Casmurro (Machado de Assis, 1899): “É muito mais gostoso ler essa obra e ficar discutindo se a Capitu traiu ou não o Bentinho, porque isso depende de você. Você chega a conclusões que independem do que o escritor pensa”.
Na entrevista à Babel, Pedro Bandeira lamentou que questões socioeconômicas e de desigualdade social sejam responsáveis por manter tantas crianças distantes da literatura. Sobre isso, Cássia destaca a necessidade de se dar o devido valor à tradição oral do Brasil, que é, também, de contação de histórias. “Infelizmente ainda temos a ideia de que literatura se reduz à decodificação do código. Aqui no Brasil temos a contação de história como algo muito presente no dia a dia, mas tratamos isso com desprezo, como banal. Contar histórias é profundamente literário. Porque no que depender do livro, no Brasil é muito caro. É vergonhoso”, avalia.
Para tratar de exemplos que caminham na contramão da elitização do acesso à literatura, Cássia cita o programa Minha Biblioteca, da Prefeitura de São Paulo. Criado em 2007, ele se encontra fora do ar desde 2024, mas previa a distribuição de dois livros por estudante cadastrado por ano, de acordo com sua faixa etária. Em paralelo, é possível citar o programa Leia para uma criança, criado pelo Itaú Social, em 2010, que consistia no envio gratuito de livros de literatura infantil para todo o Brasil, de modo a estimular o acesso à cultura e à literatura. Hoje, remodelado, o programa não atende mais pessoas físicas, focando seus esforços para atender secretarias de cultura e Organizações da Sociedade Civil (OSCs), além de ter trocado a preposição de seu nome — agora, é Leia com uma criança. Uma mudança sutil, mas de um simbolismo grande quando se pensa nos propósitos de leitura para além da sua instrumentalidade.
Sim, bebês leem.

Quando se fala em estar de corpo e alma lendo com a criança, isso também vale para os bebês. Mesmo que a comunicação e a locomoção não sejam o forte deles, a literatura tem uma influência tão grande sobre o seu desenvolvimento que existem, hoje, livrarias especializadas em contação de histórias para bebês. A reportagem da Babel foi visitar a Livraria Entretempo, na Vila Pirajussara, zona oeste de São Paulo, que recebe, um sábado ao mês, contações de histórias focadas em crianças bem pequenas. Às 10 horas da manhã do dia 7 de junho, cinco casais de pais com seus filhos de até um ano e meio de idade chegaram à Rua Major Rubens Florentino Vaz, 19, sentaram em roda e escutaram uma historinha rápida sobre uma família que morava no interior e tinha que se ajudar para conseguir semear um pé de beterraba. A contação de histórias foi realizada com bonequinhos de pano feitos à mão por Luciana Silveira, contadora que estava na livraria. Lu, como se apresenta para as famílias, canta em suas rodas de leitura e usa do Kântele Pentatônico, uma espécie de harpa, para chamar a atenção das crianças. O diferencial desse instrumento é que qualquer sequência de notas tocadas nele se torna melodia, além de não possuir as notas dó e fá.
Lu conta que se descobriu contadora de histórias buscando a memória de seu pai, que contava histórias de terror para ela quando pequena. Devido à maior dificuldade dos pequenos em manter a concentração e à contação ocorrer no período de soneca deles, ela opta sempre por uma história de até 20 minutos e, logo depois, mais 20 minutos onde brinquedos são espalhados para as crianças brincarem. “E tem funcionado bem. Eles ouvem a história, alguns até se expressam. Às vezes, tem uns que são mais agitados, as famílias não têm muito conhecimento para lidar e não dá para pedir que fiquem quietos. É querer que ele seja algo que não é”. Sobre esse tipo de reação, Cássia comenta que o bebê está poroso à linguagem de uma forma que as pessoas adultas não conseguem mais estar: “Ele participa da cena com o corpo todo. Os olhos se arregalam, a respiração muda e o gesto se estende”. A literatura passa a ser, então, uma “presença que se oferece sem pressa”, um “tempo oferecido ao sensível”. Mais do que isso, é estabelecida uma relação de confiança: “Quando oferecemos literatura a uma criança tão pequena, estamos dizendo: ‘você é digno de escuta’”.
Foi com base nessa percepção da leitura com crianças que Cássia criou o projeto Literatura de Berço, que acontece, hoje, de forma online, por meio de um grupo de estudos que reúne mães, professoras e pesquisadoras, uma vez por mês, e o Clube do Livro, disponível no Instagram. Além disso, desde 2021 ela faz, junto ao grupo do projeto, o Simpósio Internacional de Literatura de Berço — 2025 marcou a quinta edição — na Pontifícia Universidade Católica (PUC) São Paulo. “O evento é híbrido, reúne famílias, pesquisadores da educação e aborda tanto a teoria, quanto a prática da introdução da literatura para crianças. Neste ano, foram quase 300 pessoas presencialmente”, conta.
Dentre os pensamentos que a psicóloga desenvolveu em suas pesquisas, está o da inserção do bebê na literatura, para além dos aspectos cognitivos concretos, como o tamanho da cabeça, as sinapses e as percepções. Segundo ela, o bebê já desenvolve a capacidade de audição a partir de 20 semanas, no que a autora espanhola Beatriz Sanjuán denomina, no livro Era uma voz. O primeiro livro do bebê (2023), “gourmet musical”. “Quando ele começa a ouvir, ele está envolto em todos os ritmos: o ritmo do coração, o ritmo do intestino funcionando, o ritmo do espanto…tudo o que envolve o corpo da mãe e, ainda, as palavras externas, com o adendo da a barreira da pele, do líquido. E o ritmo do nosso corpo, ela fala, é super sincronizado”, explica. Tendo isso como base, ela cita o psicanalista francês Bernard Golse, que fala que o ser humano aprende a palavra primeiro pela musicalidade e só depois pelo significado. “Então, quando estamos lendo com o bebê, estamos proporcionando que ele tenha o que tem de mais literário possível. E ele está apto a absorver isso’, completa.
A barreira das telas
Em uma das vastas e preenchidas prateleiras da Livraria Entretempo, há uma plaquinha onde se lê “Offline”. E não só por ser tema desta edição da Revista Babel, mas o offline é, cada vez mais, um tópico, diante de adultos e crianças que vivem com os olhos impregnados nas telas dos computadores e celulares. No caso dos pequenos, o problema é ainda maior: eles não estão totalmente formados, física, psicológica ou mesmo socialmente. Para Cássia Bittens, demonizar a tecnologia não é uma opção, afinal, ela já está aí — e não vai embora: “O que me preocupa, como psicóloga e como pesquisadora da primeira infância, é o tipo de relação que estamos permitindo que se estabeleça com elas. Quando a tela substitui a presença do outro, quando ela preenche todos os silêncios, quando se torna a resposta automática ao choro ou ao tédio, aí há uma perda simbólica importante”. Silvia exemplifica: “Uma criança que assiste a um vídeo está recebendo uma coisa já completa. Ela tem, mastigadinho, a imagem, o movimento, a história, o texto. Ela fica numa posição super passiva, de receptora, diferentemente do que acontece quando ela lê um livro”.

Para Silvia, a recente proibição do uso de celulares nas escolas de todo o Brasil é apenas a “ponta do iceberg”: “Em muitas escolas, o celular já era proibido. Se alguém fica mais de quatro horas e meia por dia no celular, não é na escola que está o problema. É em casa. E o problema também está nos adultos, porque os adultos são os maiores modelos. Então, é muito complicado pedir para o seu filho sair do celular quando você não sai do celular”, reflete. Ela propõe que exista uma dosagem consciente do consumo das telas. Cássia, por sua vez, vê as telas como algo antinatural na criação de uma criança: “Precisamos de resgatar a experiência da linguagem encarnada, que vem de um rosto, de uma pausa, de uma escuta. O bebê precisa da frustração, do tempo, do ritmo, da pausa e da espera, para se constituir como sujeito. E o humano aprende com o humano, não tem tela que substitua isso”. Para ela, a atenção que a leitura com crianças oferece é partilhada, não dividida, e mesmo as interações sociais aparentemente saudáveis via aplicativos de mensagens, por exemplo, podem ser ruins se não houve a parcela do tato, do afeto e da profundidade, uma vez que somos, todos, seres tridimensionais — e as telas, planas.
Na opinião de Marília Almeida, proprietária da Livraria Entretempo e psiquiatra e psicanalista da infância de formação, a conscientização vem ocorrendo aos poucos — ainda que não de forma saudável: “Eu acompanhei muito todo esse processo trabalhando com crianças. Primeiro era a questão da televisão. Depois, começou a ser o videogame. E agora as telas, principalmente de celulares. E foi assustador”. Ela diz que, embora os efeitos comecem a aparecer, faltam espaços que ofereçam alternativas à rotina viciante do celular, como as livrarias: “Tem havido, aos poucos, um movimento de reabertura de livrarias. A Amazon ainda é uma competição e faliu muitas das grandes redes de livrarias, mas o público das livrarias de rua é outro: é um público que quer ter contato com o livro, que quer uma indicação. E eu acho importante ter esses espaços para mostrar que tem alternativas, que tem jogos, que tem o que fazer!”.
Pedro Bandeira é um pouco mais prático: para ele, a atitude do pai ou responsável é o primeiro passo para impedir que as telas sejam um problema desde muito cedo. Para ele, a criança pequena vai sempre preferir a companhia do pai ou da mãe, por exemplo, em vez da de uma tecnologia. Ele conta a história de um amigo muito rico que reclamava que a orientadora da escola sempre o chamava para conversar sobre o filho dele, alegando que o filho dele era problema dela: “Aí você vê porque o menino tinha problemas na escola: ele não tinha pai!. A escola não educa, a escola ajuda. Ela entra tarde na vida do ser humano para dar aquilo que a família não pode dar. Mas o exemplo, o carinho, a atenção…precisa vir da família. Não precisa ser algo intelectual”. Bandeira tem, na própria mãe, o exemplo de alguém que, nas palavras dele, não era leitora nem muito letrada, mas que contava histórias para ele, o que o incentivou a gostar de ler desde cedo.
A presença da tela na vida de crianças pequenas já se reflete na Retratos da Leitura: quando indagadas sobre o que gostavam de fazer no tempo livre, 68% das crianças de 5 a 10 anos responderam “usar a internet”, 70% responderam “assistir à televisão”, 43% responderam jogar videogames ou outros jogos, e 20% participar de oficinas ou de aulas de arte. Para complementar, justificativas como “falta de paciência” e “dificuldade de concentração” também vêm aumentando nos últimos anos. Apesar disso, a faixa etária dos 5 aos 10 anos é aquela que tem o maior apreço pela leitura (41%), seguida da faixa dos 11 aos 13 (28%). Gostar, então, não é o problema.
Pedagogia Waldorf: um jeito diferente de contar histórias
A metodologia de contação de histórias de Lu Silveira não é à toa: ela segue uma linha educacional chamada de Pedagogia Waldorf. Dentro da contação de histórias, a ideia da pedagogia Waldorf é fazer uma reprodução do que eram as contações de histórias em torno de fogueira. “Nós não temos como acender uma fogueira, mas acendemos uma velinha simbólica ali, para que a história aconteça em volta do fogo”.
A pedagogia Waldorf só apareceu na vida de Lu quando ela, recém formada professora, viu-se numa situação em que seu filho, de 11 meses, chorava todos os dias na escola. “E eu comentava com a dona da escola que nós deveríamos estar fazendo alguma coisa errada. Era para as crianças estarem felizes!”, conta. Foi por meio de uma colega cuja filha estudava num colégio Waldorf que Lu conheceu a linha de pensamento: “É uma preocupação com os brinquedos, com o brincar, com a alimentação, com o ritmo. Isso traz saúde para as crianças”. A pedagogia entende que as crianças são sementes a serem semeadas, o que faz das professoras as jardineiras.
Com o tempo, Lu acabou sendo chamada para passar o tempo com crianças em casa, quando os pais tinham algum compromisso. “Na época, há 11 anos, isso não era comum. Queríamos oferecer uma folga, em que os pais pudessem passear, estudar, fazer um curso ou só dormir”. Daí veio o nome do serviço que ela oferece hoje: País de Folga!. “Logo, começou uma demanda por festas e por eventos. Começamos com um trabalho de oficina, resgatando brincadeiras tradicionais, de quintal, típicas da infância”.
A pedagogia Waldorf foi criada por Rudolf Steiner (Croácia, 1861-1925), e é proposta para atender a todos os públicos, não só crianças: “E são sempre momentos de contração e de expansão. Cada vez que contamos uma história, a criança está num momento de contração. Depois, quando deixamos os brinquedos para eles brincarem, eles podem relaxar e respirar com mais tranquilidade”.
Na caneta do autor: estratégias de sempre, no hoje.

Indagado a respeito da importância da construção de personagens identificáveis no universo da literatura infantil, Pedro Bandeira explica que, diferentemente dos adultos, que já têm a capacidade de se identificarem com personagens completamente diferentes deles, as crianças ainda se veem nas narrativas: “É por isso que eu quero saber como é uma criança de cinco anos: para poder falar algo que interesse a ela, que faça parte do mundo dela ou da maneira de ela pensar.
Para explicar seu trabalho, escritor fala sobre a importância de saber quando a criança chega à idade da latência, que para Monteiro Lobato (1882-1948), é o período entre a infância e a pré-adolescência, dos sete aos nove anos: “É um período de solidão: a menina enfileira as bonecas, dá aula para elas, faz aniversário delas…ela vive da imaginação. É por isso que Lobato fez uma menina vivendo de sua imaginação (Narizinho)”. Ele traz outro exemplo prático da importância da identificação: “Quando você chega para uma criança e diz: ‘Vou contar uma história: a Dona Galinha chegou assim para o Pintinho e falou…’. Imediatamente ela passa a Dona Galinha como a mãe dele e o pintinho como ele”.
O processo descrito por Bandeira nada mais é do que o amadurecimento emocional da criança por meio da arte. Ao citar o livro A Marca de uma Lágrima, escrito por ele em 1985, ele comenta que a história é baseada na peça de teatro Cyrano de Bergerac (1897), de Edmond Rostand (1868-1918) e no quadro Garota Diante do Espelho (1932), de Pablo Picasso (1881-1973). “É um quadro fantástico: tem uma moça se olhando e a imagem dela é toda ruim, toda feia. Então eu imagino alguém sem autoestima, que se olha no espelho e não se vê como realmente é, mas como acha que deveria ser. É uma coisa importante de se trabalhar, principalmente na adolescência”. Ao final da história, a menina acaba se entendendo e se gostando.
Ele ainda trás um último exemplo: “Você pode colocar uma criança de três anos no colo e contar a terrível história de João e Maria. A criança fica quase fazendo xixi na fraldinha, imagine ser abandonada por papai e mamãe na floresta! E ela treme com isso. Mas ela está no colinho da mamãe, quentinha, Ela sabe que não vai acontecer isso com ela”. O autor explica que isso é o trabalho do sentimento de abandono quando pequeno. “Tudo o que você tem é papai e mamãe. Então, o seu pavor maior é não ter mais papai e mamãe. Então, uma história de abandono é terrível para trabalhar esse sentimento original”. Com o passar do tempo, ele conta, a criança até pede para a mãe contar a história de novo, mesmo que tenha tido medo. “Até que chega o momento em que ela não quer mais, porque o problema dela já foi resolvido: ‘não serei abandonado por papai e mamãe’”.
Bandeira finaliza recapitulando obras históricas da literatura que não perderam seu papel literário: Shakespeare tem mais de quatrocentos anos de idade e até hoje as peças dele são insubstituíveis. Por quê? Porque ele tratou de sentimentos: ele tratou do amor impossível, ele tratou do ciúme, ele tratou da cobiça, ele tratou da felicidade abandonada. Cada peça dele trata de uma emoção humana. Isso não morre”. Dom Quixote (personagem de Dom Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes, 1605) é outro exemplo atemporal: “Por que Dom Quixote é aquele velho maluco? Será que ele não pode representar um idoso de hoje em dia, que tem dificuldades em mexer no celular? O tempo dele passou, e ele não entendia as novidades, o progresso. Ele fala sobre a velhice em qualquer época, não só no século 17, como em qualquer época”.
Como lembra a citação final de “Os Fazedores de Sonhos”, história do livro Noites Iluminadas: Histórias para ler na hora de dormir que estimulam a calma, a confiança e a criatividade em seu filho, a leitura é insubstituível no fomento da imaginação por demandar uma posição afetiva das crianças, mesmo quando ouvem histórias:
“— Esse sonho é só seu — diz uma das crianças — Pule em cima dele e vá aonde quiser”

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