Offline ou sobre por que não conseguimos ficar parados

(Imagem: Sofia Lanza/crédito: Canva)

Como nosso tempo livre se dilui e desaparece entre a internet, redes sociais e trabalho

Por Sofia Lanza

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Quando foi a última vez que você ficou deitado, na sua cama, no sofá, na grama, simplesmente olhando para o alto e deixando sua mente vagar? Sem pensar nas suas tarefas, sem fazer planejamentos ou pensar em preocupações. Simplesmente esteve ali e aproveitou o seu tempo livre “fazendo nada”. Os momentos ociosos são cada vez mais difíceis no dia a dia, ou porque não temos tempo livre, ou porque não conseguimos mantê-lo “livre”. 

A tecnologia, e em especial as redes sociais, são uma constante fonte de distração e de entretenimento. Estamos no ponto de ônibus e, em dez minutos de espera, damos uma espiada no Instagram. Vamos ao banheiro e aproveitamos para responder mensagens no WhatsApp. Ouvimos música quando estamos lavando louça e um podcast quando estamos no trânsito. Mas o fazer nada, o esperar, nunca é uma opção. Cada vez menos conseguimos ficar parados. E por quê? As causas podem ser mais profundas do que pensamos. 

“Você não foi educada para ter tempo livre. Nós não somos educados para pensar num tempo de nada fazer. Para você saber o sentido do ócio e o valor dessas experiências, você precisa ter tido uma sensibilidade para isso no seu processo de formação. Por isso que o ócio é uma palavra condenada”, responde José Clerton Martins, psicólogo, professor da Universidade de Fortaleza e estudioso do ócio. O tédio não tem um “para”, uma finalidade, é se deixar vagar e isso, que antes era natural, agora torna-se uma prática. “Eu faço esse exercício constantemente, de parar e falar: “Você vai ficar aí paradinha e não vai ficar angustiada em ficar parada”, brinca a psicóloga Roberta Takei, especialista em desenvolvimento infantojuvenil. 

Essa reportagem não tem a pretensão de incentivar ninguém a largar tudo, nem de condenar comportamentos ou de impor rotinas irreais. Mas se propõe a apresentar questionamentos sobre como nosso tempo livre tem sido cada vez mais negligenciado e até mesmo evitado a todo custo. E, talvez, desenvolvendo uma maior consciência sobre isso, possamos fazer as pazes com o tédio da próxima vez que ele vier. 

Redes sociais e tédio

Não tem como falar de tédio e de tempo livre sem mencionar a nossa vida online. Em 2023, o Brasil ocupou o terceiro lugar entre os países que mais consomem redes sociais do mundo. É algo cotidiano. Por isso, Clerton ressalta que, assim como tudo o que é normal e natural, o que causa malefícios são os desequilíbrios. “Já sabemos que existem psicopatologias, dependências, atreladas a uma hiper conexão.  É você não conseguir soltar o celular, não conseguir viver sem isso. É se afastar um pouco e sentir como se tivessem arrancado um pedaço de você. [O celular] Tem seus benefícios, mas quando isso deixa de ser o que você carrega dentro de você, começa o desequilíbrio”. 

As redes sociais como conhecemos hoje são projetadas para que gastemos cada vez mais tempo dentro delas. Notificações constantes, botões para interatividade, vídeos curtos e sequenciais, um algoritmo que seleciona um conteúdo específico para o seu gosto, são muitas as estratégias utilizadas para nos entreter. Todos esses estímulos liberam dopamina para o nosso cérebro, um hormônio que nos dá a sensação de prazer, e afetam as áreas de recompensa rápida. “É como se fosse uma pílula de felicidade, que age de imediato, mas que tem a duração do tempo do vídeo. Então se é um vídeo de um minuto vai ter a ação de um minuto. Por isso que a gente não assiste um vídeo só”, explica Roberta.

Hoje, quando o tédio aparece, as redes sociais estão sempre à mão, são a resposta mais fácil. Mas, muitas vezes, ainda há aquela sensação de desinteresse, ficar rolando o feed do Instagram só por não ter nada melhor pra fazer. Roberto S. Kahlmeyer-Mertens, filósofo e membro da International Society of Boredom Studies, apresenta então uma das teses do tédio: “Tem muita gente que faz uma determinada coisa não por gosto ou por missão, mas por simplesmente estar entediado. O tédio acaba promovendo condutas que são completamente descomprometidas com o real afazer ou com uma real necessidade”. Então, se nem sempre estamos tão interessados, porque não conseguimos ficar sem fazer nada numa situação de tédio?  

Silenciar as notificações?

Tem muitas pessoas que precisam sempre de uma distração para não se ocupar das coisas interiores”. Quem me apresenta essa ideia é Enjo Stahel, monge budista fundador do templo Taikanji, na serra da Mantiqueira. Desde 2004, o templo oferece retiros de silêncio para o público, que pratica a meditação e o silêncio durante alguns dias, sem interferências externas de aparelhos eletrônicos ou outros estímulos externos.

“Normalmente, nós estamos absorvendo estímulos o tempo todo: estamos trabalhando, ocupando-nos de problemas, estamos estudando, às vezes vamos ouvindo uma música, às vezes vai ser um filme…Mas enquanto você está absorvendo coisas de fora, não se dá conta do que está dentro de você. Como nós estamos? Como está a nossa mente e o nosso corpo? Tem pessoas que vivem décadas e décadas e que nunca pensaram nessas questões”. 

Desvincular-se de todos os estímulos externos pode parecer impossível no cotidiano, mas ainda pode ser vista num ritual noturno, quando vamos dormir. Quando estamos deitados, sem fazer nada, esperando o sono vir, começam a pipocar pensamentos, memórias, emoções, medos, lembranças ou inseguranças. Às vezes nos engajamos nelas ou torcemos para que vão embora logo, às vezes simplesmente adormecemos e esquecemos tudo no dia seguinte. Mas a prática ativa e intencional de ficar “sem fazer nada” e ter consciência de si próprio pode ser muito desafiadora.

“Durante o retiro de silêncio, a pessoa pode ter vontade de desistir: ‘o que eu to fazendo aqui em silêncio na frente de uma parede? Podia estar na praia com os amigos, fazendo um churrasco…’. Só no final, depois que o retiro acaba, é que cai a ficha: a pessoa ganha uma consciência, uma clareza a respeito de si mesma, dos seus sentimentos, uma percepção tão mais sutil que faz com que ela realmente se sinta muito feliz”, compartilha Enjo. 

Apesar de seus benefícios, o monge explica que não é preciso participar de um retiro de silêncio para exercitar esse hábito. Ele ressalta, inclusive, que não devemos começar com metas tão ambiciosas. É possível incluir a prática aos poucos na rotina, por exemplo, enquanto espera o ônibus: tente ficar em silêncio por alguns minutos, prestando atenção na própria respiração, perceba como está a sua inspiração e expiração; pense em como está o seu corpo, a sua mente, em como você se sente hoje. 

O excesso de informações vindas das redes sociais ou do mundo pode sobrecarregar o cérebro, o que faz com que nos sentamos muito mais cansados do que deveríamos. Por isso, precisamos aprender a descansar e a saber a hora de parar de consumir conteúdo externo. O tempo de ficar sem fazer nada pode, inclusive, ajudar a ter mais clareza mental. 

“Costumo fazer uma analogia com uma lousa de sala de aula: se o professor só escreve e não apaga o quadro, chega um momento em que você não vai conseguir ler nada porque está tudo muito rabiscado. Então, você tem que limpar a tua lousa, passar o apagador, para ficar nítido quando você for escrever. A nossa mente também é assim, temos que mantê-la limpa, para que estejamos abertos para ideias, pensamentos e sensações possam se manifestarem”, conta Enjo. 

Trabalho online e tempo livre

Podemos até desligar as notificações das redes sociais e de outros aplicativos de entretenimento a fim de praticar o silêncio. Mas e quando é o trabalho que toma todo o nosso  tempo livre sem que nós percebamos? Nossa vida pessoal foi permeada pelo trabalho com as ferramentas digitais e, a partir da pandemia de Covid-19 — iniciada em 2020 — o home office tornou-se uma prática ainda mais comum, o que foi fazendo das fronteiras entre casa e escritório algo cada vez mais nebuloso. 

“Fala-se de trabalho no sábado enquanto se está com a família, pensa-se em trabalho antes de dormir, às vezes até acorda-se à noite para responder uma demanda urgente. Nunca antes nós tínhamos tido uma espécie de relação tão absorvente com  ocupações”, contextualiza Kahlmeyer-Mertens.

Aplicativos como WhatsApp, Telegram, Microsoft Teams e Google Meet acabam por serem uma porta para estar sempre online e passível de receber requisições, sejam de trabalho, sejam de outras atividades. “Hoje, nós respondemos a um modo de vida que é marcado pela produtividade, pelo rendimento. Você está o tempo todo se auto-explorando e achando que isso é sucesso.” 

“Se eu trabalho de 12 a 14 horas por dia, é em busca de quê? Produção, ganho, representatividade, conquista de uma nova meta, etc. Então, você dizer não a isso passa a impressão de que você está negando o sucesso que poderia ter, as realizações de toda ordem. É como se você tivesse renunciando a algo que é seu”. E essa cobrança por rendimentos, em busca de sucesso e reconhecimento, pode gerar uma série de doenças características do nosso momento histórico, como ansiedade, transtornos obsessivos e a síndrome de burnout. 

Dentro dessa perspectiva, da sociedade do desempenho, muitas pessoas se sentem culpadas ao escolherem o lazer e terem tempo livre, pois poderiam estar produzindo mais. Segundo Kahlmeyer-Mertens, a filosofia pode ajudar a desenvolver a criticidade para diferenciar algo que traz um sentimento de realização daquilo que é externa mas que você assumiu como sua obrigação. Ele explica a ideia de serenidade, do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), que surgiu por meio da observação do surgimento da informática, quando Heidegger começou a notar que a tecnologia faria requisições cada vez mais incessantes. “A serenidade pressupõe o seguinte: você está ciente de que o mundo é requisitante, de que existem demandas. No entanto, você pode manter uma conduta de distância disso, quer dizer, você reconhece que há, mas não se deixa absorver, não se deixa levar”. Na prática, é reconhecer e impor limites às demandas externas, como tentar diminuir a carga de trabalho para ter tempo para si próprio, silenciar e não verificar grupos de trabalho aos finais de semana. Não é ignorar e fingir que as demandas e crises não existem, mas escolher em qual conduta vale a pena se engajar.

Esse princípio também é endossado por Roberta Takei em sua clínica. “Também é um exercício aprender a dizer não. ‘Não dá, não posso’. E escolher. Não vamos conseguir ter tudo nem estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Temos que ter a sabedoria de aproveitar aquilo que escolhemos, em vez de ficar lamentando o que perdemos”. 

E o tédio puro? A Sociedade da produtividade

Mesmo sem as distrações das redes sociais ou das demandas do trabalho, muitos ainda não conseguem ficar sem fazer nada e estão sempre em busca de uma atividade, de algo para fazer, para não “perder tempo”.

Para Roberta, o tempo ocioso também pode ser visto como uma forma de descanso, embora muitas pessoas não saibam mais parar suas rotinas. “Pensando na vida adulta, descansar tem sido uma coisa condenável. O que é valorizado? Uma pessoa que faz mil coisas ao mesmo tempo. Precisa fazer algo o tempo todo e mostrar que está fazendo. Mostrar o tédio não é uma coisa legal socialmente.”

Às vezes, o ficar parado pode trazer uma sensação de angústia, de desespero, que vem sendo ensinada às crianças desde muito cedo. Somos ensinados que não podemos ficar “fazendo nada o dia inteiro”. Escola de período integral, cursos de idiomas, esportes, aulas de música e tantas outras atividades, sempre há uma agenda a ser cumprida. A psicóloga traz outro exemplo: “Hoje em dia tem muita criança com 10, 11 anos, já com ansiedade de desempenho, que se não tira uma nota 9 ou 10 na prova, sente-se um fracasso.”

Ela explica que ter uma rotina é importante para o desenvolvimento das crianças, mas que é também no tédio que elas inventam brincadeiras, aprendem a mediar conflitos, entendem regras, perceberem o outro e a si mesmo, e até mesmo desenvolvem sua percepção sobre a passagem do tempo e aprendem a esperar. Afinal, o tempo no celular, rolando o feed de uma rede social, é bem diferente da vida offline. E quando a criança treina seu foco de atenção e espera apenas com vídeos de poucos minutos, é natural que haja um descontentamento ao ficar parada. 

E o desespero de não ter nada pra fazer pode afetar até atividades mais básicas e vitais para a nossa vida, como dormir. “Porque dormir é o momento de ficar sem fazer nada. De parar o corpo e parar a cabeça. E tenho muitos pacientes de 8, 9 anos, que têm dificuldade para dormir. Se eles não dormem nos primeiros dez minutos, começam a ficar ansiosos”, conta. 

A necessidade de fazermos as pazes com o nosso tédio é urgente. Temos de aprender a ficar parados e a descansar, deixando de lado a agenda e as atividades pré-definidas de vez em quando. Ter uma programação é importante tanto para crianças quanto para adultos, mas se permitir aproveitar o tempo livre também é essencial.

“Nós não abominamos a conexão, nós recomendamos o cuidado com a hiperconexão, quando você sobrecarrega a sua existência à conexão digital com mundos irreais.  É buscar equilibrar no mundo digital o que é necessário e o que é efêmero. A conexão digital instrumental para exercer atividades que são essenciais é ótima, mas não pode passar a ser tudo o que você faz ou é”, ressalta Clerton. 

Quando ficar sem fazer nada é um luxo

No Brasil, mais de 11% da população enfrentam jornadas de trabalho superiores a 48 horas semanais, sem levar em consideração que há muitas pessoas que  fazem dupla jornada e precisam trabalhar em casa, cuidar da família ou ainda são mães-solo. O tédio também é um privilégio: quando sua cabeça pesa com tantas preocupações, não é justo que o tempo livre seja mais uma cobrança.  “Vira uma obrigação e, se você não tem esse tempo livre, é como se você fosse um fracassado, e vem um pensamento de ‘nossa eu só trabalho e não tenho tempo pra mim’, ressalta Roberta. 

“É um exercício a gente conseguir [o tempo livre] e a gente ter que batalhar por ele, mas também não podemos transformar isso em outra prisão. Tem dia que tem, tem dia que não vai ter. E quando tem vamos usufruir dele, estar no aqui e agora”

O hábito de aproveitar o tempo livre com outras atividades fora do mundo online deve ser incorporado aos poucos: incentivar atividades mais livres, em contato com a natureza, práticas esportivas, outros aspectos que trabalhem atividades de baixo-estímulo, como ler, escrever e ter contato com as outras pessoas. “Não adianta falar para um adolescente que ‘agora não vai ter celular, não vai ter nada, vai ficar uma hora pensando na sua vida’. Isso vai criar uma crise de pânico. Não é um botão de liga-desliga.”