Geração Alfa: A troca de brincadeiras físicas pelas digitais

(Imagem: montagem por Lívia Lemos/ Fonte: Canva)

Expostas cada vez mais às telas, crianças têm ficado ansiosas e estressadas; para especialistas, o caminho não é excluir o indivíduo do universo digital, mas sim resgatar brincadeiras tradicionais e promover letramento digital

Por Lívia Lemos

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A brincadeira já vai começar. Essa é a primeira regra na casa dos Araújo. Todos os fins de semana à noite, a família se reúne na varanda para brincar com a estrela principal da residência: Myguel, de sete anos. Hoje, a atividade escolhida foi cobra-cega. A irmã mais velha, Kailane (21), cobre os olhos de Myguel com uma blusa azul, enquanto o pai, Elias (52), e o irmão do meio, Elias Júnior (17), se espalham sobre o espaço.

E aí vem a segunda regra. Antes de iniciar a brincadeira, o jogador vendado precisa girar três vezes. “Mas nessa família, nós fizemos uma adaptação. Em vez de correr, a gente escolhe um lugar para se esconder porque o Myguel rouba, ele abaixa a camisa pra olhar onde estamos”, cochicha a irmã enquanto se esconde atrás da máquina de lavar roupa.

A busca pelos fugitivos começa. Myguel corre pela varanda decidido a capturar alguém de sua família. Atrás da porta de vidro, a única que não está nessa atividade é a mãe, Nilcelene (42), que permanece na mesa da cozinha fazendo uma importante tarefa, talvez a mais importante da noite: sua missão é escoltar todos os aparelhos móveis da casa. Terceira regra: ninguém encosta no celular enquanto a brincadeira acontece.

O passatempo em família, que hoje se tornou uma tradição, foi uma iniciativa da irmã ao perceber como o caçula gastava muito tempo conectado no digital: “Na correria da semana, quando chega da escola, o Myguel fica muito no celular da minha mãe, acessando jogos online e consumindo aqueles vídeos rápidos do Youtube Shorts, que eu acho uma porcaria. Eu queria que ele tivesse um gostinho da minha infância”,  confessa Kailane.

Diferente da irmã, que faz parte da geração Z (1995-2010), e só foi ter o primeiro celular aos oito anos, Myguel pertence a geração Alfa, os nascidos a partir de 2010 que cresceram com dispositivos eletrônicos, como celulares e tablets, como elemento principal de suas recreações, trocando a experiência física pela digital. Essa é uma sensação que a especialista em educação infantil e docente da Universidade de São Judas Tadeu, Isabel Filgueiras, já nota na infância das crianças atuais: “A gente tem percebido que o brincar digital tem roubado espaço de outras brincadeiras tradicionais e ele tem servido como única conexão da criança com o universo lúdico.”

No caso de Myguel, a mãe Nilcilene lembra que o acesso do filho ao dispositivo móvel começou aos dois anos. No início, o smartphone era uma maneira de distração e hoje, segue como forma de divertimento. “O Myguel quer gastar energia, mas eu não estou com disposição de preencher essa necessidade dele, estou cansada e tenho outras tarefas. Então entrego o celular para distrair ele e eu poder descansar”, admite a matriarca.

A necessidade de distração é o principal motivo que leva os pais a entregarem os celulares aos filhos, na visão de Filgueiras. Apesar de ser uma solução prática no dia a dia, a educadora ressalta que nenhuma tela deve substituir o ato de brincar ao ar livre e coletivamente na vida dos pequenos.

Brincar: a linguagem universal da criança

Isabel caracteriza o brincar como uma linguagem natural das crianças que permite que elas se conectem com a sua cultura. A docente, que atuou como professora de Educação Física na educação básica da rede Municipal de São Paulo, explica como a recreação é importante para a construção de significados e de fatos na primeira infância:

“A brincadeira é uma forma de expressão de sentimentos, de pensamentos e de conexão com o processo de aprendizagem sobre o corpo. No momento que um bebê usa um chocalho, por exemplo, ele entende noções de espaço e tempo que favorecem o desenvolvimento cognitivo”, explica. “Há um processo de associação entre a linguagem, o pensamento e o brincar”, acrescenta Filgueiras.

Duas crianças, uma menina e um menino, brincando de jogar bola
Ilustração: Lívia Lemos

Ela categoriza as brincadeiras como sensório-motoras, que são aquelas que movimentam o corpo, como andar de bicicleta e jogar bola; as brincadeiras faz de contas, que envolvem a criação de histórias e o exercício da imaginação e da linguagem; e as brincadeiras com regras. “Atividades em que a estruturação com regras é a principal configuração, como jogos de tabuleiro ou amarelinha,  por exemplo, que é motora, mas também tem regras, favorece a capacidade de entender como a sociedade funciona.”

Não só para o desenvolvimento da linguagem, do motor sensorial e da socialização, a educadora destaca a contribuição do brincar na capacidade de negociação: “Se sua amiga quer brincar de boneca e você de pular corda, há uma troca de diálogo, você precisa ceder e nesse processo de decidir coisas em grupo, você aprende a socialização.”

As consequências da hiperconectividade

Crianças que não são estimuladas a brincar e, em vez disso, passam os primeiros anos de sua vida expostas às telas, desenvolvem o que a educadora Isabel Filgueiras chama de empobrecimento cultural. “Se, ao invés de cantar uma cantiga para criança, você põe uma música para tocar no celular ou um desenho animado, você está perdendo a possibilidade de interatividade e transmissão cultural.” Ela também alerta para o atraso no desenvolvimento cognitivo.

Além disso, há os prejuízos emocionais. “A gente vê o aumento de ansiedade, irritabilidade, estresse, distúrbios de sono e de alimentação nas crianças que consomem muita tecnologia”, comenta a psicóloga Isabel Kahn, professora nas áreas de infância e família na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Segundo ela, o aumento de ansiedade e estresse está ligado ao excesso de informações que o cérebro da criança recebe: “São muitos estímulos de som, de movimentos, de luz e de cores numa velocidade acima do normal e que a mente dela não está preparada para processar de forma rápida”, explica a psicóloga. A primeira consequência desse excesso de estímulos é a inquietação. A segunda, o vício em telas, como relata a mãe de Myguel: “Já tentamos tirar e o resultado foi birra, de chorar, gritar, então decidimos entregar de volta.”

Uma menina chorando ao ter o celular retirado de seus pais
Ilustração: Lívia Lemos

Essa dependência pode ser chamada de nomofobia, o medo de ficar longe do celular. Segundo a psicóloga, isso acontece porque os estímulos rápidos liberam dopamina no cérebro e causam o vício. Além da fobia, o excesso de telas atrapalha um importante processo de aprendizagem na fase da infância: o de frustração e de tolerância. “Elas [as telas] arrancam a capacidade do indivíduo de esperar, seja por uma resposta, ou atenção”, explica Kahn. “O acesso a  produtos de mídias o tempo inteiro, seja no ônibus ou no carro, gera poucas experiências de frustração na criança, que são importantes para que ela aprenda a se regular emocionalmente”, acrescenta Filgueiras. 

Telas: as grandes vilãs da geração Alfa?

Apesar dos diversos efeitos negativos, as especialistas destacam que as telas só assumem o papel de vilãs na infância das crianças se não forem controladas pelos responsáveis. Para Isabel Filgueiras, privar o indivíduo do mundo virtual não é o caminho, uma vez que ele faz parte da geração da tecnologia e pode se sentir apartado desse universo. “A gente não pode demonizar a cultura digital das brincadeiras. A questão é a falta de monitoramento. Você não pode deixar a criança nesse ambiente digital como se você tivesse soltando ela na rua”, reforça Filgueiras.

A educadora defende, num primeiro momento, o supervisionamento dos pais e, num segundo, a democratização do letramento digital nas escolas. Já a psicóloga Isabel Kahn chama atenção para o tempo de telas: “elas não podem exceder a realidade.”

Ambas as pesquisadoras concordam em um mesmo ponto: existe o momento certo para introduzir a tecnologia. “Isso não pode ser feito de forma precoce. A gente tem visto bebês que só comem olhando um tablet ou um filminho”, relata a educadora. “Existem várias pesquisas que mostram, que antes dos dois anos, não é saudável as crianças serem submetidas à tela por causa do excesso de estímulos sensoriais e visuais”, acrescenta a psicóloga.

Os efeitos da exposição precoce podem ser nocivos à saúde, como o caso da Paula Macedo (46). Para distrair a filha, na época, com 6 meses de nascida, e ajudar na introdução alimentar, a mãe passou a recorrer ao tablet. “A gente deu na inocência porque ela comia bem vendo desenhos. Mas ela não ficava o tempo todo. Era só durante a refeição. Mesmo assim, Eloah apresentou um pequeno desvio ocular por causa do tablet e por decisão do oftalmologista retiramos.”

Além do problema na visão, a mãe relata também que notava a mudança no comportamento da filha, que demonstrava agitação sempre que ficava no dispositivo. A preocupação dos pais se estendeu por toda a primeira infância e hoje, aos quatro anos, Eloah não tem acesso aos celulares e só assiste TV de forma controlada. “O pai tem formação pedagógica e desde os 11 meses, nós dois trazemos brincadeiras como pinturas e músicas. Ela ama artes.” Quando perguntada se a filha tem vontade de mexer no celular, Paula diz: “A gente mostra pra ela alguma coisa no celular, como fotos da escola, mas ela prefere brincar. Graças a Deus. O processo de tirar é difícil. Mas vale a pena.”

Isabel Filgueiras destaca a priorização de brincadeiras ao ar livre pelo menos nos primeiros anos de vida: “Até os 5 anos, é muito mais rico você promover atividades na natureza, onde a criança explora o espaço, pula, corre e interage inclusive com suas semelhantes.” Isso pode ser feito em espaços apropriados, como parques e praças.

A partir dos 4 anos, já é possível introduzir as brincadeiras digitais, na visão da psicóloga Isabel Kahn. Ela diz que isso deve ser feito com a supervisão e a interação de adultos: “Olha, vamos ouvir uma história juntos, assistir um filminho, ver um joguinho. A tecnologia pode ser um recurso, só não único.” A educadora Filgueiras pensa igual: “Eu não extinguiria o brincar digital das crianças, mas sim saber escolher os produtos certos e participar junto com os pequenos.”

De olho nos sinais

É preciso também estar atento aos sinais. “Se a criança não quer sair do celular, só quer ficar em casa e está com o sono desregulado, é hora de intervir”, diz a psicóloga Isabel Kahn. Além de estabelecer um horário e um tempo na rotina do pequeno para ter o contato com o mundo virtual, ela é radical ao corte das telas depois das 20h: “A noite, não! A criança precisa ter um tempo para se desligar da tecnologia e ir dormir. Você pode ler uma história, cantar uma música. Isso são formas de ajudar o pequeno a se desconectar.”

Já a educadora Isabel Filgueiras recomenda a promoção de brincadeiras com outras crianças. “Por mais que o adulto se põe ali na figura de ‘vamos brincar junto’, existe uma relação de autoridade, de quem tem mais experiência, força e poder. Quando as crianças brincam entre si, se estabelece uma relação horizontal, de iguais, na qual precisam resolver problemas entre elas.”

Ilustração: Lívia Lemos

O exemplo também convence. “A gente tem visto que cada vez mais os próprios pais estão grudados em telas e as crianças repetem aquilo que observam”, destaca a psicóloga. É o que sente Kailane em relação ao irmão Myguel quando questionada o porquê da preferência dele por telas: “Ele vê todo mundo no celular e vai ter curiosidade de mexer também.”

Mas a cultura da família tem, aos poucos, mudado isso: “Aos sábados e domingos, quando todos estão reunidos em casa, brincamos de cobra-cega, pega-pega, jokenpô e stop, que adaptamos para o oral. O Myguel gosta de pensar em palavras, mas não é tão ágil para escrever, então escolhemos uma letra e ele fala os objetos, os animais e as frutas.”

Apesar de ter tido o acesso ao celular ainda na infância, aos oito anos, Kailane conta que o aparelho era de botão: “ele era sem touchscreen, então não era muito divertido, o que me levava a brincar na rua.” Além dos passatempos que traz para o irmão, ela relembra de outros, como escolinha, esconde-esconde e rouba-bandeira. Para a irmã, essas memórias causam uma nostalgia. “A gente tinha que se desdobrar pra inventar uma brincadeira nova e não ficar cansativo e era sensacional porque explorávamos nossa criatividade e imaginação. Na copa de 2014, por exemplo, chegamos a pintar o escadão de verde e amarelo. Foi uma brincadeira incrível. Hoje, quase não vemos mais isso.”

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