Reféns das Telas, resgatados pelo esporte 

O esporte representa uma saída para muitos que são reféns das telas (Foto: Acervo pessoal – Osmar do Esporte) (Arte: Gabriele Mello)

Em meio à exposição excessiva às telas, os exercícios físicos surgem como alternativa para minimizar impactos na saúde física e mental

Por Osmar do Esporte 

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Influenciadores, editores e até arquitetos. Todas essas profissões têm algo em comum: a presença das telas. Com os avanços tecnológicos, as rotinas cada vez mais online se tornaram corriqueiras e hoje, ficar longe das telas é um grande desafio.

Esse é o caso de Heitor Oliveira Rocha, que trabalha com Arquitetura e Urbanismo e também exerce algumas funções na área de telecomunicações. Num primeiro momento, pode não parecer que as telas são um grande problema para o homem de 25 anos, mas ele logo nos faz descartar esse tipo de dedução precipitada. Quando questionado se as telas eram elementos presentes no seu cotidiano, ele não hesitou: “Sim, muitas”. Mas a história não parou por aí. “Geralmente, no meu dia a dia, são duas telas e pelo menos seis aplicativos que eu utilizo simultaneamente e constantemente, que compõem o meu dia a dia. Sofro com uma composição de aplicativos, telas e monitores que oferecem a funcionalidade do meu cotidiano no trabalho”.

Heitor Rocha, em seu horário de trabalho, em frente às telas (Foto: Acervo pessoal – Osmar do Esporte)

Além das pessoas que permanecem conectadas por razões profissionais, o Brasil se destaca como um dos países com maior tempo de exposição às tecnologias, independentemente do propósito de uso. De acordo com um estudo realizado em 2024 e divulgado pelo portal “Electronics Hub”, o Brasil ocupa o segundo lugar do ranking mundial das pessoas que mais passam tempo acordadas em frente às telas. Segundo o levantamento, o país tem uma média de 9 horas e 13 minutos de exposição por dia. Já a porcentagem relativa ao horário em que as pessoas estão acordadas atinge 54,7% de conectividade. O único país que fica à frente do Brasil no estudo é a África do Sul, onde as pessoas apresentam uma média diária de 9 horas e 24 minutos em frente às telas. 

É possível compreender esses aumentos com um exercício simples: imagine que você é um empresário e sai de sua casa às 5 horas da manhã, já resolvendo diversos problemas através da tela do celular, e fica aproximadamente uma hora no trânsito até chegar ao aeroporto. Depois, faz o check-in e embarca no avião. Já estressado, você se prepara para passar pelo menos três horas no céu e resolve cochilar um pouco, mas o estresse não o deixa dormir. Você decide assistir à sua série favorita e se distrai na pequena televisão do avião até o pouso. 

Em seu destino, você vai diretamente para uma reunião, que dura até a hora do almoço. Já com os primeiros sinais de exaustão e confusão mental, você percebe que o cardápio do restaurante escolhido para o almoço é digital: “Para acessar o menu, leia o QR Code”.

Você termina sua refeição e decide voltar direto para São Paulo. No voo de volta, consegue descansar um pouco, mas intercala os cochilos com uma olhadinha ou outra nas redes sociais. É inevitável. O avião pousa e você vai para sua casa, onde encontra seus familiares ansiosos para ir ao cinema — mais 2 horas e meia de tela, contando os trailers. Você chega em casa por volta das 9 horas da noite, exausto, mas não poderia deixar de assistir ao Derby, apelido do clássico disputado entre Corinthians e Palmeiras. Depois do jogo, desliga a televisão e vai dormir por volta da meia-noite. Um longo dia de 19 horas acordado, com pelo menos 12 delas dedicadas ao atrito entre seus olhos e as diversas telas presentes no seu dia a dia. 

Agora pense em uma rotina, também fictícia, menos pomposa: você acabou de se formar no ensino médio. Para ajudar nas contas da casa, trabalha no caixa de uma rede de fast-food. A rotina consiste em acordar às 9 horas da manhã e o seu trabalho, em frente ao computador, começa às 10 horas. Entre as centenas de clientes e as milhares de opções na tela, o sobe e desce do pescoço já lhe causa dores em menos de 3 horas. Às 13 horas, vai almoçar. Já exausto, você se distrai na tela do celular. Sanada a fome, volta ao seu posto de trabalho e só consegue pensar no retorno para sua casa. Esse momento finalmente chega às 19 horas. Você bate ponto e chega em casa pouco antes das 8 horas da noite, só pensando em descansar.

Você começa a jogar videogame às 8 e meia da noite e o entretenimento: uma partida, outra e mais outra… Quando você se dá conta, já passa da 1 da manhã e você precisa dormir para começar tudo novamente. Um dia com 16 horas acordadas, sendo mais de 13 dedicadas às telas. Uma outra posição na sociedade, outra condição financeira, mas em ambas as situações você é refém das telas. Alguns são reféns do trabalho, outros do entretenimento. Vários são reféns dos dois. 

Mesmo que você não seja um empresário ou não trabalhe em uma rede de fast-food, é muito provável que essas rotinas se pareçam com a sua. No Brasil, a relação da população com as telas nos momentos de lazer, revela dados preocupantes. Recentemente, o número de habitantes do país que passaram a usar as telas de maneira prolongada como forma de lazer aumentou. De acordo com um levantamento realizado pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenado pelo professor Rafael Moreira Claro, os moradores das capitais nacionais e os residentes do Distrito Federal passaram a gastar 2 horas por dia como lazer em celulares, tablets e computadores em 2021. Cinco anos antes, essas pessoas gastavam 1,7 hora por dia. Em contrapartida, o tempo médio do público citado em frente à televisão não sofreu grandes alterações: saiu de 2,3 para 2,2 horas diárias. Todos os resultados foram publicados no periódico científico American Journal of Health Promotion, dos Estados Unidos. 

Renan Braz Martins é um dos indivíduos que se identificam com as rotinas citadas anteriormente e que estão englobadas no levantamento do veículo científico americano. Ele mora na zona leste da cidade de São Paulo, mas é funcionário público da Universidade de São Paulo e trabalha no Serviço de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Em entrevista à Revista Babel, ele contou que costuma editar vídeos, desenvolver artes para as redes sociais e, eventualmente, escrever matérias institucionais. Devido à natureza de seu trabalho, realizado na frente das telas durante a maior parte do tempo, Renan costuma ficar cansado, mas, ao contrário da maioria, essa sensação não chega a se apresentar como exaustiva para ele. No decorrer da conversa, o funcionário da USP revelou alguns hábitos que passaram a justificar a vida aparentemente mais saudável. 

“Eu vou para a academia de manhã por questões de saúde. Quando chego do trabalho, algumas vezes pego algum livro para ler. Quando saio do trabalho ou antes de entrar, fico sem ver Instagram, WhatsApp, enfim, só preciso conversar com alguém”, declarou. Renan também revelou que vai à academia justamente por orientação médica e que os médicos já reconhecem a contribuição dessas atividades físicas para sua saúde: “Eu me sinto mais disposto, durmo melhor e fico mais relaxado ao praticar exercícios, o que se reflete na minha rotina. Eu percebo que tenho mais disposição para ler, estudar, fazer outras atividades com mais energia, e me sinto mais relaxado também”. 

Apesar de todos os esforços para minimizar os impactos negativos do grande número de telas presentes em sua vida, o morador da zona leste ressaltou que não sai totalmente ileso. “O mais notório é que eu passei a usar óculos. Minha visão piorou e, antes de trabalhar tanto em frente ao computador, eu não tinha esses problemas (…) Eu também tive casos de bursite, a cartilagem do meu ombro desgastou e o osso raspando com osso gerou muita dor. Este desgaste pode ter sido causado também por conta do trabalho, mas não é possível ter certeza.”

Esses problemas de saúde enfrentados por Renan podem ser compreensíveis devido à natureza de seu trabalho. Mas, profissionais de segmentos muito diferentes, também sofrem com as telas e buscam no esporte uma melhor qualidade de vida. 

Além das lesões, o sentimento a curto prazo também pode ser um problema. Heitor revelou que costuma ficar “totalmente cansado” após seus dias de trabalho e complementou: “Acho até que já existem estudos sobre isso. Ficar um tempo excessivo na frente de telas e computadores cansa, e cansa muito. Em algumas situações você nem percebe. Às vezes, você só percebe quando sai dali e levanta.” 

De acordo com o oftalmologista Danilo Boscoli, Heitor tem razão. Segundo o médico, depois de apenas duas horas contínuas olhando para objetos brilhantes, como as telas de computadores, smartphones ou tablets, por exemplo, o funcionamento do olho humano já começa a ficar comprometido e a dar sinais de fadiga ocular ou, como é popularmente conhecido, cansaço nos olhos. E não é apenas os olhos que são prejudicados nesse processo. A exposição excessiva a esse tipo de dispositivo pode trazer consequências para todo o corpo.

O profissional de Educação Física Vinícius Mello, que é instrutor em uma academia voltada para o público feminino, trabalha como personal trainer e também dá aulas em uma escola de futebol, fala sobre isso. Vinícius começou dizendo que as telas atrapalham a realização de exercícios físicos, pois tiram o foco e chegam a atrapalhar até o trabalho de profissionais como ele. 

Ele também revelou que costuma ser rigoroso com seus alunos ao orientar que eles evitem o uso de celular durante as atividades, e acrescentou que até a música nos fones de ouvido pode atrapalhar.

“O esporte e a prática de exercícios físicos, de um modo geral, se apresentam como santos remédios para todos os problemas. Desde a liberação de hormônios que o exercício proporciona, o sono que melhora, a alimentação que acaba mudando, tudo isso somado com a diminuição das dores. Você só alcança resultados positivos.”, explica Vinícius. 

O professor ainda destacou a importância dos esportes na hora de afastar as crianças das telas: “Para o adulto ajuda muito. Sair de casa é algo fora da rotina e faz a diferença. Mas ajuda principalmente as crianças e os jovens, que acabam encontrando no esporte algo para sair do quarto e deixar um pouco as telas de lado.”