Quando a rua era o escritório

(Arte: Julia Magalhães)

Entre entregas, improvisos e perrengues, os office boys faziam São Paulo girar — num mundo sem e-mail, GPS ou pix

Por Mariana Zancanelli

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“Sabe no Outlook, no Gmail, onde tem a caixa de entrada – o inbox – e a caixa de saída? Então, antes da internet, cada funcionário de um escritório tinha uma caixa de madeira, que era literalmente a caixa de entrada e de saída de correspondências de cada um. Os office boys iam passando pelas mesas, pegando os documentos das caixas de saída do seu departamento e levando para as caixas de entrada dos outros colaboradores. A gente era o e-mail.” É assim que Fernando Magalhães explica para as gerações mais novas como foi seu primeiro emprego: office boy em uma empresa de máquinas industriais. 

Antes da internet, dos aplicativos e das comunicações instantâneas, era nas mãos dos office boys que as informações das empresas circulavam, como demonstra Fernando. Cabia a eles a tarefa de levar documentos de um setor a outro, buscar assinaturas, protocolar papéis em cartórios, entregar contratos em empresas parceiras, pagar contas em bancos e até carregar dinheiro ou cheques pela cidade. Os boys, como eram chamados, representavam o elo entre setores, empresas e instituições, numa rotina que exigia agilidade, atenção e, principalmente, a presença, numa vida 100% offline. Os meninos — porque a maioria era bem jovem — aprendiam cedo a se virar em São Paulo, em um mundo em que o tempo era cronometrado na base do relógio de pulso e o trajeto dependia da memória, de informações de transeuntes e, claro, do indispensável guia de ruas. 

Imagem: Mariana Zancanelli

O guia era um grande mapa da cidade dividido em páginas, que exigiam certa habilidade para serem decifradas. O primeiro passo era procurar o nome da rua no índice, onde cada via vinha acompanhada de uma combinação de número de página e coordenada de quadrante, como num jogo de batalha naval. Ali podia estar apenas um pedaço da rua, e o resto provavelmente seguia em outra página, indicada por pequenas setas nas bordas do mapa. Era preciso ir e voltar entre as folhas, conectando os trechos até montar o percurso inteiro. Com o trajeto mais ou menos definido, vinha a próxima etapa: esquematizar o melhor caminho entre ônibus, metrôs e caminhadas.

Clique aqui para acessar o infográfico completo e ampliado sobre a utilização do guia de ruas. Imagens e elaboração: Mariana Zancanelli

Fernando usava o famoso Guia Quatro Rodas para circular entre Diadema – onde morava e trabalhava – e São Paulo – onde estava a maioria dos destinos. Ao chegar na empresa, pegava a lista de endereços que precisava visitar no dia e tentava montar o melhor itinerário, conferindo as linhas de ônibus que passavam pela região. Na prática, porém, o planejamento nem sempre funcionava. Muitas vezes, ele não sabia exatamente onde deveria descer – principalmente em avenidas muito longas. A numeração não era apresentada de forma clara no mapa: os números minúsculos apareciam ao lado de cada via, geralmente uma vez a cada quarteirão, dando apenas uma noção de em qual sentido seguir.  “Você ia de ônibus até certo ponto, depois era na sola. O guia não era muito difícil, mas a numeração era complicada, você tinha que andar, não tinha jeito”, conta. 

Como Fernando, Haroldo Freire também encarava as ruas da cidade diariamente nos anos 1990. Aos 16 anos, trabalhava como office boy em uma empresa de exportação de minérios na Avenida Paulista e começava o expediente sempre do mesmo jeito: abrindo o guia de ruas para planejar o itinerário do dia. O chefe passava a lista de tarefas – um banco por aqui, uma empresa na Rebouças, outra no Jaguaré – e, como o guia ficava na sede da empresa, Haroldo precisava memorizar o caminho antes de sair. Para se orientar e evitar problemas com a numeração, criava estratégias baseadas nos cruzamentos que conhecia bem. Por exemplo, ao ver o encontro da Rebouças com a Avenida Brasil, já sabia que sua parada era a próxima. “Eu sempre associava duas avenidas principais que se cruzavam”, explica.

No entanto, um bom planejamento nem sempre era o suficiente para cumprir as tarefas. Receber um endereço errado era um pesadelo recorrente. Sem celulares, a solução era parar em um orelhão, comprar fichas e ligar para a empresa. Era necessário esperar que o chefe confirmasse o endereço com o cliente e retornasse a ligação. O problema é que o novo destino quase nunca ficava perto do original. “O serviço que levaria uma hora podia demorar duas, três horas”, relata Haroldo. Nessas situações, era preciso pedir um guia emprestado em uma banca de jornal para tentar se localizar de novo ou pedir ajuda aos moradores e comerciantes locais. Em meio às memórias, ele ri ao lembrar de um dia em que acabou se perdendo em frente a um cemitério: “Era uma avenida que só tinha o cemitério. Para quem eu ia perguntar?”

Haroldo utilizava muito as linhas “Avenidas”, populares nos anos 1990. Eram cerca de cinco itinerários percorrendo as principais avenidas de São Paulo de forma circular, ou seja, sem início ou fim. Imagem: Museu Virtual do Transporte/SPTrans

Na zona leste de São Paulo, outro office boy também enfrentava desafios para se localizar. Roberto Santana foi office boy de 1979 até meados da década de 1980, atuando em uma metalúrgica no Tatuapé. Seu método era mais analógico ainda: anotava os nomes das ruas, os números das linhas de ônibus e os pontos de parada em pequenos papéis, que levava consigo durante os trajetos. Mas nem isso impedia os contratempos: “Eu me perdi muitas, muitas vezes. Uma das mais icônicas foi quando eu estava em Guarulhos”. Ele já estava dentro do ônibus quando percebeu que havia perdido as anotações com o itinerário. Ele lembrava o nome da rua, mas não sabia a localização exata. Perguntou ao motorista, ao cobrador, mas ninguém soube informar. “Eu pensava: ‘e agora? O que eu faço? Para onde eu vou?’. Eu olhava para um lado e por outro sem saber o que fazer. Em certo momento, eu pensei ‘vou descer, não vou ficar mais aqui”. Desci. E eu estava a menos de dois quarteirões de distância da rua certa. Eu não sei qual é o santo protetor dos office boys, mas deu certo!”, brinca. 

O padroeiro dos office boys salvou Roberto diversas outras vezes. Trabalhando no setor financeiro da metalúrgica, ele era responsável por levar maletas com dinheiro vivo ou cheques para cartórios e bancos – uma tarefa bem difícil de imaginar nos dias de hoje, em tempos de pix e transferências instantâneas. Saindo sempre do mesmo banco, o antigo Banco Comind (Banco do Comércio e Indústria de São Paulo), Roberto era abordado por homens que ficavam ao redor da instituição tentando intimidar as vítimas para entregar a quantia. Após passar pela situação pela terceira vez, o office boy decidiu comunicar seu superior, que se ofereceu para ir ao local com ele para ver o que estava acontecendo. “E aí, nesse dia que o meu gerente foi comigo, cadê os caras? Eu fiquei com aquela cara de tacho, né?”, relembra com bom humor. Apesar dos sustos, Roberto nunca foi roubado de fato, mas ficava desconfortável com a situação: “mexe muito com o psicológico, porque quando você começa a passar por esse tipo de situação, você acha que está todo mundo te seguindo.”

Fernando também sofreu com as tentativas de roubos e furtos de dinheiro em espécie. “Quando eu era moleque, eu fazia alguns pagamentos em um banco que tinha dentro da empresa. A pessoa do caixa ficava conversando com você e ia tirando o dinheiro, roubando mesmo. As contas vinham todas erradas. Depois que descobriram que o cara estava roubando e mandaram ele embora. Mas eu não tinha noção, era completamente inocente”. Após o episódio, foi ganhando experiência e aprendendo a identificar situações em que precisava ficar em alerta. Haroldo também tomava cuidado para não ser roubado, mesmo que ainda não existisse o risco de levarem seu telefone: “a gente não tinha o celular, mas a gente andava com o walkman. Eu também não andava com relógio na rua, não andava com pastas, só mochila tipo de escola, para tentar não chamar atenção e evitar ser roubado”. 

Embora houvesse grande preocupação com assaltos – afinal, era o dinheiro da empresa que estava em jogo –, os boys relatam que era mais fácil confiar em desconhecidos. As dificuldades da época, como a falta de GPS e internet e a necessidade de fazer muitos procedimentos presencialmente, aumentavam a proximidade entre as pessoas. “A gente tinha que ter contato com as pessoas, e elas interagiam. Então você lembrava: ‘ah, eu preciso passar na Avenida Butantã, onde tem aquela florista que me deu uma informação um dia’, ou ‘vou perguntar naquela padaria que tem um pão doce maravilhoso, perto do estádio do Morumbi’. Até arrumar namoro no busão a gente conseguia! Dava para xavecar uma menininha e tal. Tudo isso no ônibus, no metrô, na fila do banco. Essas coisas faziam a gente se atrelar aos outros, tinha uma comunicação, uma proximidade. Era uma vida que gerava esse entorno de pessoas”, relata Haroldo. “Nos dias de hoje não tem nada disso. Você senta no ônibus, coloca o seu fone de ouvido, mexe no seu celular, cada um na sua e acabou. Hoje a informação está na sua mão, e nos torna indiretamente mais egoístas. Nós estamos mais egoístas.”, continua.

“A gente encontrava muita gente solidária”, afirma Roberto. Certo dia, precisou ir a um cartório na Avenida Brigadeiro Luís Antônio para quitar uma dívida em nome da empresa. O valor principal seria pago com um cheque visado, mas as custas processuais do cartório tinham que ser pagas em dinheiro vivo. E foi aí que surgiu o problema: faltou dinheiro. “Não sabia se tinha perdido, se a empresa tinha dado a menos… só sei que na hora faltou”, relata. Na fila atrás dele, um homem acompanhava a situação e se ofereceu para pagar a quantia que faltava. “Era um senhorzinho japonês, lembro até hoje da fisionomia dele”, descreve  sorrindo.  Sem celular ou qualquer outra maneira de resolver o impasse na hora, Roberto aceitou. Recebeu cerca de R$ 300 – estimando em valores atuais –, pagou as custas e voltou para a empresa para relatar o episódio. Ao revisar o caixa, o gerente percebeu que realmente havia entregue dinheiro a menos, e deixou que o boy ficasse com o valor de presente. “Isso foi em uma sexta-feira, eu e minha namorada íamos descer para a praia no fim de semana, e eu não tinha nenhum conto no bolso. Essa foi uma das melhores viagens que eu tive na minha vida, porque eu nunca tinha dinheiro, e de repente R$ 300 reais pra gastar! Foi a glória, né?”, conta Roberto, mais uma vez agraciado pelo padroeiro dos office boys.

Se a corrente de solidariedade já era forte entre desconhecidos, entre os colegas de empresa era ainda mais especial. Fernando explica que, por ter começado muito jovem, com 12 anos, recebeu muita ajuda dos funcionários mais velhos. “Tiveram pessoas muito boas. Eles me ensinavam coisas meio básicas, como tomar cuidado com quem fala e o que fala dentro do ambiente corporativo, sempre estudar, se preocupar em fazer as coisas direitinho”. O carinho era tão grande que o menino ganhou até festa de aniversário surpresa, com direito a bolo, refrigerante e parabéns. “Quando eu cheguei com a correspondência, já estava todo mundo dentro da sala, era uma sala bem comprida. Eles me colocaram ali no meio e cantaram parabéns. Eu fiquei super feliz por saber que as pessoas gostavam de mim”. 

Aniversário de 13 anos de Fernando, em 1992. Imagem: Acervo pessoal/Fernando Magalhães

Haroldo também comemorou o aniversário com os colegas, e ganhou uma celebração surpresa em um momento delicado, meses após o falecimento de seu pai. Ao completar 17 anos, o rapaz chegou cedo ao escritório, como sempre fazia, e foi surpreendido com uma salva de palmas, palavras de incentivo e até um walkman de presente. “Até chegar na minha mesa, as pessoas cantavam parabéns, batendo palma, dizendo que eu era importante. Foi um negócio marcante pra mim dentro da empresa. Porque tinha sido um ano muito, muito difícil. Naquela época, as pessoas precisavam de pessoas. Hoje em dia, infelizmente, nós estamos na frente de um computador, de um celular, e estamos nos afastando das pessoas”.

A união entre os próprios office boys também se manifestava de diferentes formas. Os ex-boys não se recordam de nenhum sindicato ou grupo específico, mas Roberto lembra de um evento em especial que mobilizava toda a categoria no começo dos anos 1980: o Futeboys, um campeonato de futebol disputado unicamente pelos office boys de São Paulo. Ele conta que não chegou a disputar – “porque não tinha muita qualidade”, admite entre risos –, mas gostava de acompanhar os jogos: “Tinha muita divulgação, naquela época o rádio era um dos maiores meios de comunicação, e muitos locutores esportivos transmitiam. Era muito bacana e movimentava muita gente”. 

O campeonato Futeboys foi organizado oficialmente em 1978 pela Secretaria Municipal de Esportes de São Paulo. Imagem: Reprodução/YouTube/TV Cultura
Em 1979, na segunda edição do torneio, mais de 730 equipes se inscreveram, segundo o portal Mexendo no Baú. Imagem: Reprodução/YouTube/TV Cultura
Os jogos aconteciam em ruas, avenidas e estacionamentos da cidade de São Paulo. Imagem: Reprodução/YouTube/TV Cultura

Após mais de 40 anos e muitas invenções tecnológicas que transformam a vida dos trabalhadores, o que restou foram as memórias dos velhos tempos, quando a vida poderia até ser tecnicamente mais difícil, mas também era socialmente mais simples. “Hoje, com 60 anos, a maior alegria que eu tenho é ir ao banco, é nostálgico demais. Eu fui ao caixa eletrônico depositar um cheque e tive que ficar uns 15 minutos olhando o pessoal para ver como fazia. Mas não era nada que eu já não tivesse feito no passado, você aprendia por observação. As pessoas devem pensar ‘o cara é louco de gostar de ir ao banco’, mas é uma coisa linda demais, é gostoso. Para quem trabalhou com isso, é muito bacana”, revela Roberto. Questionado sobre quando deixou de ser office boy, o hoje economista respira fundo e dá uma resposta tão simples quanto manusear um guia de rua: “Na verdade, acho que até hoje eu nunca deixei de ser”.