‘Qual que é o teu corre?’

(Imagem: Montagem por Cecília O. Freitas)

Empreender é cada vez mais comum entre adolescentes; mesmo sem amparo da lei, eles preferem a informalidade ao CLT e pagam para ver se empreender vale mesmo a pena

Por Thaís Moraes

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À espera da irmã voltar da faculdade, Ana Júlia de Araújo, 17 anos, observa a rua onde mora em Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo. A rua tem uma fileira de casinhas simples, nem todas terminadas; algumas estão assim há anos. Lá fora, as crianças andam de bicicleta em círculos, perseguindo umas às outras aos risos.

Já fazia algum tempo que a irmã, Thaís Inara de Araújo, 25, voltava sempre de cara amarrada, porque o trampo na farmácia ia bem mal. Todo dia a Thaís contava um absurdo diferente – um colega que foi humilhado pelo gerente, um comentário racista, uma situação injusta que ferrou pro lado dela. Até que, um dia dessa mesma semana, ela chegou em casa mais chateada do que o normal. Foi demitida.

Nos dias depois disso, uma pergunta pairou entre as duas: “O que a gente faz agora?”. Além de dar uma força nas contas da família, era com o salário da Thaís que elas saíam para se divertir um pouco, encontrar amigos, comprar um livro ou dois. Perder isso significava um longo período de contar moedinhas – e entregar currículos em mais lugares do que é possível contar. 

Quando Thaís finalmente chega em casa, cumprimenta os pais desanimada e puxa uma cadeira para sentar-se perto de Ana, que lhe oferece um cigarro. As duas conversam brevemente sobre o dia, mas não demora muito para que a conversa volte ao mesmo lugar. Enquanto um outro emprego não chega… o que a gente faz agora?

Com o cigarro passando de uma para outra, as ideias vão surgindo. Primeiro algumas ruins, outras meio complicadas, mas possíveis, até que Ana sugere a cozinha. A Thaís cozinha muito bem; é um hábito que vem de criança, já que a família do pai tem um restaurante de comida brasileira (feijoada, virado à paulista, cuscuz e muita pimenta). Na família da mãe, também tem mais de uma boleira de mão cheia. Não é algo que a Thaís ame fazer no tempo livre, mas não dá para negar que ela manda muito bem – principalmente na torta salgada.

A irmã mais velha parece gostar da ideia. Torta salgada é algo prático, todo mundo gosta. Não é uma receita difícil, nem leva muitos ingredientes. Elas podem começar com um recheio só e depois ir aumentando o cardápio. A Ana pode começar vendendo na Etec onde estuda; assim que a Thaís arranjar outro trampo, pode vender por lá também. As ideias chegam e se sobrepõem numa velocidade difícil de acompanhar. Ana Julia liga o gravador do celular para não perder nenhum detalhe, e a conversa segue até bem depois das crianças da rua irem dormir.

Na mesma semana, a Tha, torta já tinha nome, identidade visual e uma lista de ingredientes para começar. “A gente pegou R$ 200 e comprou o nosso primeiro estoque,” conta Ana Julia, “mas fizemos tudo errado.” Compraram uma porção de ingredientes desnecessários, e o que precisavam mesmo ficou faltando; lá foi Ana Julia correndo para a vendinha do bairro, pagar o dobro em uma caixa de leite ou um litro de óleo.

Com as tortas prontas, o próximo desafio foi apresentar o produto para a Etec. No começo, Ana sentia vergonha de falar com quem não conhecia, principalmente porque as pessoas a procuravam querendo comprar bolos no pote, o que afundava as irmãs em frustração. As primeiras vendas foram modestas. Com um pouco de esforço, os pedidos foram aumentando – e isso logo se tornou um problema. 

“Eu acho que [a gestão de tempo] foi um dos nossos maiores desafios. Teve um dia que a gente precisava entregar uma encomenda às 17h30, já era 16h e ainda tava no meio da produção. Foi loucura, desespero, sensações que eu nunca senti na vida. Até porque a gente não faz só isso da vida, né?”

Com um pedido atrás do outro, era difícil até arranjar lugar na geladeira da família para tantos produtos. A solução desse problema, em geral, é preparar as tortas no mesmo dia da entrega. Na rotina da Thaís, isso significa ir ao mercado com a mesma frequência em que o dinheiro pinga na conta. “Muitas vezes não dá tempo de reinvestir em outras coisas que a gente precisa pro negócio. É uma quebra de padrão de empreendedorismo de quem tem R$ 5 mil pra investir.”

Cinco anos depois, relembrando o dia em que a ideia surgiu, Thaís comenta: “Eu achava que eu ia chegar no primeiro dia de venda e todo mundo ia querer torta por obra do destino”, e elas riem juntas.

Corre nosso de cada dia

Alexandre Ribeiro sai de casa com frequência para uma volta de bike pela cidade. Os horários variam bastante, mas ele sempre passa por uma porção de placas com palavras mais longas do que o normal. Nessa época do ano, o clima fica mais nublado e chuvoso, então ele precisa de um casaco reforçado. Quando vira a esquina perto demais de um pedestre, grita “Achtung!” – e isso já virou rotina. Faz 7 anos que Alexandre vive na Alemanha, quando se mudou para fazer faculdade no Bard College Berlin com uma bolsa de estudos. 

Uma oportunidade imperdível – até a página dois. Em 2019, Alexandre ainda era o “Alezinho” que morava com a mãe na Favela da Torre, em Diadema, onde estudava e fazia uns corres. Com 13, ele revendia bonés da China para os amigos da escola (“Hoje isso chama dropshipping”), e com 15 já fazia bicos perto de casa. Uns anos depois, ele trabalhou como produtor na Laboratório Fantasma, a firma do Emicida – por lá, seu apelido era Alezinho Correria. Muitas experiências iradas, mas ainda nada que pagasse aluguéis em Berlim. 

Além de uma vaquinha incentivada pelos amigos, a saída para complementar a grana foi oferecer aulas de inglês para os jovens da quebrada. Surgiram tantos alunos que foi preciso abrir um MEI; assim nasceu a Da Quebrada pro Mundo.

Quem observa sua vida de fora percebe que Alexandre é um empreendedor nato: o mesmo moleque que já vendeu CD e boné é quem lidera uma startup grande, com funcionários e contas (gordas) a pagar. Na visão dele, existe mais de um tipo de empreendedorismo, e o Brasil é marcado por dois.

 “O primeiro é o mais clássico, e infelizmente é o que mais faz sucesso na internet. É o empreendedorismo de um herdeiro que está fingindo ser uma pessoa trabalhadora. Do outro lado da moeda, tem umas pessoas empreendedoras que nem pensam nessa palavra. Na verdade, a palavra que é falada na sala de aula é o corre. ‘Qual que é o teu corre?’”.

O corre é tão importante que já virou objeto de estudo. Um mapeamento de 2006 para o Banco Interamericano de Desenvolvimento, conduzido por Juan José Llisterri, investigou o perfil dos jovens latinos que empreendem e identificou dois perfis mais frequentes. Tem quem empreenda depois de encontrar uma brecha de mercado, uma oportunidade – e tem aqueles que criam seu próprio nicho por necessidade de fazer grana, ou seja, quem faz seus corres.

O segundo é sem dúvidas o mais comum. Quando empreende por necessidade, o jovem busca soluções criativas para levantar uma grana que ajuda em casa, traz lazer e integração social – justamente numa fase em que pertencer é tão importante. Mesmo com bastante conhecimento na bagagem, Alexandre ainda se identifica com este segundo perfil por uma questão de princípio. “O meu empreendedorismo não vem numa planilha, num business plan, aquelas coisas que você aprende quando vai fazer MBA. Ele vem como um primeiro espaço de sobrevivência.”

De 2006 para cá, a América Latina de Llisterri mudou bastante. No Brasil, pelo menos duas crises econômicas – uma em 2008 e outra em 2020, com a pandemia – contribuíram para colocar empregos em xeque. Além disso, a própria lei faz com que as empresas pensem duas vezes antes de contratarem empregados CLT, explica o pesquisador e ex-professor da FGV Sergio Bulgacov. “Você tem um funcionário que ganha salário mínimo, e os impostos são iguais ou até um pouco maiores do que o próprio salário do trabalhador”, afirma. “O que as empresas estão fazendo é reduzir os salários. Hoje você vê jovens muito competentes, muito inteligentes, brilhantes até, ganhando só um salário mínimo.”

“Eu acho que o jovem está certo em procurar esse mundo [do empreendedorismo] para poder se aventurar profissionalmente, para atingir seu espaço de trabalho. Eu acho que faz muito bem. Agora, por outro lado… para a economia, isso é um desastre”. Sergio reserva um sorriso irônico no rosto, saboreando a ironia. “Os adultos e idosos dependem da Previdência Social, tanto por questões de saúde quanto para receber a aposentadoria. Se não tiver jovens suficientes [contribuindo], eu diria que quatro ou cinco jovens para cada aposentado… essa estrutura social não vai se manter.”

Nesse meio tempo, a internet também entrou na equação. Com ela, criar um negócio digital ficou mais atrativo do que nunca – ao mesmo tempo em que a concorrência cresce sem freios. A partir de 2015, plataformas de blog e redes sociais como o Youtube, Instagram e o TikTok, este mais recente, começaram a moldar uma nova profissão: híbrido de celebridade e empresário, o influencer monetiza sua vida ao indicar produtos e serviços a uma comunidade de seguidores.

Inspirados por influencers, mais e mais jovens entendem que empreender nas redes pode ser alternativa ao CLT. “De alguma forma”, argumenta Sergio, “tudo isso gera forte questionamento sobre o que é sucesso, né? O jovem está se perguntando: qual é o trabalho que gera, de fato, resultado para minha vida?”

Ter patrão ou ser patrão

Em poucos cliques no Google, a ideia de empreender vira dor de cabeça. No Brasil, não dá para ter um CNPJ para chamar de seu antes dos 18 anos (ou 16, com emancipação dos pais). Ou seja: “você não vai poder ter dinheiro, a não ser que aja de forma ilegal usando o nome de terceiros”, raciocina o pesquisador. “O jovem fica submetido a chuvas e trovoadas quando ele depende de adultos para poder empreender.” 

Ele entende que, a cada ano em que a lei não é atualizada, o Estado falha com o jovem – em especial porque as consequências da informalidade se alongam para depois da adolescência. Segundo o relatório Empreendedorismo Jovem no Brasil, divulgado pelo Sebrae em março deste ano, a maioria dos jovens empreendedores de 18 a 29 anos atua por conta própria (92%); desses, quase 70% trabalha sem registro formal do negócio.

O relatório indica ainda que o rendimento desses jovens é 26% menor do que a média das demais faixas etárias; além disso, de todos os negócios que são iniciados no Brasil, um a cada cinco não sobrevivem ao seu primeiro ano, segundo o IBGE, uma taxa de fracasso alta demais e que pesa especialmente sobre quem não tem experiência.

Mesmo assim, a fatia de adolescentes e jovens adultos donos de negócios aumenta a cada ano: desde 2012, o número subiu em 25%. Dentre as razões que podem explicar o fenômeno, Sergio aponta a necessidade que muitos têm de fazer uma jornada dupla, alternando entre os estudos e o trabalho, seja ele formal ou informal – isso os afasta ainda mais do CLT, vencidos pela exaustão.

Alexandre acrescenta mais uma razão. Ele até concorda que muitos fazem a tal jornada dupla, ou que se iludem achando que é fácil ganhar a vida na internet, mas para ele o motivo é bem mais simples do que isso.

“Quando você é preto e favelado, chegam assim: ‘Vai ter um trampo aqui para vocês. Vocês vão trabalhar que nem uns filha da puta, das 8 às 18. Vai carregar peso, tá ligado? Vai ser humilhado pelo seu chefe, porque seu chefe também não gosta do trabalho dele. E você vai ganhar sabe o quê? Um salário mínimo’”.

A cada frase, seu tom de voz vai subindo para acompanhar a indignação. No final, ele balança a cabeça, gesto inconsciente de quem afasta energia ruim. “Oxe, o mano faz as conta, eu fiz as conta também. Não compensa.”


***

Refletindo sobre o trampo como balconista de farmácia, Thaís não sente mesmo vontade de voltar pro CLT. Existe a oportunidade de crescer, é verdade, e tem quem queira seguir carreira na empresa. “Mas nem todas as pessoas vão conseguir espaço para crescer no mercado de trabalho. Para pessoas negras, pessoas periféricas, LGBT, isso vai ser sempre muito mais difícil, sabe? Então, quando a gente fala ‘ai, CLT é possível’… é possível, mas para qual cargo? Para quais pessoas?”

Sentada ao seu lado, a irmã Ana Julia acaricia Chico, o cachorro. Para ela, a experiência de trabalho formal está sendo um pouco diferente. Com o Tha, torta dando certo, Ana decidiu fazer um estágio de 6 horas semanais perto de casa. O ambiente é melhor, ela conta, mas não o suficiente para sonhar com a efetivação. Trabalhar com tortas salgadas é o que permite a ela expressar sua personalidade de verdade – ter tatuagem, piercing, falar palavrão e não se sentir menos por isso. Hoje ela se pergunta, inclusive, porque demoraram tanto para começar.

Thaís é mais cautelosa. “O contraponto que eu tenho”, diz, “é que o empreendedorismo não é para gente fraca. Não é para quem tá acostumado a ganhar tudo por causa de choro, entendeu? Chorar não vai resolver. É sangrar no mar de tubarão.”

Elas concordam que, seja empreendendo ou trampando CLT, sempre vão existir dificuldades; ficar rico apenas com o trabalho é irreal, e o conceito de “ganhar bem” não é o mesmo para todo mundo. “‘Ai, vou ser CLT pra ganhar R$ 10 mil por mês’. Mas R$ 10 mil é grande só na mente de quem pensa pequeno. Para quem tá lá na onde a gente quer chegar, não tá pensando em R$ 10 mil. Tá pensando em milhões, entendeu?”

Quando a grana pinga na conta

Já é bem tarde da noite quando o celular de Alexandre vibra com uma ligação. O número é do Brasil, onde o expediente do centro financeiro de São Paulo, a Faria Lima, ainda não acabou.

Uma amiga de Alexandre avisou que essa ligação poderia chegar. Ela é diretora de uma ONG que sempre recebe doações e investimentos de grandes empresas, e indicou Ale para uma conversa com um possível investidor. 

Assim que ouve o primeiro “alô”, Alexandre imagina como deve ser o homem na vida real: um executivo de terno e gravata, que passa o dia todo falando difícil em uma sala onde todo mundo é branco (com aquele sotaque insuportável você-sabe-qual). A voz explicou que estava procurando um projeto social para investir junto da sua empresa, e que se atraía pela ideia de ensinar inglês a jovens da periferia. Conversaram por umas duas horas. Quando desligou, Alexandre tinha no colo um contrato para injetar R$ 100 mil na sua startup.

Com essa grana, a Da Quebrada Pro Mundo deixou de ser um trabalho voluntário para virar uma empresa “de verdade”. A gama de clientes vai de iFood a Ambev e Farm, contando 1.300 alunos impactados desde a tacada inicial. Mas o caminho não foi nem um pouco linear: de lá pra cá, a empresa atingiu seu auge, quebrou, se recuperou – e ainda tem muita água para rolar. 

“Se você não tem grana [para o seu negócio], você vai precisar da grana de outras pessoas. Isso, no meu caso, também me fodeu. Meu investidor anjo é um cara legal, mas não me deu a ajuda prática que eu tava precisando. Só colocou o dinheiro e depois ficou me cobrando: “E aí, mano? Cadê o resultado?””

Alexandre entendeu na prática que mais grana significa mais problemas. Essa é uma experiência comum para os jovens de periferia, especialmente para quem não tem referência na família sobre como ganhar, guardar e gastar dinheiro. “A gente se acostuma a viver num ambiente onde as pessoas estão sempre com a corda no pescoço”, relata Ana Julia, referindo-se ao Tha, torta. Para dar conta de gerir o caixa, ela e a irmã devoram cursos no Sebrae, assistem aulas na internet e fazem até o ChatGPT de conselheiro. Por mais que a informação exista aos montes na internet, elas sentem falta de conteúdos mais diretos e que falem com o jovem, principalmente sobre impostos e leis.

Uma pesquisa de 2019 realizada pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas junto do SPC Brasil identificou que quase metade (47%) dos jovens da geração Z entende pouco de finanças e não controla seus próprios gastos. Uns por entender pouco do assunto (19%), outros por preguiça (18%), ou mesmo por não ter hábito e disciplina para a tarefa (18%), dentre outras razões. O que preocupa é que 80% desses jovens já trabalha, 23% deles em seus próprios negócios, fazendo freelas ou trampando informalmente – e sem saber administrar a grana que pinga na conta.

“Você acha que vai ficar a vida inteira desorganizado. ‘Não vou pagar minha MEI na data, não vou nem abrir MEI’… Demorou”, alerta Alexandre. “Até o dia que a Receita Federal vai bater na sua porta com um boletão fodido pra você pagar.”

Sonhando com o futuro

“Tinha bastante gente que queria ajudar, que dava opinião, mas opiniões baseadas só no achismo, entendeu?”, Ana Julia explica com um certo tom de frustração. “Ninguém que trabalhou na área, ninguém que vendeu nada”.

Para ela, a maior dificuldade de empreender é justamente o que muitas pessoas destacam como ponto positivo: a liberdade de “fazer o que quiser”. Sem um chefe ao pé do ouvido, quem toca o próprio negócio têm o ônus de arcar com todas as decisões do trampo – geralmente na base da tentativa e erro. Quando se é adolescente, fazer as coisas do seu jeito pode ser tentador, mas vale lembrar que muitos estão exercendo a independência pela primeira vez. É o caso da Ana: “Eu tô acostumada a só fazer o que alguém pede para mim, o que “mandam”. É frustrante às vezes não ter ali um manual para você seguir quando dá tudo errado.”

Na tentativa de conseguir conselhos e apoio de quem pensa parecido, empreender entre amigos parece ser o caminho certo a seguir. Eles pensam como nós, entendem o que estamos passando e onde queremos chegar. Certo?

Com o investimento que deu gás na sua startup, Alexandre decidiu que não dava para continuar no amadorismo. Contratou um diretor audiovisual, diretor de vendas, gerente de atendimento – todas pessoas que ele conhecia, que sabiam a dificuldade de tocar a Da Quebrada Pro Mundo e que, de certa forma (ao menos em teoria), também compartilhavam o mesmo sonho. “Meu maior erro foi misturar trabalho com amizade. Eu perdi amigos, perdi pessoas da minha favela que eu contratei querendo ajudar, porque infelizmente algumas não eram qualificadas.” 

Não tem a ver com personalidade, esforço ou dedicação, mas simplesmente despreparo para empreender. Com frequência, Alexandre deixava a estratégia de lado para retomar tarefas básicas, “ensinar as pessoas a fazerem o trabalho delas”. “Eu ficava nesse dilema entre, ‘pô, eu sou um cara do coração bom, eu quero fazer bem pro mundo, pra minha comunidade’, e precisar contratar pessoas que realmente soubessem fazer o trabalho bem. Se eu puder dar só um conselho…”. Ele formula a frase cuidadosamente e depois me pede para anotar. “Trabalho é trabalho, amizade é amizade. Não contrate amigos.” 

Com a frase ainda no ar, ele balança a cabeça em negativa; tem mais um conselho, ele acaba de se lembrar, talvez mais importante que o primeiro. É uma espécie de mantra, uma regra que ele recita devagar para não errar nenhuma palavra. “Tenha a humildade de saber que por mais foda que você seja, você precisa de ajuda. É um bom conselho.”

Nas salas de aula da Fundação Getúlio Vargas, Sergio Bulgacov costumava falar o mesmo aos seus alunos da Administração. “Uma das piores coisas que eu ouvia era jovens falando assim: ‘Eu não vou falar das minhas ideias, alguém vai roubar a minha ideia’”. 

Esse medo tem pouco a ver com a realidade – na verdade, falar de uma ideia aumenta (e muito) as chances de que ela dê certo, na visão do professor. Afinal de contas, a receita de um negócio de sucesso começa pela ideia, mas envolve muito mais: tem protótipo, fase de testes, captação de investimento, tração. E esse é só o começo. 

“Saiba conversar com as pessoas certas sobre o que você quer fazer e aonde você quer chegar. Não tenha medo disso”.

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