(Imagem: Montagem por Alessandra Ueno)
Já se identificou muito com alguma descrição do horóscopo? Então esse texto é para você
Por Laura Lima
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Deixe-me adivinhar. Você – isso mesmo, você, que está lendo esse texto — sente muita necessidade de agradar os outros. Pais, amigos, professores… Você – sim, você – é muito crítico consigo mesmo. Talvez seja porque você sabe que tem muito potencial, mas por algum motivo não consegue fazê-lo render. Uma habilidade musical, um futuro brilhante no esporte perdido… É curioso, às vezes você é muito extrovertido, mas em outros momentos você pode ficar bastante introvertido e reservado. Acertei? Não, eu não escondi uma câmera no seu quarto. Pode ficar tranquilo, também não roubei o seu diário, muito menos liguei para a sua mãe.
A técnica que usei foi descoberta em 1949, por um professor estadunidense de psicologia chamado Bertrand Forer. Um dia, Forer chegou para lecionar o curso de Introdução à Psicologia no Veterans Administration, em Los Angeles, com uma proposta inusitada. Ele entregou 39 folhas de papel, uma para cada aluno, com 13 frases que faziam um diagnóstico individual, montado especificamente para cada estudante com base em outros trabalhos que entregaram ao longo do curso.
A curiosidade inicial foi rapidamente substituída por um medo de invasão. Será que estavam prontos para divulgarem publicamente na sala seus traços mais profundos de personalidade? O que será que aqueles 39 papéis revelariam? Acanhados, os alunos pediram para sentar longe uns dos outros, para que pudessem ler o diagnóstico com privacidade. Forer apoiou a ideia enfaticamente. Afinal, nenhum deles poderia ler o diagnóstico alheio, senão perceberiam a grande sacada do experimento.
Isolados, os alunos puderam ler frases como: “você tem uma grande necessidade de que outras pessoas gostem de você e te admirem”, ou “apesar de parecer disciplinado e com autocontrole, você tende a ser preocupado e inseguro secretamente”.
Depois de lerem as descrições, eles foram convidados a avaliar, de zero a cinco, o quanto as frases revelaram características básicas de suas personalidades e indicar, em cada uma delas, se as frases eram verdadeiras ou falsas – ou usar um ponto de interrogação, caso não conseguissem afirmar com certeza. A média geral de concordância foi de 4,26, e só um aluno deu uma nota abaixo de 4. Quais são as chances de uma sala inteira, com 39 pessoas, ter a mesma personalidade? Não precisa ser um gênio da estatística para afirmar que é bem improvável.
Com o experimento, Forer concluiu que, quando ouvimos ou lemos uma descrição vaga e majoritariamente elogiosa, tendemos a acreditar que aquilo se refere a nós. A aceitação de descrições genéricas como verdades pessoais é um erro comum, alimentado pela tendência de buscar sentido e coerência em informações vagas. Em suas conclusões, Forer alertou que a “validação pessoal” é um método falacioso, capaz de enganar tanto leigos quanto profissionais – no caso, os futuros psicólogos que estavam em sua turma.
Depois disso, o experimento se tornou um clássico da psicologia e até hoje é reproduzido em cursos de ciências cognitivas e jornalismo para demonstrar o poder da sugestão e da linguagem ambígua.
O professor de psicologia escreveu o artigo “A Falácia da Validação Pessoal”, contando suas descobertas, e o fenômeno logo ficou conhecido como efeito Forer. Alguns anos depois, em 1971, o psicólogo Paul Meehl designou-o também como Efeito Barnum, referindo-se ao ilusionista norte-americano Phineas Taylor Barnum, conhecido por ser um mestre do ilusionismo e da manipulação psicológica coletiva.
Mas as frases usadas por Forer no experimento não foram inventadas por ele: elas foram retiradas de horóscopos astrológicos. Sucesso na juventude mundial e difundida ao redor do mundo desde o Império Romano, a astrologia é um dos principais exemplos do uso do Efeito Forer para se popularizar e atrair cada vez mais pessoas.
Iara Félix, Libra, é uma dessas adeptas. Quando fez uma leitura de mapa astral pela primeira vez, aos 29 anos, ela se surpreendeu. “Fiquei meio assustada. Não sabia que seria uma leitura tão profunda, que falaria de várias questões da minha vida”, lembra. O encantamento foi tamanho que ela decidiu seguir carreira na astrologia e, hoje, trabalha integralmente com sessões de leitura. “Hoje em dia para mim é muito óbvio que é um raciocínio lógico, mas na hora me parecia uma coisa meio mágica. Ela falou dos meus pais, dos meus amigos, da minha chefe… Parecia que ela tinha lido meu diário”, conta.
Carlos Orsi, signo não-declarado, sentiu algo parecido quando comprou um fascículo da Editora Abril, específico do signo solar dele – quando perguntado, ele se negou a revelar. O livreto ensinava a calcular o ascendente, e ele se jogou no cálculo. Ao fim do estudo, chegou a um resultado mágico: ele viu, em frente aos seus olhos, uma descrição assustadoramente perfeita de sua personalidade.
Pouco tempo depois, foi checar com a mãe o horário em que tinha nascido, e percebeu que tinha errado. Refez os cálculos e viu que seu mapa era completamente diferente. Mas, para seu choque, continuava sendo uma descrição exata de sua personalidade. Foi aí que ele começou a se questionar.
Quarenta anos depois, ele se dedica a desmentir pseudociências, como a própria astrologia. Ele é autor do livro “Que Bobagem! pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério” e publicou, em 2015, o e-book “O Livro da Astrologia: Um guia para céticos, curiosos e indecisos”, em que desvenda os segredos por trás do sucesso da leitura dos céus. “A astrologia é um bom modelo teórico para pensar as pseudociências em geral e a forma com elas tentam se manter e se validar”, argumenta.
Ele explica que existem quatro características que definem uma frase Forer. A primeira é a vagueza. “São afirmações abertas o bastante para que a própria pessoa preencha as lacunas com o que faz sentido para ela. É o que chamamos de validação subjetiva: a frase entra genérica na sua cabeça e, dentro dela, vira específica”, aponta.
Um exemplo clássico é: “Você tem muitas capacidades que você ainda não explorou”, uma das 13 proposições selecionadas por Forer. Ao ler a frase, cada pessoa completa com algo diferente — um talento musical, uma facilidade com determinada matéria da escola, um curso que nunca fez. Ou seja, a frase genérica torna-se específica na cabeça de quem a lê.
A segunda característica é o uso de frases que afirmam e negam ao mesmo tempo, o que as torna impossíveis de refutar. “É o clássico: ‘às vezes você é extrovertido, mas em outros momentos é reservado’. Pronto, cobre 100% das possibilidades. É uma forma de dizer tudo e nada simultaneamente”, ironiza Orsi.
O terceiro fator é a especificidade aparente: quanto mais o enunciado parecer feito sob medida para o público, mais convincente ele se torna. “Se você está falando com adolescentes, diga algo sobre vida amorosa. Se for um público de 30 e poucos anos, fale de trabalho ou de filhos. O truque é parecer personalizado, mas, na verdade, você só está usando padrões sociais previsíveis”, defende.
Ele comenta que é possível identificar a classe social do leitor de uma revista apenas pelo texto do horóscopo publicado nela. “Horóscopos de revistas voltadas para mulheres de classe média alta falam em viagens e presentes para si mesmas; os de revistas populares falam em pagar contas, lidar com o chefe e estimular a economia. É muito menos sobre o signo e muito mais sobre o público-alvo.”
Por fim, vem a desejabilidade. “As pessoas preferem acreditar em coisas boas sobre si mesmas. Então, quanto mais lisonjeira for a afirmação, mais ela gruda. Ninguém quer ouvir que é chato, preferem ouvir que é mal compreendido”, brinca Orsi. Ele cita que há uma proporção ideal para convencer seu alvo: 75% de elogios pessoais, falando sobre talento, sensibilidade e inteligência, e 25% de críticas genéricas, daquelas que valem pra todo mundo, como em “às vezes você se irrita” ou “você confia excessivamente nas pessoas”. “Esse equilíbrio faz o texto parecer humano, real, mas ainda positivo”, conclui Orsi.
Esse conjunto de técnicas é o que dá poder a discursos como o da astrologia, da leitura de mãos e de outras pseudociências, de acordo com ele. “São construções retóricas muito eficientes. Elas fazem a pessoa se reconhecer no texto, e, a partir daí, acreditar que aquilo é uma descrição verdadeira de si mesma. Mas é apenas um truque psicológico muito bem montado.”
Mas, se para os céticos o efeito Forer explica boa parte do encanto, para quem vive a astrologia de dentro, como a astróloga Iara Félix, o fenômeno vai além do truque psicológico. Há, segundo ela, um espaço legítimo de autoconhecimento e reflexão pessoal.
“As pessoas buscam a astrologia em momentos de crise ou mudança, quando estão tentando se entender melhor”, explica. Segundo ela, é comum que os clientes procurem o mapa astral para “validar o que já sentem”, em busca de uma explicação simbólica para fases de incerteza. “A astrologia oferece esse espelho”, resume.
Carlos Orsi reconhece que a astrologia pode funcionar como entretenimento ou linguagem poética, mas alerta para o perigo de se levar essas narrativas a sério demais. “Astrologia é que nem álcool ou outras drogas”, compara. “Tem o uso recreativo, a gente brinca, lê o horóscopo, mas, como qualquer droga, o ideal é não usar. E as pessoas precisam ter a informação de que é algo que faz mal.”
Ou seja: da próxima vez que alguém disser que seu mapa astral indica uma “vocação para cuidar”, talvez valha a pena respirar fundo antes de decidir prestar vestibular para medicina. Pode ser só o efeito Forer em ação. “Não adianta dizer ‘os astros mandaram’. É muito mais sobre o que você faz com aquilo que aparece no seu mapa”, resume a astróloga.
