(Arte: Elaine Borges)
Criado para estimular o treino em grupo, aplicativo GymRats expõe os dilemas entre constância saudável e competitividade tóxica
Por Caroline Santana
Versão em aúdio:
Quando alguém usa a expressão “rato de academia” ou “Gym rat”, o que passa pela sua cabeça? Roedores correndo na esteira em algum experimento científico? Ou quem sabe, pessoas que gostam de praticar exercícios físicos com regularidade. Que tal um aplicativo com um ícone vermelho e um ratinho super musculoso na capa?
Com a proposta de transformar o treino em uma competição – às vezes não tão amigável assim – o aplicativo americano
GymRats vem conquistando espaço entre os amantes da vida fitness e aqueles que querem adentrar nesse universo.
A plataforma funciona como um Torneio Tribruxo – uma competição do mundo mágico de Harry Potter que reúne três escolas de Magia Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang para tarefas perigosas e desafiadoras –, mas com atividades menos extremas que exigem disciplina, persistência e frequência. Por meio de desafios em grupo, rankings e integração com plataformas de saúde, o aplicativo aposta em uma competição positiva e tenta resgatar a motivação dos “ratos de academia” – como se fosse aquele empurrão que faltava para você manter a constância nos exercícios físicos.
“Fake Natty?”
Lançado em março de 2019, nos Estados Unidos, o GymRats acumula grandes marcos em detrimento a outros aplicativos de saúde. São mais de 500 mil usuários em todo o mundo e mais de dois milhões de treinos registrados desde então.
No Brasil, começou a viralizar em meados de 2024, impulsionada principalmente pelas redes sociais, e já alcançou o primeiro lugar dos aplicativos mais baixados, na categoria Saúde e Fitness, na Google Play no Brasil.
A plataforma oferece diferentes modalidades que trabalham objetivos físicos, níveis de condicionamento e perfis de usuários distintos. Nela, é possível criar dois tipos de grupos: desafio ou clube.
No “Desafio”, os usuários estabelecem uma competição única, com data de início e de término, e dentro desse prazo realizam uma série de atividades, que valem pontos, para alcançar o topo do ranking. Quem ficar em 1° lugar até o final do desafio ganha. Já na modalidade “Clube”, é criada uma comunidade fitness contínua, no qual as classificações podem ser registradas semanalmente, mensalmente e anualmente. Segundo a própria plataforma, esse modelo é indicado para usuários que participam de desafios – de baixa manutenção – regularmente.
A plataforma permite acompanhar o progresso dos participantes com rankings, comentários, postagens, lembretes ou recompensas simbólicas (como medalhas virtuais, cupons ou destaque no feed). Tudo isso, sob a premissa de transformar o treino em uma experiência gamificada, aumentando a motivação e o engajamento.
Em alguns casos, o grupo aposta até mesmo dinheiro como uma forma de incentivar os participantes. A estudante Mariana Campos, para os íntimos “campeã com folga no GymRats do Ecatletismo”, começou a utilizar a plataforma no ano passado por incentivo da cunhada e conta que já chegou a ganhar R$750 em apenas um desafio.
“A gente [eu e minha cunhada] achamos a ideia legal e falamos: ‘vamos criar um desafio valendo alguma coisa para animar mais o pessoal a ir para academia, fazer exercício físico. Eu me senti bem mais motivada e competitiva porque a gente apostou dinheiro né. Foi uma graninha boa, me salvou”, relatou a universitária.

“Andar na rua conta ponto?”
Mas afinal, como se ganha um desafio e quais os modelos de pontuação disponíveis?
É possível pontuar por meio de dias ativos, com check-ins dentro da plataforma – neste caso, os usuários devem publicar uma foto e postar no feed do desafio para validar o treino e tem grupo que estabelece até uma pose específica para a pontuação ser contabilizada.
Existem também os “pontos de Hustle”. Nessa modalidade o grupo estabelece uma série de atividades a serem desenvolvidas, como aeróbica, corrida, ciclismo, trilha – cada uma valendo 1 ponto – ganha quem obtiver mais pontos ao final do desafio.
É possível contabilizar uma pontuação com base na duração dos exercícios – ou seja, pelo maior tempo gasto ativo –, pela maior distância percorrida, mais calorias queimadas e, para quem gosta de caminhada, pela maioria dos passos dados.

E, com tantas opções disponíveis, os desentendimentos são inevitáveis.
Há grupos que escolhem atividades sugeridas pela própria plataforma e outros que desejam “incrementar”, personalizando seus desafios. O universitário Nathan Fernandes Oliveira, conta que já participou de diferentes desafios, com a família e com amigos da faculdade, e que desavenças acontecem com frequência.
“Eu já presenciei vários conflitos, alguns irônicos e outros em que a pessoa realmente ficou sentida. Em um desses casos, a pessoa até tirou a pontuação da plataforma por uma cobrança do grupo. Acho que com o tempo, quando a gente tem essa competição, as pessoas acabam ultrapassando seus limites”, relatou o estudante.
“Superando barreiras?”

Segundo o cientista da computação e fundador do GymRats, Mack Hasz, a essência do aplicativo é “transformar a prática de exercícios físicos em uma experiência motivadora, divertida e social”. Em tese, a plataforma funciona como uma mediadora, que reúne pessoas isoladas, que desejam ser “menos sedentárias”, e as insere em uma jornada colaborativa – a fim de alcançar um objetivo.
O psicólogo do esporte Lucas Alvarez explica que, apesar de o aplicativo fomentar a criação de comunidades, para estimular as práticas esportivas, a plataforma trabalha muito mais a competitividade individual – do participante com ele mesmo – do que coletiva. E isso não é ruim. A questão é que em alguns casos, quando a rotina é mal planejada, o indivíduo passa a sentir a necessidade de se superar sempre e estabelece metas, por vezes, inalcançáveis.
“O aplicativo cumpre a função de trazer essa possibilidade de fazer atividades simples, que você consegue. Por exemplo, dar 10 passos, andar 1 quilômetro. Porque de fato, se você começa com um quilômetro, você tá mais próximo dos 10 do que se você não tivesse começado. A grande questão é que será que esse tão sonhado lugar que eu quero chegar, não é um uma idealização impossível de ser alcançada?”, questionou Lucas.
O profissional destaca ainda que, em decorrência dessa “obsessão”, o participante esquece de estabelecer metas reais e pode acabar se frustrando ao não atingir o resultado adequado.
“Ele quer chegar lá, só que ele não consegue fazer um plano realista: o planejamento de começar a partir do que é possível para ele. Às vezes, vamos supor, ele quer começar correndo 10 quilômetros em um dia e não consegue, porque não tem o preparo físico adequado, não treina, não tem o espaço adequado para isso […] e isso gera uma frustração gigantesca.”, relatou o psicólogo.
A universitária Mariana Campos, comentou que, apesar de se sentir mais motivada e de liderar a pontuação do desafio que participa com os amigos, vivencia situações de frustração por não conseguir manter a constância desejada: “Eu já me sinto mal de não ir para a academia, praticar exercícios físicos. E me sinto mais frustrada ainda por não conseguir subir coisas no GymRats”.
Em casos mais graves, o participante acaba excedendo seus limites físicos, treinando além do necessário ou com a saúde debilitada. O estudante Nathan conta que já vivenciou e presenciou situações do tipo.
“Eu já vi pessoas se forçarem a treinar, dizendo que não deveriam, mas que iriam, literalmente, por conta do GymRats. Isso ultrapassa o limite do saudável, às vezes nosso corpo precisa de um descanso, mas a gente se força a fazer aqueles 20, 30 pontinhos a mais”, relatou Nathan.
Apesar do aplicativo proporcionar essa competitividade individual e coletiva de forma positiva, como explica Alvarez, o participante precisa ter cuidado para não exceder os limites do próprio corpo. “Entrar no aplicativo, praticar uma atividade física, ver que você está cumprindo as suas metas é prazeroso. É uma característica ontológica do ser humano, a capacidade de planejar e executar algo. O problema é quando a gente põe essa idealização tão lá na frente que a gente ignora as limitações do nosso corpo”, destaca o psicólogo.“É uma competitividade em que você não enxerga a realidade”, complementa.
Em nenhuma circunstância o treino em excesso é recomendado. Além de postergar o processo de recuperação do corpo, pode causar lesões graves, estresse e o indivíduo pode desenvolver, até mesmo, problemas psicológicos.
Mas então, isso faz do GymRats um vilão da história? Na verdade, não. A plataforma funciona, em tese, como uma mediadora entre o participante e o desafio. Por isso é necessário, antes de adentrar em qualquer grupo, avaliar se as metas estabelecidas por aquela comunidade estão de acordo com a sua realidade.
E mais importante ainda, sempre consultar um profissional antes de dar início a qualquer tipo de atividade física. “Quer entrar numa atividade física? Os aplicativos que incentivam a prática de atividade física são ótimos. Mas não deixe nunca de, quando possível, ter pelo menos uma conversa com profissionais. Eles são os melhores para ajudar”, ressaltou Alvarez.
O universitário e atleta Nathan, apesar dos percalços, recomenda a plataforma GymRats para os amigos, mas com algumas ressalvas: “Acho válido para pessoas que são sedentárias, mas não muito competitivas […]. Pessoas competitivas eu não incentivo a usarem pelos conflitos que já presenciei”.
Competitivos ou não, o GymRats é ferramenta promissora para aqueles que buscam motivação e constância na prática de exercícios. No entanto, seu uso exige equilíbrio.
A linha entre incentivo e obsessão pode ser tênue, e ultrapassá-la traz riscos à saúde física e emocional. Como em qualquer prática esportiva, o autoconhecimento e o acompanhamento profissional são fundamentais. Afinal, mais importante que vencer um desafio é cuidar do corpo e da mente ao longo da jornada. Não seja como um ratinho de laboratório, preso em um ciclo de esforço excessivo, de frustrações e de infinitos testes por um ideal desconhecido.
