Quando saímos da internet, o que sobra da política?

(Imagem: montagem Emanuely Benjamim)

Em meio a vídeos curtos, memes e stories, a atuação de deputados, vereadores e prefeitos de forma presencial ainda é necessária para o exercício dos mandatos. 

Por Emanuely Benjamim

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Cortinas xadrez e grades vermelhas nas janelas. Na sala, o desenho de uma árvore cujas folhas parecem chamas cobre a parede principal, enquanto cadeiras de plástico que foram colocadas em formato de roda preenchem o espaço para dar forma à reunião. No início, estavam lá quatro pessoas – dois homens, um deles com uma camiseta do  Partido dos Trabalhadores (PT), e duas mulheres – que conversavam entre si como velhos conhecidos. 

Bolo e café eram servidos para quem chegasse ao Centro Cultural Esperança Vermelha (CCEV), localizado na região central de Campinas (SP), naquele sábado de manhã. Mais pessoas, em sua maioria adultas, iam se acomodando no espaço enquanto aguardavam a vereadora Guida Calixto (PT), que em pouco tempo entrou cumprimentando a todos com familiaridade, à vontade entre apoiadores e membros da sua base partidária. Depois de um pequeno atraso, começou a reunião para discutir as estratégias de campanha eleitoral para deputada federal em 2026. 

O evento, que era aberto ao público, contou com a presença de 25 pessoas, a maioria já aliada de Guida. “Eu entendo que a organização de forma presencial, olho no olho, falando com as pessoas, sentindo o que elas falam e todas as emoções, interagindo dessa forma, é muito mais efetiva. Eu costumo dizer que eu sou uma pessoa muito analógica, porque eu preciso ver”, afirma ela.

A opinião da vereadora é compartilhada pelo deputado federal Delegado Palumbo, eleito em 2022 pelo partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB) do estado de São Paulo. “Meu escritório fica num local onde tem metrô, passa ônibus, vou em feiras. Gosto de entrar no meio do povo”. Além de defenderem o contato direto e presencial com a população como o meio ideal para fazer política, os dois têm mais uma coisa em comum: a presença ativa nas redes sociais, especificamente o Instagram. 

Com 10,4 mil seguidores, o perfil de Guida segue movimentado com publicações diárias, que alternam entre imagens, artes e vídeos que dialogam sobre seu mandato e denunciam problemas enfrentados tanto em Campinas quanto na política nacional. Fora das telas, o trabalho da vereadora é voltado para pautas de antirracismo, gênero, funcionalismo público, educação, saúde, meio ambiente e cultura. Durante o mandato, a petista conseguiu aprovar em primeiro turno um projeto de co-autoria com a vereadora Paolla Miguel (PT) que estabelece a criação de um programa de apoio às mulheres vítimas de violência e um Projeto de Lei que institui o Dia Municipal dos Territórios Negros e inclui a data no calendário oficial de Campinas, também aprovado em turno único.

Já o deputado, seguido por 1,5 milhão de usuários, também posta quase todos os dias, sendo a maior parte vídeos roteirizados que  o colocam como aliado da população ao reproduzir questionamentos e insatisfações em relação ao governo federal. Na prática, o parlamentar já apresentou mais de 70 projetos de lei ou decretos legislativos, sendo a maior parte deles voltado para a segurança pública, aumento de penas de prisão, criminalização do uso de drogas e fiscalização de trânsito. Um exemplo é o PL 603/2025, que propõe a criação de um auxílio vítima e, atualmente, está sob análise na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (CSPCCO). Vale notar que a maior parte das propostas ainda estão em tramitação na Câmara dos Deputados. 

Apesar de apresentarem diferenças entre si, a dedicação para as plataformas digitais é uma característica que se estende para além do parlamentar e da vereadora, compreendendo a quase toda a classe política nacional. Afinal, quem nunca viu pelo menos um vídeo do prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), anunciando os feitos para tornar a cidade “a melhor do Brasil”?. Ou os cortes e edits – vídeos curtos e criativos, que condensam e remixam cenas ou materiais de determinada pessoa ou personagem – da deputada federal Erika Hilton (PSOL)? Os dois contam com mais de três milhões de seguidores no Instagram. 

O fato é que cada vez mais presidentes, senadores, deputados, prefeitos e ocupantes de outros cargos de autoridade têm se feito presentes no mundo online, que permite maior aproximação com o povo e seus ideais. “Os vídeos são pensados de acordo com o que está nas mídias e sempre me colocando na dor do povo e o que o estão sentindo”, aponta Palumbo.

Mesmo que às vezes isso pareça algo inofensivo, como uma mera tentativa de virar meme, o comportamento trouxe mudanças significativas quando se pensa na representatividade política. Agora, o eleitor não é atraído apenas pelas ideias de determinado candidato, mas por vídeos de alto teor propagandístico, que são bem produzidos, engraçados e geram engajamento. 

A estudante de jornalismo Sophia Vieira, de 19 anos, diz observar tal fenômeno ao receber cada vez mais conteúdos de personalidades que, por mais que se distanciem da realidade vivida por ela, acabam aparecendo na timeline com frequência e sendo bastante comentadas entre o círculo de amizade. “Acho que isso acontece devido a carência que o jovem tem da política de se enxergar ali. E apesar dos candidatos em si não serem jovens, a gente tem esse formato do político tradicional que faz coisas chatas, assim, e é essa falta de identificação que a gente tem. O Rodrigo Manga, por exemplo, conseguiu se utilizar do algoritmo e chegar na população jovem”, aponta ela. Rodrigo Manga (Republicanos) assumiu a prefeitura de Sorocaba (SP) em 2024 e, desde então, tem investido em conteúdos digitais para anunciar os feitos do mandato.

“O principal efeito das redes sociais é dar o poder de criar uma narrativa político-ideológica própria. Os políticos ganham independência da representação da sua personalidade, do seu partido, das suas ideias, que antes era construída principalmente através dos meios de comunicação de massa tradicionais, como os jornais, as revistas, o rádio e a televisão”, explica Emerson Palmieri, doutor em sociologia pela USP. Ele lembra que, dos anos 2000 para trás, um dos grandes debates era acerca do tempo de televisão que cada partido ganhava para campanha eleitoral. Hoje existem casos, como o do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em que figuras conquistam grande apoio e até ganham eleições através da presença massiva nas redes sociais, sem a mediação da imprensa. 

As autoridades em questão acabam adotando uma comunicação mais autêntica e pessoal, dando uma sensação maior de proximidade com os seguidores. Por isso, as plataformas também fomentam a criação de bolhas ao permitir que determinado político e seus seguidores interpretem as informações e eventos externos como bem entenderem ou for mais conveniente. “O recorte ali não é mais do jornal, mas feito pelo próprio político ou pela própria equipe. Então se tem a criação de um grupo de interesse, de uma bolha, que é justamente a ideia de não fomentar um debate, mas pegar eventos externos ou até mesmo críticas e adaptar para seus objetivos, que é principalmente ganhar voto”, aponta o sociólogo. 

Neste ponto, também deve-se considerar o comportamento dos receptores de tais publicações, ou seja, a população presente nas plataformas digitais. Em grande parte, os usuários acessam a web de forma passiva, semelhante ao consumo de televisão, com pouco ou nenhum esforço de busca ativa por informações. Ao oferecer conteúdos em timelines personalizadas e filtradas, as redes sociais intensificam esse hábito ao levar o usuário a se contentar com o que foi mostrado, sem senso crítico, contribuindo para a criação de um consenso artificial e perigoso, que pode acirrar fenômenos como o da polarização. 

Segundo Palmieri, as plataformas criam novos espaços para que as pessoas expressem suas opiniões de forma rasa e apressada, criando um efeito crescente que pode levar o adversário político a ser visto como um inimigo. “Você fala uma coisa de forma rasa e sem pensar, da mesma forma que o outro usuário vai ler o comentário. Isso vai gerar um mal-entendido e em nenhum momento essas pessoas vão olhar uma pra outra e esclarecer as coisas. Assim você percebe seu adversário  teológico cada vez mais como um inimigo, porque as pautas que ele defende vão se tornando absurdas”.

Tanto a propaganda política quanto a criação de bolhas, por mais que tenham sido potencializadas pelas redes sociais, são anteriores a elas, valendo-se dos meios de comunicação em massa. É a partir de 2010 que as pessoas começam a criar perfis e se observa o cruzamento entre o online e o offline. Se antes se falava de “entrar” ou “sair” da internet, hoje o mecanismo permeia constantemente o cotidiano.

É  justamente pela mistura e pela integração entre o que é postado nas redes e o que acontece no mundo real que, muitas vezes, as fronteiras entre essas esferas se tornam difusas na política. Diante disso, surge uma pergunta essencial: o que ainda torna necessário o contato presencial, aquilo que as plataformas digitais não conseguem substituir?

Para a vereadora de Campinas Guida Calixto (PT), é essencial ir até os locais para olhar, entender e ter condições de atender ou defender alguma pauta relacionada ao povo de forma completa, sem superficialidade. “Se entrar hoje em uma rede social, muitos vão estar falando ‘bandido bom, bandido morto’, por exemplo. Só quem mora em uma comunidade sabe como a polícia atua lá. Eu sei pela minha vivência e atuação ali, presencialmente, que têm muitos trabalhadores que lutam para que o filho não caia no tráfico ou seja morto pela violência de Estado (…). Então, as formas presenciais de atuação fazem toda a diferença para poder defender de acordo com o que acontece na essência e ser um representante verdadeiro”. 

A necessidade do presencial não se restringe apenas aos políticos, mas também aos eleitores, ao ser uma alternativa para se ter acesso à informação de forma completa, por exemplo, já que as redes sociais operam em um modelo em que dados e acontecimentos devem ser cada vez mais filtrados para se encaixar em textos ou vídeos curtos. Ao ter o contato direto com o político em questão, torna-se possível não só tomar conhecimento da situação como um todo, mas também discuti-la. 

A estudante Sophia Vieira já votou em duas eleições e acompanha ativamente perfis de candidatas vinculadas ao PSOL, partido com o qual tem maior afinidade. Ela conta que em um primeiro momento, como morava em uma região mais afastada do Rio de Janeiro, tomava suas decisões principalmente através das redes sociais. Hoje, morando na cidade de São Paulo, a jovem têm participação ativa em eventos presenciais do colegiado.

“É outra qualidade de troca política. Desde você estar ali, frente a frente com o movimento social, com a figura política que você reconhece e tem como referência, ter essa oportunidade, principalmente de trocar com ele, quando é o caso, ou quando é um evento mais cheio, estar ali e pegar a informação por completo”, afirma ela. 

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