(Arte: Gabriele Mello)
Fora das telas e no meio nas arquibancadas: a verdadeira arte de torcer
Por Nathalie Rodrigues
Versão em aúdio:
No meio de muito barulho, o silêncio. O mundo não parou naquele momento, mas para Joabe sim. Naquela noite de terça-feira estava em jogo uma vaga nas quartas de final da Copa Sul-Americana. Era sua primeira vez assistindo no estádio uma disputa de pênaltis do seu time, mas a casa já lhe era familiar. O Corinthians recebeu o Red Bull Bragantino na Neo Química Arena e o time do interior de São Paulo conseguiu uma virada depois de ter perdido o primeiro jogo, levando o segundo embate para as penalidades máximas. Mas Joabe, corinthiano nato, não perdeu a fé.
Hugo Souza, goleiro do Corinthians, fez o papel de herói. Enquanto Joabe via duas cobranças serem desperdiçadas pelo Timão, o goleiro surpreendeu com três defesas de pênalti seguidas – o que não acontecia desde 2015 pela camisa alvinegra –, devolvendo a esperança ao torcedor. O coração, já saindo pela boca, foi o de menos: o ouvido direito estava surdo, o esquerdo ouvia a tensão da Arena. Um pênalti perdido do Bragantino. “Papo de desmaio” é como ele descreve aquela noite. E a cereja do bolo foi ir para casa com a classificação.
Mesmo que essa partida tenha sido amplamente transmitida, a experiência descrita como “jogo mais marcante da vida”, não teria sido a mesma se Joabe assistisse pela TV, celular ou computador. Sua presença fez toda a diferença para aquele momento. E talvez haja um sentimento misterioso que o leve ao estádio todas as vezes que o Corinthians joga em sua casa. Esse mesmo sentimento também existe nos torcedores de times locais, mas neste caso, ele também é impulsionado por falta de alternativas para acompanhar as partidas de forma online, já que a cobertura da grande mídia e dos streamings ainda não alcança os pequenos times.
Por onde assistir?
Joabe Benção (24) não tem tanta dificuldade para acompanhar seu time, tendo em vista que a cobertura midiática dele é massiva – estamos falando da segunda maior torcida do país. Parti em busca de times locais, e um torcedor fanático pelo Água Santa, de Diadema (SP), foi meu primeiro alvo: Osmar Granato Salvador Dias (67), que também já foi jogador do time, quando as partidas ainda aconteciam somente na várzea.
“Nessa idade a gente só jogava em várzea, não existia outra coisa, tudo campo de terra”, recorda o diademense “A gente era tudo menino, só jogava futebol contra os próprios times aqui da região – foi coisa de pouco tempo – não foi uma grande passagem, mas tive passagem também no Grêmio Esportivo Eldorado que era aqui do bairro, um dos mais antigos daqui da região”.
Na década de 70, por volta de seus 15 ou 16 anos (como ele costuma lembrar) não tinha internet e pouca gente tinha televisão – de quase 94 milhões de brasileiros, apenas 25 milhões tinham algum contato com a TV. Apesar do rádio ser o principal meio difusor de informação naquela época, para Osmar, não tinha jeito: para saber os placares e o que acontecia com o seu time local, a única solução era ir para o campo, pois somente os clássicos passavam na grande mídia.
É claro que hoje o cenário já é bem diferente. O Esporte Clube Água Santa já conta com estádio próprio, a Arena Iramar, perfis nas principais redes sociais e até um grupo exclusivo de torcedores no Whatsapp, por onde Osmar costuma acompanhar o time. Os Aquáticos, como os torcedores do time são chamados, contam com transmissão de alguns jogos, enquanto outros ainda acontecem fora dos holofotes e o placar pode ser divulgado até dias depois da partida. Encenando resistência aos pedidos do neto, Osmar ainda vai aos jogos, pois não tem muita familiaridade para acompanhar digitalmente os que são transmitidos, principalmente depois da multiplicidade de canais de transmissão.

Na era digital, o cenário é bem diferente com a possibilidade de venda dos direitos de transmissão, mas isso não evita o desconforto dos mais velhos. A variedade de plataformas disponíveis tornou possível acompanhar os times pelas redes sociais, TV aberta, TV por assinatura, pelo streaming ou até mesmo pela transmissão independente feita pelo próprio time. A realidade é que cerca de 76% dos torcedores preferem assistir aos jogos em casa do que ir aos estádios, e o interesse em assistir as partidas presencialmente fica por conta de 6% dos torcedores, segundo a pesquisa “O Maior Raio-X do Torcedor”, realizada em parceria por Quaest, CNN e Itatiaia.
Apesar de cômodo, assistir do sofá pode ficar caro. Segundo o portal Exame, os valores para acompanhar as competições de futebol em 2024 beiravam os 400 reais mensais, considerando todas as assinaturas necessárias para não perder nenhum jogo.
Se por um lado, a maior oferta de transmissoras (ou transmissões independentes) populariza e dá visibilidade a mais times, por outro, deixa parte dos torcedores confusos sem saber por onde ou como acompanhar, como Osmar: “Eu nunca vi a Água Santa na internet, e tem nessas rádios que você consegue sintonizar pela internet – não são essas rádios tradicionais. Mas pela internet eu não sei muito bem como é que acompanha isso, a não ser quando alguém coloca e a gente consegue dar uma olhada”.
Outro impasse que pode surgir com a variedade de canais, é a falta de afinidade do torcedor com quem transmite. “Hoje você tem que descobrir onde vai passar, com quem vai passar. Está sempre mudando o narrador e o comentarista que você está assistindo, então é difícil criar conexão por isso, sabe? Então eu não me sinto tão próximo dos setoristas”, comenta Joabe.
As maiores torcidas sempre maiores
Há alguns anos atrás, lembro que sempre que tinha algum jogo passando na TV, o torcedor era refém de dois ou três canais da TV aberta para poder assistir, e claro, majoritariamente jogos da série A, raramente de outras divisões. Esse tipo de comportamento da cobertura midiática impacta até mesmo no tamanho da torcida de cada time. Considerado o Ranking Digital dos Clubes Brasileiros, as maiores torcidas do país são de times do Sudeste.
Quando analisamos a relação dos times que mais faturam por ano, disponível no relatório da Sports Value, encontramos quase a mesma relação de nomes das maiores torcidas, com algumas exceções de times do Sul e do Nordeste. Parte bilionária do faturamento dos maiores times é pela venda dos direitos de transmissão, ou seja, os maiores times, conseguem o maior alcance por conta do maior faturamento.
O processo de se descobrir torcedor de um time é bem particular e em muitos casos é intrínseco à identidade regional. Mas as torcidas mistas se formam graças a essa jogada de marketing, por isso é mais fácil encontrar um torcedor do Flamengo (RJ) que sempre viveu em Alagoas, do que um um torcedor do Água Santa fora do estado de São Paulo, são representações regionais diferentes com capacidades financeiras ainda mais distintas.
Articulação de times locais
Dependendo do tamanho do público, a conversa nem chega na venda dos direitos de transmissão, mas a iniciativa parte da própria organização do time para arcar com esses custos, como é o caso das “Meninas em Campo”. O projeto social incentiva a prática de futebol de meninas entre 9 e 17 anos e promove a igualdade de gênero no esporte. Com um impacto local, o projeto acolhe meninas de várias regiões de São Paulo, mas o centro de treinamento fica no bairro do Butantã.
O Meninas em Campo enfrenta muitos desafios na busca por engajamento da torcida nas arquibancadas, já que além de ser um time de base, é também um time de futebol feminino. Nos últimos anos, o interesse do público (nos estádios e digitalmente) e o investimento de patrocinadores cresceu, mas ainda é menor em comparação à modalidade masculina. Além da remuneração significativamente menor, as jogadoras dos campeonatos femininos sofrem com a irregularidade de calendário, o que dificulta o acompanhamento do público.
O professor Lula Santos, treinador do time, fala sobre como o público das categorias de base é fraco: “A ideia é no boca a boca, avisando para os familiares, que vão transmitindo para alcançar o maior público possível”. Em alguns casos, eles se juntam para arcar com os custos da transmissão, realizada por uma empresa, além de também usarem as redes sociais oficiais do projeto e seus perfis pessoais para alcançar mais pessoas.
O jeito é a arquibancada
Provavelmente o sentimento que move os torcedores de times locais aos estádios para acompanhar as partidas, é o mesmo dos torcedores de grandes times. Ainda que eles tenham a possibilidade de assistir às transmissões do conforto de casa, preferem estar nas arquibancadas.
“É igual você ver um show pelo YouTube e ver um show pessoalmente. Nesse caso não é necessariamente os jogadores, mas você está vendo um espetáculo, e de fato você está participando daquilo”, Joabe tentou me explicar, “É muito diferente, porque você se sente parte daquilo. É o famoso 12° jogador”.
Para o Osmar, “Nada substitui essa presença. Você estar na arquibancada, sentir o calor da torcida, o calor de ver o time jogar, ganhando ou perdendo – quando ganha você fica contente, quando não ganha você fica bravo, mas tudo presencial é melhor”. E continua: “A minha vontade seria voltar aos velhos tempos que todo mundo vai no estádio, cada um com a sua camisa sem briga, sem rivalidade, só paz – só vai pelo prazer do futebol, pelo prazer do espetáculo”.
Seja pelo calor da torcida, ou pela sensação de se sentir parte de um espetáculo, a arquibancada traz uma atmosfera única. Tanto que Joabe e Osmar, que não se conhecem, respondem da mesma forma quando perguntados sobre como despertar a paixão de alguém por um time: levando essa pessoa ao estádio.
