As boas-vindas à casa do povo

(Imagem de capa: Gabriele Mello)

Presença popular em atos políticos mostra a necessidade de campanhas cada vez mais desconectadas das redes sociais

Por Laisa Dias (laisa.dias@usp.br)

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As quintas-feiras não são iguais para todo mundo. No mundo digital, elas costumam ser dedicadas à nostalgia — dia de #TBT nas redes sociais, de relembrar viagens, festas, amores antigos. Mas fora das telas, longe dos filtros e algoritmos, uma quinta-feira qualquer pode ser decisiva.

O prédio branco com desenhos de formas geométricas azuis passa despercebido na avenida, repleta de araras e cestos dos comércios que compunham o cenário. Algumas pessoas se aglomeram ali em frente e, se não pararem para olhar para cima, dificilmente conseguem distinguir porque aquele edifício está ali. Ao entrar no prédio, o cenário é outro. Se antes as roupas coloridas e as bugigangas das lojas davam vida à avenida, agora o cinza e o formal das catracas colocavam aquele lugar de volta à sua função. Era sério e administrativo. 

Na mesa da recepção, alguns cartões de visita. Manicure, doces caseiros, serviço de entrega, assistência jurídica e banho e tosa. Todo e qualquer tipo de anúncio parecia caber entre as paredes daquele ambiente. Para entrar, nada muito elaborado: uma conversa de cinco minutos com seu nome, documento e “o que veio fazer aqui?” bastava para colocarem um adesivo de “Visitante” em seu peito. 

“Quarto andar, gabinete 24. A primeira catraca é liberada”

O elevador era estreito, escuro, não parecia caber nem três pessoas muito bem apertadas – mas acredite, cabia. O silêncio durante a subida era ensurdecedor, apenas um homem de meia idade parado, esperando que o tempo passasse e ele descesse em seu andar. Algo quebrava aquela quietude quando, sem nenhuma sinalização no painel, ou sem apertar botão algum, o elevador parava no segundo andar. A porta se abriu e ninguém estava do outro lado.

“Você tem que tomar cuidado, porque aqui tem fantasma. Se deixar qualquer fresta, eles entram.”

Era isso o que o homem falava entre alguns risos, logo voltando o silêncio e descendo do elevador no próximo andar, na primeira oportunidade que tinha de sair daquele lugar apertado. No quarto andar, os padrões quase se repetiam: iluminação artificial, que deixava todo mundo meio esverdeado, sem nenhum sinal de luz natural, um corredor extenso e várias portas, dos dois lados do corredor. Todas as portas tinham nomes e algumas delas decorações específicas com bandeiras, cartazes políticos ou artes coloridas. Finalmente, o gabinete 24. Como em todos os lugares que se frequenta pela primeira vez, a postura era a mesma: esperar na porta até que alguém te veja e autorize sua entrada. Mas ali não, ali era um lugar diferente e a estranheza de Dalila Costa Pires, assessora parlamentar, deixava isso evidente. 

“Ué, vai ficar parada aí? Entra, a casa é sua!”

Essa é a Câmara Municipal de Diadema, que por ali era conhecida como a casa do povo. Quando as câmaras municipais começaram a ser instituídas, em 1532, sua principal função era ser uma base local de administração dos colonizadores portugueses. Hoje, a câmara é a sede do poder legislativo, ocupada por vereadores responsáveis pelas leis municipais e ações que afetam diretamente o cotidiano da população. Essa proximidade dos vereadores com o povo, principalmente em cidades periféricas, como Diadema, demarca uma política que foge das redes sociais e precisa ser feita na prática.

 Dalila é assessora no gabinete 24, que pertence ao vereador Jefferson Marques, ou melhor, o Dequinha Potência. Ela conta que as câmaras municipais são espaços de discussão pública, enquanto os gabinetes servem para atender necessidades por meio de serviços à população. Esses atendimentos são feitos, em sua maioria, nas unidades espalhadas pela cidade e os serviços variam conforme região e vereador responsável. 

Essa participação popular foi colocada a prova naquele mesmo dia, 15 de maio de 2025, quando Dequinha chegou em seu gabinete um pouco acelerado, dizendo que o térreo, onde eram realizadas as plenárias todas às quintas-feiras, estava lotado, nem sequer dava para passar de um canto para o outro. De fato, estava. A visita à câmara naquele dia veio acompanhada da manifestação de funcionários públicos, que usavam o recurso da Tribuna Livre (um espaço em órgãos públicos que permite que cidadãos se manifestem sobre assuntos de interesse público) para reivindicar uma contraproposta às mudanças salariais dadas pelo poder público. 

Os corredores, que antes estavam vazios, agora eram movimentados pela correria de vereadores e assessores, correndo contra o tempo para ocuparem suas cadeiras na plenária e sonorizados pelo burburinho das centenas de pessoas aguardando. Os servidores já quase ocupavam o espaço das catracas na recepção. 

Como uma torcida organizada, alguns dos cidadãos vestiam camisetas personalizadas e seguravam cartazes de protestos. Já se iniciava a tribuna com a fala do presidente da câmara sendo abafada pelos gritos do povo ao notarem o anúncio do representante dos servidores públicos: “Daremos início agora à fase da Tribuna Livre, havendo um orador inscrito. Para falar convidamos o senhor Ritchie Soares Barbosa Martins, presidente do Sindicato dos Funcionários Públicos de Diadema à adentrar ao plenário, ocupar a Tribuna e falar sobre a apresentação da Contraproposta à pauta Reivindicações Campanha Salarial 2025”. 

 

Funcionários públicos durante a plenária do dia 15 de maio de 2025, na Câmara Municipal de Diadema (Imagem: Acervo pessoal/Laisa Dias)

A presença dos funcionários públicos nas sessões da Câmara Municipal de Diadema já se tornou constante — e não é por acaso. A questão dos salários dos servidores, defendida pelo Sindicato dos Funcionários Públicos de Diadema (SINDEMA), vem sendo pauta desde, pelo menos, 2023. Enquanto os salários de prefeitos e vereadores foram reajustados, os vencimentos da maioria dos servidores seguem congelados, mesmo diante da alta da inflação.

Durante discurso na tribuna, o presidente do SINDEMA, Ritchie Soares destacou que, até o momento, a Campanha Salarial de 2025 já passou por quatro rodadas de negociação. Apesar das manifestações organizadas pelos trabalhadores, a administração municipal manteve a decisão de não conceder reajuste.

Além do aumento salarial, os servidores também reivindicam atualizações nos benefícios, que são geridos pelo Instituto de Previdência do Servidor Municipal de Diadema (IPRED), órgão responsável pela previdência dos funcionários públicos, com funcionamento semelhante ao do INSS.

Com o argumento de que os servidores precisam do apoio de seus representantes políticos, Ritchie reforça que a valorização do funcionalismo está diretamente ligada à qualidade dos serviços públicos oferecidos à população. Para ele, a pauta em discussão vai além do reajuste salarial: trata-se também de toda a estrutura do serviço na cidade.

Já ultrapassando os cinco minutos de fala, o presidente é ovacionado ao se dirigir aos presentes: “Agradecemos a presença de todos. Queria aqui pedir aos servidores que olhem para o lado direito, por favor; olhem para o lado esquerdo, por favor. Essa é a nossa força. É aqui que vamos avançar em nossos direitos. É juntos! Porque juntos nós somos fortes.”

 

O som do povo é apenas um pouco do que significa a participação política no Brasil, que durante a ditadura foi oprimida pela violência e hoje, é muitas vezes colocada apenas em ambientes virtuais. Na internet se faz tudo: escolhe candidatos, discute oposições políticas, cria tendências e movimentos sociais. Mas é no presencial, no contato entre os cidadãos, que a população, principalmente idosos e pessoas de classes mais baixas, conseguem enxergar uma política mais efetiva.

 

 

As campanhas dentro e fora das redes 

“Campanha para vereador é diferente. Você não pode só se ligar na rede social, porque ela não funciona. Para deputado, já funciona, porque é um outro tipo de legislativo. O trabalho do vereador é ser o zelador do bairro.”, conta Dequinha Potência, que está no seu segundo mandato. “Ou seja, campanha para vereador é tête-à-tête. Ela vai sempre estar na rua, sempre ser mais presença na padaria do Joãozinho. Eu tenho que ir na adega ali do Marcelo. Eu tenho que estar, eles não vão me acompanhar na rede social”. 

O vereador ainda destaca que, em sua segunda campanha, focou em publicar nas redes sociais, mas com conteúdos voltados à retratar o trabalho dentro das comunidades. Além disso, ele acredita que os métodos de fazer campanhas políticas estão diretamente atrelados ao público. Mesmo se tratando de vereadores de uma mesma cidade, há diferenciação de bairros e regiões, que também interferem na questão socioeconômica: “existe vereador de centro e vereador de periferia, eu sou de periferia, que normalmente é a classe mais inferior. É a classe que você tem que estar com ela, você tem que ouvir os problemas. É a classe que se entope o bueiro, você tem que desentupir; se tem um buraco, você tem que cobrar para tampar. E assim sucessivamente”. 

Mesmo com a política presente no cotidiano, uma parcela significativa da população prefere se manter distante dela. De acordo com pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Ipec, 80% dos brasileiros afirmam não querer acompanhar a política do lugar onde vivem. Esse afastamento abre espaço para a desinformação e favorece a ascensão de representantes com propostas superficiais, pouco conectadas com as reais demandas da comunidade.

Para essas pessoas, segundo Dequinha, todos os candidatos são iguais, por isso, as pessoas escolhem o “menos pior”, os que estão na internet mostrando ações com a comunidade: “quem está observando que às vezes não tem candidato, vota. Por exemplo, você olha de fora, nem ia votar em ninguém, [você pensa] ‘vou votar nesse Dequinha aí, pelo menos eu vejo na internet ele ajudando alguém.’”

Quando o povo aparece

Para aqueles que ainda apreciam a velha política, a presença em atos e tribunas livres é essencial. É isso o que Rosana Lima acredita, a técnica em enfermagem atua como servidora pública há mais de 10 anos e relata que “ver tanta coisa errada e ficar calada não combina comigo. Eu participo [das tribunas livres] porque sei que minha presença ali faz diferença. Tem coisa que só muda quando a gente vai lá, olha na cara dos políticos e cobra”. 

Em 2020, uma publicação no site oficial da Câmara Municipal de São Paulo, relatou o crescimento na participação popular em audiências públicas, mas, de forma virtual. Na época, as plenárias e audiências foram realizadas no formato virtual devido à pandemia de COVID-19. Antes disso, as audiências eram híbridas, mas permitiam apenas que os que estivessem presencialmente na câmara se manifestassem, tendo direito à palavra nos debates. Após a pandemia do coronavírus, não foram encontrados dados da quantidade de munícipes que participam de forma presencial. Em Diadema, por exemplo, as catracas que levam até as plenárias não fazem contagem dos giros e, por isso, não se sabe quantas pessoas participam de cada sessão. 

“Quando a gente tá lá, eles não conseguem fingir que tá tudo bem. A presença incomoda. E isso é bom. É pra mostrar que o povo tá acordado, tá vendo o que acontece. Ficar só no virtual não tem o mesmo peso. Eles escutam diferente quando a gente tá lá pessoalmente”, relata Rosana, também filiada ao SINDEMA. 

Em relação às campanhas, a funcionária pública ainda defende que sejam feitas de forma presencial, por mais que reconheça a importância das redes nesse quesito: “Muita gente se informa por lá. Mas tem candidato que só aparece na internet, parece artista. Falar na câmera é fácil, difícil é olhar no olho da população e se comprometer de verdade. A rede ajuda, mas não substitui o contato de verdade”.

A técnica de enfermagem ainda relata que na cidade onde mora, nem todos os moradores têm acesso à internet e, quando têm, passam tanto tempo trabalhando e se locomovendo que não é uma prioridade olhar as redes sociais dos candidatos. 

Além das campanhas acessíveis ao público mais periférico, Rosana acredita que as atuações também devem sair das redes e se importarem mais com o offline. “[Os candidatos nas redes sociais] são superficiais. Prometem um monte de coisa bonita, fazem vídeo editado, mas nunca pisaram numa periferia. E quando ganham, somem. A gente precisa de político que esteja presente antes, durante e depois da eleição. Não só quando precisa de voto.”

A promessa ao fim da sessão que lutou pelo reajuste nos salários e benefícios dos funcionários públicos foi clara: o compromisso do líder de governo em retomar as negociações e devolver, ainda no mesmo dia, uma resposta com a data de uma próxima reunião para voltar à discussão. 

14 dias se passaram desde a sessão visitada pela Revista Babel, as negociações foram rompidas após envio de uma proposta para aprovação sem que houvesse acordo com o sindicato. Mais uma paralisação foi feita pelo povo. O sindicato segue tentando uma nova negociação. Realmente, as quintas-feiras não são iguais para todo mundo, e a política na vida real, não é tão fácil quanto clicar em “publicar” no online. 

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