A cada acorde um clique

(Arte: Beatriz Ferreira Sousa)

Buscamos entender como o hábito de gravar shows de música com o celular alterou a maneira como as pessoas experienciam esses eventos

Por Ana Mércia Brandão

Versão em aúdio:

O americano Jonathan Richman, vocalista da banda de rock setentista The Modern Lovers, tocando seu hit solo I Was Dancing at The Lesbian Bar (1992) em um bar parisiense. Esse foi o primeiro vídeo de um show que o jornalista e curador musical Alexandre Matias decidiu gravar e publicar em seu autointitulado canal no YouTube, em 8 de maio de 2008. Pelas lentes da câmera cybershot tremida de Matias, Richman aparece em um palco escuro em posse de seu violão, acompanhado apenas de um baterista, e arrisca palavras em francês no meio da letra da música. Quando chega ao refrão, em que canta “Estava dançando em um bar lésbico”, um coro de mulheres da plateia se junta à canção. Algum tempo antes, Matias havia percebido que era um dos poucos homens no local. “Comecei a me ligar que, na verdade, era uma festa lésbica. Pensei: ele vai tocar essa música e eu estou num bar cercado de lésbicas. Vou ter que filmar isso”, conta.

De lá para cá, 17 anos depois, o canal acumula mais de 4.800 vídeos, todos de shows de música, inteiros ou em pedaços. “Eu filmei mais por uma coisa pessoal mesmo, não pensando em mostrar para as pessoas, e coloquei no YouTube por colocar. Na época nem existia monetização. O YouTube foi criado em 2005. Isso foi três anos depois. Só que eu vi que teve uma repercussão, inclusive, gringa. Com as pessoas: ‘Ah, que legal, um cara filmou um show do Jonathan Richman em Paris. Que massa.’ E aí eu pensei: ‘Eu vou em um monte de show aqui no Brasil e acho que dá para mostrar, né?’” O que começou como hobby se tornou quase obrigação para o paulistano de 50 anos, que, só neste ano de 2025, até o fim de maio, já havia assistido a 94 shows.

O vídeo de Jonathan Richman postado no canal de Matias

Criador do blog Trabalho Sujo, voltado à cobertura musical, que comanda desde 1995, Matias passou a gravar, na íntegra, todos os shows aos quais assiste a partir de 2017, quando se tornou curador musical do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e do Centro da Terra, ambos na capital paulista, e fez um upgrade de sua antiga cybershot para uma câmera semiprofissional da Sony, mais leve e com mais espaço de armazenamento – ele diz que odeia gravar com celular. Mesmo longe dos cargos, ele mantém o compromisso fiel de filmar tudo, com uma exceção: “Se o show está ruim, eu paro de filmar. É uma lógica parecida com a que tenho em relação ao meu trabalho como jornalista, prefiro valorizar coisas legais do que ficar dando espaço para coisas ruins. Se o show é ruim, então não vai ter registro.”

Matias e sua câmera

Essa ideia de registrar e manter um acervo que as pessoas possam acessar é o que move o jornalista, que lamenta não ter gravado vários shows antes de 2017. “Também tenho a reação de chegar em casa e rever um show que acabei de ver, seja um show incrível, que penso ‘preciso rever agora’, ou um show em que alguém fez uma coisa que deu errado. Porque eu também trabalho com direção de shows. Então, tem muito essa coisa de usar o registro para entender o que funciona melhor”, completa. Ele também explica que faz questão de não ficar vendo o show pela câmera e de segurá-la de um modo que não atrapalhe a visão do resto do público. Perguntado se, às vezes, faz o exercício proposital de assistir a um show sem gravar, Matias é categórico: não.

“Eu tenho um dilema futuro, que é quando é que eu vou parar. Porque aí cai num negócio que é quase um vício mesmo. Sei lá, dá pau na bateria no meio do show, ou a câmera não liga na hora, me dá uma sensação que é como se eu tivesse ficado sem fumar um cigarro. [E aí você acaba não conseguindo aproveitar o show], por conta dessa ansiedade, porque não estava filmando.”

Rostos por telas

Hobby virou trabalho, que pode estar se tornando vício. Se o jornalista faz questão de gravar com câmera, para a maioria do público, basta um smartphone. A epidemia de pessoas levantando celulares para gravar shows é tanta que chamou a atenção da pesquisadora Josiléia Kieling. Em 2019, ela defendeu sua dissertação de mestrado em Comunicação e Informação pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS) justamente sobre esse tema. “Também sou fotógrafa. Quando vou fotografar shows, não tenho reação de fã para registrar, só vejo celular”, diz. Foi daí que surgiu a ideia para o trabalho, intitulado Experiência do show de rock transformada pelo uso de smartphones: um estudo da turnê Us + Them de Roger Waters em Porto Alegre.

Josi explica que o que, historicamente, atrai as pessoas para um show é a banda, os fãs e o local, segundo o autor Daniel Hopper. Há um senso de comunidade e atmosfera única que são criados naquele espaço. A graça está na atmosfera compartilhada. Mas, com o celular, a experiência que era interna, pode se tornar externa. “O celular, estando nessa equação, pode desvincular da experiência e causar um desfoco de atenção”, resume a pesquisadora, formada em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, pela UFRGS. Se esse senso de comunidade é quebrado com o smartphone, o próprio aparelho oferece um atrativo diferente para estar lá, segundo o texto de Kieling: a possibilidade de gravar instantaneamente o próprio show, de ter uma espécie de lembrança do que viveu.

Para realizar a dissertação, a gaúcha fez uma pesquisa de campo no show de Roger Waters, ex-líder da banda britânica Pink Floyd, entrevistou uma série de pessoas antes, durante e após o evento e, cerca de 45 dias após a apresentação, conversou, em profundidade, com seis espectadores que havia entrevistado, de idades variando entre 18 e 62 anos. “O que era mais comum entre os participantes é eles buscarem um registro a partir do próprio ângulo de visão deles”, conta.

Público grava show da cantora islandesa Laufey, em show em São Paulo em 2025 [crédito Ana Mércia Brandão]
Há, também, a vontade de compartilhar, tanto para mostrar que viveu, quanto para trazer os entes queridos para aquele momento. Uma das entrevistadas gravou o show inteiro e disse que havia reassistido à apresentação com o namorado duas vezes até o momento da entrevista – o parceiro não estava no show com ela.

Um entrevistado relata uma experiência no show do U2, em 2006, na Argentina, em que, em uma época em que celulares ainda eram itens de luxo, o público acendia o isqueiro para iluminar o espaço em uma determinada música. “Com o celular, as pessoas estão mais conectadas com o mundo lá fora. E sem o celular, as pessoas estão mais conectadas entre elas, ali dentro. É isso que eu sinto”, disse o homem de 37 anos.

As gerações que não são nativas digitais têm mais material para comparar como era antes e como é agora. “Lá fora não é todo mundo que filma como aqui”, pontua Marco Antonio Mallagoli. “Às vezes levantam o celular por 1 minuto de música, mas não é o show todo como aqui.” Ele tem propriedade para falar: criador do fã clube Revolution, dedicado aos Beatles, desde 1979, o homem de 72 anos diz que já assistiu cerca de 150 shows de Paul McCartney. Ele foi a todos que o eterno garoto de Liverpool fez no Brasil e mais outros muitos em países como Estados Unidos, Inglaterra e Irlanda.

“É uma emoção muito forte. Eu choro a maior parte do show. Vejo o show dele como se fosse o show dos Beatles que eu nunca tive chance de assistir. E cada show é diferente”, explica. De todos, nunca gravou nenhum, bem como de nenhum outro artista que já teve a chance de ver performar. “Gosto de prestar atenção no show. Não tiro nem foto. Não preciso provar para ninguém que eu estive ali. Eu sei o que vi. Isso, para mim, é suficiente. Acho que as pessoas que ficam filmando estão perdendo o show. Porque a emoção na hora é muito maior do que o filme que você vai fazer no celular para assistir depois. Fora que, logo, logo, aparece um DVD daquela mesma apresentação.”

Marco com Paul [crédito Arquivo Pessoal/Marco Mallagoli]
Mas, com o celular quase como uma parte do corpo humano, mesmo para quem não trabalha com isso, como Matias, gravar se tornou quase obrigação. “Muitos entrevistados relataram a ansiedade de saber que poderia estar registrando mas querer assistir o show”, conta Josi. E se a bateria descarrega, a sensação é de alívio: “Agora não vou mais ter essa ansiedade, se eu registro ou não registro, porque não tenho como fazer isso.”

Para Matias, travar uma batalha com o celular é uma briga perdida. “É uma coisa da realidade que a gente vive hoje. Não tem como fugir muito disso. As pessoas gravam tudo o tempo todo. A gente tem uma câmera no bolso que está ali pronta para filmar um acidente, uma brincadeira que o filho fez, uma piadinha com um amigo.”

A necessidade vira grana

A profusão de celulares no dia a dia fez os seres humanos se adaptarem. O americano Graham Dugoni, por exemplo, achou um jeito novo de fazer dinheiro: prometendo livrar as pessoas de seus celulares, pelo menos por algumas horas. “Celulares mudaram fundamentalmente as performances ao vivo. Artistas olham para um mar de smartphones no lugar de rostos e o público está mais preocupado em gravar do que realmente engajar [com as performances]”. Esse é um trecho de um texto de divulgação do site da Yondr, a empresa criada por Dugoni, em 2014, que fornece “espaços livres de celulares”. Com atuação em escolas, universidades, apresentações de comédia e casamentos, a marca chegou, também, aos shows de música – e tem o aval de clientes famosos, como Bob Dylan.

Nos últimos anos, o músico vencedor do Nobel de Literatura tem proibido celulares em seus shows e utiliza do mecanismo criado por Dugoni para garantir que a norma seja cumprida. Ao chegar no local do show, o público deve colocar os aparelhos dentro das bolsas Yondr. Elas, então, são travadas e só são destravadas na saída, ou nas áreas permitidas do espaço, quando o público deve colocá-las em uma base de destravamento para liberar o aparelho. Como Dylan, artistas como a banda de rock progressivo King Crimson e a banda de metal Ghost já proibiram celulares em suas apresentações.

A bolsa Yondr [crédito Divulgação]

Do outro lado da moeda, há artistas que passaram a incorporar as telas nas performances. “Recentemente, fui num show que, quando o artista viu a pessoa filmando o show dele, ele pegou o celular da pessoa, se filmou cantando pelo celular, filmou a galera, o show e devolveu o celular. Então, ele criou um registro mais único ainda para aquele espectador”, diz Josi. Matias cita o caso da cantora espanhola Rosalía, no festival Lollapalooza Brasil, em 2023. “Ela transformou a ideia da câmera no celular como parte do espetáculo dela”, diz. No show, Rosalía era acompanhada por um cinegrafista de cima do palco, e tinha a sua disposição celulares colocados em pontos estratégicos do espaço, com os quais se filmava em momentos-chave, que eram transmitidos em um grande telão.

Josiléia foi em um show de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, em São Paulo, no dia 30 de março de 2018, sem bolsas Yondr, mas em que era proibido filmar. “Até eu experienciei essa vontade de querer filmar. Só essa ansiedade de ‘nossa, preciso registrar’ já está te tirando da experiência, você já está atravessado por outro pensamento que não é o show em si. Temos celular a, relativamente, pouco tempo, mas olha a cultura impregnada que se tornou. Para ver se os impactos são positivos ou negativos, ainda temos que ter muitas análises”. Em um mundo em que espaços livres de celular são exceção, gravar virou cultura.