Monges, templos e doze tribos

Conhecendo as pessoas religiosas que escolhem uma vida offline

Por Paloma Lazzaro Saliba 

Há uma incongruência estética entre a tecnologia digital e o mundo religioso, apesar de a internet ser atualmente um grande meio de conversão para novatos e espaço de adoração prosaica para fiéis de longa data. É uma imagem engraçada a dos monges do Mosteiro de São Bento encapuzados assistindo animes no Crunchyroll e séries da HBO em seus IPads, o que não faz dela menos verdadeira. Em religiosidades não-cristãs houve um grau semelhante de percolação do mundo digital. Rabinos da Sinagoga Hissachdus Kehilois Hayereim Ratzfert mantém grupos de WhatsApp com fiéis ortodoxos, exceto no Shabat. A monja Coen e seus companheiros do Templo Taikozan Tenzuizenji têm perfis no Instagram e fazem vídeos.

Encontrar pessoas de fé que têm o uso reduzido, ou nulo, da internet é difícil, mas não impossível. Existem contextos opressivos, onde autoridades religiosas cortam o contato de fiéis com conhecidos, algumas até mesmo denunciadas à polícia. Existem também as pessoas religiosas que fazem essa escolha, por vezes sozinhas, outras vezes coletivamente.

A senhora Teryo Nakano é uma fiel que vai todas as sextas feiras de manhã trocar as flores na Catedral Budista Nikkyoji. “O templo eu coloco sempre em primeiro lugar. Se eu tenho alguma atividade no templo e outra em outro lugar, eu dou prioridade para o templo. Porque foram tantas bênçãos que eu recebi, então não tem como desviar esse caminho. A gente tem que fazer tudo assim de coração limpo e poder ajudar os outros. Esse é o pensamento meu”.

Homem com símbolos budistas – flor de lotus e ohm – em suas mãos (Imagem: Paloma Saliba)

Ela gosta de olhar a sala central da catedral enquanto fala baixo e manso, com um leve sotaque japonês comumente ouvido na Zona Sul de São Paulo. Parece admirada e feliz com o espaço. A catedral em si, no Ipiranga, existe há mais de 60 anos, porém tem sido reformada e expandida no último ano. Na manhã da sexta-feira, o silêncio da troca de flores no salão contrasta com o vai e vem de pedreiros nas áreas externas e no prédio da administração. Mês passado, conta Teryo, o templo foi reinaugurado. Ela ficou na cozinha, preparando 1500 marmitas para todas as pessoas que vieram auxiliar na reforma. Quando saiu de perto das panelas e potinhos, se espantou ao ver que o salão central tinha ficado pronto em apenas duas horas. “Tem essa união por um objetivo comum. É muita gente que tem uma colaboração sem ser obrigada, mas apenas por ajudar mesmo”.

Desde que nasceu 78 anos atrás em Mogi das Cruzes pratica o budismo, que era majoritário na região devido à presença japonesa. Hoje em dia, mora na região de São Judas e mantém sua relação próxima com a fé. “Tendo a fé, você consegue fazer tudo. Aí vejo que vem chegando gente nova, devagarinho na primeira vez. Tem que acolher aquela pessoa, porque não é à toa que está vindo no templo. É em busca de paz. Eu encaro assim, pode ser qualquer pessoa, a gente não pode ver se é japonês, branco, negro, sabe? Não pode ver esse lado. Tem que acolher de qualquer forma. Essa parte a gente enfatiza muito nas pregações, em tudo que o sacerdote faz. Com isso a gente recebe inúmeras bênçãos”.

Sua relação com a tecnologia não é antagônica, apesar de fazer pouco uso dela. Teryo fez, no passado, um curso de informática junto com seus meninos, devido à necessidade do uso de tecnologias digitais no seu antigo trabalho formal. Foi difícil, afinal tudo era muito novo e a internet ainda não havia sido canonizada no cotidiano brasileiro. Conseguiu pegar o jeito, mas hoje em dia leva uma vida predominantemente offline por falta de tempo, além de não ter prazer em entrar na internet. Às vezes, gosta de “jogar um joguinho e estudar na internet. Tem um link do templo de manhã e à noite com a oração que estão fazendo, eu acesso se não consigo vir aqui”. O uso excessivo de celulares e internet é algo que preocupa muitos religiosos, acadêmicos, políticos, mães, pais, educadores. “Na adolescência você tem que pôr limite, né? Na idade adulta, eu acho que cada um sabe o seu limite, tem que saber. Depois dos 25 anos, você já tem sua personalidade feita”. 

Ao fim da conversa central, ela mostra orgulhosa o columbário, sala onde as cinzas dos mortos são guardadas e homenageadas com orações e símbolos sagrados. As almas de todos eles têm que ser honradas e lembradas, pois são vivas mesmo após o fim dessa existência corporal. Todas as pessoas que cruzam o caminho da senhora no templo a cumprimentam. Um sacerdote é visto indo visitar as casas de fiéis, para bênçãos e orações. Teryo, no caminho de volta ao salão central, conta que as famílias dos monges moram com eles no prédio lateral e mais moderno da propriedade. Ela volta a organizar silenciosamente os últimos arranjos florais de margaridas amarelas, rosadas e brancas, mantendo o padrão que já havia feito com os outros.

O Mosteiro Suddhavari também é budista, porém, os morros verdejantes do sul de Minas Gerais são um cenário diferente das ruas lotadas por casas antigas e prédios modernos do Ipiranga. Há também uma diferença na linha religiosa seguida entre os templos: o Nikkyoji é Honmon Butsuryu-Shu, de origem japonesa e parte tradição Mahayana; o Suddhavari segue a prática Wat Pah Pong, tailandesa e parte da tradição Theravada. Nele, a vida dos monges é integralmente offline durante os primeiros anos de vida monástica, assim como a de fiéis que vão ao local fazer retiros. Outra diferença, muito mais antiga, é o fato de que monges Theravada cumprem celibato.

Ajahn Mudito é atualmente o abade do Mosteiro, motivo pelo qual é uma das únicas pessoas lá que tem contato com o mundo digital. Devido à sua posição de liderança, o uso dessas ferramentas é necessário para a organização de atividades, a divulgação de material e a comunicação em geral. Aos 25 anos de idade, em 2002, ele se tornou monge na Tailândia e permaneceu como monge sem acesso à tecnologia digital por 15 anos.

“Eu já tinha uma certa intuição de que estava faltando algo, a conta não fechava. Quando eu olhava para a sociedade, para as pessoas, a matéria e como se deve encontrar a felicidade na vida. Eu tinha essa intuição, ‘isso não vai dar certo’. Ainda assim, eu fiz, né. As pessoas em cima ‘você a ganhar dinheiro, arrumar namorada, o amor da sua vida e vai ser feliz’. Então, fiz essas coisas todas, inclusive a namorada. Mas quanto mais eu fazia isso, mais eu via o quanto era vazio, que isso é só uma uma miragem, por trás, não tem nada”. Quando terminou a faculdade, já tinha dinheiro guardado do seu emprego e da venda de seu carro e apartamento, o suficiente para viajar por um ano por vários países. O destino final de Mudito foi a Tailândia, onde a visita de uma semana a um mosteiro se estendeu indefinidamente e ele nunca mais voltou para casa.

O cotidiano dos monges no Suddhavari tem início na madrugada, enquanto os vales entre morros estão cobertos por nuvens fofas de orvalho e o céu está preto. Às 4:30, já tem uma reunião onde repassam textos budistas e fazem meditação em grupo. 6:00 é o café da manhã e entre as 7:30 e 10:00 são feitos trabalhos no mosteiro, como limpeza, manutenção ou construção. Toda a comida consumida por eles deve ser dada como esmola, devido a uma regra da tradição religiosa, então a partir das 10:00 os monges saem e vão pedir esmola às pessoas da região, pelas ruas já ensolaradas e a sem neblina crepuscular. Na parte da tarde, o tempo é livre para reclusão: caminhada, estudo, leitura, meditação. Quem se torna monge faz mais de um ano de retiro, para ter certeza de que isso é o que quer, que é capaz de conviver com os pares e que consegue aguentar as privações necessárias.

A estratégia monástica Theravada é cortar o máximo possível as formas de prazer sensorial. “Como a mente ainda precisa de felicidade para sobreviver, tem uma urgência maior em conquistar a mente feliz e pacífica. Ao impedir o acesso ao local onde ela buscava o prazer, a mente vai precisar aprender um novo tipo de bem-estar, um novo tipo de felicidade que independe do mundo ao redor. É importante aprender a viver consigo mesmo e entender sua própria mente”.

Mudito fala com todas as marcas de alguém que viveu uma juventude paulistana, com algumas gírias e referências culturais do período efervescente do final da década de 1990 e início do novo milênio. Esse tom despojado pode levar alguém a não entender a profundidade e rigor da vida que ele descreve e tentar infantilmente imitar um monge. “O celular é uma ferramenta fantástica. O problema não é conectar ou desconectar. Mas as pessoas não têm bem-estar, não têm felicidade. Então elas procuram no online distração das suas próprias vidas, para abafar o sofrimento. Eu também não acho saudável ficar muito, sei lá, estranho ao seu próprio mundo, tem que respeitar o ambiente que você vive”. 

“O tal ‘segredo’para não se viciar em celular é ter uma vida plena, porque ele não é uma droga de fato como um fentanil, tem como evitar vício. Ter contato com a natureza, passear, fazer exercício. O problema é que as pessoas não têm vida, aí elas vivem através do celular. Se a sua vida não é boa, você vai querer viver a vida dos outros, disponível 24 horas por dia, mano. É algo realmente inédito na raça humana, quando eu voltei a usar parecia ficção científica. Mas ainda pode ter um ponto médio, usar eficientemente” é a síntese que Mudito elabora. 

Em outra região serrana do Sudeste, Itapecerica da Serra, há a comunidade Doze Tribos. Ela é parte de um grupo fundamentalista cristão, no sentido literal da palavra, fundado no Tennessee na década de 1970. No Brasil, além do clã localizado na zona metropolitana de São Paulo, eles têm outros dois grandes agrupamentos no Paraná, em Campo Largo e em Londrina. As comunidades do país, juntas, formam a Tribo de Naftali. Em uma das mesas-cabine de madeira escura do Yellow Deli, restaurante do qual eles são proprietários e que serve como fonte de renda para as comunidades, Lev Nadab e Bekor explicam seu estilo de vida.

“A coluna dorsal da nossa vida são as escrituras da Bíblia. Nós não nos entendemos como uma religião, uma igreja em que frequentamos, mas nós somos um povo e a nossa constituição é a Bíblia. A vida dos primeiros discípulos de Jesus era uma vida em comunidade e o resultado da vinda dele, do sacrifício dele, sua morte e ressurreição foi um povo que vivia em comunidade. E a nossa vida é assim, é literalmente, né? Deixamos toda a nossa vida ordinária para trás e estamos construindo essa vida juntos”, Bekor diz de forma séria, porém com um tom que se assemelha ao de um professor universitário descolado. 

Na residência coletiva das Doze Tribos, todos acordam cedo para participar da reunião de adoração a Deus, que ocorre às 7:00. É um momento devocional que se repete 12 horas depois, ambos com canto, dança e compartilhamento da fé. O resto do dia é dedicado às tarefas de cada membro da comunidade, que varia entre trabalho doméstico, agricultura, comércio, panificação, atendimento no Yellow Deli e educação das crianças, feita em modelo homeschooling. Todas as refeições são feitas coletivamente no refeitório, partindo o pão juntos como os discípulos de Jesus. Ninguém tem um “emprego pessoal, fora da comunidade” e a formação das crianças visa manter o código moral e os costumes da comunidade, além de atender o currículo do MEC, obrigatório por lei.

“Nossa vida é bíblica. É como diz em Romanos 12:1-2, oferecemos nossos corpos vivos, como sacrifício vivo. É o que nós somos. Hoje você não faz um sacrifício de verdade, tipo, você não vai matar alguém. Mas oferece quem eu sou, minha força para Ele. Então nós fazemos isso diariamente. Ele usa a palavra religião, a nossa religião é cuidar de viúvas e órfãos”. As pessoas das Doze Tribos citam versos bíblicos de memória frequentemente, mas Lev Nadab tem ainda mais afinidade com o discurso teológico do que a maioria. Ele gosta de explicar as origens de palavras e seu significado para seu povo. O que é impressionante uma vez que o português não é sua língua materna, mas sim o inglês e os dialetos da ilha caribenha de Granada.

A internet está longe do cotidiano da maioria dessas pessoas, Bekor é um dos poucos que faz uso corrente dela, devido à sua função de comerciante. Essa visão puramente utilitária da tecnologia é explicitada por Lev Nadab. “Telefone é uma ferramenta, um computador, uma ferramenta. Igual um martelo, parafusadeira, então é uma ferramenta dele [Bekor] para trabalhar. Tudo depende do seu trabalho no dia a dia. Um padeiro, alguém que trabalha na horta, não precisa desta ferramenta, não usa. E não faz falta, que nossa vida é muito da comunicação. A gente crê bastante na cultura oral”

Há um computador comunitário no escritório da residência deles, voltado à comunicação com parentes e amigos externos por meio de um Whatsapp Web comunal. “Todos têm acesso. Não é uma coisa que é estrita, proibida, sabe? Mas uma opção pessoal de cada um. Quem aderiu a essa vida tinha esse desejo de viver uma vida mais real e deixar a vida virtual de lado”, Bekor detalha, para que a questão da funcionalidade da tecnologia não pareça puramente restrita à sua ocupação comercial. Durante a conversa, ele precisa atender a ligação de um cliente.

Mesmo com esse uso, ainda há uma certa aversão à digitalidade e à televisão. “Você percebe uma alteração no estado psíquico das pessoas. A gente tem essa preocupação. Outra coisa você perguntou, sobre o aspecto bíblico, nas escrituras se fala muito sobre o vício, né? O vício é um pecado, que é tudo aquilo que faz mal, tanto para você quanto para o outro. É um tipo de vício diferente do químico, mas é um vício. As pessoas são viciadas em videogames, viciadas em televisão, smartphone. E aquilo ali te traz um prejuízo de vários aspectos. Aí você engorda, cria outros tipos de doença autoimune, tudo por causa do sedentarismo”. Lev Nadab concorda com a explicação de Bekor e diz que também tem-se uma preocupação com as ondas e seus efeitos colaterais perigosos para a saúde, que os celulares, rádio, microondas e televisão emitem muitas ondas.

Entre os clãs, espalhados pelas Américas, Europa e Ásia, a correspondência se dá primariamente via papel. Há um curto Jornal Intertribal, por onde as pessoas informam suas necessidades, bênçãos e acontecimentos notáveis. “Nasceu um bezerro na Inglaterra, ou foram no Londres fazer uma caminhada. As crianças gostam de ver isso, como os irmãos estão”, aos exemplos de Lev Nadab, Bekor adiciona a informação de que o jornal é impresso e distribuído por cada clã e que há uma parte da publicação com ensinamentos bíblicos. Além disso, as comunidades também mandam cartas entre si, por costume cultural e porque “na verdade, é bem mais lindo, né?”

No domingo da mesma semana, ocorreu a comemoração do Shavuot, também chamada de Pentecostes. A propriedade do clã estava inteira decorada por bandeirinhas e cartazes, feitos a mão, com frases bíblicas em inglês. No jardim, perto da piscina com queda d’água, havia uma mesa com salgados caseiros, melancia, uvas cobertas por chocolate e outros doces. Ao lado dela, uma barraquinha com cajuína caseira e chá de hibisco. Em um fogão à lenha mais ao fundo, pinhões e água para chimarrão eram fervidos. No centro do jardim, um palco coberto por feltro e uma placa grande ao fundo escrito “50 days, years”. 

Além dos membros do clã, seus amigos, vizinhos e familiares também são chamados à festa. Há um contraste visual facilmente identificável entre quem vive na comunidade e quem está fora. As mulheres das Doze Tribos cobrem parte do cabelo com véus coloridos e vestem batas estampadas com calças que são um meio termo entre as modelagens saruel e gaucho. Os homens vestem camisas de trabalho estilo lumberjack com calça de sarja ou jeans, mantém a barba e usam seus cabelos longos repartidos ao meio em um coque baixo. Além disso, na comemoração, todos usam uma faixa horizontal na cabeça feita de barbante trançado.

O início do Shavuot se dá por uma procissão com música e canto, onde todos os membros seguram um bastão com fitas coloridas de tecido TNT. Ela começa na parte de trás da casa, sobe as escadas rumo à piscina e quintal e termina ao redor do palco. Os convidados assistem, alguns filmam e um dos membros do clã fotografa o evento com uma câmera Nikon da linha profissional. A música tocada é no mesmo estilo folk que toca no Yellow Deli, mas dessa vez é acompanhada por letras bíblicas em inglês. À frente, dois homens carregam uma bandeja com dois grandes pães em formato triangular.

A língua padrão nas Doze Tribos é o inglês. Em parte porque o movimento iniciou nos Estados Unidos, onde até hoje a maioria das comunidades estão. Em parte porque, segundo Bekor, “os apóstolos de Jesus usaram o grego ao invés do hebraico para escrever os escritos bíblicos, pois era a língua corrente na época. Então nós usamos o inglês, pois é a língua corrente de hoje”. Após a procissão, Lev Nadab faz uma fala inicial sobre o significado de Pentecostes e dos dois pães com levedura, feitos como oferta a Deus.

Após isso, inicia-se um tipo de ação de graças, em que cada um dos, aproximadamente, 20 membros diz suas graças alcançadas durante o último ano.

Bekor agradece inicialmente o fato de, pelo primeiro ano, as contas da comunidade estarem no azul ao invés do vermelho. Ele e sua esposa também agradecem pela chegada de seu filho, Daniel, aos 20 anos. A família entrou na comunidade de Campo Largo em 2015. Eles queriam criar Daniel, na época uma criança de 10 anos, em um lugar que condizesse com os valores da família e os ensinamentos bíblicos. O casal não gostava da influência da escola e de outras crianças do bairro em que moravam sobre seu filho. A mãe hesitou inicialmente, mas decidiu pela vida nas Doze Tribos ao “meu filho pedir ‘mamãe eu quero ficar aqui’ e ver como ele estava feliz”.

Além do relato da família de Bekor, outros três ilustram bem os motivos pelos quais pessoas entram nas comunidades das Doze Tribos. O primeiro é de uma dupla de irmãos, parte de uma família que mora na comunidade de Campo Largo. A irmã mais nova diz que sua bênção esse ano foi o retorno do irmão mais velho, Tahor, à comunidade. “Eu fui viver por dois anos no mundo, e lá eu sentia sempre um vazio, passei por muitas dificuldades e era sempre triste. Eu percebi que nada que eu poderia ter lá fora se compara com o que eu tenho aqui dentro”. A fala de Tahor foi aplaudida com muita veemência por todos.

O segundo foi o de Raquel, uma mulher mineira de fala mansa na casa dos 50 anos. Ela agradeceu por “um ano que eu virei uma ovelhinha. Eu fui batizada como Raquel, que significa ovelha em hebraico, um ano atrás. Eu fui salva da vida natural sem sentido, por assim dizer, para renascer em uma vida espiritual. Eu posso ser velha de corpo, mas sou uma ovelha nova”. Ela conheceu as Doze Tribos em uma feira em Belo Horizonte, aliás, longe das comunidades deles. O intercâmbio de membros entre clãs e tribos é comum, assim como viagens missionárias. Uma jovem viajou ano passado para o Alasca ajudar um clã com a pesca e limpeza de salmão, de maneira parecida ao trabalho de construção de casas que Daniel fez na Argentina ano passado.

O terceiro foi o da mãe de um dos membros da comunidade, que a chamou para subir ao palco com ele apesar dela ainda não fazer parte das Doze Tribos. “Eu queria muito poder viver com vocês logo, da forma que é a vontade de Deus, mas eu estou com muitos problemas ainda para resolver. Meu outro filho está numa situação muito muito difícil mesmo, eu tento ajudar mas já sei que só ele pode se salvar. Só que até lá, eu preciso ficar com ele, não posso vir aqui ainda viver com as irmãs e irmãos que eu já tanto amo”, ela diz em meio a lágrimas doloridas e alguns soluços esparsos. 

É possível perceber, entre os membros do clã, que alguns eram cristãos evangélicos antes de trocar de nome e viver na comunidade, enquanto outros eram mais ligados a valores hippie e a espiritualidade New Age. O apelo bíblico e da vida comunal, longe da lógica urbana e tecnológica da vida capitalista contemporânea, é igualmente atrativo para pessoas dos dois perfis. Também é notável que diversas famílias entraram na tribo de Naftali em 2015, a maioria em Campo Largo. A época, no Brasil, era de recessão econômica, revolta política e piora na qualidade de vida das pessoas.

Ao fim dos relatos e agradecimentos, Daniel, três crianças e uma jovem começam a tocar seus instrumentos e cantar em inglês um louvor. O sol está mais baixo e o chão mais quente do que no início da festa. Nesse momento, o clã e seus convidados comem e bebem tudo que está disponível nas mesinhas e barraquinhas que lembram as de uma quermesse pequena. No caminho de volta da chácara a São Paulo, as curvas dos morros de Itapecerica começam a dar lugar às vias retilíneas da Régis Bittencourt e da Zona Sul.