A vida real voltou. E está no feed delas

Três criadoras de conteúdo que conciliam carreira, rotina e redes sociais mostram como é possível influenciar sem se perder no online — e defendem a importância de estar offline para viver, criar e se conectar de verdade

Por Beatriz Ferreira 

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Você está a caminho do trabalho. No ônibus, pega o celular para passar o tempo e, ao abrir uma rede social, se depara com uma sequência de imagens que parecem tiradas de um sonho: uma praia de mar cristalino, o cenário idílico de uma vida sem pressa nem problemas. Ao deslizar a tela, surgem carros de luxo, roupas que valem o equivalente a vários salários mínimos, rotinas que transbordam perfeição. Mas basta bloquear a tela para que tudo volte ao que é: o barulho do coletivo, o trajeto comum, o contraste entre o que se vê no feed e o que se vive fora dele. É nesse intervalo — entre o deslizar do dedo e o mundo real à volta — que surgem influenciadoras dispostas a desafiar a lógica da perfeição digital.

Em um cenário cada vez mais mediado por algoritmos, onde o “estar online” parece condição essencial para ser visto, reconhecido ou lembrado, há influenciadoras que desafiam essa lógica. Elas não rejeitam a internet, mas a reposicionam: usam suas plataformas não apenas para entreter ou vender, mas para incentivar mudanças reais, concretas, fora das telas. São vozes que influenciam escolhas de vida, consumo consciente, saúde mental e profissionalização – tudo isso com os pés fincados no offline.

Luiza Alencar, Giovanna Vaz e Nat Geremias fazem parte de um novo perfil de influenciadoras digitais: aquelas que conciliam a criação de conteúdo com carreiras tradicionais e que não vêem contradição entre ser online e defender a vida fora dela. Suas rotinas mostram que o feed pode ser reflexo da vida – mas não sua totalidade.

Nenhuma das três mulheres começou na internet com uma estratégia de influência bem definida. Luiza Alencar, publicitária há seis anos, começou mostrando a própria rotina de organização e estudos. “Foi muito não proposital, assim. Eu comecei a postar a minha rotina, as coisas que eu fazia durante o dia, alguns vlogs, e aí foi gerando uma repercussão muito maior do que eu imaginava”, conta.

Giovanna Vaz, analista de marketing e criadora de vídeos sobre a vida CLT, resgatou um antigo hobby da adolescência. “Na época da escola fazia vlogs e vídeos mais descontraídos pro YouTube (meu canal se chamava ‘fala devagar’). Acho que foi um pouco sobre resgatar esses sonhos antigos.” Já Nat Geremias, advogada e consultora jurídica, começou por acaso, após fazer um vídeo alertando sobre o perfil hackeado da irmã. “Desde lá não parei mais.”

Vida dupla, conteúdo orgânico

O que une as três é o esforço contínuo para manter o equilíbrio entre a criação de conteúdo e suas carreiras formais. Nenhuma delas vive exclusivamente da internet – e isso, longe de ser um obstáculo, se torna um diferencial. “É complicado, mas justamente por ser vídeos contando os meus relatos, minhas experiências, acaba facilitando. Enquanto eu tô fazendo, eu tô gravando”, explica Luiza.

Cada uma das três influenciadoras traduz essa autenticidade em conteúdos que, além de reais, são úteis para quem as acompanha. Luiza Alencar, por exemplo, utiliza seu espaço nas redes para falar sobre autonomia financeira na juventude. Com vídeos e posts que desmistificam programas sociais como o “Minha Casa, Minha Vida” e o “Bolsa Família”, ela ensina a buscar oportunidades concretas, acessíveis, e questiona o incentivo ao consumo desenfreado promovido por outras influenciadoras. Em suas falas, reforça a importância de reutilizar roupas, evitar gastos supérfluos e entender o que é, de fato, essencial. Já Giovanna Vaz se conecta especialmente com o público CLT, abordando temas como empregabilidade, rotina puxada e o desafio de equilibrar carreira e vida pessoal — sempre com humor. Seus vídeos mesclam dicas práticas para melhorar o currículo e reflexões sobre esgotamento profissional com memes, piadas sobre finais de semana de “desaparecimento” e a eterna dualidade entre a funcionária dedicada e a amiga festeira. Nat Geremias, por sua vez, aposta em uma abordagem mais introspectiva. Seus vídeos, muitas vezes gravados no carro ou durante uma pausa para o café, funcionam quase como conselhos de alguém mais experiente: tratam de identidade, autoconhecimento, coragem para sair de ambientes que sufocam e a força necessária para se manter firme diante das dificuldades da vida adulta. Cada uma, à sua maneira, transforma vivência em conteúdo e empatia em conexão.

Nat aposta na leveza. “A produção de conteúdo pra mim é leve, meu foco principal é simplicidade.” Giovanna resume o dilema com humor e franqueza: “Às vezes acho que não faço nem um nem outro bem, mas quando as coisas começam a dar certo, você começa a enxergar de outros olhos.”

Offline não é sumiço

Viver offline não é desaparecer, mas escolher o que se compartilha – e, principalmente, o que se guarda. Essa consciência molda o conteúdo das três influenciadoras. “A vida offline é muito mais simples e prática”, diz Nat. “Eu tento passar exatamente isso. Uma rotina midiática existe somente no online.” Giovanna reforça a importância de não transformar tudo em post: “Nem tudo precisa virar post e tem coisa que é só pra gente viver e pronto.”

Luiza, que costuma falar sobre criatividade e mercado de trabalho, defende que o repertório de um bom profissional vem da vida real. “Repertório é você viver, pegar um ônibus, ver as pessoas vivendo, reparar ao seu redor. Isso já muda tudo.” A internet, para ela, também democratiza acessos – desde o estudo de idiomas até a busca por bolsas de estudo e programas habitacionais. Mas exige filtros. “A gente tem que tomar muito cuidado com a quantidade de informações que a gente tem e dosar, filtrar os conteúdos que a gente recebe.”

Apesar de todas compreenderem a importância do engajamento, nenhuma delas está disposta a abrir mão de autenticidade. Nat afirma: “Honestamente, eu amo o engajamento, mas amo ainda mais fazer sentido.” Giovanna reconhece a pressão: “O engajamento é uma coisa que abala, mas hoje enxergo com mais leveza. Tento escolher minhas batalhas.”

Ao longo do tempo, Luiza adaptou seu conteúdo. Se antes buscava mostrar uma rotina perfeitamente produtiva, hoje prefere compartilhar as imperfeições. “A não perfeição também conecta as pessoas. Mostrar que você é uma pessoa real conecta.”

Essa conexão gera frutos tangíveis. Luiza já recebeu mensagens de seguidoras que conseguiram bolsas de estudo ou decidiram comprar um imóvel após assistirem seus vídeos. “A gente vê muitos influenciadores falando que é melhor alugar do que comprar. Mas às vezes esses discursos não estão conectados com a realidade da maioria das pessoas.” Nat, com seu quadro “pequenas novas experiências na rotina”, inspira mudanças sutis, mas significativas, como começar aulas de violão ou simplesmente caminhar por um novo trajeto.

Até o descanso vira tema. “Tem seguidor que se assusta quando eu digo que vou sair de férias”, ri Giovanna. “Mas eu ‘amores, preciso descansar’.” Para ela, pequenos rituais ajudam a sair do “modo online 24h”: “Coloco o celular no modo ‘não perturbe’, deixo em outro cômodo e vou fazer algo que me conecta comigo.”

Entre essas histórias está a de Gaby Simião, que transformou a inspiração em conquista concreta. Seguidora de Luiza Alencar, ela relata como os conteúdos da influenciadora ajudaram a abrir horizontes profissionais e pessoais. “A Luiza, além de me inspirar e ascender a vontade de trabalhar em uma agência futuramente, abriu muitas portas e janelas na minha cabeça até se tornar literalmente uma casa”, escreveu. Depois de assistir a um vídeo em que Luiza falava sobre a compra de seu apartamento, Gaby decidiu iniciar a própria busca por um imóvel. O resultado veio meses depois: “Hoje eu recebi o registro de um apartamento no meu nome. Você tem mudado vidas.” Agora, ela mira o próximo passo: conquistar uma vaga em uma agência de publicidade. Para Gaby, acompanhar a trajetória de alguém com objetivos tangíveis e próximos da sua realidade foi decisivo para transformar planos em ações concretas.

O que fica

Nas redes sociais, influenciadores frequentemente ditam tendências e exibem um estilo de vida que, à primeira vista, parece ideal: corpos esbeltos, viagens constantes, casas de sonho, carros novos e uma felicidade que parece permanente. Mas, como alerta Carla Furtado, mestre em psicologia e fundadora do Instituto Feliciência, em entrevista para a Agência Brasil, essa imagem vendida nas plataformas digitais está longe da realidade da maioria (leia a matéria completa aqui). “É bem improvável que alguém esteja alegre o tempo todo”, ressalta. Ainda assim, essa performance contínua afeta diretamente a forma como os seguidores enxergam suas próprias vidas — muitas vezes gerando frustração, baixa autoestima e uma sensação constante de inadequação. O instituto criado por Carla, em 2015, atua na difusão de estudos sobre bem-estar e desenvolvimento humano, conectando o público brasileiro às pesquisas mais recentes em Psicologia Positiva, Neurociência e práticas de liderança consciente, com formações voltadas tanto para o crescimento pessoal quanto para ambientes organizacionais.

Nesse cenário, o papel das criadoras de conteúdo que falam abertamente sobre a vida real — inclusive seus perrengues, pausas e fracassos — se torna essencial. Elas não só contribuem para a saúde mental do público como também ajudam a ressignificar o que é sucesso na era digital: não mais sobre perfeição, mas sobre conexão, identificação e verdade.

Ser influenciadora, para essas três mulheres, não é sobre perfeição ou presença constante, mas sobre influência real, responsável e consciente. “A internet é essencial para nós, mas não é ela quem define o seu grau de importância”, resume Nat. “A vida offline é a vida real.”

Na dúvida, ela propõe um teste: “Se você bloquear sua tela, esse ‘problema, assunto’, ainda tem relevância?”