Na casa do futebol… e dos livros

A livraria Barrilete, apesar de ter destaque nas redes sociais como o Instagram, é um lugar de reunião e interação de fãs do futebol, que podem encontrar livros sobre o tema e também assistir a transmissões de jogos.  Arte: Gabriele Mello/Revista Babel

Com televisão ligada em partidas, camisas de time e estantes cheias, livraria Barrilete mistura história de amor pelo futebol e pelos livros 

Por Gabriele Mello

Versão em aúdio:

Para aqueles que se prendem a definições – ou para os curiosos –, a Barrilete é uma livraria. E, assim como à direita estão os livros, à esquerda está um balcão. Atrás dele, uma geladeira com bebidas, um cardápio e quadros sobre futebol na parede. É ali, também, que está Carlos Nakaharada, sócio-fundador da livraria. Vestido com uma camiseta do São Paulo Futebol Clube, o time do coração. Mas, pelo que Carlos conta, essa é uma coincidência e, para ele, não tem clubismo. “Eu gosto de ver futebol! Já vi mais de 400 jogos na vida”. Por isso, ao chegar à loja, pode ser que você o encontre com a camiseta de outros times, já que é colecionador. Essa mesma coleção serve de decoração para a loja, que recebe em sua vitrine as camisas do jogo que será transmitido no dia. 

Carlos Nakaharada fundou a livraria Barrilete em parceria com seu amigo Diego Rezende Polachini, em julho de 2024. Fotografia: Gabriele Mello/Revista Babel

A livraria Barrilete é a primeira – e a única – livraria especializada em futebol na cidade de São Paulo. “Eu gosto de ver, conhecer estádios. Eu gosto de ver o movimento da torcida, gosto de comer o que tem nas barraquinhas ali perto. Todo esse movimento relacionado ao futebol, eu sempre gostei!”, relata. Todo esse movimento teve que parar com o anúncio, em 2020, da pandemia de Covid-19. E foi em outro país que a ideia de criá-la surgiu para Carlos.

Mesmo que os times brasileiros tenham parado por apenas três meses, e os campeonatos seguissem, não havia mais torcida. O futebol era silencioso, e os gritos e as músicas que vêm da arquibancada só voltariam a serem ouvidas no final do ano de 2021, ainda com restrições. E, nessa época, Carlos viu a oportunidade de reviver a emoção, mas no Uruguai, na final da Libertadores, Flamengo e Palmeiras. 

Apesar de ser são paulino, “quando o governo do Uruguai falou que ia liberar a entrada de estrangeiros para assistir o jogo da final da Libertadores, eu pedi as contas no escritório onde eu trabalhava, e peguei um avião até Porto Alegre. De Porto Alegre, eu peguei um ônibus até Santana do Livramento. Eu atravessei a fronteira em Rivera e peguei outro ônibus até Montevidéu. E aí, depois de dois anos, eu consegui assistir um jogo no estádio”, conta Carlos, com brilho nos olhos. Foram, ao menos, quinze horas de viagem de São Paulo a Montevidéu.

O trajeto de Carlos Nakaharada entre São Paulo e Montevidéu levou mais de 15 horas, com paradas em quatro cidades: Porto Alegre, Santana do Livramento, Rivera e Montevidéu. Arte: Gabriele Mello/Revista Babel

Assim, com o amor pelo futebol e abrindo mão da carreira de advogado, Carlos trouxe do Uruguai a ideia de abrir a Barrilete. “Na mesma viagem, eu atravessei o Rio da Prata, fui para Buenos Aires. Lá, tinham duas livrarias só de futebol. Aí me veio o estalo: estava cansado de advogar e falei com meu sócio. Ele topou a ideia e a gente ergueu essa livraria”. 

Até no nome, a livraria Barrilete reflete o amor de Carlos e Diego Rezende Polachini, seu sócio, pelo futebol. Para quem não acompanhou a Copa do Mundo de 1986, ou não compartilha do mesmo sentimento pelo esporte, “barrilete” é mais que a tradução para o português de “pipa” no mundo do futebol. O ano era 1986 e a Argentina enfrentava Inglaterra na Copa do Mundo, jogo em que Diego Maradona se consagrou com o gol chamado de “o mais incrível de todas as copas” ou de “gol do século”, e nomeado pelo narrador Víctor Hugo Morales, de “barrilete cósmico”. 

A jogada começa um pouco antes do meio do campo, onde Maradona recebe a bola e, então, dribla ao menos três jogadores da Inglaterra enquanto corre em direção ao gol, entre eles, o próprio goleiro. A expressão descreve a forma como o jogador parecia flutuar, como uma pipa e reúne as características de Maradona, sua imprevisibilidade, genialidade e habilidade de marcar gols espetaculares. Carlos é abertamente fã do argentino, se intitulando um “maradoniano”, mas se defende da polêmica: diz que também gosta muito de Pelé. 

A livraria Barrilete, por focar em livros sobre futebol, faz parte das chamadas livrarias especializadas, ou de nicho. “Em São Paulo, a gente vê um movimento de abertura de livrarias [especializadas] também, de uns dois anos para cá”, diz Carlos, que alega que esse também foi um dos motivos da abertura da loja.  

A historiadora do livro e professora da Universidade de São Paulo, Marisa Midori Deaecto, explica que esse circuito se desenvolve por meio da ação de editoras independentes e livreiros de rua, aqueles que não estão em shoppings, e que “isso é importante, pois significa um movimento contrário a uma tendência verificada e ultrapassada das megastores”. E, no caso desse novo mercado, para a professora, “o que prevalece é a ideia de curadoria, do livreiro que conhece seus livros e busca um diálogo, ou seja, uma atenção personalizada com o leitor”. 

E, em 20 julho de 2024, no bairro Bixiga, na região central de São Paulo, foi inaugurada a livraria Barrilete. Nesse mesmo dia, Luís Butti, anfitrião do tour da Neo Química Arena, casa do Corinthians, fez sua primeira visita à loja tendo a inauguração como pretexto. “Calhou com tempo livre e sem jogo do Corinthians”, explica. “Eu precisava ir. Sou um devorador de livrarias, especialmente de futebol. Fui na inauguração e me diverti lá com livros e bom papo”, completa. 

Apaixonado por futebol desde criança, Luís estima que sua estante de livros abrigue entre trinta e quarenta livros que vieram da Barrilete e, sempre que surge uma nova oportunidade, ele está por lá, para atualizar sua biblioteca pessoal, que já conta com mais de 300 livros. “Não tenho um livro certo para buscar [quando vou à loja]. Decido na hora! Complicado tá achar espaço no meu pequeno apartamento em São Paulo”, brinca. 

Apesar de os clientes virem do mundo digital, como Luís, que conheceu a livraria através do Instagram – e que conta acompanhado de uma risada que seu algoritmo “fez a boa” –, as interações na Barrilete são fora dele. Os livros, assim como o esporte, são uma forma de “fuga à loucura que a vida conectada tem nos levado”, explica a professora Marisa. Luís, o cliente fiel da Barrilete, concorda, mas também levanta um problema: “acho que no Brasil, infelizmente, se lê pouco. E, quando se lê [sobre futebol], é mais na parte folclórica ou biográfica. Somos muito pobres em literatura tática e na parte mais prática da coisa. Os argentinos, os ingleses, os uruguaios e os espanhóis são ótimos nisso”.  

Carlos conta que uma parte considerável dos clientes é formada por turistas, que vêm conhecer a loja. “Hoje de manhã, logo que abri, já vieram três gaúchos de Porto Alegre, que vieram para ver o São Paulo e Grêmio hoje [17 de maio de 2025, dia da entrevista], e passaram aqui também. Viram livros, tomaram uma cerveja aqui com a gente”, relata. 

Essa interação é, para o fundador, essencial. A livraria, que também sedia transmissões dos jogos, como já contei antes, é pequena, mas para Carlos, isso nunca atrapalhou esses momentos, porque seu objetivo é fazer parte do local em que a livraria está. “A nossa ideia sempre foi fazer a coisa voltada para a rua. Tanto que, desde o primeiro momento, a gente refutou fazer loja em shopping, mesmo em galeria a gente não queria. A gente queria fazer uma coisa na rua para ocupar a calçada”, relata. E, além de nas transmissões se formar praticamente uma arquibancada do lado de fora, essa crença também é aplicada à outros momentos, como a sessão de autógrafos do livro “1960”, do grande jornalista esportivo José Trajano, que aconteceu em março de 2025. “Ele [José Trajano] sentou, ficou por quatro horas com a gente, tomando cerveja. Autografou o livro de todo mundo”, diz o sócio.

José Trajano, jornalista esportivo e um dos fundadores do canal esportivo ESPN Brasil, realizou uma sessão de autógrafos de seu livro 1960 na livraria Barrilete. O livro conta a história da conquista do América na primeira taça Guanabara, tendo como pano de fundo a vida e a arte no Rio de Janeiro da época. Fotografia: Gabriele Mello/Revista Babel

A proposta de incluir os espaços públicos vem da relação dos fundadores com o Bixiga, querido pelos dois. Entre as homenagens, uma das seções de livros é inteiramente dedicada ao bairro, em que os fundadores têm lembranças desde a infância, e que têm incontáveis cantinas e espaços culturais, mas que, assim como outros bairros centrais e históricos da cidade de São Paulo, sofre com a verticalização e abandono. 

O maior exemplo das alterações no Bixiga, é a retirada da escola de samba Vai-Vai, que teve sua sede histórica desapropriada em 2021 para a construção da estação 14 Bis-Saracura da Linha 6-Laranja do metrô. Desde então, a Vai-Vai não tem uma sede, já que o terreno adquirido pela concessionária Linha Uni, da empresa espanhola Acciona, responsável pela construção do metrô, e destinado à escola, possui limitações que impedem a construção de uma nova casa para a escola de samba. Os efeitos da falta de espaço e da presença da Vai-Vai são sentidos por todos que frequentam e moram no bairro, inclusive por Carlos. 

Em pouco tempo, no dia 20 de julho, a livraria Barrilete completa seu primeiro ano de existência em meio a um bairro tão antigo quanto o Bixiga. Para o aniversário, Carlos pretende não apenas ocupar a rua Doutor Luís Barreto, mas fechá-la, em comemoração também ao futebol, com um festival. “A gente quer chamar os colecionadores de camisa, chamar gente que faz arte de futebol, que confecciona camiseta, jornalista também. Chamar autores para fazer rodas de conversa”. E, mesmo em planos de expansão, o objetivo é continuar em contato com a rua, para garantir que os fãs de futebol – e de livros – cheguem até lá. Um feliz aniversário e vida longa à livraria Barrilete, que é casa da literatura, do futebol e da comunidade do Bixiga!

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