Teatro musical na era do celular: assistir ou registrar?

(Imagem: Mariana Krunfli)

Com filas para fotos, gravações clandestinas e operações de vigilância nos bastidores, as montagens encaram o desafio de manter o foco no palco em tempos de registros constantes

Por Mariana Krunfli

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“Não tem mais aplausos no encerramento do musical. É muito triste.” A observação vem de quem acompanha a cena diariamente, sentada discretamente na plateia. Anelita Gallo, diretora residente e co-coreógrafa de Wicked Brasil 2025, acompanha cada sessão para ajustar detalhes da montagem. “Quando comecei há 15 anos nesse teatro, 1.600 pessoas se levantavam e aplaudiam. Hoje, muitos já se levantam com o celular em mãos, prontos para filmar.”

A cena traduz um dos dilemas do teatro musical em São Paulo, o qual, após a pandemia, vem crescendo cada vez mais. O setor movimentou R$ 1,1 bilhão na cidade só em 2023, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Teatro Musical (SBTM) com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). “O teatro e as artes cênicas requerem uma predisposição do espectador, às vezes algum histórico cultural. A música simplesmente chega para a pessoa que tem a capacidade de ouvir. Ela não pede licença”, afirma André Acioli, diretor artístico do Teatro Porto e do Teatro Vivo. “Os musicais, de uma maneira muito estratégica, trazem as composições a este lugar com projetos mainstream, e alcançam um público muito maior.”

Os diferentes tipos de registros

Seja qual for o perfil, o ato de gravar carrega significados diversos. Para Ticiane, assessora de investimentos e frequentadora assídua de musicais, muitas vezes é apenas um automatismo: “Eu gravo, mas depois raramente volto a assistir. É mais para mostrar que estive lá”, conta. “É um tipo de vício. Não sou nativa digital, mas para mim já é difícil ficar sem mexer no celular. Imagina para quem nasce agora.”

Mas há também quem veja no registro uma forma legítima de eternizar o que, por definição, deixará de existir após o fim da temporada. É o caso das irmãs Nicole e Eloísa Moraes, que assistiram Meninas Malvadas: “Sempre filmamos no final, é quase uma tradição”, diz Nicole. “Guardo isso como recordação e depois volto para ver de novo. Tenho até uma pastinha de musicais nos destaques do Instagram”, conta Eloísa.

Plateia no encerramento de Wicked. Crédito: Mariana Krunfli

Essa vontade de conservar o efêmero foi justamente o que, em 2012, levou Marília Di Dio e Michelle Camhaji a criarem o Cena Musical — um perfil que publica cortes profissionais autorizados pelas produções, atuando como um arquivo digital do teatro musical brasileiro em suas plataformas no YouTube, Instagram e blog. Os três principais números de Wicked disponíveis hoje no YouTube, por exemplo, foram gravados pelo Cena Musical. Só a música “Ódio”, publicada há nove anos, soma mais de 2 milhões de visualizações.

Apesar dos registros oficiais autorizados, uma parte do público ainda recorre a gravações clandestinas para tentar capturar o espetáculo por completo. “No TikTok, principalmente, tem pessoas que postam quase tudo”, observa Michelle. Embora ilegais, esses registros não autorizados acabam cumprindo, para alguns fãs, um papel de preservação não oficial de obras que, após suas temporadas, muitas vezes desaparecem sem registro público integral.

Além do desejo de guardar, há também uma questão prática. “Tem gente que mora longe, que não tem como vir até São Paulo ver o musical. Então procuram essas gravações online”, complementa.

Do online para o presencial

Por um lado, as próprias redes sociais têm sido fundamentais para impulsionar o público até as salas de teatro. Muitas produções mantêm hoje páginas ativas no Instagram, TikTok e YouTube, com conteúdos que vão de bastidores a vídeos oficiais autorizados, criando uma conexão contínua com os espectadores. “A partir do momento que o Instagram colocou vídeo e outros recursos, ele virou uma televisãozinha. E o modo como as pessoas consomem os conteúdos mudou muito”, explica Marília Di Dio, que também atua como gerente de mídias sociais de diversas montagens. “As redes sociais atraíram muito do público dos musicais que a gente vê hoje.”

Entre o público, essa estratégia já tem impacto direto. A jornalista de moda Titta Aguiar conta que decidiu assistir Rita Lee – Uma Autobiografia Musical depois de ver trechos divulgados online. “A Rita Lee que me trouxe aqui e a Mel Lisboa, que está interpretando de uma maneira maravilhosa”, diz. “Vi pedaços da peça pelas redes sociais e está fantástica.”

Nicole Moraes, que foi com a irmã assistir Meninas Malvadas, também conheceu a montagem pelas redes. “Viemos totalmente pelas redes sociais”, afirma. “Desde pequenininha a gente é fã de teatro, então sempre acompanhamos todos os bastidores, desde as audições até os lançamentos.”

Gerações distintas

As plateias refletem hoje um verdadeiro mosaico de comportamentos — de quem busca apenas assistir àqueles que não abrem mão de registrar. “O público de Alguma Coisa Engraçada Aconteceu a Caminho do Fórum é completamente diferente do público de Meninas Malvadas”, observa Marília Di Dio. “Se você pegar o final do Fórum, a maioria dos celulares está na horizontal, não necessariamente para postar. No Meninas Malvadas, quase todos gravam na vertical, já pensando no Instagram.”

Plateia no encerramento de Wicked. Crédito: Mariana Krunfli

As diferenças de público ficam visíveis antes mesmo da primeira cena. Em Wicked, por exemplo, sessões de quinta-feira, marcadas para 20h, já formam filas de jovens e famílias com crianças uma hora antes da abertura do saguão. O sucesso atual do musical entre o público jovem ganhou novo fôlego com o lançamento do filme Wicked em 2024, que levou mais de um milhão de brasileiros aos cinemas e ampliou o interesse pela história das bruxas de Oz contada sob uma nova perspectiva. Dentro do teatro, novas filas se organizam em cenários instagramáveis: há desde um painel com a vassoura da protagonista até espaços onde o espectador pode encaixar o rosto no corpo dos personagens. As cores verde e rosa, que marcam a história, tingem roupas, acessórios e até as pipocas vendidas no local. Durante o espetáculo, os celulares surgem ocasionalmente no público, e com força na tradicional liberação dos registros nos agradecimentos finais.

Lugar para tirar foto no salão de entrada de Wicked. Crédito: Mariana Krunfli

Em Meninas Malvadas, a lógica se intensifica. Adaptado do filme de 2004 que virou fenômeno cultural entre adolescentes, o musical atrai um público fiel da geração que cresceu assistindo à história e que agora encontra nas sessões uma espécie de celebração nostálgica em tons de rosa. No saguão, filas se formam para fotos nas áreas temáticas, e no encerramento, muitos celulares se erguem para registrar a cena.

Lugar para tirar foto no salão de entrada de Meninas Malvadas. Crédito: Mariana Krunfli

Já em Rita Lee – Uma Autobiografia Musical, o contraste é evidente. Com público majoritariamente acima dos 50 anos, o café do teatro já estava lotado uma hora antes da apresentação de domingo das 17h. Grande parte da plateia é formada por fãs de longa data que buscam reviver, no palco, as memórias afetivas construídas ao longo das décadas com a carreira da cantora. Durante a sessão e nos intervalos, são raros os celulares visíveis. Nos agradecimentos, predominam aplausos espontâneos e pouquíssimos registros digitais.

Plateia no encerramento de Rita Lee – Uma Autobiografia Musical. Crédito: Mariana Krunfli

Bastidores da fiscalização

Nos bastidores, as produções montam operações para tentar garantir a imersão e a preservação dos direitos autorais das obras. No Teatro Renault, onde Wicked está em cartaz, monitores utilizam ponteiros laser para sinalizar quem ergue o celular. “As pessoas ficam revoltadíssimas quando o laser aponta, mas ele serve para proteger a experiência coletiva”, relata Anelita.

No Teatro Santander, funcionários posicionados na plateia usam lanternas para alertar quem insiste em gravar. “É muito comum pegar as pessoas mexendo no celular durante as peças. Acontece mais com o público jovem”, conta uma funcionária que preferiu não ser identificada.

 

Já no Teatro Porto e no Teatro Vivo, a diferenciação é entre uso casual e gravação: “A gente tem um segurança que vai pedir a gentileza para a pessoa desligar, mas só intervimos se o espectador for flagrado fotografando ou filmando, porque aí entra a questão dos direitos autorais”, explica André Acioli.

Em todas as sessões, as orientações antes do início deixam a regra explícita: celulares precisam estar desligados durante o espetáculo.

O futuro dos celulares no teatro musical

Apesar de todo o policiamento, o impulso de capturar continua forte — e talvez inevitável. Para alguns, como Titta Aguiar, que viajou do interior paulista para assistir Rita Lee – Uma Autobiografia Musical, o teatro ainda representa um raro respiro analógico. “Vir assistir a um musical me traz paz. É para curtir a peça e esquecer a loucura lá fora.”

Mas, como admite Ticiane, a disputa com as telas é constante: “Quando você está realmente entretido, nem lembra do celular. Mas, se sente tédio, é uma distração fácil. Tento me controlar, mas é difícil.”

Para Marília, o rápido crescimento das redes sociais não vai impactar somente o comportamento do público, como o do teatro também.  “Coisas mais interativas vão ganhar cada vez mais força, porque a geração que vem não tem mais tanta paciência para ficar 2 horas e meia assistindo. Ela quer estar dentro da história.”

Como exemplo desse futuro mais interativo, Marília cita o espetáculo Iron – O Homem da Máscara de Ferro, apresentado em 2023 no 033 Rooftop, em São Paulo. Ali, o público ficava integrado ao cenário e aos atores, movendo elementos cenográficos e interagindo com a encenação. “A tendência, com tecnologia e inteligência artificial, é oferecer cada vez mais possibilidades para o público participar, seja com som, luz ou na própria narrativa. No teatro do futuro, vamos quebrar ainda mais essa quarta parede.”