(Imagem: Montagem por Cecília O. Freitas com fotografia de Caio Santos)
Levantamento realizado pelo Spotify mostra que o funk é o gênero musical brasileiro mais ouvido em outros paises; por aqui, parlamentares de direita ameaçam restringi-lo nas periferias
Por Leonardo Henrique do Carmo
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Em 2009, além de reconhecer o funk como “movimento cultural e de caráter popular”, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) revogou uma lei que impossibilitava a realização de bailes por exigir uma série de condições de difícil cumprimento, como autorização com 30 dias de antecedência, comprovante de tratamento acústico e câmeras no local.
Parecia que finalmente estávamos caminhando para uma maior aceitação do funk no país, mas a perseguição logo deu as caras novamente. No ano seguinte, quatro MCs foram presos em uma operação da Polícia Civil acusados de fazer apologia ao tráfico de drogas. Não foi um caso pontual: o gênero musical é historicamente marcado por poucos avanços institucionais e constantes ondas de repressão.
O motivo? Discriminação, segundo a pesquisadora de funk, label manager e empreendedora Tamiris Coutinho. Ela afirma que o que incomoda a ala conservadora da sociedade não são as músicas em si, mas sim quem está por trás dos microfones e frequenta os bailes – pessoas periféricas, majoritariamente negras. “É muito mais sobre quem canta e de qual lugar canta”, diz.
Agora, quem está correndo risco de criminalização são os bailes funks de São Paulo. A ameaça vem da chamada “CPI dos Pancadões”, instaurada em maio deste ano na Câmara Municipal de São Paulo (CMSP).
CPI dos Pancadões Cortes
Essa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi criada para “investigar possíveis omissões dos órgãos públicos municipais na fiscalização de perturbação do sossego, especialmente no combate a festas clandestinas realizadas no município de São Paulo”. No documento de requerimento dessa investigação, o vereador Rubinho Nunes (UNIÃO BRASIL) diz que visitou diversos desses eventos acompanhado das polícias Civil e Militar.
Em todos, afirma ter se deparado com “uso irregular de imóveis públicos, ocupação indevida da via pública, venda de bebidas alcoólicas em horários vedados, além de casos de porte ilegal de armas de fogo, tráfico de drogas e exploração sexual”.
Tanto pessoas contrárias quanto a favor dos bailes funks foram chamadas para discutir o tema. Porém, a recepção a esse segundo grupo pelos parlamentares ligados à direita não tem sido positiva.
Um dos episódios de maior tensão aconteceu na CMSP, durante a sessão do dia 29 de agosto. Na ocasião, Rubinho Nunes se exaltou e ameaçou dar voz de prisão ao youtuber e cientista social Thiago Torres, conhecido como “Chavoso da USP”, após ele afirmar que o crime organizado estava presente nas periferias, sim, mas também na Câmara.

Em resposta, a parlamentar Luana Alves (PSOL) disse que, em vez de tratar da pauta da CPI, Rubinho Nunes queria gerar cortes para postar na internet. A afirmação é baseada no histórico do político. Em seus perfis, o vereador costuma abordar assuntos que estão em alta por meio de vídeos curtos com títulos provocativos.
Um dos mais assistidos é justamente o da discussão com o Chavoso da USP. Publicado no mesmo dia da oitiva, o vídeo acumula mais de 1,4 milhão de visualizações e tem como thumb a frase “Quase deu polícia! Agora quero ver provar”.
“A gente tem esse discurso inflamado nas redes sociais porque a galera da direita sabe que isso funciona muito bem, né? Inflamar ódio para gerar um burburinho em determinadas questões e abafar outras”, diz Tamiris Coutinho.
De acordo com ela, não há uma preocupação genuína em pensar políticas públicas para solucionar os problemas enfrentados por quem vive nas regiões em que acontecem os bailes funks. “Me parece muito mais uma midiatização para ganhar likes do que interesse em sentar com a associação de moradores e produtores para ouvi-los”, opina.
Quem também compartilha dessa visão são os promotores de bailes funks da zona leste de São Paulo. Em um post colaborativo entre cinco páginas no Instagram, eles questionam a ausência de opções de lazer em suas comunidades e apontam outros problemas ignorados pelo governantes:

“Essa CPI é só mais um novo capítulo de uma perseguição que se renova a toda hora. O Estado não pensa em formas de viabilizar uma existência saudável para os bailes. A ideia é reprimir, e com uma finalidade política muito perversa, porque os bailes movimentam a economia local e são importantes para a sociabilidade das periferias”, afirma GG Albuquerque, jornalista, crítico musical e doutorando em Estéticas e Culturas da Imagem e do Som.
Do Brasil para o mundo
Apesar das constantes tentativas de criminalização, o funk segue conquistando cada vez mais ouvintes. Atualmente, ele ocupa o posto de segundo gênero mais escutado do país, perdendo apenas para o sertanejo, segundo dados apresentados pelo Spotify.
O produtor musical e DJ Caio Santos enxerga com bons olhos esse crescimento. “Eu tava conversando sobre isso com um amigo até. Ele disse que o funk saiu da periferia e eu respondi que, pra nós que trabalhamos com funk, isso é ótimo porque a expansão para fora da periferia gera outras oportunidades”, conta.

“Eu acho isso muito bom, mano. O funk tá chegando nesse nível, tá chegando lá fora. Quando eu imaginei que ia sair do Brasil, tá ligado? Porque, se parar pra pensar, a primeira música que eu estourei foi em 2024. Então, tem um ano e eu já fiz uma turnê, entendeu?”.
O jovem de 24 anos mora em São Paulo, no Jardim Eliane, e começou a tocar aos 10 anos por influência do pai, que também trabalha como DJ. A faixa a qual ele se refere é a “Cypher da Bolha”, lançada em colaboração com th4ys, Yuri RediCopa, Bia Soull e Hidvn. Ela virou trend no TikTok no ano passado e, até o momento, acumula mais de 3,5 milhões de reproduções no Spotify.
Já a turnê mencionada pelo artista aconteceu na Europa, mais especificamente em Londres, Paris e Milão. Ele diz que, no exterior, há uma grande abertura para o funk, principalmente se o som tiver uma pegada experimental. “Mano, lá fora é muito livre. Quanto mais estranho, melhor. As pessoas querem escutar o que é mais absurdo, abstrato”, revela.
Em breve, Caios Santos irá tocar novamente em Milão. Mas a experiência, provavelmente, não será a mesma. Quando questionado sobre como é estar em cima dos palcos, o DJ afirmou que a sensação sempre varia. A única que o acompanha constantemente é a desorientação ao fim de cada set: “Eu não consigo lembrar o que eu fiz depois, é como se eu tivesse em órbita”.
Na Fervo Fluxo, festa que o convidou para se apresentar em novembro, o artista pretende “mostrar o que a gente gosta aqui e como vivemos através da música”. “Quero tocar o funk em todas as suas formas e vertentes possíveis”, diz.
Do brega funk à bruxaria
O trabalho do DJ em mostrar a pluralidade do gênero não será fácil. Ao longo dos seus mais de 25 anos de existência, o funk brasileiro foi se espalhando pelo país e assimilando as características das regiões por onde passou.
GG Albuquerque, que pesquisa culturas periferizadas e afrodiaspóricas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que o ponto de partida é o som que surge no Rio de Janeiro, por volta dos anos 90. Segundo ele, um dos principais responsáveis por difundir o funk nessa época foi o DJ Marlboro, produtor do LP “Funk Brasil”.
“Nos bailes, passaram a ser tocados não apenas os LPs importados dos Estados Unidos, mas também músicas em português cantadas e produzidas por MCs, DJs e produtores locais, que, aos poucos, foram lançando seus próprios álbuns”, diz o especialista em sua dissertação de mestrado.
Ao longo dos anos, os artistas de São Paulo também ganharam destaque nacional. Mas, além do mérito próprio, o que abriu espaço para a cena paulista foi a “opressão sistemática” que o funk do Rio de Janeiro enfrentou.
Em seu trabalho, GG Albuquerque relembra que esse processo político e jurídico de perseguição começou com uma Comissão de Inquérito Parlamentar criada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro em 1999. A finalidade era “investigar os bailes funk com indícios de violência, drogas e desvio de comportamento do público infanto-juvenil”.
Essa CPI resultou na criação de uma lei que determinava a:
- Instalação obrigatória de detectores de metais nas portarias dos bailes;
- Presença de policiais militares durante todo o evento;
- Permissão escrita da polícia para autorização da festa;
- Interdição de locais onde se realizem “atos de violência incentivada, erotismo e pornografia;
- Proibição da execução de músicas e procedimentos de apologia ao crime.
Oito anos depois, essa legislação deu lugar a uma ainda mais restritiva (mencionada no início desta reportagem). Mas em nenhum momento as intervenções do Estado foram capazes de interromper por completo a ascensão do funk, seja no RJ ou fora dele.
Desde o seu início, nos anos 90, o gênero só cresceu — tanto em popularidade quanto em diversidade. Nos bailes de São Paulo, por exemplo, temos três vertentes completamente diferentes tremendo nos paredões: magrão, ritmado e bruxaria.
Em Recife, um dos ritmos que não sai das paradas de sucesso é o brega funk. O pesquisador pernambucano GG Albuquerque diz que “ele tem uma história muito própria, com ídolos e sons que vão mudando ao longo de cada geração”.
Já no sul, o destaque é o mega funk, que possui uma aproximação com a house music e é bastante popular em disputas de som automotivo.
E o que está por vir nos próximos anos? Apenas acompanhando para descobrir. Como afirma GG Albuquerque, “o funk tem uma inteligência e imprevisibilidade que é o que faz ele continuar existindo.”
