(Imagem: Montagem por Cecília O. Freitas)
Considerados como ‘incapazes de escolher’, jovens transgêneres são a linha de frente da causa trans, com direitos cerceados – na maioria das vezes, por adultos.
Por Cora Andrade
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Não há velas indicando a comemoração, acesas, em cima de um bolo de chocolate, competindo espaço com glacê e cerejas. O que se tem é o escuro, duas pessoas, um aniversariante que completa onze anos, uma mãe e uma confissão. De fato, não é o que se espera de uma celebração de 11 voltas ao redor do sol. Na verdade, não é o que você espera. Alguns demoram 11, 22, 33 anos a mais, para ter a mesma coragem de Leon. Não foi um aniversário comum, ao contrário, foi um novo nascimento acontecendo.

Aos onze anos, para grande parte da sociedade, é quase impossível ter certeza de algo sobre a vida. Mas, é importante não nos enganarmos. Ao mesmo tempo, se espera dos jovens proveito dessa idade para que possam experimentar. É a fase para isso. Porém, quando falamos de gênero e adolescentes e suas experimentações, o discurso muda bastante.
Leia com ironia: é preocupante o contato desses jovens com os bloqueadores de puberdade, como demonstrou o Conselho Federal de Medicina (CFM) ao proibir a utilização desses medicamentos em menores de 18 anos, nesse ano de 2025. São adultos fazendo resoluções sobre jovens, seus corpos e suas vontades, quando tudo que a juventude trans deseja é existir, sem medo. E, claro, com saúde – e é por isso que, quando se opta por esses bloqueadores, um acompanhamento médico é necessário. Vale frisar: quando se opta. A transição de gênero não é só sobre remédios, cirurgias e mudanças corporais. Isso é o que as pessoas cis esperam.
As fontes adolescentes aqui entrevistadas estavam com suas mães, encontradas através do grupo Minha Criança Trans, ONG que trata exclusivamente da questão da infância e adolescência trans. Quando conversei com as mães, todas essas preocupações que as pessoas dizem ter sobre jovens trans, tornaram-se minúsculas. No fim das contas, não são muito diferentes das dores de cabeça que os responsáveis de jovens cis sentem, em relação aos seus filhos. Como diz Lana, psicóloga e mãe do Levi, de 10 anos, “olha, têm questões. Na maior parte do tempo, eu estou muito mais preocupada com a nota de matemática dele”. Precisamos entender que se preocupar de verdade com a adolescência trans é providenciar perspectiva de futuro, e presente, que não os limite as suas identificações de gênero, e as dificuldades que as marcam. E, para quando formos olhar para os obstáculos, vamos focar nos desafios gerados pelos verdadeiros vilões da adolescência trans: os adultos e a transfobia.
super-jovens
Não queremos trazer um tom triste para a reportagem, mas, no decorrer da apuração, algumas lágrimas foram difíceis de serem contidas. A força desses jovens move montanhas e, inevitavelmente, o choro para fora dos olhos. “Mãe, não existe nenhuma outra criança igual a mim?”. Essa foi uma das perguntas que o pequeno/grande Levi fez à Lana, ao entender-se como um menino trans, com 10 anos.
É solitária a trajetória desses jovens. Eles estão abrindo caminho com as suas próprias mãos, que ainda nem terminaram de crescer. Com unhas compridas, roídas, pintadas, ou não, eles deixam suas marcas nas escolas, aulas de inglês, no futebol, em suas casas.
Leon – que já viveu mais um aniversário com sua identidade mais autêntica – com seus doze anos, é a primeira criança/pré-adolescente trans de sua escola. Sua mãe, a Joyce, conta que isso soa um pouco assustador e que muitos embates tiveram que ser travados para que seu filho tivesse seus direitos respeitados. “Eu sou muito feliz por proporcionar um lar seguro, um lar acolhedor, onde ele pode ser ele, onde ele pode se expressar do jeito que ele quer”, comenta.
O orgulho que as mães com quem conversei têm de seus filhos é perceptível pelo carinho como falam deles. Na grande maioria, os jovens trans tendem a ser excelentes alunos e a darem mínimo trabalho. Não podemos dizer que isso é 100% inerente a eles, mas sim que poucas opções sobram para que consigam menos ‘rótulos’ em suas vidas. Levi, 10. Leon, 12. Rafa, 16. Erica, 17. Todos excelentes alunos, não há do que reclamar. Problemas na escola? Ainda assim, podemos ter. Quando estamos falando de juventude trans, como bem colocado por Joyce, a sociedade nunca está satisfeita.
Vinícius Mota, psicólogo e autor do livro Adolescências Trans: Narrativas de Diversidade, Acolhimento e Inclusão, partilhou um pouco sobre as pressões que os jovens trans, que foram o escopo do seu estudo, lhe traziam nos encontros: “no grupo era unânime, todos eles terem bom aproveitamento escolar”. Uma das falas que o autor lembra com clareza é: “Vinícius, a gente tem que ser muito bom. Porque qualquer vacilo que a gente cometer, o dedo vai vir para a gente muito mais pesado. A mão pesa muito mais porque: ‘olha aí, ó, tá vendo?’ É porque ele é trans”.
“As pessoas resumem uma mulher trans a ser uma mulher trans”, diz Erica, de 17 anos, que parou de estudar pela transfobia. A adolescente é definida pela mãe leoa, Helenilda, como uma “mulher admirável” e que sempre gostou de estudar, mas não tinha condição psicológica de manter-se na escola com as tempestades transfóbicas geradas pelos detentores de maturidade: os adultos.
Não respeitavam seu nome, retificado nas listas de chamada. Não aceitavam entregar a ela um lanche na cantina, respeitando seu gênero. Banheiro? Somente o de uso comum dos funcionários. “As outras meninas não se importam que eu usasse o mesmo banheiro que elas, mas eles não deixavam”, partilhou Erica. Bom, o resultado disso tudo: uma forte infecção urinária, adoecimento psicológico e uma pausa nos estudos. Mas, espera, é a transição de gênero que impede os jovens de se desenvolverem, correto?

Hoje, a criança de 8 anos que disse à mãe que achava que sua vida seria mais fácil se fosse menina, com seus sweet seventeen vive seu conto de fadas com o seu amor, Pedro, que mora junto com ela e sua família. Erica agora, ao invés de estar no caos da tempestade, pode dançar na chuva, com uma paixão que a ama inteiramente, independentemente de sua identidade de gênero.
dúvida? de quem?
Marcelle Bénac, mestre em neurociências e professora, sentiu os primeiros estágios de sua transição de gênero na adolescência, ainda no ensino médio. Hoje, com toda sua bagagem existencial, ela estuda e afirma o fato de a biologia nunca ter negado os corpos trans. Biologia, ciência, cromossomos. Não é uma aula de ciências na escola, são os termos que usam para invalidar as existências de gêneros dissidentes.
Ela é de 1998, cresceu e passou por sua transição no final de seu ensino médio, no Sergipe, sem muitas referências. Joyce e Lana comentam sobre uma curadoria que têm feito para que seus filhos, ainda sem o uso de uma rede social própria, possam ver vídeos onde encontrem os membros de sua comunidade contando um pouco de suas experiências.
Se espera que a adolescência seja a formação da sinopse que ajudará na formação do título do livro da vida adulta. Porém, muitas pessoas, como os jovens trans, não possuem caneta, computador, ou qualquer auxílio para escreverem o que virão a ser. “Eu sempre escutava esses comentários, vindo do meu pai, aquele homem do interior do nordeste, que ‘daqui para os quinze anos daria para ver o que você vai virar’”, diz Marcelle. Foi um momento de confusão que, com um apoio e uma rede, poderia ter muitas questões evitadas.
A confusão sobre a existência é universal. Não é algo restrito a jovens trans. É comum lermos: “como podemos deixar com que jovens escolham seus gêneros? Neles, não há maturidade para isso”. É claro que a ideia de “escolha” já caiu em desuso e, deveríamos saber que gênero é um construto social e sua performance não pode ser atribuída à escolha, mas sim à identificação.
Rafa, de 16 anos, comentou que, antes de se identificar como um homem trans, passou por um processo comum: o de entender a dissidência ainda restrita à sexualidade. Sentia atração por meninas e, por certo momento, aquilo foi o primeiro passo para futuras mudanças. Leon, passou por momentos semelhantes, entendendo-se como uma pessoa bissexual inicialmente. Quantas coisas: atração física, apaixonar-se, desejar. Tudo isso se sente no corpo, e entender seu próprio corpo no meio desse processo é um desafio.
Quando vamos para o âmbito da neurociência, através de Marcelle, entende-se que os jovens têm poder de escolha, mesmo esse poder ainda estando em estado de formação. “Estamos tendo um amadurecimento das estruturas que estão relacionadas à tomada de decisão no nosso córtex pré-frontal. Eles podem escolher, mas esse processo está em construção, de acordo com a maturação do cérebro”, soma ela.
Joyce, sentada ao lado de Leon, os dois de cabelos curtos e camisetas pretas, comentou que a ideia de confusão e arrependimento não deve ser o foco das pessoas no que tange aos adolescentes trans. “Muitas pessoas ficam falando ‘mas, ah, e se amanhã ele mudar de ideia, ele desistir, ele achar que não é mais isso e querer voltar?’. O que mais fica para mim é que se eu não tivesse respeitado ele hoje, não ia ter o amanhã e depois. Meu filho estava indo embora. Não ia ter futuro. Não precisava nem ter chegado nesse estado se não fosse a transfobia que ele sofreu lá fora”, comentou.
Leon somou à mãe, em suas palavras: “se a gente não tentar, não experimentar, como a gente vai saber se é isso que a gente quer ou não? Precisamos experimentar. Se não der certo, não deu. A gente tenta de novo”.
A transição de gênero pode ser a salvação e a força de que esses jovens precisam para um futuro à vista. “Hoje, eu posso dizer com toda certeza como mãe, reconhecendo meu filho, que ele é muito mais feliz do que há quinze anos atrás”, diz Fran, mãe do Rafa de 16 anos. A alegria no seu sorriso transcende, a sua paz interior se reflete e ele está mais livre.
Rafa teve ajuda de um amigo da escola para escolher o seu nome atual. O processo de escolha de nome é muito significativo na vida de qualquer pessoa trans. O simbolismo do ambiente escolar ter sido também o espaço onde outro adolescente o ajudou em um pedaço da transição, é como um afago nas diversas questões que surgem no início da vida trans.
Com os relatos dos adolescentes, pude perceber que os jovens lidam de uma maneira mais natural com identidades de gênero dissidentes do que os adultos. É claro que não podemos generalizar, mas os convites de aniversário que não chegavam, os comentários transfóbicos em supermercados, a proibição de se usar um banheiro específico, tudo isso veio de adultos. A reflexão que provoco é invertemos a lógica enraizada e pensarmos: são realmente os adolescentes trans que atrapalham seu próprio desenvolvimento?
As mães com quem conversei relatam toda a potência de seus filhos. Elas sabem que o futuro reserva coisas brilhantes para eles. A mãe de Rafa demonstrou ansiedade em relação ao futuro, entendendo que existe, de fato, falta de oportunidades e estigmas vividos por pessoas trans quando adultos, o que é uma preocupação comum. Perguntei se Rafa partilhava do mesmo sentimento. “Não dá para evitar não pensar nisso. Eu sei que as oportunidades são muito menores. Mas eu tento não pensar nisso e continuar estudando”, ele conclui.
A mãe da Erica, Helenilda, também olha com carinho para o futuro da filha e deseja que ela seja uma mulher independente. Para incentivar a filha a terminar o ensino médio e se preparar para o ENEM, Helenilda vai voltar a estudar também. “O futuro dela é o meu também!” ela vibra. Erica quer fazer faculdade, quer casar, quer comprar uma casa, quer adotar um filho. Erica quer viver.

