(Imagem: Montagem por Thaís Moraes)
Cada vez mais presentes no cotidiano, as ferramentas de IA despertam curiosidade e fascínio entre adolescentes, mas também trazem dilemas sobre aprendizado, privacidade e limites éticos
Por Camilly Rosaboni
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“Quando eu pedi para a Inteligência Artificial melhorar uma foto minha, ela me deixou branco – e eu sou negro kkk”, brinca Richard Pietro, de 16 anos, ao lembrar uma de suas experiências com a tecnologia. O episódio pode parecer engraçado à primeira vista, mas evidencia uma grave fraqueza da ferramenta: a incapacidade de distinguir o certo do errado. Ao reproduzir o racismo velado, a tecnologia evidencia que ainda reflete preconceitos e limitações nos próprios dados que a alimentam.
Essa reflexão já havia sido antecipada por Alan Turing em seu artigo “Computing Machinery and Intelligence”, de 1950, no qual o cientista propõe uma questão simples, mas provocadora: as máquinas podem pensar?
Desde então, a evolução foi impressionante. A versão mais recente da IA generativa da OpenAI — o GPT-5, lançada em agosto de 2025 — é capaz de lidar com questões complexas, demonstrando maior capacidade de raciocínio e escolhendo, em tempo real, as melhores ferramentas de acordo com o tipo e a intenção da conversa.
Essa precisão já começa a ser percebida por jovens brasileiros. Ryan Machado, de 15 anos, conta que costuma recorrer à IA para ajudar nos trabalhos escolares. “Quando usei pela primeira vez, fiquei impressionado. Já existiam recursos parecidos na internet, mas a precisão do ChatGPT era algo novo”, relata.
Grande avanço para uns, prejuízo iminente para outros. Eduardo Cavalheiro Moura, cofundador da Pulse Mais – organização sem fins lucrativos que disponibiliza mentorias para auxiliar na carreira de jovens de baixa renda em tecnologia – diz que essa ideia de ‘atalho’, de que a IA faz tudo, pode criar ciladas para os próprios jovens.
“As tecnologias emergentes vão continuar mudando o mercado. Se a gente ficar refém de alguma tecnologia a nível de aprendizado e de conhecimento, isso pode prejudicar os próximos passos de carreira e a transformação que a gente quer que esses jovens atinjam na sua vida”, avalia Moura.
O prejuízo é claro para Sophia Bianca Ferreira, de 15 anos. “Na hora da prova, ela cobra, né?”, brinca. A estudante admite usar a IA com frequência para fazer as lições de casa, mas reconhece o receio de não estar, de fato, aprendendo o conteúdo.
A relação dos jovens com a inteligência artificial vai muito além da escola. Uma estudante de 16 anos, que preferiu não se identificar, contou à reportagem que já compartilhou com a ferramenta todos os detalhes de seu relacionamento para que a IA escrevesse, por ela, uma mensagem de término.
O uso da tecnologia se torna ainda mais delicado quando a máquina — desprovida de sensibilidade e empatia humanas — passa a ser utilizada em contextos de apoio emocional ou até como substituta de acompanhamento psicológico.
De máquina à confidente: o uso da IA para tratamento psicológico
Uma brincadeira que circula nas redes sociais pergunta “se o histórico da sua conversa com a inteligência artificial fosse vazado, o que as pessoas descobririam?”. Ao ser questionada, Ferreira não hesitou: “eu desabafo com o ChatGPT, trato como um psicólogo. Então, ia vazar umas coisas bem íntimas.”
A jovem conta que costumava compartilhar suas dores e angústias com a inteligência sintética, e, em troca, recebia conselhos e até supostos diagnósticos. “O Chat sempre me respondia de um jeito muito bom, mas às vezes dava uns diagnósticos que a gente nem sabe de onde vêm. Mesmo assim, os conselhos eram bons, ele até falava para eu procurar ajuda se estivesse mal”, relata.
O comportamento de Ferreira reflete o de muitos adolescentes, nessa fase marcada por emoções intensas e incertezas sobre o futuro. Esse cenário, repleto de vulnerabilidades, pode abrir espaço para quadros de ansiedade, baixa autoestima e depressão.
Apesar de aparentar ser uma ouvinte confidente, a IA não deve ser confundida com um psicólogo. “O maior risco é o diagnóstico equivocado ou a falta de intervenção em casos graves, como depressão e ideação suicida. A IA não tem sensibilidade para perceber sinais sutis de sofrimento nem recursos para agir em situações de crise”, alerta a psicóloga Ana Paula Hornos. Ela reforça que o atendimento psicológico deve ser realizado apenas por profissionais formados e credenciados.
O ChatGPT e outras plataformas de IA passaram a ser amplamente criticados por possíveis impactos na saúde mental, após casos de suicídio envolvendo adolescentes que usavam a tecnologia como confidente. Em resposta, a OpenAI anunciou, no início de setembro, novas medidas de segurança e controles parentais mais rigorosos.
Por outro lado, os chatbots podem ser usados de uma forma complementar ao tratamento psicológico: “O único espaço seguro é no apoio complementar, como ferramenta de organização de ideias ou exercícios de autoconhecimento, sempre com acompanhamento humano de um profissional credenciado”, diz Hornos.
O dilema entre controle, privacidade e desenvolvimento
É comum que, nessa fase da vida, os pais busquem acompanhar mais de perto o que os filhos consomem na internet. No caso de Ferreira, essa preocupação resultou em um controle de telas mais rígido — limitado a três horas por dia — depois que a jovem passou cerca de 12 horas seguidas no TikTok.
Mais do que o tempo de exposição às telas, preocupa também o tipo de conteúdo acessado e a forma como os dados pessoais são utilizados. Uma jovem de 16 anos contou à reportagem que já presenciou a IA responder detalhes muito específicos sobre sua família, profissão e até traços de personalidade – informações que ela afirma nunca ter mencionado na conversa.
No âmbito legal, ainda não há nenhuma legislação que regule o uso da inteligência artificial. Como explica o advogado Fernando Moreira, o que temos é somente o marco legal da inteligência artificial, pelo Projeto de Lei (PL) 2.338/2023, que busca regulamentar o desenvolvimento e o uso da IA no país.
“O Projeto de Lei traz toda uma ética quanto ao uso da inteligência artificial, inclusive considerando os graus de risco. E essas questões de saúde entram num risco elevado”, diz Moreira ressaltando os casos de uso da ferramenta para tratamentos.
Enquanto não há uma definição legal, valem os bons e velhos Código de Defesa do Consumidor (CDC) e Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). “Um jovem que tem um dano em razão da utilização, pode eventualmente provocar uma responsabilização de todos envolvidos no fornecimento daquela inteligência artificial”, diz Moreira.
Do ponto de vista da psicologia, o uso excessivo da tecnologia pode comprometer o desenvolvimento emocional e cognitivo do jovem, tornando-o um adulto mais suscetível a pressões externas, dependente de validação e com dificuldade de sustentar suas próprias escolhas.
“Se o adolescente se forma apenas mediado pela IA, ele pode pular etapas importantes desse processo: experimentar papéis, lidar com frustração, construir autonomia e pertencimento. O perigo é se moldar por filtros e respostas prontas em vez de desenvolver autenticidade”, afirma Hornos.
Ainda assim, a proibição não é o melhor caminho. Para a psicóloga, o ideal é que famílias e escolas acompanhem o processo de uso e reforcem que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de apoio, não como substituta das experiências e aprendizados reais.
Como manter o equilíbrio?
Apesar de suas limitações, a inteligência artificial não deve ser vista como uma inimiga. Com sua imensa base de dados e capacidade de personalização, ela pode ser uma aliada no processo de autodesenvolvimento e no estímulo à criticidade, muito além de apenas auxiliar nas tarefas escolares.
No caso de adolescentes que se preparam para o vestibulinho e/ou vestibular, por exemplo, a IA pode adaptar conteúdos conforme o ritmo de aprendizado, sugerir temas e avaliar a qualidade das redações, além de criar planos de estudo personalizados para otimizar o desempenho. As possibilidades são inúmeras — desde que a tecnologia seja usada como apoio, e não como substituta da autonomia do estudante.
“A criatividade é um processo: exige treino, exposição a estímulos diversos (visual, sonoro, tátil, relacional) e exercício do senso crítico e da abstração. Se a IA entrega respostas prontas sem que o jovem tenha sido formado nesse repertório, ela oculta o treino necessário e isso empobrece a capacidade criativa e a autonomia até para guiar a própria ferramenta”, avalia a psicóloga Hornos.
Em resumo, a tecnologia inteligente é uma ótima aliada para facilitar as tarefas, mas não deve ser tratada como “faz-tudo”. A IA pode te dar a receita, mas quem deve pôr a mão na massa é você.
“É importante refletir sobre como você quer usar a ferramenta: vai deixar que ela faça o trabalho por você, de forma passiva, ou vai usá-la para aprimorar o que já fez, com um olhar crítico e focado em aprender mais?”, provoca Moura.
A presença dos jovens nas ferramentas de IA
Os jovens da geração Z já nasceram imersos na conectividade. Com acesso constante à internet, computadores e smartphones, eles vivem em um mundo onde estar online é parte natural da rotina.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, lançada em outubro pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), quase dois terços dos brasileiros entre 9 e 17 anos que acessam a internet já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa em seu dia a dia, seja para estudar, criar conteúdo ou conversar sobre sentimentos.

Os dados mostram que o uso de chatbots aumenta conforme a idade. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, a presença dessas ferramentas é significativamente maior do que entre crianças de 9 a 10 anos. No caso das pesquisas escolares, o uso chega a 68% entre os mais velhos, contra 37% entre os mais novos. O mesmo padrão se repete na busca por informações (60% contra 17%), na criação de conteúdo (32% contra 9%) e até nas conversas sobre questões pessoais ou emocionais (12% contra 4%).
“A inteligência artificial generativa está cada vez mais presente nas práticas digitais cotidianas. Diante desse cenário, incluímos um novo indicador à pesquisa para monitorar como crianças e adolescentes estão utilizando essas tecnologias. Com isso, buscamos gerar evidências que contribuam para a formulação de políticas e ações voltadas à sua proteção, ao bem-estar e desenvolvimento integral”, explica Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.
Especialistas destacam que a relação dos jovens com a IA é ambivalente: ao mesmo tempo em que estimula a curiosidade e a criatividade, também pode reforçar a ansiedade por respostas imediatas e a dependência digital. O desafio é equilibrar — usar a IA como ferramenta de descoberta, sem deixar que ela substitua o pensamento crítico ou a convivência real.
