(Imagem: Montagem por Maria Fernanda Barros)
Apesar da distância e de redes sociais distintas, jovens brasileiros e chineses compartilham o mesmo desejo: se expressar e se conectar
Por Nicolas Vaz Coelho
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É fim de tarde em Hangzhou, capital da província de Zhejiang, uma das cidades mais desenvolvidas do leste da China. No centro comercial, altamente movimentado, um grupo de jovens ajusta cuidadosamente a intensidade da luz de LED e posiciona o tripé diante da calçada. O cenário parece uma mistura de filmes cyberpunks com a arquitetura chinesa tradicional: telhados curvos, letreiros iluminados e edifícios espalhados por todos os cantos. Ainda que a produção seja improvisada, ela reflete a ideia de uma juventude que transforma qualquer espaço em palco, e a qualquer instante em performance.
O som ambiente lembra o burburinho das ruas de São Paulo. Vozes cruzadas, passos apressados e o ruído constante de uma cidade que nunca para. O grupo de jovens, composto por meninos e meninas, mais se parecem com personagens de animação. Cabelos coloridos, maquiagens holográficas, estilo marcante e ‘’labubus’’ como item de moda pessoal.
Com o cenário e o roteiro definidos, eles escolhem um áudio viral, uma batida pop que também brilha no Ocidente, ou um trecho de música que domina os feeds da semana. Quando a gravação termina, eles se reúnem em volta da tela para ver o resultado. Repetem a cena, ajustam o enquadramento e trocam ideias. É um processo coletivo, quase artesanal. Mas ao mesmo tempo, parte de uma engrenagem global que transforma segundos de atenção em milhões de visualizações.
O vídeo final logo será publicado no Douyin, a versão chinesa do TikTok e uma das plataformas de vídeos curtos mais populares do país, no qual milhões de jovens compartilham fragmentos de suas rotinas. A expectativa é que o conteúdo viralize, e que o fluxo de curtidas, comentários e seguidores se transforme em visibilidade e influência. Essa lógica que mistura entretenimento, performance e autopromoção não difere muito da que move criadores de conteúdo no Ocidente, como o Brasil. Quanto mais tempo o público assiste, mais o algoritmo recompensa. Mas nem todo clique busca fama.
A rede chinesa
Há ainda quem prefira se conectar de um jeito mais discreto, e encontrar nas redes um refúgio de leveza. É o caso da jovem Xinyu Xu, de 20 anos, estudante de português na Communication University of China, em Pequim, onde vive. Para Tatiana, como também é chamada, as plataformas são mais um espaço de entretenimento e descanso, do que de autopromoção.
“Uso principalmente o Little Red Book – plataforma chinesa que mistura elementos do Instagram e do Pinterest – porque o algoritmo me mostra conteúdos nos nichos que eu mais gosto”, conta. “Também vejo vídeos no Douyin, mas apenas por diversão. Gosto de vídeos engraçados, de bebês e de animais fofos”.
Tatiana descreve essa relação como uma forma de lazer, quase terapêutica. “Só quero aliviar o estresse ao usar as redes sociais. Às vezes compartilho minhas fotos e os elogios de estranhos me trazem alegria”, diz. Ao contrário de muitos criadores que buscam visibilidade, ela enxerga as redes como um espaço de descanso mental, um lugar para observar, mais do que ser vista.
Enquanto parte dos jovens chineses transformam as redes sociais em vitrines, Tatiana representa uma parcela crescente que vê a internet como refúgio emocional. Seu consumo é mais curioso e afetivo do que o performático, uma pausa no ritmo acelerado da vida conectada.
Embora esteja mais acostumada a utilizar as redes sociais chinesas, Tatiana revela que já acessou plataformas estrangeiras. “Quando morei em Macau, conseguia acessar o Instagram e o YouTube com mais facilidade”, conta, referindo-se à antiga colônia portuguesa, que mantém um sistema de internet mais aberto que o da China continental.
No território chinês, muitas redes ocidentais, como o Instagram e o TikTok, não funcionam por conta de um rígido sistema de filtragem e bloqueios governamentais, conhecido como “Great Firewall”. Lá, é comum o uso de VPNs, ou Rede Virtual Privada, como alguns brasileiros também fazem para acessar serviços restritos em outros países. Mas a prática exige certo esforço, e isso acaba influenciando quais plataformas se tornam populares.
No entanto, a juventude, em qualquer parte do mundo, tende a se concentrar onde estão seus pares. A conexão pode atravessar fronteiras tecnológicas, mas é o senso de comunidade que define onde as interações se concentram.
A rede brasileira
Se na China o Douyin é o palco onde jovens exibem suas rotinas e desenvolvem sua criatividade, no Brasil o roteiro não é muito diferente. Entre vídeos de humor, trends de dancinhas e vídeos de ‘’arrume-se comigo’’, as redes sociais também se tornaram uma extensão da vida cotidiana. “Eu uso mais o Instagram e o TikTok. O Instagram é onde acompanho amigos, vejo stories e posto algumas coisas do meu dia. Já o TikTok eu uso pra relaxar, ver vídeos engraçados e descobrir músicas novas”, conta a estudante Eduarda Lacerda Novaes, de 18 anos, moradora da cidade de Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo.
O consumo é rápido, mas a imersão é total. “Gosto de ver vídeos de moda, humor e dança. Muita coisa que eu escuto ou vejo vem de alguma trend das redes”, diz. É o mesmo movimento que transforma um corte de cabelo, uma coreografia ou um som em fenômenos globais, e que faz da internet um espelho de desejos e identidades juvenis.
No Brasil, a lógica do engajamento se mistura à busca por pertencimento. As plataformas são espaços de lazer, mas também de expressão pessoal. “Muita gente acessa às redes para se distrair, ver vídeos e dar risada, mas também tem quem use para mostrar opinião, talento ou desabafar. As redes viraram meio que parte da vida mesmo”, afirma.
A jovem comenta já ter tido contato com uma das redes sociais mais populares da China, o Kwai, — versão internacional do Kuaishou, que nasceu no país asiático – e nota diferenças sutis entre os públicos. “Achei legal, mas o conteúdo é um pouco diferente, parece mais simples e voltado pro público do interior”, comenta. Ainda assim, percebe pontos de convergência: “Acho que os jovens chineses também usam as redes sociais para se divertir e acompanhar trends, só que com outro tipo de conteúdo, mais ligado à cultura deles.”
Entre influenciadores brasileiros, nomes como Virgínia Fonseca, Camila Loures e Bianca Andrade, conhecida como Boca Rosa, são presenças constantes no feed da Eduarda. Elas representam um estilo de vida que mistura rotina, consumo e performance, reproduzindo a mesma estética que, do outro lado do mundo, também domina a rede social chinesa Douyin.
O mapa digital da China
Para quem observa de fora, a internet chinesa costuma ser descrita como um território cercado, em que a censura molda o comportamento e limita a liberdade de expressão. Mas essa visão, construída em grande parte a partir de uma lente ocidental, não traduz a realidade cotidiana dos jovens do país.
Na China, as redes formam um universo próprio, no qual aplicativos se cruzam, se retroalimentam e moldam novas formas de sociabilidade. Plataformas como WeChat, Weibo e Bilibili ocupam o lugar que, no Ocidente, seriam do Instagram, do X (antigo Twitter) e do YouTube, mas com funções ampliadas, como se fossem super aplicativos.
Diferente das redes ocidentais, as plataformas chinesas vão além de simples pontes de socialização. No WeChat, por exemplo, é possível pagar contas, pedir comida, chamar um carro ou até agendar consultas médicas. Já o Bilibili concentra a produção criativa da juventude chinesa, enquanto o Kuaishou destaca histórias e a rotina de criadores de conteúdo.
Por trás desse ecossistema, existe uma estrutura de gestão e proteção de dados que diferencia a internet chinesa da ocidental. O país incentiva a criação de suas próprias plataformas e mantém boa parte do tráfego e das informações dentro de um circuito nacional. O objetivo declarado é garantir a segurança digital e a autonomia tecnológica, reduzindo a dependência de empresas estrangeiras e preservando o que é produzido internamente.
Essa política é supervisionada por órgãos como a Administração Nacional de Rádio e Televisão, responsável por orientar o conteúdo que circula nas redes e nas plataformas audiovisuais. A lógica se apoia em legislações recentes, como a Lei de Segurança de Dados e a Lei de Proteção de Informações Pessoais, ambas de 2021, nas quais se determina que os dados gerados em território chinês sejam tratados e armazenados dentro do país.
No Brasil, o debate sobre soberania digital vem ganhando força nos últimos anos. Em agosto de 2024, o bloqueio temporário da plataforma X (antigo Twitter) evidenciou o impasse entre empresas globais e governos nacionais sobre o cumprimento da legislação local, colocando em discussão a necessidade de regras claras para o funcionamento de redes sociais e a proteção de dados dos usuários.
O episódio mostra como o país se encontra em um momento decisivo: a forma como plataformas digitais serão reguladas pode aproximar ou distanciar o Brasil de modelos adotados em outros países, como a China, onde as plataformas operam dentro de um ecossistema regulado desde sua origem.
O idioma em comum
Apesar de estarem separados por mais de 17 mil quilômetros, os jovens brasileiros e chineses compartilham algo essencial: a necessidade de se expressar. Nas telas do celular, entre dublagens, transições e registros do dia a dia, o cotidiano é transformado em narrativa.
Ynes Zheng, que vive em Pequim e atua em uma empresa de tecnologia e mídia social com presença tanto na China quanto no Brasil, observa que as diferenças culturais aparecem mais no tom, do que no conteúdo. “Os jovens brasileiros são mais energéticos e expressivos”, diz. Ainda assim, a essência é a mesma: “Independentemente de onde estejam, os jovens mostram uma incrível criatividade e desejo de se fazer ouvir.”
Para ela, essa semelhança ajuda a explicar porque as plataformas chinesas têm conquistado espaço fora da Ásia, especialmente na América Latina. A linguagem da auto expressão atravessa fronteiras com facilidade, unindo jovens que, mesmo separados por continentes, compartilham da mesma vontade de serem vistos e ouvidos.
Essa convergência acontece mesmo dentro de ecossistemas digitais distintos. Na China, o Douyin, o Kuaishou e o Bilibili operam em um espaço próprio, com regras e algoritmos diferentes das redes ocidentais, mas a lógica de criação é idêntica. Jovens editam vídeos, comentam tendências e constroem comunidades em torno de afetos e referências compartilhadas. É uma espécie de “feed paralelo”, onde a estética, o humor e os desejos ecoam de forma quase idêntica à das telas brasileiras.
Os vídeos que viralizam no Douyin, por exemplo, poderiam facilmente circular no TikTok brasileiro. Coreografias, desafios, vídeos de humor, truques de beleza e relatos pessoais seguem a mesma lógica de engajamento e pertencimento. As fronteiras existem, mas são mais de código e geopolítica, do que de comportamento.
