(Imagem: Montagem Canva/Júlia Moreira)
Conheça as olimpíadas científicas, competições que unem dedicação, oportunidades e um jeito bem diferente de aprender
Por Ingrid Gonzaga
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Se você está acostumado a ver filmes que se passam em escolas de ensino médio, já deve ter assistido a alguma cena em que um grupo de alunos participa de uma grande competição de matemática, com perguntas mirabolantes feitas só para os mais inteligentes do colégio resolverem.
Isso acontece, por exemplo, no filme High School Musical, quando a protagonista Gabriella se divide entre um musical e um decatlo acadêmico — um campeonato cheio de questões científicas —, e em Meninas Malvadas, em que a personagem Cady participa de uma disputa de matemática antes de ser eleita rainha do baile.

Mas você sabia que provas como essas não existem só na ficção? Na verdade, elas também acontecem no Brasil e muitos jovens da sua idade participam. Por aqui, elas são conhecidas como “olimpíadas de conhecimento” ou “olimpíadas científicas”. Ainda que o nome remeta às ciências e as olimpíadas mais conhecidas sejam as de matemática, essas competições abordam temas de várias outras áreas do conhecimento e têm milhares de competidores todos os anos.
E o mais legal desses torneios é que você pode escolher de quais quer participar, basta, em alguns casos, se inscrever por conta própria ou, na maioria das vezes, pedir para que sua escola faça sua inscrição neles. A Revista Babel te conta tudo sobre como as olimpíadas funcionam, como participar e por que tanta gente sai delas com histórias incríveis para contar.
Mas afinal, o que são essas tais olimpíadas?
As olimpíadas de conhecimento são competições acadêmicas, com questões sobre áreas específicas. Essas provas servem para estimular a divulgação científica e o contato de jovens com desafios que incentivem a resolução de problemas e o aprofundamento da aprendizagem.
Na Europa, elas começaram como provas de matemática no século XIX, na Hungria, e logo se espalharam pelo continente, chegando à antiga União Soviética. Foi lá que a primeira competição internacional de conhecimento foi criada, em 1959: a Olimpíada Internacional de Matemática (IMO).
O Brasil entrou na onda vinte anos depois, em 1979, com a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), que existe até hoje. Em 1986, foi a vez da química ganhar uma competição só sua, a Olimpíada Brasileira de Química. A partir daí, olimpíadas de muitos outros assuntos surgiram, como astronomia e astronáutica, física e informática.
Por aqui, a mais famosa das olimpíadas é a OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas), criada em 2005 pelo Governo Federal. No passado, apenas alunos da rede pública de ensino podiam participar, mas, desde 2017, a prova começou a aceitar também os de instituições privadas. Só em 2025, mais de 18,6 milhões de estudantes se inscreveram na primeira fase da competição — e esse número aumenta a cada ano.
Mas calma: não só das exatas vivem os competidores. Se você curte mais a área de humanas ou biológicas, existem muitas opções de que pode gostar. Tem olimpíada de tudo: história do Brasil, linguística, biologia, medicina, geografia e mais! Vale a pena conferir e se arriscar nas que mais te chamarem a atenção.

Por que fazer uma prova por vontade própria?
Letícia Kimoto, de 23 anos, até ia bem nas matérias da escola, mas achava que as competições olímpicas não eram para ela. Foi só no sétimo ano do ensino fundamental que, incentivada por um professor e uma coordenadora do colégio, resolveu se inscrever em algumas provas.
“Naquele ano, acabei me inscrevendo em três olimpíadas, que foram as áreas que eu mais me identificava. Eu me inscrevi na OBM, na OPM, que é a Paulista de Matemática, e também na OBI, a Brasileira de Informática. Incrivelmente, acabei me saindo bem”, conta.
É possível que a ideia de participar de uma prova por vontade própria pareça loucura para você. Mas as olimpíadas podem ser divertidas, e ainda oferecem uma série de vantagens para seus participantes.
A mais conhecida delas é a chance de ganhar uma medalha pelos seus bons resultados. Além de ser um reconhecimento da sua dedicação, ir bem em uma olimpíada de conhecimento abre portas até para universidades. Esse é o caso da Letícia, que agora estuda engenharia mecatrônica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), uma das universidades mais importantes do país.
Ela passou três vezes na mesma instituição, de três maneiras diferentes: por meio das olimpíadas (em engenharia naval), por meio da Fuvest (o vestibular da USP, em engenharia ambiental) e, por fim, por meio do Enem (no curso dos seus sonhos, a engenharia mecatrônica).
Foram as olimpíadas que ajudaram Letícia a decidir qual caminho seguir na universidade. “Até o meu ensino fundamental, eu não sabia muito bem o que queria fazer. Quando aprendi a programar, isso me aproximou um pouco mais da ciência da computação. Durante um bom tempo do ensino médio, achei que queria fazer engenharia da computação, mas depois acabei me envolvendo com robótica e pensei: ‘vou fazer mecatrônica’”, ela conta.
Assim como ela, outros jovens descobriram novos mundos por causa das olimpíadas. Foi o que aconteceu com Rhyann Sodré, de 22 anos, que cursa farmácia na USP. Foi graças à OBMEP que ele teve seu primeiro contato com a Universidade de São Paulo.
Estudante de uma escola pública na zona leste de São Paulo, Rhyann conquistou uma medalha durante o sétimo ano do fundamental e, por causa dela, teve a chance de participar de um curso de matemática que era ministrado na universidade.
“Até lá, eu não sabia muito bem o que era a USP. Eu sabia que era uma universidade grande, mas não onde ela fica, o que ela oferece, o quão grande é o tamanho dela. Eu sinto que as olimpíadas são uma porta de entrada para todo mundo, porque o Rhyann pequenininho não conhecia tudo aquilo”, relembra o jovem.
Além de estudo para as próximas edições da olimpíada, o curso ofereceu a Rhyann uma bolsa mensal de R$ 100 e a oportunidade de aprender Python — uma linguagem de programação — e soluções químicas, algo que está presente até hoje na sua graduação. Para completar, ele também obteve um desconto em um cursinho por causa de seu desempenho olímpico, o que o ajudou a passar na faculdade pelo vestibular.
As medalhas em olimpíadas nacionais permitem ainda que os estudantes avancem para um outro patamar: a de competidor internacional. São várias as provas que possuem versões mundiais e, caso se classifique, um aluno pode até viajar para outro país para poder participar!
E não é só quem consegue medalha que sai ganhando. Isso é o que garante o Colégio Franciscano Pio XII, localizado na zona oeste da capital paulista. Lá, existe o OlimPio, um comitê responsável por gerenciar os torneios acadêmicos, que incentiva seus alunos a participarem das competições.
Segundo a escola, é comum notar mudanças positivas no comportamento dos estudantes olímpicos — mesmo daqueles que não chegam ao pódio das provas. “O processo de preparação, estudo e enfrentamento de desafios já promove um grande aprendizado, desenvolvendo habilidades como autonomia, disciplina, persistência, raciocínio lógico e autoconfiança”. É uma grande oportunidade de descobrir mais sobre o mundo e sobre si mesmo.
Uma de suas alunas, Mariana Jordão, de 16 anos, é prova disso. Apesar de ser multimedalhista nas olimpíadas de conhecimento e achar gratificante ter sua dedicação premiada, ela também sabe bem das competências que desenvolveu por causa das competições.
“Conquistei habilidades e aprendi a resolver problemas complexos, gerenciar melhor o tempo de prova, produzir sob pressão, compreender que o erro faz parte do processo e analisar os pontos que preciso melhorar para continuar buscando meus objetivos. Além disso, aprendi conteúdos que não vejo na escola, como a área de astronomia e cálculo, pelas quais me interessei muito”, explica.
As olimpíadas também são um ótimo lugar para fazer novos amigos: “Foi entrar na OBMEP que me apresentaram para um mundo novo, eu comecei a ter contato com mais pessoas, vi o quão longe os estudos podiam me levar”, conta Rhyann. “Eu tinha bastantes amigos lá, a gente conversava, falava de situações, eu via que valia a pena gastar duas horas no trem para ir [para as aulas preparatórias], duas para voltar, para estudar”.
O verso das medalhas
Nem tudo no mundo olímpico é positivo. As olimpíadas podem nos mostrar também como o acesso à educação ainda é bem desequilibrado no nosso país — principalmente quando comparamos escolas públicas e particulares.
Essa desigualdade já aparece em outras situações. Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que comparou dados do Enem entre 2013 e 2021, mostrou que, mesmo que as escolas públicas tenham mais alunos matriculados, elas têm menos participantes nas provas do que as particulares. E tem mais: estudantes de colégios privados tiveram, em média, notas 60 pontos maiores.
No cenário olímpico, outras coisas aprofundam as diferenças entre os competidores. Muitos colégios particulares contam com programas de preparação olímpica para seus alunos, que oferecem aulas e financiamento para os participantes dessas competições — algo pouco visto em escolas públicas.
Para mudar essa realidade e incentivar a participação de estudantes das instituições estaduais, a Secretaria de Educação de São Paulo criou, em 2025, um projeto que promete capacitar desde cedo os jovens do estado: as aulas olímpicas. Roberto Campos Júnior, que é o coordenador de olimpíadas do governo paulista, descreve a ideia.
“Elas acontecem aos sábados, são doze por semestre. O conteúdo é matemática e suas tecnologias. Quando você vai para qualquer movimento olímpico que aconteceu no Brasil, ele sempre se inicia pela matemática”, ele explica. “Conforme a cultura vai aumentando, você parte para ter um treinamento de ciências, de história, de outros tipos de olimpíada, mas a base passa principalmente pelo exercício do raciocínio lógico e da matemática.”
O conteúdo das aulas foi desenvolvido com foco nas olimpíadas por um parceiro da Secretaria, o grupo educacional Poliedro. O material é adaptado para os professores da rede estadual, que ministram o curso, e os estudantes são divididos em níveis de acordo com sua idade. Cerca de 11 mil alunos participaram da iniciativa nesses primeiros meses.
Outra parte do projeto da Secretaria são as olimpíadas de matemática e português que ela mesma desenvolve. “Fizemos uma olimpíada em que teve o engajamento de toda a rede, são 2,5 milhões de estudantes. Miramos em 5% dos alunos sendo vencedores. ‘Eu sou o 5% melhor de matemática e de português da minha cidade’, é um espetáculo. Então, com 2,5 milhões [de participantes], eu tenho 125 mil medalhas. Promovemos eventos de premiação por todo o estado para entregá-las”, conta Roberto.
O objetivo final é promover a autoestima desses estudantes e torná-los referências em suas escolas. Com isso, mais alunos sentem vontade de participar da prova e uma cultura olímpica é criada no colégio. É isso que, segundo o coordenador, pode equiparar os estudantes nas competições.
Roberto conta que já existe diferença entre escolas particulares que têm ou não essa cultura. “Quando você vai para o mundo das escolas públicas que não têm esse treinamento olímpico, os alunos que vão disputar com as particulares também estão bem atrás. Esse movimento das aulas olímpicas vai fazer com que, a partir do treinamento, esses alunos se aproximem e consigam disputar por algo a mais”, explica.
Questões de gênero também estão presentes. Mariana e Letícia, mulheres envolvidas no mundo olímpico, comentam que, em algumas provas, é nítida a maior quantidade de homens. “Sinto que os meninos participam e ganham muito mais essas competições, em especial nas matérias de exatas. Nessa área, a quantidade de meninas é muito inferior”, conta a aluna do Pio XII.
Ela não está errada. Dados da segunda fase da OBMEP de 2024 indicam que, dos quase 900 mil inscritos, menos de 400 mil eram do sexo feminino. Quanto aos premiados, somente 15% dos medalhistas de ouro eram mulheres.
Às meninas, resta a criação de comunidades. “Eu sempre tentava falar para as minhas amigas também irem fazer olimpíadas, porque querendo ou não era muito homem em exatas”, lembra Letícia. “Tinha uma página chamada ‘Meninas Olímpicas’ no Facebook, que incentivava mais meninas para fazerem olimpíadas. Eu acho muito legal essas iniciativas”.
Existem ainda as provas que são voltadas exclusivamente para o público feminino, como a Quimeninas (de química) e o Torneio de Física para Meninas. Se você é uma garota que tem vontade de participar, essa pode ser uma alternativa interessante!
Quero participar! Como posso me preparar?
Você já conheceu as olimpíadas, ficou sabendo de todos os seus benefícios e está morrendo de vontade de participar. Mas e agora, como se preparar para as provas? O Colégio Franciscano Pio XII dá algumas dicas.

Os estudantes olímpicos também dão seus conselhos. “Vá de coração aberto. Faça a prova, estude, se prepare, mas vá de coração aberto para fazer. No mundo das olimpíadas, apesar de eu ter focado muito só na parte de matemática, tem para diversas áreas, tem de biologia, tem de astronomia, bastante física, biologia, tem até de história, literatura”, diz Rhyann.
Letícia opina também. Para ela, não existe mais a visão de que só os “nerds” participam dessas provas: “Tente achar um tema que você se interessa, estude e veja. Tenta para ver, sabe? Acho que é como qualquer coisa na vida”, conclui.
E para os alunos das escolas públicas, Roberto explica o processo para se inscrever nas aulas olímpicas. Basta entrar no sistema da rede estadual de educação e buscar por “Aulas Olímpicas”, na área de “Gestão Escolar”. Fique atento ao período de inscrições e à quantidade de vagas, que são limitadas. Boa sorte nas provas!
