Não é só uma fase, mãe!

(Imagem: Montagem por Alessandra Ueno)

Histórias de adolescentes e ex-adolescentes rebatem o rótulo da rebeldia, e desvelam o que está por trás do incômodo com a postura contestadora dos jovens 

Por Bárbara Bigas

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Em um fim de semana qualquer, Gabrielle Zílio, então com 14 anos, saiu de casa alegando que iria dormir na casa de sua melhor amiga. Na verdade, ela estava indo para a casa de seu namorado. Seus pais não o conheciam, nem sequer sabiam que a jovem mantinha um relacionamento em tão tenra idade. Para ela, o ato era digno: existia uma euforia em fazer aquilo sem que ninguém soubesse, em tomar conta da própria vida. Era pura e simplesmente uma vontade sua — interferir nela só tornaria tudo pior.

Horas mais tarde, a mentira provou ter perna curta, como previa o ditado popular: sua mãe apareceu para buscá-la na porta da casa do namorado. O motivo? Sua avó havia passado mal e a família precisava estar reunida para lidar com o susto. Dali, ela foi direto atrás de Gabi na casa da suposta amiga, e acabou descobrindo a verdade.

Hoje com 26 anos, disciplinada como sua profissão de advogada pede, Gabi nem sempre se deu bem com as normas. Na adolescência, ela queria se destacar e experimentar o mundo do seu jeito — mas era confrontada diretamente com alertas de seus pais, que tentavam fazer com que ela não extrapolasse os limites e se colocasse em risco. Junto da vontade de cuidado, um brinde: ser chamada de “rebelde”. “Ainda muito nova eu iniciei muitas coisas que são coisas de adulto, sempre fui precoce: bebi muito jovem, fumei muito jovem, saí bastante de casa”, analisa Gabi sobre aquele período.

Morando na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, ela tinha motivos o bastante para querer se diferenciar. Nascida em São Paulo, tinha como referência os amigos da capital, mas de volta à cidade onde vivia, via outro tipo de tendência e comportamento entre as pessoas de sua idade. “Quando eu vinha passar as minhas férias em São Paulo, eu convivia com os meus amigos super descolados. Aí eu chegava em Ribeirão e todo mundo estava falando do Luan Santana”, conta. Essas diferenças culturais eram definitivas para Gabi: ela queria mostrar um outro lado de si, que se diferenciava das outras adolescentes. “Era uma busca por autonomia e uma busca por auto-afirmação também. Eu queria me bastar e ter independência, mas também queria me encaixar”, conclui. 

Quando olha para trás, ela tem essa interpretação dos fatos. Mas na época em que vivia todas essas coisas, o rótulo de “rebelde” a perseguia, vindo especialmente de seus pais e dos pais de suas amigas. Enquanto tentava agir de acordo com os próprios termos, Gabi enfrentou alguns conflitos com seus pais, entre castigos e discussões, em que ela não entendia o que estava fazendo de errado. Criada majoritariamente pela mãe, foi com ela que as piores brigas aconteceram. “Nessa minha fase da adolescência, minha relação com minha mãe era péssima, a gente discutia muito. Ela ficava mal porque tinha reações ruins e  achava que passava do ponto, mas ao mesmo tempo eu estressava muito ela e era muito mal educada”.

Linha cruzada

Esse local confuso da adolescência, onde muitas vezes não se entende completamente o que é certo e o que é errado, é definido como um “período de espera” por Paula Fontana Fonseca, psicóloga do Serviço de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). “No adolescente, o desenvolvimento biopsicológico do corpo já aconteceu e ele já tem a possibilidade de fazer coisas tanto quanto o adulto, mas a sociedade pede para ele esperar para fazer determinadas coisas”, explica Paula. Tal conceito foi apresentado e discutido pelo psicanalista italiano-brasileiro Contardo Calligaris (1948-2021) no livro A Adolescência (Publifolha, 2009). 

A expressão “adolescência” surge apenas no século 16 entre as classes sociais mais privilegiadas, onde ser adolescente significava poder estudar por mais tempo, ao invés de começar a trabalhar ainda jovem. “A adolescência em si é consequência do aumento da expectativa de vida de um ser humano, da complexificação das relações familiares, comunitárias e sociais”, diz Laura Carrasqueira Bechara, psicanalista e doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da USP. E nesse tema, existe complexidade de sobra: comumente, o adolescente é cobrado de certa maturidade pois já saiu da infância, mas também se vê cercado de limitações pois ainda não é adulto. A contradição imposta nessa relação é complexa de entender e de lidar, tanto para o adolescente quanto para o adulto que o instrui, e muitas vezes acaba sendo um tópico pouco abordado nesse convívio. 

Para o adolescente, é importante que ele saiba que tentar viver com a contradição deste momento da vida pode ser valioso para ele mesmo. “A adolescência é um tempo de viver essa contradição e poder experimentá-la no tempo presente, poder criar experiências que te ajudam a construir um entendimento seu como adulto que vai servir dali para frente”, afirma Paula. Ainda segundo a psicóloga, o desenvolvimento humano não é linear, portanto, tentar superar rapidamente as contradições significaria apressar as coisas, deixando de viver aprendizados importantes e intrínsecos deste momento da vida. 

De uma geração para a outra

Em contato com essa solicitação de espera por parte dos adultos, muitas vezes o adolescente reage de maneira contestatória, sendo erroneamente classificado como “rebelde”. “A contestação acontece em todos os momentos da vida e ela é ótima, se não seríamos todos conformados”, diz Paula. Mas quando a contestação entra num campo negativo, dá origem ao embate — aquilo que Gabi enfrentava com sua mãe. 

“Do ponto de vista do adolescente, tem certas posições que naquele momento para ele são definitivas. É aquilo que ele acredita, é aquilo que ele é e que ele pensa. E tudo isso é verdade. Mas também é verdade o ponto de vista do adulto, que olha e diz que é possível mudar de ideia ao longo da vida”, explica Paula. 

O adulto, pensando nas vivências que já teve, tende a entender que essas certezas que o adolescente tem são maleáveis, e o adolescente, desejando experimentar essa certeza que adquiriu sozinho, em sua própria experiência, pode não se sentir acolhido. “A forma como o adulto se endereça para o adolescente muitas vezes faz com que o adolescente entenda que não tem conversa com os mais velhos. ‘Eles não me entendem, eles não me reconhecem’, enfim, os adolescentes estão se sentindo deslegitimados. E é isso que faz virar um embate, e não uma simples confrontação”, diz. 

De Gabrielle para Miguel Alves Ribeiro, atualmente com 15 anos, mudou-se a geração, mas não totalmente os costumes. “No mês passado eu queria sair com a minha namorada, mas minha mãe falou que já estava tarde, aí eu briguei com ela e ela me falou que eu estava sendo rebelde”, conta o adolescente em entrevista à Babel. Dentro da rotina de Miguel, o que ele mais deseja fazer é sair com os amigos e com a namorada e não ter hora definida para voltar para casa — mas sua vontade encontra barreiras nas limitações de horário impostas pelos seus pais. “Minha mãe sempre pede para eu mandar mensagem para ela avisando onde eu estou, que horas eu vou voltar, se eu já comi”, explica. “Eu acho importante seguir o que eu quero, mas também o que minha mãe fala, porque não dá para ceder só para um lado”, afirma o jovem. E mesmo não fazendo nada que o coloque em perigo, Miguel é chamado de rebelde pela família. “Nomear a adolescência de rebelde não corresponde à experiência que os adolescentes têm e nem está criando proximidade com eles”, diz Paula.

Durante a fase adolescente de Gabrielle, a sua rebeldia também tinha hora para acabar. “Uma vez, consegui convencer os meus pais a me levarem na festa de aniversário de um amigo do meu namorado em uma chácara. Eu tinha 14 anos. Quando cheguei lá, só tinha gente mais velha e, a cada canto que eu olhava, tinha gente cheirando cocaína, outras drogas pesadas e tinha muita bebida. Fiquei com a consciência pesada e liguei para o meu pai para ele me buscar. Eu era rebelde até certo ponto. Quando eu via que minha vida estava em risco, eu saía fora, tinha um pouco de noção”, relembra.

As histórias compartilhadas por Gabrielle e Miguel ajudam a esclarecer que, muitas vezes, o problema da rebeldia na adolescência começa justamente naqueles que chamam os adolescentes dessa forma. Isto é, o rótulo de rebelde tem servido mais para explicar a angústia do adulto em não entender as mudanças que acontecem no adolescente em crescimento e em, muitas vezes, não conseguir participar daquele desenvolvimento de forma harmoniosa. “Muitas vezes, o adulto quer mostrar que sente falta daquela presença, de estar junto com aquela pessoa em casa, mas isso é feito de tal forma que o adolescente se sente cobrado. 

Ao se sentir cobrado, ele tem vontade de preservar mais ainda o espaço dele”, explica Paula. Sendo a adolescência um momento de busca por referências próprias que excedam as referências familiares, “a gente tem que dar chance para os adolescentes fazerem algo próprio com aquilo que a gente ofereceu como referência”, conclui a psicóloga. 

Quando um adolescente não se considera rebelde mesmo diante dessa imposição que vem do mundo adulto, isso desperta uma curiosidade: afinal, quem está certo e quem está errado? Não existe uma resposta correta. Tudo vai depender do ponto de vista. “A rebeldia é uma ideia de criação de outras possibilidades no mundo, diferentes daquelas que são colocadas. Se é isso que acontece do lado dos adolescentes, seria então uma ação criadora e isso é uma expressão de criatividade super interessante”, analisa Paula. Ao mesmo tempo, seria uma ilusão pensar que, ao sair da adolescência, existiria uma liberdade total de escolha. 

A dificuldade de diálogo acompanhou a adolescência de Gabi e todos os conflitos que teve com sua família, mas conseguiu lhe deixar uma lição: há formas saudáveis e pacíficas de lidar com essa fase. “Muitas coisas eu acho que se tivessem sido conversadas, eu teria sido um pouco menos rebelde. Se minha mãe tivesse sido mais aberta para falar sobre algumas coisas, eu não teria saído escondida. Muitas coisas que eu falava com ela, eu sentia que ela já vinha repreendendo, já vinha com julgamento. Isso me retraía e eu sentia que eu não podia mais falar. Mas algumas coisas eu reconheço que elas tinham sim muito sentido e eu acho que graças a elas, eu não me ferrei mais”, relata a advogada.