Piada, zoação, bullying…

(Imagem: Montagem Canva/Maria Fernanda Barros)

Da provocação repetida aos discursos de ódio nas famílias, escolas e internet

Por Gabriel Bussolotti Silveira

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Thomas (nome fictício) mora em São Paulo e começou a ter aulas de natação há um mês. Ele faz duas vezes por semana e diz estar “aprendendo respiração”. Em casa, o garoto de 9 anos gosta de jogar video-game. Seus jogos preferidos são GTA (Grand Theft Auto) e Street Fighter, “eu gosto mais do carequinha”, comenta referindo-se a um personagem.

Quando pergunto se vai todo dia à escola, Thomas responde “mais ou menos, porque eu não gosto”. Ele acorda às seis horas da manhã e come um “pão assado”. Vai a pé junto da mãe ao colégio e suas aulas começam às sete horas. Lá, diz estar aprendendo divisão em matemática, sua matéria preferida. Em história, o assunto é o “pai da aviação”, que “morreu em 1932 e nasceu em 1893”, recorda de cabeça as datas referentes a Santos Dumont. 

Há três anos, Thomas faz terapia. “Converso sobre a minha vida, sobre a escola, sobre comida”. Indago em relação ao último tópico. “Porque eu tenho coisas no alimento”, esclarece. Nara (nome fictício), sua mãe, corrige dizendo que ele tem restritividade alimentar. Thomas menciona não poder ingerir corante, “mas eu como”, completa com um sorriso envergonhado. Revela adorar doce, principalmente o “pirulito vermelho”. No dia em que conversamos, ele tentou fazer um bolo de caneca. Ao invés de esquentar no microondas, colocou sobre uma boca de fogão, o recipiente explodiu. Ninguém se machucou, mas a cozinha ficou toda suja. Pergunto qual é seu doce preferido. Empolgado, ele responde: “doce de leite!”.

Faz três meses que Thomas mudou de colégio. Ele diz que prefere a nova escola,  “porque eles me zoavam muito na outra. Falavam que eu era feio, que eu era chato, horroroso”. Todos os dias, os colegas de turma passavam em sua mesa e o xingavam. Ele se sentia triste e não sabia explicar porque continuavam. Nara começou a perceber uma transformação em seu comportamento: Thomas não queria ir mais para escola. “Até que um dia no caminho de volta para casa, vimos uns meninos brigando, eram seis contra um. Falei para eles dispersarem e, quando chegamos em casa, o Thomas perguntou por que eu não o protegia dessa forma. Perguntei o que estava acontecendo e ele começou a relatar [sobre o Bullying]”.

“Comecei a estudar Freud, como ele era egocêntrico e machista”*

Não é à toa que o fim da infância e a adolescência são momentos turbulentos. Esse é um tema recorrentemente tratado em livros, reportagens e conversas, mas, muitas vezes, de maneira pouco empática. Uma das formas de entender o surgimento de conflitos nesse período da vida é através da psicanálise.

Thaís Zélia do Santos, psiquiatra, psicanalista e professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina Santa Casa de São Paulo, explica que “por conta, principalmente, da escola, a criança vai cada vez mais saindo de um lugar de família e indo para um lugar de sociedade”. Nesse processo, inicia-se um aprendizado de regras que orientam o convívio social. O contato com quem é considerado diferente envolve normas diversas do ambiente familiar, contrariando as noções anteriores. “Os adolescentes já vão para lugares com outras regras sociais comparadas àquelas da família e da escola, o que gera os primeiros conflitos”, completa Thaís. 

Em outras palavras, deseja-se fazer tudo nessa fase da vida, mas falta clareza do que se pode realizar, exatamente por cada situação impor diferentes limites. O resultado disso são tensões psicológicas, como exemplifica Thaís: “A bebida alcoólica no nosso país é só para maiores de 18 anos. Beber não é natural, é contra a lei. Mas existem diversos trabalhos e dados que mostram que o primeiro uso de bebida alcoólica é dentro de casa, na adolescência. Vemos jovens bebendo por essa naturalização do comportamento. Isso já é um conflito de regras muito bem estabelecido”.

As consequência desses conflitos podem ser o aparecimento de sintomas psíquicos – por exemplo, ansiedade –, assim como a manifestação dos “comportamentos de experimentação”, como explica Thaís: “Nós temos um tempo para entender todas essas regras sociais. Não virou uma chavinha e as compreendemos. Existe um lugar muito comum na adolescência do até onde eu posso ir, até onde eu posso pisar, cutucar”.

É nesse momento, então, em que o bullying começa a ser praticado. Christian Dunker, psicanalista e professor no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, sintetiza em um vídeo sobre bullying no seu canal de Youtube da seguinte maneira: o adolescente se sente “marginalizado, desencontrado e fragilizado” – muitas vezes, devido aos conflitos. Uma das formas de “gerenciar” esses  sentimentos é através da “intimidação e humilhação social” ao outro – um “comportamento de experimentação”.

“Muito doido ele odiar o pai e o imitar ao mesmo tempo”

O bullying, na maioria das vezes, não surge ao acaso. Esse tipo de agressão origina-se geralmente da reprodução de um comportamento. De acordo com Thaís, é comum do ser humano aprender e copiar, inclusive atitudes violentas. E um dos maiores modelos na adolescência é a família.

“Quando a gente tem uma situação de bullying no qual o provocador é muito cruel, geralmente é uma representação do que acontece no ambiente familiar. O lugar da provocação, do apontamento de uma característica física, preconceituosa, muitas vezes, é cotidiano na família e isso é levado para a escola”, explica a psiquiatra.

A provocação pode começar de uma maneira inconsciente, isto é, reproduzido sem intenção clara. Mas o funcionamento do bullying tem como base a repetição. Em casos de adolescentes que sofrem algum tipo de violência em casa, ao reproduzirem esse comportamento, os mesmos deixam de estar no lugar da vítima e passam para o posto de opressor. A partir desse momento, evita-se o sofrimento, um alívio é sentido e, consequentemente, obtém-se um prazer. Dunker descreve o movimento do bullying como a correção de um “déficit de poder”. O bullie agride e se coloca em um lugar de superioridade, invertendo o papel que lhe é imposto no ambiente familiar. Expondo a vítima ao riso e ao ridículo, o agressor obtém autoridade e subordinação dos colegas, criando para si um poder paralelo.

As consequências são diversas para a vítima e para o agressor. Aquele que sofre bullying, por não denunciar, passa a se isolar socialmente, aumentando mais ainda a “sensação de marginalidade”. Do outro lado, o agressor, quando não conscientizado, pode se sentir acima das regras. “Ele conhece as normas e até as consequências, mas escolhe fazer mesmo assim. Esse pode ser um comportamento de alguém que se engloba dentro de um espectro antissocial”, afirma Thaís.

“Não se pode fazer uma piada?? Que geração mais sem graça”

Desde o nascimento de Thomas, Nara teve que deixar o emprego e se dedicar ao cuidado do filho. “É uma criança com alergia alimentar múltipla e não tinha ninguém para ficar com ele”, explica. Quando Thomas completou seis anos, foi diagnosticado com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e, no início de 2025, ele recebeu o diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro Autista). Nara diz que os diagnósticos ajudaram a compreender a situação, mas confessa que se sentiu frustrada ao receber a notícia: “Ele é o único filho e, às vezes, [sinto] uma culpa por não saber lidar com esse tipo de coisa”.

Thomas faz acompanhamento com uma psicóloga, uma psicopedagoga, uma terapeuta ocupacional (TO) e uma psiquiatra. Ele vai a uma clínica perto de sua casa toda segunda, terça e quarta-feira para receber os atendimentos. Sua preferida é a TO, “a gente conversa, brinca de massinha”, relata Thomas. Apesar do apoio de profissionais da saúde, Nara conta sobre a dificuldade de receber auxílios governamentais: “Já foi negado várias vezes, o governo fala que a deficiência dele é leve. Mas estamos tentando”. A justificativa foi a mesma quando a mãe da criança solicitou um Acompanhante Terapêutico dentro da escola.

O garoto começou a sofrer bullying no início do ano, mas Nara descobriu apenas em julho. “Saber que a sua criança está sofrendo e passando por coisas que você não pode estar ali para proteger, dói bastante”. Thomas não conseguia contar sobre esses problemas por uma falta de regulação emocional, segundo a mãe. Isso obrigou-o a resolver do seu modo. “Ele me relatou que era excluído. Algumas vezes, a criança o xingava, ele revidava e ela o ameaçava de morte. O Thomas não tem o controle inibitório, ao invés de ir conversar com a professora, ele brigava e batia”, ela descreve. 

O primeiro conselho que Thomas recebeu das terapeutas foi se afastar, mas não deu certo. Nara resolveu pedir para o trocarem de sala, porém a escola comunicou que não era possível. As terapeutas ligaram para a orientação do colégio e não obtiveram retorno. “A situação estava insustentável”, o que fez Nara procurar o Conselho Tutelar. Três dias depois, Thomas já estava frequentando outro instituto de educação. 

Esse processo trouxe consequências significativas ao menino de nove anos: ele não tem mais vontade de ir para escola e ficou bem apegado à mãe. “[Algumas crises] já aconteciam antes do diagnóstico, porque ele não tomava medicação e não tinha acompanhamento. Depois dos remédios e terapia, [as crises] cessaram muito, só que agora voltou muita coisa”, conta Nara.

Atualmente, Thomas recebe um apoio maior na nova escola e assume estar feliz, menos quando tem futebol na educação física: “Os meninos gostam muito. Daí, não tem o que fazer, né? Eles ficam [gritando]: futebol! futebol!’, fala rindo. Nara diz se sentir mais aliviada e entende que os professores possuem um papel central na adaptação de crianças neurodivergentes: “Eu sinto que enxergam ele como uma criança que passou por algumas dificuldades. E isso depende muito dos educadores, eles precisam se atualizar e entender os transtornos.”.

“Podia até me importar mas infelizmente eu só ligo pra mim”

O bullying é um fenômeno tipicamente escolar e, a partir da entrada de crianças e adolescentes no mundo digital, sua presença na internet se tornou inevitável. Segundo Raquel Wachholz Strelhow, professora do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento Humano na PUC-SP e especialista em temas da infância, adolescência e bem-estar, e Dunker, a disseminação desse tipo de agressão foi beneficiada pelo formato das redes sociais. Dentre diversos aspectos da natureza virtual, os pesquisadores destacam o público ampliado, que possibilita um alcance e validação maior ao agressor; a distância, que gera uma “menor empatia à vítima”; e o anonimato, que produz uma “percepção menor das consequências diretas das ações”. Raquel explica porquê adolescentes são levados a reproduzir ofensas no digital:

“Nessa fase, eles querem ser aceitos, querem pertencer a grupos de pares, com quem se identificam. O online valoriza o engajamento, e muitas vezes esse comportamento mais provocativo, que chama a atenção, também. Assim, mesmo que sejam interações negativas, podem ser percebidas de maneira favorável para quem as escreve”. 

Thaís acredita que o ambiente virtual gera uma “sensação falsa de que não é possível ser pego”, o que dá a ilusória liberdade ao autor para reproduzir, por exemplo, discursos de ódio. Segundo a definição dada por Cristina Godoy Bernardo de Oliveira, professora da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP e coordenadora do grupo de pesquisa Tech Law do Instituto de Estudos Avançados da USP, no programa USP Analisa #78, o discurso de ódio é um “tipo de violência pautada na intolerância que tem como base a não aceitação de diferenças culturais, religiosas, étnicas, políticas e de orientação sexual”. Esse discurso sempre esteve presente na história, mas a internet contribuiu de maneira significativa para sua disseminação. 

As redes sociais, segundo Vivian Lemes Moreira, mestre em Ciências pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP e pesquisadora do E-L@DIS, Laboratório Discursivo – sujeito, rede eletrônica e sentidos em movimentos, permitiram “a exposição e a aproximação dos sujeitos através dos discursos”. A interação com outro passou a ser amparada por posições ideológicas, circuladas de maneira ampla e irrestrita. “Dessa maneira, discursos que muitas vezes não iriam difundir no offline, são naturalizados no online”, explica a pesquisadora. Esse fenômeno apenas se intensificou com os algoritmos, pois esses possibilitaram a criação de “ilhas de ódio que se espalham por toda a plataforma e ganham legitimidade pela repetição”, completa.

“Quem sofre o bullying n esquece, quem faz não lembra

Laura tem 24 anos e mora no Rio de Janeiro. Ela estudou quase a sua vida inteira em um colégio de aplicação, e cursou psicologia em uma universidade católica privada de sua cidade. Mas não conseguiu terminar nenhum dos dois por conta do bullying. Quando criança, era muito apegada ao avô. Ela diz que iam juntos à praia, cinema, lanchonete e, até mesmo, ao mercado. “Com ele era tudo muito novo, era uma surpresa”, comenta sobre seu avô.

Laura gostava de estudar língua portuguesa, inglês, história e, mais para frente, biologia. Segundo ela, lia muito. Mas todas essas atividades eram sempre feitas em casa. “Eu enfrentei muito bullying na escola, então eu não tinha vontade de ir. Começava a aparecer quando já estava ali na mira para reprovar”, recorda.

A rejeição, afirma Laura, começou em seu primeiro dia de aula. Seus colegas de turma a olhavam com “cara de nojo” e não a deixavam sentar na mesma mesa. Ela era chamada de magrela, dentuça, e feia. A carioca conta que nasceu com uma condição em seu pé chamada sindactilia. Essa má formação congênita faz com que os dedos nasçam grudados. E quando uma parte de sua turma viu, relata, o colégio inteiro ficou sabendo.

“As crianças tiravam meu sapato e jogavam em um rio. Elas puxavam o meu pé e ficavam chegando com a faca perto dizendo que iam operar meu dedo. Eu sentia pânico porque achava que realmente iria acontecer. Voltava para casa sem sapato, minha mãe tinha que comprar um novo o tempo inteiro”.

Mas, diferente de Thomas, as provocações direcionadas a Laura se estenderam na internet. Não a deixavam entrar no grupo de WhatsApp da turma, faziam xingamentos pelo X (antigo Twitter) e divulgavam informações pessoais como CPF e endereço em diferentes redes sociais. Em 2017, aos 16 anos, o pai a tirou da escola. Laura esperou fazer 18 anos e concluiu o ensino médio através de supletivo.

Na época, a carioca diz que não entendia o motivo pelo qual sofria bullying, mas hoje, ela percebe que essas agressões são resultado de uma raiva acumulada. “A pessoa que mais fez bullying comigo era agredida em casa”, acrescenta. E na faculdade isso continuou. “Postavam meu nome completo falando que era louca, sociopata, narcisista, borderline, que tinha problemas na família para [um perfil com] 3.489 pessoas. Fui chamada de prostituta. Já teve gente mandando mensagem no meu WhatsApp perguntando quanto eu cobrava por meia hora”, afirma.

As provocações no online trouxeram consequências para sua vida universitária. Ela encontrava fotos suas nos corredores, não era aceita para cursar matérias e sofria ameaças constantes. Isso fez com que Laura parasse de estudar. Ela relata que tinha dores de barriga, vomitava e desmaiava frequentemente, seu corpo chegou ao limite por conta da violência sofrida.

“[Na escola, eu não pensava] nada. Eu vivia sem reação nenhuma, só queria ficar em casa assistindo Disney. Eu percebi, já adulta, que não me via como pessoa, não me via como digna de amor. Eu me escondia”. Mas, na universidade, Laura diz que o sentimento era outro: “Pela primeira vez na minha vida eu senti nojo, repulsa, raiva. Uma revolta de que ninguém tem direito de me tirar aquilo. Eu tentava me manter estudando com esse pensamento”.

Laura pretende voltar a cursar psicologia, mas sua grande motivação de vida é lutar pela visibilidade de cães de suporte emocional. “Se eu não tivesse dos 9 aos 17 anos a minha labradora, eu não estaria viva para contar essa história”, afirma. Hoje em dia, a companheira de Laura é Sophie, uma golden retriever serelepe de quatro meses. “Com a Sophie, sou capaz de enfrentar os meus agressores e, agora, estou em uma batalha para crescer sua rede social.”. Caso tenha interesse, o perfil de Sophie, a cadela de suporte emocional de Laura, é @goldensophieclaire.

“bullying fez falta nessa geração”

De acordo com os dados do Boletim Técnico “Escola que Protege: Dados sobre Violências nas Escolas” produzido pelo Ministério da Educação, Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os casos de pessoas atendidas em serviços privados e públicos de saúde com lesões autoprovocadas, vítimas de agressões físicas ou verbais em ambiente escolar aumentou de 3.771 para 13.117. Segundo o levantamento do DataSenado, o instituto de pesquisa do Senado, 6,7 milhões de estudantes sofreram alguma violência na escola nos últimos doze meses. 

O bullying, apesar de ser uma prática antiga, vem aumentando significativamente. Alguns casos repercutem na mídia, mas o problema permanece. Em 2024, Pedro Henrique Oliveira dos Santos, aluno negro e bolsista do colégio Bandeirantes, se suicidou após sofrer diversos assédios, como relatado pela revista Piauí. Em janeiro deste ano, um grupo de alunos do colégio Santa Cruz disseminava discursos de ódio e ameaçava novatos em um grupo no WhatsApp.

Segundo Luana de Souza Gomez, psiquiatra da infância e adolescência e coordenadora da psiquiatria do hospital HSANP, a melhor forma de combate ao bullying é através da educação. A psiquiatra diz que esse tipo de agressão se tornou cultural e, por conta disso, se pactuou que é normal. “Muita gente repete frases prontas como: ‘Eu passei por isso e não morri’. Mas quantas  pessoas que já passaram por isso carregam traumas diversos”, completa.

Se o indivíduo, desde pequeno, entender que esse tipo de comportamento pode ser bastante prejudicial ao outro, ele não seguirá fazendo: “Crianças e adolescentes não são maldosas, uma ideia difundida, elas aprendem e repetem”, explica Luana. Para impedir as agressões, a psiquiatra entende que deve haver um acompanhamento conjunto, incluindo família, escola e profissionais da saúde, e amplo, com vítimas e bullies.

Para Raquel, o combate ao bullying deve ser também feito através da conscientização do ambiente virtual e de crimes cibernéticos. “O adolescente é um cidadão brasileiro, ele também o é na internet. Dessa forma, é fundamental que ele busque se informar sobre seus direitos e deveres.” A professora da PUC-SP recomenda pesquisar nos sites de instituições como Safernet e Childhood.

“amo esse lugar posso xingar quem eu quiser sem consequências”

Vitor Blotta, mestre e doutor em Direito pelo Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes da USP e coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP), conta que não há uma seção expressa na constituição brasileira que descreve a conduta e a pena específica para quem reproduz discursos de ódio. “O que existe é uma série de normas jurídicas que fazem a gente entender que crimes desse tipo são altamente repudiados e criminalizados pela lei. A principal é o repúdio ao racismo”.

A legislação brasileira, segundo o advogado, tem como um dos cernes a Lei n. 7.716, que define crimes relacionados ao preconceito de raça ou de cor. Esse é um dos princípios fundamentais da República, o que dá forma ao entendimento da liberdade de expressão. “O repúdio ao racismo serve de modelo para conduzir qualquer tipo de crime relacionado ao discurso de ódio”, completa. O Art. 20-C da Lei de Racismo exemplifica essa relação: 

“Na interpretação dessa Lei, o juiz deve considerar como discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião ou procedência.”.

Apesar da legislação brasileira repudiar discursos de ódio, ainda circulam diariamente conteúdos discriminatórios no ambiente virtual. Essa grande disseminação ilegal fez o  Supremo Tribunal Federal rever o Marc o Civil da Internet, a principal norma que regulamenta as redes em nosso país. Com o objetivo de atualizá-la, os ministros fizeram mudanças e as principais foram a responsabilização das plataformas pela circulação de discursos de ódio, a remoção obrigatória de conteúdos caso um usuário peça e a necessidade de representação legal das empresas de redes sociais no Brasil.

Segundo Blotta, foi um passo importante, mas não o suficiente: “até que as plataformas mudem suas condutas, ainda vai demorar. É preciso uma mudança legislativa para dar mais detalhes de como aplicar e fiscalizar. É difícil de verificar se mudará”. A legislação que busca regulamentar as redes sociais, de acordo com o advogado, deveria seguir por dois modelos: o primeiro se relaciona a transparência, isto é, “exigir relatórios e dados das plataformas” e “obrigar explicações para retirada de conteúdo”; o segundo modelo atua na “saúde do ecossistema informacional”, ou seja, impedir a disseminação de discriminações através de punições de “desmonetização de canais e, no limite, na derrubada de perfis” para os autores.

Mas o combate ao discurso de ódio, para Blotta, deve se concentrar em um nível educacional e cultural. “Nós temos que mudar essa cultura de que o corpo do outro pode ser objeto de escárnio, ridicularização e humilhação”. Para mudar, o advogado diz que é preciso atuar em três frentes: “combater as discriminações diretas, isto é, criminalizando-as, criando tipos penais, o que gera uma restrição da conduta”; “a outra frente são políticas de equidade estruturais como ações afirmativas. Por exemplo, cotas raciais, cotas de gênero, o que influencia esses grupos excluídos a ocuparem mais espaços e exigirem respeito na dimensão social e estrutural”; “e a terceira [frente] são políticas valorativas para enaltecer culturas como africana, brasileira e indígena”. A partir dessas políticas, “é possível atuar na prevenção do discurso de ódio.”, completa.

eu quero parar de usar o twitter pq pqp só tem ódio nesse site

A presença de discriminações e a falta de regulamentação tornam a internet um lugar possivelmente hostil. Essa propriedade, segundo Thaís, também pode ser explicada por interesses comerciais. “As redes são um negócio. A regra que domina não é orgânica, como a da escola e da sociedade de fora, é feita para vender um produto. Então, se a gente tivesse organicamente no mundo, talvez aquilo não estivesse sendo visto.”.

Devido a esse contexto, Raquel acredita que a introdução ao ambiente virtual para qualquer um deve ocorrer de forma gradual e com a supervisão de responsáveis. Isso possibilitará, segundo ela, o conhecimento de suas potencialidades e riscos como, por exemplo, a naturalização de discursos de ódio e do bullying. 

O que fazer se estiver sofrendo bullying ou qualquer tipo de descriminação?

  • Raquel recomenda buscar apoio e ajuda de adultos de confiança. Caso a provocação esteja acontecendo pela internet, Blotta aconselha tirar prints e procurar uma delegacia de crimes cibernéticos. Se ficou com dúvidas, confira o infográfico da Safernet com as instruções de como evitar, denunciar e ajudar uma vítima de bullying.

*Os intertítulos são trechos de postagens de usuários da rede social X. A identidade dos autores foi preservada.