Tédio – sim, é um saco, mas e aí?

Capa-Julia

(Imagem: Montagem Canva/Júlia Moreira)

Esse sentimento tão difícil de descrever ganha protagonismo na adolescência e, ao refletir sobre ele, até a chatice parece interessante.

Por Júlia Moreira

Versão em áudio:

Sabe quando é domingo e bate aquela sensação de “não tem nada para fazer”? Quando o algoritmo do feed não está mais entregando e as 06 horas jogando já não parecem o suficiente. Cá está o tédio, um sentimento difícil de entender e lidar, mas que muito tem a ver com quem estamos nos tornando.

Ao ouvir essa palavra, pode ser que a primeira coisa que venha a sua mente seja o personagem roxo e emo de ‘Divertidamente 2’. É, aquele mesmo. Pescoço caído, olhos baixos e a energia capaz de desanimar qualquer um.

Embora o filme mostre esse sentimento de modo caricato e até deprimente, não é à toa que ele apareça bem quando a personagem tem por volta de 13 anos. É a partir dessa idade que o nosso cérebro começa a passar por mudanças e, de repente, tudo começa a ser menos “óbvio”, a ter menos propósito e a talvez, ser mais chato.

É biológico e é social

Por mais agoniante que seja, o tédio é natural e esperado, principalmente durante a adolescência. E já adianto, tem a ver tanto com o que ocorre dentro quanto fora da nossa mente.

A psicóloga Roberta Senna, que atende adolescentes e famílias há mais de 20 anos, diz que as mudanças que o nosso próprio cérebro está passando ficam mais evidentes. “Há uma ‘poda neural’ de recursos que o cérebro infantil precisava e agora não. Como uma árvore precisando podar alguns galhos para outros serem fortalecidos”, explica.

E aí voltamos para a referência de Divertidamente em que momentos, pensamentos e sensações são colocados em diferentes ordens de prioridade e alguns são até descartados. A partir daí começamos a entender o porquê nossa percepção sobre as coisas mudam.

Não é drama, tem ciência nisso. Após diversos estudos, sabe-se que leva alguns anos para o nosso córtex pré frontal, localizado na região da testa, se formar completamente. É nele que estão nossas noções de organização, prós e contras, autorregulação emocional. E é só depois dos 24 anos que ele amadurece.

Enquanto isso, utilizamos recursos da amígdala cerebral, presente mais ao centro do cérebro, relacionada aos impulsos. Então é como se você estivesse constantemente participando de um Passa ou Repassa, a resposta mais rápida vale. Aí surgem situações como a prova ser amanhã à tarde, mas a preocupação é com a roupa da festa do próximo mês. Também é culpa do processo de amadurecimento. “E não é porque ele quer, é o recurso que ele tem”, afirma Roberta.

Bom, agora que falamos dos fatores biológicos justificarem a falta de interesse em determinados assuntos, também é preciso considerar as mudanças que ocorrem ou ocorrerão ao nosso redor.

Ilustração

Localização da amígdala cerebral em comparação com o córtex pré- frontal. Ilustração (Gerada por IA) — Júlia Moreira — Babel USP

Entre os 14 e 17 anos, há uma espécie de limbo entre o nosso antigo “eu criança” e nosso futuro “eu adulto”, que popularmente chamamos de adolescência. E é impossível tratarmos disso sem mencionar os impactos da pandemia e das redes sociais, mas sem sermão.

Durante a pandemia, uma pesquisa feita pela Atlas Juventude mostrou que 7 entre 10 jovens disseram se sentirem mais ansiosos e com mais tédio, e o motivo não era apenas a aula online. Era um cenário fora da realidade, isolamento e a apreensão se algum dia as coisas voltariam ao normal. Somado a isso, veio a viralização das redes sociais, o boom do tiktok e o aprendizado de que muita coisa pode ser feita pela internet.

Resultado disso, “Um tempo de tela ótimo, 12 horas por dia hahaha”. Essa foi a reação que tive de um aluno do 2º ano do Novotec Automação – curso profissionalizante integrado com o ensino médio, comumente oferecido por instituições públicas, neste caso, pelo Centro Paula Souza – quando fui conversar com a sua turma.

E como aturar o tempo de aula?

Toda essa conversa surgiu da necessidade de entender melhor a rotina de quem está nessa idade e nada melhor do que mergulhar na sala de aula, literalmente. Então mentaliza, quinta-feira à tarde, quase 14 horas, calor, dia de visitação à câmara de vereadores e passeio ao Hopi Hari, ou seja, baixa adesão de alunos.

Mesmo assim, os que ficaram tinham muito a dizer. E entre um bocejo e outro, o tédio virou assunto.

“Eu uso bastante o celular, é aquela dopamina barata. Tem professores que falam muito devagar e dão sono, tem outros que falam muito rápido e não dá para acompanhar. Então eu não entendo nada e, como vou ter que pesquisar quando chegar em casa, fico mexendo no celular”, relata um dos alunos do segundo ano.

A explicação é que, para alguns, a rotina colabora para o cansaço e nem há momentos de tédio. O fluxo é simples: acorda, se prepara para a escola, faz o trajeto, volta quando já está de noite, se prepara para dormir e o ciclo continua. Quando há um tempo, ele é dedicado para as tarefas solicitadas pelos professores ou momentos de lazer. Ou seja, praticamente 100% do dia preenchido.

E não é só isso, a obrigação também pode contribuir para o tédio. “A escola deixou de ser uma necessidade e passou a ser uma obrigação. Logo, tudo que se pede, primeiro há uma reclamação, um ‘ahhhhhhhhhh, professora……..’ e a certeza de que, ‘o mínimo basta’”. Esse foi o relato da professora Roseli Faustina, que dá aula de Literatura e Inglês para turma com que conversei.

Ela também conta que necessita de jogo de cintura durante as aulas. “Eu coloco uma peruca, entro no personagem, faço atividades, vou para fora da sala de aula. E caso, não seja no mesmo dia, no dia seguinte, eles voltam mais animados.”

Essa adaptação acabou se tornando necessária ao constatar que não é apenas uma fase, mas uma nova realidade. “Essa geração está diferente. Ela precisa de mais estímulos mesmo. Aulas mais dinâmicas, questões práticas, assuntos mais linkados entre si.”, explica Roberta ao falar que 100% dos estudantes atendidos pontuam sobre a escola, seja do mais ao menos aplicado.”É massante, não faz mais sentido”.

Vale ressaltar que o engajamento varia de matéria para matéria e de professor para professor. A sensação dos estudantes é que falta propósito para alguns temas entediantes ou professores sem didática – neste caso, houve consenso.

Um ponto importante é que falar sobre o tédio também pode ser entediante. Nem todos da sala participaram da conversa. Alguns preferiram conversar entre si, outros continuaram a mexer no celular e um observa o quadro e a estrutura da sala.

Até aqui, estávamos em um recorte bem específico, alunos do período da tarde, em um curso profissionalizante e que consideram ter pouco tempo para o tédio. Agora, vamos para outra perspectiva: alguém que passou a ter mais tempo vago, menos aparatos que pudessem auxiliar com a sua rotina e menos companhia.

“Não era muito diferente de hoje, mas eu era mais feliz”

Essa frase foi dita por Davi Tanaka quando perguntei como era a vida dele quando tinha 14 anos. Hoje, ele tem 17 (recém completados), está no 2º ano do ensino médio e relembra essa época como voltar de viagem. “São altos e baixos. É bom hoje, mas você sente saudade”, ri ao dizer.

Segundo ele, quando era mais novo, tinha mais tempo com a família, viajava mais. “Meus pais estão ficando mais velhos e com menos energia agora, então acabo passando mais tempo sozinho, e não é que eu goste, mas eu me acostumei.”, compartilha.

Nessa busca por entender o tédio, parece que para além das mudanças biológicas e sociais na escola, outro fator que influencia é a mudança dentro da própria família.

Ele conta que tem uma boa relação com todos, principalmente com os irmãos, mas que muita coisa mudou: “Quando eu era criança eu vivia mais com eles, a gente vivia na mesma casa e era muito próximo. Eu gostava muito disso. Agora eles têm a família deles, trabalham…”

Davi conta que a sensação de tédio misturada com melancolia é constante. Durante a escola, de manhã, a maior oportunidade para ele é ver e conversar com os amigos. Em casa, o tempo é dividido entre os estudos, jogos no computador e idas à academia, o que considera ser fundamental para saúde mental. Mesmo assim, há tédio, há monotonia.

Quando o assunto é a compreensão deles sobre o momento que estão vivendo, a resposta é complexa e nem tudo é entendido, até porque, não houve um ensinamento de como lidar com isso: “Na prática não fui ensinado, mas na teoria sempre foi: ‘Não tem nada pra fazer, vai ler um livro, vai correr’, mas pra mim…não sei, isso não adianta. A maior parte das vezes é mais um estado de espírito”, diz.

Apesar disso, ele compreende essa dificuldade: “Talvez quando eu for da idade deles eu saiba julgar melhor, mas eu não teria essa visão de achar que o meu pensamento está mais certo”.

Ainda nessa relação comum com os mais velhos, a turma com que conversei trouxe um novo ponto: a incompreensão do cansaço e da rotina, o famoso: “Mas você só estuda”, normalmente usado para confrontar justificativas de cansaço, desânimo e tédio.

Ilustração
Ilustração (Gerada por IA) — Júlia Moreira — Babel USP

Tédio vs ócio

Nas conversas com os entrevistados, foi possível perceber um ponto em comum: a cobrança para estar sempre fazendo algo.

“Há uma exaustão de sempre estar ocupado. É o esporte, é inglês, é a escola integral. Tem que estar produzindo”, conta Roberta ao falarmos sobre a pressão imposta, às vezes desde a infância, de estar fazendo algo útil.

Entre os alunos do ensino médio, a preocupação foi clara: a faculdade! Em minha conversa com a turma, apesar de estarem no segundo ano, foi perceptível o medo e ansiedade com o próximo ano e com os vestibulares. Frases como: “Sempre tem uma pressão do que as pessoas esperam” ou “Eu não queria decepcionar” foram ditas ao falarmos sobre o assunto.

Para Davi, essa pressão colabora para a sensação de desânimo. Há dúvidas sobre qual carreira ou caminho seguir, e há a certeza de que o erro deve ser evitado ao máximo.

“Eles falam para mim, você está confiando muito mais em nós, do que nós mesmos. Se eu fosse você, eu não colocaria tantas expectativas. Eu escuto isso quase todos os dias.” conta a professora Roseli sobre a visão de futuro dos alunos.

“Parece que não, mas há o receio de decepcionar os pais. O que se mantém na vida adulta também, e eles precisam ter a certeza de acolhimento quando ele errar”. Roberta também pontua que entender que essa é a última fase antes da vida adulta e que é um período de testes e autoconhecimento para todo jovem é fundamental para que ela seja levada com mais leveza.

“É como se estivéssemos tentando se equilibrar entre duas canoas. Em um pé está a infância e no outro a vida adulta”, complementa.

As mil faces do tédio

Ufa, depois de toda essa história e reflexão é possível fazer uma lista dos termos que pude ouvir durante essas entrevistas relacionados ao tédio:

  • Ausência
  • Não ter nada para fazer
  • Falta de ânimo
  • Falta de vontade
  • Desinteresse
  • Aborrecimento
  • Sensação de inatividade
  • Improdutividade
  • Repetição
  • Viver em looping
  • Falta de propósito

Ela seria ótima para reunirmos os “melhores sinônimos de tédio”, mas onde tudo isso vai chegar? Durante essa espécie de investigação, foi possível notar que ele pode vir mascarado ou associado a outros sentimentos como cansaço, desânimo, preguiça, melancolia… seja pelas preocupações ou pela obrigação da rotina ou da monotonia.

O interessante é que escritores, filósofos e estudiosos já fizeram diversas obras discutindo sobre o tédio e como ele era presente em suas vidas. Falar deles nos permitirá entrar em uma nova parte ainda mais reflexiva e de onde você poderá tirar dois autores para citar durante sua conversa sobre tema e todos te acharem muito culto.

Segundo Albert Camus, escritor de “O estrageiro”, a vida é “absurda e filosoficamente”, sendo a vida da humanidade caracterizada pela falta de sentido. A rotina que criamos, nos leva à monotonia e isso nos faz perder o interesse pelo ‘absurdo da vida’.

Para representar isso, o personagem de seu livro se mostra indiferente a tudo, com a frase “tanto faz” sendo utilizada frequentemente. Dá até para imaginar o ‘dar de ombros’.

Por falar em frequência, em sua obra “O livro do desassossego”, o poeta Fernando Pessoa, cita a palavra tédio 146 vezes. Sim, fora outros termos usados de sinônimo. Nele o autor mergulha na melancolia e na descrença, rendendo trechos como: “Um tédio que inclui a antecipação só de mais tédio; a pena, já, de amanhã ter pena de ter tido pena hoje “.

Ou outros ainda mais densos como: “Um profundo entendimento desdém por todos quantos trabalham para a humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que a civilização continue… Um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto”, mais uma citação do poeta.

Não sei se deu para entender toda essa reflexão, porém vimos que não é de hoje que o tédio é discutido, incompreendido e ainda confundido com outros sentimentos.Só até aqui eu citei a palavra 25 vezes e não chegamos a uma definição exata do que ele é. Mas, e quando não é tédio?

E quando não é tédio? Formas de lidar

A psicóloga Roberta sinaliza que, em casos de apatia quase crônica e perdas reais no dia a dia, é preciso levantar um alerta. “Falta de socialização e de conversas, (para além da família, mas no geral), isolamento, oscilações de humor, bem como mudanças nos hábitos alimentares e de higiene devem ser percebidos.”

Para esses casos, ela afirma que precisa ter atenção redobrada, pois são sintomas que podem indicar um quadro de depressão. “O tédio é diferente de uma tristeza que não sai do tom, está ali, persistente, causando alguma disfuncionalidade”, explica.

Entretanto, em condições normais, Roberta fala que o tédio é fundamental para trabalhar questões relacionadas à criatividade, reconhecimento de sentimentos, identidade, lidar com frustrações e que, a sociedade não normaliza os sentimentos ruins associados a ele.

Assim, a principal questão talvez não seja o que é tédio, mas o que vem depois dele e como, apesar dele, seguimos, seja tendo uma boa ideia ou conversando sobre ele.