Uma red pill para a sua red pill

(Imagem: Montagem por Maria Fernanda Barros)

Em uma época em que as novas filosofias querem levar os jovens a se retrair, mudar seu jeito de ser e desconfiar de tudo e todos, é preciso voltar com a velha premissa de confiar em si mesmo e experimentar coisas novas.

Por Billie C. Fernandes

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Navegando pela timeline de Vinicius Bressiani na rede social X (antes conhecida como Twitter), pode-se ver de tudo: de temas em alta como a morte de Charles Kirk ou discussões sobre o final da novela Vale Tudo, até as famosas brigas de “divas pop” ou “pop x rock”, atualizações sobre a cena do funk paulista, animes e memes “de cronicamente online”, o universo virtual do rapaz de 21 anos é variado tanto em assuntos quanto em comunidades com que ele interage: “eu acho que acaba tendo uma bolha ou outra, mas no geral tem todo tipo de opinião sobre tudo”, conta, se referindo aos seus seguidores mútuos. Além da diversidade de amigos, ele também recebe na aba “para você” opiniões de pessoas dos mais diferentes gostos, realidades e histórias, o que o ajudou a conhecer mundos novos, como o já citado mundo do funk.

Mas nem sempre foi assim. Vinicius também já passou muito tempo em espaços totalmente masculinos, onde os filtros eram maiores para alguns assuntos, que não entravam; e inexistentes para a “zoeira” e a linguagem chula.

Durante os dois últimos anos, o jovem teve que fazer um trabalho de “limpar o algoritmo” aos poucos para alcançar posts de comunidades que antes ele não tinha contato nenhum nos seus 14-16 anos. Isso pelo simples fato de que, nas bolhas em que ele estava antes, o tipo de pessoa que discute sobre funk ou divas pop era tratada com nojo e desdém. Ele explica que só entendeu depois que essa dinâmica não se tratava de uma simples questão de gostos distintos, mas de uma tentativa das próprias bolhas de separar jovens como ele (branco, heterossexual e de classe-média) de jovens como pessoas LGBTQIA+, faveladas e até mulheres.

“Eu não pude acreditar. Eu estava sendo privado de um monte de culturas legais por causa de um preconceito velado. Claro, eu não percebia que era [preconceito], achava que era só um jeitinho dos meus amigos, uma preferência por coisa X e não Y, mas quando analisei melhor, a tal ‘opinião’ era meio que um ódio inrustido sem motivo, né?”. Muito ligado no mundo da música, a primeira vez que ele “tomou um apavoro”, como o próprio diz, da namorada sobre estar curtindo memes racistas e machistas foi quando ela viu algumas imagens tirando sarro de artistas do funk e do pop – muito comuns no Facebook entre 2012 e 2016 na bolha do rock. Foi a partir daí que ele descobriu que nunca odiou nenhum desses estilos, apenas tinha uma visão estereotipada sobre a cultura da favela, no primeiro caso, e sobre a cultura supostamente feminina e fútil, no segundo. “Não tem problema não gostar de funk, é um beat diferente. Mas qual a necessidade dessa forçação de ‘funk é um lixo’?”, completa.

Vinicius me mostra a versão “pós-irônica” do meme onde o final é substituído. Tentamos, mas não achamos o original, onde Dave diz “e qual é a má notícia?” – Imagem: reprodução do Reddit

Vinicius é um caso, digamos, “leve” nesse quesito. Quando o assunto é adolescentes que entram em bolhas problemáticas e até comunidades reais, como fóruns e grupos online, encontramos pessoas que foram a buracos tão fundos que chocam quem é de fora. Nos perfis públicos dessas pessoas, porém, segue a lógica do disfarce. Enzo Francisco, de 17 anos, é um seguidor de uma página muito famosa no X (antigo Twitter) chamada “Como Tanka o Bostil”; ele diz que começou a seguir porque a página criticava a população no geral por eleger os mesmos candidatos “ladrões” e depois reclamar dos mesmos problemas públicos. “Eu acho interessante esse tipo de meme com política, que odeia todo mundo. Não é direita, nem de esquerda, é só crítica”. Manuela Caxias, que também se lembra de como era a página antigamente, aponta uma detalhe: “essa conta e mais um monte de outras pareciam só criticar as coisas de um jeito engraçado, mas aqui no Twitter está parecendo que todo mundo  virou fascista. E agora foi de vez, até bloqueei [o Como Tanka] porque estava ficando cada vez mais na cara”, diz a jovem estudante de 16 anos.

Um post viral que falava da Oktoberfest teve centenas de comentários como os de Manuela, apontando racismo e misoginia, mas também muitos: “qual é o problema? É só gosto.” – Imagem: reprodução do X
Outro post mais recente, bastante comentado. “Parece aqueles tiozões do Facebook de 2010”, um usuário diz. “Ele é adolescente, esse ADM”, outro comenta com a foto do suposto dono da página. – Imagem: reprodução do X

Além de páginas de memes, muitos rapazes também compartilham suas opiniões sobre o sexo oposto citando influenciadores do conhecido “masculinismo”, ou como Vinicius, Enzo e outros jovens superconectados chamam, “red pill”.

Por dentro do mundo deles

Esse termo, apesar de ser um pouco mais antigo que a geração Z, é usado quase que exclusivamente por essa faixa etária — por vezes a ainda mais jovem geração Alpha, que começa a entrar na adolescência, também entra na onda. Esse termo originalmente vem do filme Matrix, e significa pílula vermelha: é uma alusão à pílula que acorda o protagonista para a realidade daquele mundo (ao passo que a azul, faz ele continuar dormindo). A nossa red pill, no entanto, nada tem a ver com robôs e instrumentalização.

Entre alguns poucos assuntos políticos aqui e ali, a maior parte dos grupos online e dos influenciadores digitais que se identificam com esse termo falam majoritariamente sobre as ações, as personalidades, e até mesmo as classes de mulheres, o centro da teoria red pill; e de como os homens não devem mostrar fraqueza e submissão diante delas — ou você é um homem fake.

“Homem, se você é uma vítima, então você não é um vencedor”. Um exemplo de post de um influenciador famoso nos EUA, de onde veio a teoria red pill. Os influenciadores brasileiros basicamente importam todos os discursos, às vezes adicionando um fator religioso, que é mais forte aqui. – Imagem: reprodução do Instagram

“Eu conheço, sim. Já acompanhei, mas comecei a achar demais”, comenta Enzo sobre Andrew Tate, que compartilha posts como o da imagem e é o maior influenciador do mundo sobre a teoria red pill. Pergunto quem ele acha ser o mais famoso do Brasil, e o garoto de 17 anos chuta: “Thiago Schultz, talvez. Eu não acompanhava tanto, mas parei de vez depois que todo mundo começou a zoar ele por causa do Campari”, explica o jovem, se referindo a um vídeo de Thiago em que ele dá dicas de como agir quando se está conhecendo ou saindo com uma mulher, mas o tiro saiu pela culatra e furou ainda mais a bolha conservadora, o que acabou atraindo muitas críticas pela forma com que ele falava de mulheres ideais como comportadas, elegantes, sem tatuagens.

Pergunto a Enzo se Tate, Thiago e outros internautas caíram no seu conceito por causa das polêmicas ou da filosofia em si, e ele responde: “isso eu admito, eu saio fora de trends muito fácil. Se estão parecendo ridículos, eu é que não quero parecer. Imagina parecer um incel”. Enzo é só mais um jovem que se identifica como apolítico ou de centro, não gosta de “lados”, de rótulos. Como dizem os red-pillados, as mulheres têm que ter direitos sim, mas às vezes o feminismo quer oprimir os homens, e por aí vai.

O problema é que essa suposta neutralidade em nome de “todos os espectros políticos têm questões”, também envolve não refletir sobre questões que são bastante problemáticas, e assim, se acaba caindo com mais facilidade em discursos como o red pill e normalizando, por exemplo, a misoginia.

“Eu não sei, quem fala ‘red pill’ já me passa a ideia de que é machista e racista”, volta à cena Manuela. Segundo ela, os meninos na sala de aula dela que falam por códigos red pill também brincam que o Bolsonaro tinha que voltar. “É um tal de beta isso, sigma aquilo. Tipo, não é só ser um cara legal? Pra que essa baboseira? Pra depois dizer que você é encalhado porque a mulher que não ‘tanka’ vocês?”, ela diz, rindo.

Conversando com os jovens

Na visão dos adolescentes, isso pode ser descolado para quem se identifica com a teoria e acha que há algo de errado nas vivências contemporâneas de ser homem ou mulher, ou ridículo para quem está do outro lado (o das mulheres, atacadas, na maior parte das vezes). Mas a questão da filosofia red pill e da sua relação com a extrema-direita é algo mais profundo e até preocupa os pais.

Assim como Enzo, parte dos adolescentes de hoje vêem críticas ao feminismo e outros tópicos de direitos humanos como um equilibrador do debate, acreditando que tanto o feminismo quanto o machismo são duas opiniões extremistas opostas. Isso leva a esvaziar o significado dos movimentos sociais e, mais pra frente, das vivências e da diversidade que há de fato no mundo.

“Sim, me preocupa bastante. Eu, como professor, já vi alguns alunos falarem essas palavras, ‘red pill’, ‘alfa’, ‘beta’, etc”, comenta Marcos Caxias, pai da Manuela, que é professor de turmas do 6° ao 9° ano. “Pelo que vejo, aqui ninguém leva isso a sério de verdade por ser escola pública, da periferia, mas com certeza tem muito machismo entre essa nova geração, no geral”, completa. Ele e Manuela explicam que sempre tiveram essas conversas de pai e filha onde Marcos alertava para ter cuidado com meninos que não tratassem ela bem e/ou fossem machistas, além pedir para a filha focar nos estudos, ser independente e ter personalidade. “Meu pai nunca chamou isso de feminismo, apesar de que, se parar pra pensar, é feminismo sim. O feminismo é basicamente isso, respeitar as mulheres como pessoas”, opina a filha, ao que o professor de História completa: “O feminismo nasceu quando as mulheres perceberam que deviam ter o direito de votar e ganhar salários iguais. Não, o feminismo não é contra os homens. É um movimento social centenário, não uma rixa de adolescentes de direita x esquerda”.

O que precisamos não é proibir os adolescentes de terem suas próprias opiniões ou brigar com eles, mas fazê-los entender quais atitudes e filosofias extrapolam os limites do respeito pelo outro, convidando-os a refletir. Ao mesmo tempo, caro jovem, também é importante pensar sobre você e se valorizar.

Não deixe que filosofias tóxicas façam você se sentir um cara ridículo, que é menos homem ou que nunca vai namorar porque as mulheres estão contra você. Lembre-se, não são crendices e grupos da moda que farão de você um homem, mas sua confiança em ser o homem que você quiser ser.


GLOSSÁRIO RED PILL: VOCÊ JÁ ESTÁ CAINDO NESSA ONDA?

Termo Significado
Red pill [Tomar] significa acordar para a realidade de que as mulheres não são bobas nem inocentes, elas querem dominar e inventaram o feminismo para oprimir os homens
Blue pill [Tomar] significa ser um homem bobo e submisso que não sabe seu lugar de direito
Black pill [Tomar] significa se isolar da sociedade, considerar que é como os red pills falam mas não agir (como eles agem), apenas se afastar das mulheres e desprezá-las no seu canto
Alfa Um homem que é como “o lobo líder da alcateia”; forte, agressivo, que manda. Muitos red pills dizem que se nasce assim, exemplo, tipo de corpo (alto, ombros largos, maxilar quadrado)
Sigma Um homem que não é biologicamente alfa, então aprende uma série de comportamentos para parecer mais “cool”; é confiante, meio cínico, costuma ter como referência “O Clube da Luta” e “Psicopata Americano”
Beta Um “homem”, dócil com as mulheres, obediente e sobretudo, sensível/demonstra sentimentos. Também pode ser um que é red pill mas não tem o corpo do alfa, e não tem o que fazer, “pra eles não sobra nada”
MGTOW Man going their own way”, ou “homens seguindo o seu próprio caminho”, rejeitando as premissas da sociedade