(Imagem: Montagem por Thais Moraes)
Especialistas alertam para os riscos do uso de suplementos por adolescentes, prática que avança sem orientação médica adequada
Por Cecília de O. Freitas
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“Eu fui perguntando para as minhas amigas que também fazem academia, pesquisando na internet, e vi muita gente falando que é muito bom para dar energia, para dar massa muscular, para dar proteína, daí eu comecei a tomar para fazer exercício”, conta Mariana Cantelli, estudante de 16 anos, sobre o consumo de whey protein.
O espelho da adolescência nunca foi tão exigente. Em meio a fotos do Instagram e à pressão por corpos atléticos, a busca por resultados rápidos transformou os suplementos alimentares, antes restritos a atletas de alta performance, em verdadeiros hits de academia. Nas redes sociais, nas prateleiras do mercado e nas próprias academias, whey e creatina prometem músculos mais definidos e aumento da energia, com embalagens vibrantes e marketing agressivo. No entanto, especialistas alertam para os riscos do uso desses suplementos em corpos jovens e em desenvolvimento. Com poucas pesquisas sobre o assunto, o uso desses produtos pode se tornar uma aposta arriscada.
O whey protein é um suplemento alimentar constituído por vários aminoácidos, que são a estrutura funcional da proteína. Esse composto de aminoácidos ajuda na síntese de proteína muscular. Quando um adolescente toma whey, essa substância vai ser absorvida no intestino e vai passar pelo fígado. Nesse processo de digestão, o produto já é degradado em pequenos aminoácidos que são distribuídos pelo organismo e incorporados pelos vários tecidos do corpo e, notoriamente, pelos músculos que aproveitam muita proteína.
Nesses músculos, os aminoácidos apoiam a formação de células musculares ou a recuperação de células que foram “lesadas” pelo exercício. Rogério Friedman, endocrinologista e subcoordenador do Departamento de Endocrinologia do Esporte e do Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, explica que “não é um conceito de lesão que a gente entende na prática esportiva, mas cada vez que a gente faz exercício, as células dos músculos sofrem um processo inflamatório”. Então, esse aporte de aminoácidos para exercícios intensos ajuda na recuperação celular dos músculos.
Assim como o whey, o ácido metilguanidino-acético, ou creatina, é um composto de aminoácidos. A diferença é que a creatina é produzida naturalmente pelo corpo humano por meio do rim, fígado e pâncreas, além de ser obtida na alimentação de proteínas animais. Mônica Moretzsohn, do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, explica que quase toda a creatina consumida pelo corpo humano vai para o músculo esquelético, aumentando a produção de energia e força muscular. “Diferentemente do que se acredita, esse composto não está associado à hipertrofia muscular, ela apenas aumenta a absorção de água pelo músculo que, por isso, aumenta de tamanho, mas não é uma hipertrofia, apenas um aumento de força.”
Esses suplementos, em geral, são incluídos na rotina alimentar de adultos que realizam atividade física com frequência, como é o caso dos pais de Giovana Constantino, de 15 anos. Ela conta que sempre praticou esportes, mas que começou a frequentar a academia no início deste ano, por incentivo da família. Durante a rotina de treinos, o instrutor da academia recomendou que seus pais tomassem whey protein. Por isso, ela também começou a tomar a suplementação, apesar de não manter uma frequência diária. “Eu comecei a usar o whey na minha alimentação porque vi meus pais tomando e fiquei curiosa. Queria saber se ia mudar alguma coisa nos meus treinos, mas nunca cheguei a ir ao médico para saber mais sobre isso”, relata.
Os especialistas explicam que os suplementos alimentares são recomendados para adolescentes em alguns casos, mas todos com acompanhamento pediátrico e nutricional.
O primeiro e mais conhecido grupo que pode se beneficiar desses produtos são os atletas de alto rendimento, que precisam de altos níveis de proteínas e aminoácidos para o fortalecimento e recuperação muscular. Um exemplo são os ginastas competitivos, que precisam controlar o peso e manter uma alimentação restrita em calorias e podem usar a suplementação para atingir a quantidade de proteína desejada sem afetar a dieta. “Para aquele atleta recreativo, esse que dá uma corridinha de vez em quando, não precisa”, brinca o endocrinologista Friedman.
Outro caso em que se recomenda o uso de suplementos é para adolescentes veganos ou vegetarianos, que podem se beneficiar desses produtos para atingir a quantidade adequada de proteínas na alimentação. Além disso, pessoas com seletividade alimentar, que possuem resistência à inserção de proteínas na dieta, também podem consumir o whey protein, por exemplo, para garantir uma dieta equilibrada nesses aminoácidos. “Nesses casos, não há contraindicação, eu posso usar o whey como fonte de proteína. Agora, associado à atividade física, a conversa é outra”, explica Moretzsohn.
Em relação à creatina, existem ainda casos de pessoas que possuem deficiência desses aminoácidos pois o corpo não produz naturalmente a quantidade adequada, ou mesmo casos de pessoas com doenças musculares. Dessa forma, a suplementação acompanhada por especialistas é recomendada.
Apesar dos benefícios estéticos e funcionais desses suplementos, os médicos destacam que a suplementação sem necessidade ou desorientada de produtos como whey e creatina podem oferecer riscos à saúde dos adolescentes.
A creatina, por exemplo, é excretada pelos rins naturalmente na forma de creatinina, mas taxas elevadas de creatinina em exames podem indicar disfunção ou até mesmo insuficiência renal, nos casos mais graves.
Outra preocupação sobre doses muito excessivas é a possibilidade dos suplementos causarem câimbras muito dolorosas e até mesmo lesões musculares.
Além disso, existe uma escassez de estudos sobre os efeitos que o uso desses suplementos pode causar em corpos em desenvolvimento de jovens que não são atletas de alto nível. O pouco investimento no assunto acontece em vista de que o uso desses produtos por crianças e adolescentes não é recomendado por especialistas.
Além da influência da família e de amigos, nas redes sociais, propagandas de suplementos feitas por influenciadores de público jovem também convidam os adolescentes ao consumo desses produtos em receitas e sugestões de uso, raramente com menção à indicação de uma faixa etária adequada. “Todo dia eu vejo conteúdos sobre isso. No TikTok, a maioria (dos vídeos) é sobre isso. Na bolha em que a gente vive, essa influência acontece. Se eu vejo alguém falando bem e faz sentido na minha rotina, eu procuro usar também”, conta Giovana, quando perguntada sobre a influência dos criadores de conteúdo que ela acompanha na sua rotina com o whey.
No Brasil, a regulamentação sobre suplementos alimentares é realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Sobre o uso por crianças, gestantes e lactantes, a agência responde a dúvida, em seu site oficial: “Sim (podem consumir), mas com restrições. Por serem considerados mais vulneráveis, os limites de consumo e os ingredientes autorizados são diferenciados para esses grupos populacionais”. Para adolescentes na faixa etária entre os 13 e 17 anos não há definições específicas. A Anvisa afirma que “Os suplementos são destinados a pessoas saudáveis como uma opção para complementação nutricional, no caso de dietas restritivas, alterações metabólicas, atividade física intensa, entre outros”.
Além de fiscalizar a produção e a venda desses produtos, a agência ainda define regras para a embalagem e rotulagem. De acordo com os critérios estabelecidos, todo rótulo de suplemento alimentar deve informar restrições de uso e ainda “Recomendação de uso do produto com quantidade e frequência diária de consumo recomendadas para cada grupo populacional e faixa etária”. A apuração da Babel analisou rótulos de marcas famosas de whey, considerando os mais mencionados por adolescentes nas entrevistas e nas redes sociais. As marcas Dux, Growth e Atlhetica Nutrition recomendam o uso, em suas embalagens de whey e creatina, para maiores de 19 anos. As informações do rótulo desses produtos também estão disponíveis nos canais de venda oficial das empresas.
Analisando a rotulagem dos suplementos de whey e creatina da marca Integralmédica, a recomendação de faixa etária é a mesma. Todavia, essa informação não consta no site da empresa, também canal de venda oficial. A única informação sobre idade adequada para o uso de whey protein até a data desta publicação está no blog da Integralmédica, que afirma: “Não existe uma idade ideal de quem pode tomar Whey Protein, pois na maioria dos casos a suplementação da proteína do soro do leite não faz mal para a nossa saúde, é por isso que jovens, adultos e idosos podem ter diversos benefícios e são incentivados a consumir esse suplemento para manter ou ganhar uma quantidade de massa muscular ao longo dos meses”.
Questionada sobre a falta de transparência na venda online, a Integralmédica afirma que: “Os nossos rótulos seguem integralmente as normas da Anvisa, em especial a RDC número 243/2018 e a IN número 28/2018, que estruturam os suplementos alimentares por faixas etárias e definem o público-alvo ‘a partir de 19 anos’ para a maioria das categorias. A legislação atual não estabelece obrigatoriedade específica de reprodução dessa informação em canais digitais, mas reconhecemos que a clareza ao consumidor é fundamental. Por isso, estamos avaliando internamente a melhor forma de padronizar as informações entre embalagem e ambiente on-line, de modo a garantir total alinhamento regulatório e informacional.” Até a data desta publicação, a informação ainda não aparece na plataforma de vendas.
Apesar da obrigatoriedade de informar a faixa etária recomendada para o uso de whey e creatina, a leitura dos rótulos e embalagens desses produtos ainda não é um hábito comum entre os adolescentes. Sobre a faixa etária indicada na embalagem estar definida para maiores de 19 anos, as meninas entrevistadas contam que nunca tinham reparado na informação, mas que pretendem continuar consumindo. “Me preocupo um pouco, mas acredito que tudo sendo na quantidade certa não tem problema”, conta Giovana, enquanto Mariana diz: “Me deixa curiosa pra saber o porquê e se tem algum perigo”.
Para o endocrinologista Friedman, a recomendação da faixa etária é prudente. “Não há evidências de grau alto quanto à eficácia ou segurança do uso de alguns suplementos em menores”. Ainda assim, ambos os especialistas entrevistados concordam que a orientação sobre o consumo adequado é mais valiosa do que uma possível restrição de venda apenas a maiores de idade. “Não acho necessário restringir a venda. O mais importante seria educar. O papel da Anvisa também é de educar e informar a população”, completa o endocrinologista.
Sobre esse desafio de orientar o uso adequado dos suplementos, um comportamento que preocupa os especialistas é a substituição de refeições completas por produtos protéicos como barrinhas e “shakes”. Vendidos como opções rápidas e práticas para o dia a dia, esses alimentos não possuem todos os nutrientes necessários para uma dieta balanceada e, muitas vezes, são ricos em açúcares e gorduras, embalados em propagandas “fitness”. “Para contextualizar, um adolescente de 60 quilos deve consumir 60 gramas de proteínas por dia. O whey protein do mercado possui, em geral, entre 20 e 23 gramas de proteína, enquanto um bife de 100 gramas de carne bovina ou de frango possui 20 gramas de proteína. Nesse caso, é melhor consumir a carne, que tem vários outros nutrientes que o whey não vai oferecer”, exemplifica a pediatra Moretzsohn. Muitos ainda apontam o uso de suplementos no lugar das refeições diárias como um possível indicativo para o desenvolvimento de transtornos alimentares.
A falta de informação sobre o uso de suplementos também pode se tornar uma “vilã” na alimentação para os jovens pois, além dos aminoácidos, esses produtos ainda podem conter açúcares, conservantes e aromatizantes que desestabilizam uma dieta balanceada comparada ao consumo de proteínas de origem animal ou vegetal. Para as adolescentes entrevistadas, existe um interesse ao analisar as embalagens voltado para a tabela nutricional, mas sem uma pesquisa sobre o que de fato significa cada informação. “Eu vejo a quantidade de proteína e de calorias, mas minha preocupação maior é com o sabor”, conta Mariana. “Minhas amigas e eu conversamos sobre isso, mas, sinceramente, o whey que eu tomo tem a menor quantidade de proteínas, porque para mim o que importa é gostar de tomar”.
A falta de informação, aliada à influência das redes sociais e ao apelo publicitário, pode levar jovens a adotarem práticas alimentares inadequadas e potencialmente prejudiciais à saúde. A Anvisa segue atuando na regulação e fiscalização desses produtos, mas o desafio de garantir o uso consciente e seguro permanece. Para os médicos e nutricionistas, a prioridade deve ser o incentivo a uma alimentação equilibrada e compatível com as necessidades de cada fase da vida.
Segundo os especialistas, o caminho mais seguro é o da educação nutricional e do acompanhamento médico. A introdução de hábitos saudáveis desde cedo continua sendo a estratégia mais eficaz e sustentável para o desenvolvimento corporal. “Os responsáveis por esses adolescentes devem procurar orientação médica ou de uma nutricionista. E aí esse adolescente pode se beneficiar de alguma forma de algum suplemento, mais comumente o whey protein, de uma forma correta”, afirma a pediatra Moretzsohn. “Não existe solução mágica”, reforça o endocrinologista Friedman.
