(Imagem: Montagem por Maria Fernanda Barros)
Entre o imperativo das redes sociais e a necessidade de ir às ruas, os progressistas da geração Z tentam, aos trancos e barrancos, aumentar seu alcance
Por Maria Fernanda Barros
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O que você pensa quando ouve a palavra política? Talvez, a imagem de um homem branco com mais de sessenta anos, engravatado, dentro de um parlamento venha na mente de alguns. Outros podem ver essas oito letras como sinônimo de treta, ou como um assunto a ser evitado nos almoços de domingo. Independente das místicas que giram em torno do fantasma da política, o fato é que muitos da geração Z sentem cansaço, preguiça ou frustração quando esse papo chega na mesa. Para cerca de 60% dos jovens, é algo que não vale a pena nem conversar, aponta um estudo realizado pelo Observatório da Juventude na Ibero-América.
Talvez você não faça parte dessa parcela — e já tenha até tirado seu título de eleitor antes de completar a maioridade — mas, como indica a pesquisa, a maioria dos jovens não se sente motivada a se engajar politicamente. “A juventude sente falta de pertencimento à política. É isso que falta na nossa política mais institucional: ter a cara da juventude, ter a juventude trabalhando pelos seus próprios interesses”, afirma Diogo Ferreira da Silva — mais conhecido por Chuvas — 16 anos, líder do grêmio estudantil da Escola Estadual João Solimeo, na zona norte de São Paulo.
Chuvas decidiu entrar para a militância estudantil quando sua escola anunciou, em abril deste ano, que acabaria com as aulas no turno da noite e passaria a adotar um sistema de ensino integral — o que, segundo o jovem, prejudica os alunos que contribuem com a renda familiar e, por isso, precisam trabalhar durante o dia. A partir daí, o estudante recebeu um convite do diretor da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES) para participar de uma luta mais partidária, na União da Juventude Socialista (UJS), do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
A batalha travada por Chuvas e seus companheiros do grêmio estudantil contra o ensino integral foi um sucesso: “A gente conseguiu barrar essa medida”, relata. Porém, o estudante conta que meses depois a secretaria da escola encaminhou novamente uma ordem para fechar o período noturno. E é essa pauta que mais tem envolvido ele e alguns alunos da João Solimeo: “Tivemos uma manifestação dos estudantes no dia 14 de agosto. Nós mobilizamos os alunos para participarem porque é o momento em que a gente consegue usar o mínimo da nossa voz para pedir investimento na nossa escola”, afirma Chuvas.
O estudante conta que, apesar de algumas ações propositais da escola para frear o engajamento, os alunos ainda conseguem participar da vida política estudantil: “Eles mandam sugestões para a página do Grêmio, conversam com os membros gremistas dentro da escola, indicam projetos, relatam se aconteceu algum assédio dentro da escola. Se sentem engajados”.
O que Chuvas deseja com a liderança do grêmio é dar o exemplo para seus colegas. Para ele, é exatamente disso que carece a juventude alinhada aos ideais progressistas — boas referências. Em contrapartida, os maus exemplos existem de sobra, afirma: “Lucas Pavanato, Nikolas Ferreira, que dizem que vieram da periferia, mas são os mesmos que atacam a nossa cultura periférica, o transporte público e a educação básica”.
Os dois nomes que Chuvas cita como figuras que representam mal a juventude também são da geração Z, entretanto, atuam em um espectro político oposto ao que Chuvas defende. Nikolas, o deputado federal mais votado do Brasil em 2022, e Lucas, o vereador mais votado de São Paulo em 2024, não fecham com as organizações secundaristas atuais, articulam em suas redes sociais a favor da privatização dos serviços públicos — especialmente as universidades — e reivindicam os ideais conservadores — entre eles, o combate à chamada “ideologia de gênero”, um termo que se tornou parte essencial do vocabulário político de direita para criticar as discussões sobre inclusão da população LGBTQIA+ na sociedade.
Ou seja, enquanto jovens como Chuvas defendem pautas distantes do conservadorismo e historicamente relacionadas à juventude — como a educação pública e a ampliação dos direitos das mulheres e da população negra, indígena e LGBTQIA+ — jovens como Nikolas e Lucas apelidam isso de lacração e se alinham à herança política deixada pelos militares que governaram durante a ditadura iniciada em 1964. Juntos, o vereador e o deputado somam mais de 22 milhões de seguidores só no Instagram. Quase todos os vídeos de Nikolas Ferreira na plataforma possuem mais de 20 milhões de visualizações — um salve especial para o vídeo em que o deputado acusava o Governo Federal de querer “taxar o PIX”, que bateu 339 milhões de views.
Das ruas para as telas, e vice-versa
Na corrida da militância por intermédio das redes sociais, os jovens conservadores parecem estar metros à frente da juventude progressista, opina Laura Barcelos, estudante de ciências sociais na Universidade Federal de Viçosa (UFV), que começou a gravar vídeos sobre política para as redes quando ainda estava no ensino médio e, hoje, possui 150 mil seguidores no TikTok. “A gente tem poucos influenciadores digitais na esquerda porque existe esse discurso de que a internet não politiza. Então tá na hora de bolar uma tática, porque se a solução for não disputar a internet, acabou”, afirma.
Se nas décadas entre 1960 e 1990 os jovens se organizavam politicamente por meio de passeatas, festivais de música e cineclubes, a juventude formada ao longo dos anos 2010 se mostra cada vez mais influenciada por conteúdos publicados na Internet. Uma pesquisa realizada por Hannah Maruci Aflalo, doutoranda no departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), concluiu que as redes sociais ajudam os jovens a se interessarem mais pela participação na política. A pesquisadora considerou como um case de sucesso a campanha feita pelo Tribunal Superior Eleitoral nas redes sociais (TSE) para incentivar o exercício de voto dos jovens.
É por isso que Laura decidiu levar para a internet as pautas que defendia em vídeos curtos e diretos, gravados durante a pandemia — quando ir para as ruas não era uma opção. “Meu primeiro vídeo que viralizou tinha só 30 segundos. Eu percebia que esse formato tinha um engajamento maior, o que é um problema gigantesco, porque não tem como a gente transmitir um conteúdo de qualidade em 30 segundos”, diz.
Com pouco tempo para captar a atenção de seu público, Laura, também atuante no movimento estudantil de sua universidade, afirma que a internet é útil para despertar o interesse por uma causa — e acaba fazendo isso melhor do que panfletos, assembleias e plenárias, tradições das organizações políticas dos estudantes. “Sentia que eu aproximava mais pessoas, proporcionava mais reflexão, e atingia mais gente na internet do que dentro dos movimentos estudantis organizados. Meus vídeos faziam muito mais gente entrar em contato e dizer: ‘nossa, quero protestar com vocês’”.
Segundo ela, embora não dê para deixar as redes sociais de lado, o debate político não pode se resumir aos algoritmos: “A internet é um dos fatores, mas é só um deles. A internet realmente acomoda as pessoas. Se não há mobilização partidária, não há gente nas ruas”.
E você? Diria que a sua geração é presente nas ruas ou acha que ela está apenas de olho nas telas? Movimentos de massa podem envolver a geração Z, como o Tsunami da Educação, em 2019, quando jovens saíram às ruas para protestar contra os cortes orçamentários das universidades federais promovidos pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Se voltar um pouco na linha do tempo, dá para relembrar a ocupação das escolas no ano de 2015, em São Paulo, que tinha como mote a luta contra a reorganização escolar proposta pelo governo de Geraldo Alckmin.
Mário Ribeiro, que participou de ambas as movimentações quando era estudante, explica que a conjuntura mudou bastante de lá para cá. Ele tinha 15 anos na ocupação de 2015, e até utilizava o Facebook para chamar mais gente para as manifestações, mas a verdadeira mobilização estava nas bases: “Os partidos e sindicatos estavam muito mais ativos do que hoje. Tínhamos uma politização muito alta e muito prática, os estudantes iam em assembleias, formavam comissões, as redes sociais eram só uma forma de apoio”, descreve.
Cerca de 200 escolas foram ocupadas entre o fim de 2015 e o início de 2016, segundo dados do governo estadual e do sindicato dos professores (Apeoesp). A reorganização escolar previa o fechamento de 93 unidades e a transferência de 311 mil alunos. Com os protestos em que participaram não só estudantes, mas também pais e professores, o então governador Geraldo Alckmin revogou o decreto e o secretário da Educação da época, Herman Voorwald, deixou o cargo. “Naquela época, dava para sentir muito mais o peso da sua mobilização. E hoje em dia você é só um like”.
Já o Tsunami da Educação, termo referente aos protestos dos dias 15 de maio, 30 de maio, e 13 de agosto no ano de 2019, reuniu, segundo estimativa da União Nacional dos Estudantes (UNE), cerca de 1,8 milhão de pessoas em mais de 200 cidades do país. Em outubro, o Ministério da Educação anunciou a liberação de 1 bilhão de reais para as universidades, mas negou que a decisão tivesse relação com as manifestações ocorridas.

O cenário de 2019 era mais parecido com o que predomina hoje, relata Mário, que havia acabado de ingressar na faculdade na época: “Foram só passeatas, não teve aquela coisa dos protestos antigos em que as pessoas decidiam o que ia acontecer. Assim como hoje em dia, os jovens serviram mais para fazer número, e não para participar ativamente”.
A geração do excesso
A jornalista e historiadora Cândida Lemos, que acaba de lançar o livro Se baterem, cantem!: estudantes desafiam a ditadura em 1977, vê a queda na mobilização estudantil como um sintoma do bombardeio de informações — e, muitas vezes, de baixa qualidade — que atinge a geração Z. “Se a minha geração foi marcada pela falta, pela censura e vigia, a juventude atual sofre com excessos. É uma geração que não sabe direito o que ler e ouvir, porque as opções são muitas”, explica.

No livro, Cândida apresenta, por meio de entrevistas, depoimentos e análise de documentos históricos, a luta dos estudantes na ditadura militar, com destaque para o episódio no qual 850 estudantes foram presos em Belo Horizonte, durante o III Encontro Nacional dos Estudantes em 1977, que buscava reorganizar a União Nacional dos Estudantes (UNE). Com essa publicação, a autora deseja justamente mostrar para a juventude atual que a democracia de hoje não surgiu do nada. “Os jovens vêem o mundo e acham que ele sempre foi inclusivo, que as pessoas sempre puderam se expressar e manifestar suas tendências como quisessem, mas nem sempre foi assim. É difícil para as novas gerações entender o que é viver em uma sociedade cerceada de liberdades”, afirma.


No emaranhado de informações oferecidas pelas redes sociais, a história dos movimentos estudantis, que teve uma atuação decisiva na luta por direitos sociais no Brasil, vai se apagando, analisa Cândida: “Sem conhecer esse passado, é difícil que a pessoa veja o presente de uma forma clara, porque o passado esclarece muita coisa que acontece agora”.
O órgão que hoje é responsável por organizar nacionalmente as pautas dos jovens de 14 a 17 anos é a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), que vêm passando por dificuldades, mas vai se virando como pode. Hugo Silva, 22 anos, atual presidente da organização, nega que os jovens de hoje sejam desmobilizados: “Muita gente fala que o jovem não vai para rua, não se mobiliza. Mas não é verdade. A gente continua mobilizando muita gente nas ruas”. A exemplo, ele cita manifestações ocorridas em 2023 contra o Novo Ensino Médio, que reuniu 150 mil estudantes no Brasil, de acordo com a UNE. Hugo também relembra os protestos em São Paulo no ano passado contra o projeto do governo de Tarcísio de Freitas de militarização das escolas e, em Minas Gerais, contra a privatização das escolas públicas estaduais.

Apesar de nenhum deles ter tido nenhuma resolução prática, o líder estudantil se mostra otimista com as ações recentes que vêm sendo organizadas nacionalmente: “No Rio Grande do Sul, a gente está conquistando o Parque Livre Intermunicipal das Escolas. Em Pernambuco, a gente conquistou os kits de alimentação e de uniformes dos estudantes da rede estadual. E agora a gente tá na luta para universalizar o pé de meia para geral no Brasil”, diz.
Quem também se mostra otimista são Josefa e José Luiz, mãe e pai do Chuvas, que estiveram presentes em um momento da entrevista. Quando perguntei ao jovem se seus pais o apoiam na militância política, ele os chamou para responder. Refiz a pergunta para que eles ouvissem, e a mãe começou: “A gente não entende muita coisa, mas se é ele que está fazendo, nós apoiamos”, e o pai concordou. Em seguida, perguntei se eles confiavam na juventude. Dessa vez, foi o pai que respondeu primeiro: “Lógico. Temos que confiar. É a única opção”.

