Aprenda a se vestir como um protagonista em 3 passos fáceis

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(Imagem: Montagem Canva/Beatriz Pecinato)

Nesta reportagem, vamos ensinar como os meninos podem se tornar aquele protagonista super forte e destemido apenas por meio da forma de se vestir

Por Alessandra Ueno

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Batman, Homem de Ferro, Ben 10, Naruto, Goku, entre outros, são personagens – mais especificamente protagonistas, icônicos dos desenhos animados. Mas, para salvar aqueles que eles amam, além de muito bem preparados e treinados, eles não deixam nada a desejar no estilo.

Pode falar, quem nunca quis se fantasiar daquele personagem incrível, que por onde passa é reconhecido? Para o Naruto, isso é equivalente a colocar a capa de Hokage; para o Ben 10, é seu Omnitrix; no caso do Superman, é seu famoso uniforme azul com a cueca vermelha por cima.

Se ficou até aqui, é provável que já esteja se perguntando: “Ok, mas como eu faço isso? Cadê as dicas que o título prometeu?”. Bem, a verdade é que as dicas estão em você mesmo.

Moda é coisa de mulher?

Para chegar no ponto principal do texto, primeiro precisamos explicar sobre o que estamos falando. A moda, para Frederico Rafael Souza – psicólogo formado pela Universidade de Fortaleza e também designer de moda –, é um sistema. E não, não são apenas as mulheres que estão incluídas nele.

O psicólogo explica que é um sistema produtivo em que se está sempre interagindo com estímulos o tempo todo. “Eu tenho que comprar, tal coisa está na moda, tal coisa é bonita, o que é bonito e o que é feio, toda essa coisa estética”, complementa.

Estilo. Para Fred, como é conhecido, essa é a melhor definição do que estamos falando: “Eu diria que o estilo se aproxima muito mais desse lugar, dessa importância que você traz. Se eu não tenho muito claro para mim quem eu sou, o que eu gosto, que imagem eu quero quero mostrar, eu fico perdido. Então, estilo seria escolher dentro deste catálogo as coisas que mais fazem sentido para mim enquanto indivíduo”.

Com a Revolução Industrial, os papéis de gênero ficaram bem divididos: as mulheres foram resumidas ao adorno dos homens e estes deveriam prover o sustento. Se formos pensar do ponto de vista da liberdade de se expressar por meio das roupas, ambos foram limitados.

Com o passar do tempo, a situação melhorou: o movimento feminista trouxe mais liberdade às mulheres e a luta contra a LGBTQIAP+fobia permitiu que muitos pudessem se expressar, incluindo os homens. Mas Fred, embora não tenha nascido naquela época, é uma prova viva de que ainda existe preconceito com quem vai contra o padrão aceito.
“A minha avó é costureira e, desde muito novo, eu ficava querendo mexer na máquina de costura que ela tinha, mas não podia, por ser homem. Eu sempre admirei e isso foi crescendo e crescendo. E, por ser um homem gay, e ainda um homem gay do interior, era muito mais difícil. Então, a roupa sempre foi esse lugar meio de desejo, de querer me expressar mais, ao mesmo tempo de limitação, porque eu sentia que eu não podia”, conta.

Pelados

“Até os 13 anos, a moda era praticamente inexistente na minha vida”, diz Hideki Anzai, estudante de Ciência da Computação e designer como hobby. Hoje, com 20 anos, explica que começou a ter mais contato com a moda a partir dos tênis, a chamada cultura sneaker. Modelos diferentes, personalizados, exclusivos, mas que, acima de tudo, descreviam quem ele era ou queria ser.

Antes dos 13, Hideki já apreciava as graphic tees. O termo pode parecer estranho, mas tenho certeza que você vai saber do que estamos falando. Aquelas camisetas estampadas com seu anime, personagem, filme ou artista favorito entram nessa categoria.

É interessante ver que, mesmo não pensando ativamente no estilo e na moda, ela existe. Na sociedade, o costume de usar roupa já está completamente enraizado – se não estivesse, teríamos um mundo bem diferente, com muitos pelados andando pelas ruas. Além disso, até quando saímos de casa e esquecemos algo muito importante para nós, dizemos que estamos nos sentindo pelados.

Daniel Braga, 13 anos, ou Dani, usa todos os dias o mesmo conjunto de roupas e o mesmo óculos, já que sua escola tem uniforme. Mas, no pulso leva um relógio preto, às vezes vai de boné, tem mais de uma mochila dependendo do dia e alguns dias vai com tênis colorido ou com alguma meia diferente. Sem isso, ele se sente pelado.

Fred comenta que, na psicologia, a área de estudo sobre cognição social envolve isso: a forma como nosso cérebro processa a realidade social em que estamos inseridos. Parece grego, né? Explicando de forma mais simples, é basicamente como nós analisamos a primeira impressão que temos de alguém e/ou algum contexto.

“São processos naturais de ser um humano, processos adaptativos, a gente precisa da existência deles para sobrevivermos. O de categorização social é a maneira como a gente categoriza o que tá ao nosso redor. Para que isso ocorra, a gente precisa de pistas para identificar o que está ao nosso redor. A roupa é com certeza uma das formas de comunicação, uma das pistas mais visíveis, uma das primeiras coisas que a gente repara”, explica o psicólogo.

Você que está lendo também está incluso nisso! O tênis que você escolhe, o jeito que prende o cabelo, o chaveiro que usa na mochila da escola: tudo isso diz muito sobre quem você é para quem te vê.

Buscar: tem alguma forma de comprar roupas baratas sendo estudante?

Bem, a gente já falou sobre o que é a moda e como ela está presente mesmo sem conscientemente pensarmos nela. Agora, como um estudante consegue comprar algo acessível e que se encaixe nos seus gostos?

Usando Hideki como exemplo, sua conexão com a moda evoluiu – e muito. Influenciado pelo streetwear em 2022 que consumia em revistas e sites online, ele mudou também seu estilo de consumo. “Com isso, passei a frequentar brechós e bazares regularmente, em busca de opções mais acessíveis, mas, principalmente, de peças únicas e excêntricas. Ao longo dos anos, desenvolvi esse interesse, comecei a estudar e a conhecer mais sobre conceitos, marcas, movimentos e designers, como Yohji Yamamoto, Comme des Garçons (CDG) e Alexander McQueen”, comenta.

Inspirado pelas peças diferenciadas que via nas revistas, ele colocou a mão na massa e começou a projetar as próprias roupas. Em 2024, Hideki trancou a faculdade de Tecnologia da Informação para começar a estudar design – e foi assim que tomamos conhecimento dele para essa reportagem.

Ao longo desse período, percebeu que trabalhar e estudar moda em tempo integral era muito desgastante e não queria que isso se tornasse um peso. Embora tenha decidido tratar a moda como hobby, Hideki continua com seu estilo, paixão e hábitos.

Para Fred, isso é muito importante. “A indústria da moda ainda não conseguiu encontrar esse equilíbrio entre a produção e o impacto socioambiental”, diz. Uma imagem assustadora que exemplifica bem é o do deserto do Atacama, no Chile, sendo utilizado como destino para mais de 39 mil toneladas de roupas todos os anos.

Antonio Cossio/picture alliance via Getty Images

O fast fashion é uma lógica produtiva na qual as tendências da moda são seguidas tão à risca que as peças de roupa são fabricadas e descartadas à medida que a trend muda. Se você viu algo hoje, amanhã já pode estar fora de moda e, no final do ano, pode estar em algum lixão.

Além do impacto físico da presença de toneladas de roupas a céu aberto, a produção delas demanda muita água, emite muita poluição e demanda muito do meio ambiente. Com a necessidade de uma moda mais sustentável, surgiram algumas iniciativas.

As formas de consumo mais sustentável têm se popularizado, então, prezar por marcas menores, que tenham um cuidado socioambiental, é importante. Porém, infelizmente, isso pode tornar a peça mais cara. Aí vem a pergunta: como uma pessoa de baixo poder aquisitivo pode validar seu estilo pessoal?

“Hoje em dia existem muitas possibilidades de compras baratas, mas elas têm também um impacto muitas vezes socioambiental. As novas gerações têm tido uma prática bem bacana que é o consumo em brechós, como o Hideki, e também tentam aderir mais ao upcycling, que é uma espécie de personalização de peças já usadas”, exemplifica Fred.

Para o psicólogo, é preciso encontrar um meio-termo entre validar o estilo pessoal e reduzir o impacto no meio-ambiente.

Quem sou eu para você

“Se pararmos para refletir, nossas roupas são como nossa pele, na verdade, são representações externas de nós mesmos até mais do que nossa própria pele”, diz Hideki.

As roupas guiam a nossa primeira impressão por meio da categorização social que fazemos. Por isso, dependendo do que se pretende, as vestimentas e o estilo no geral podem passar informações completamente diferentes ou totalmente fiéis ao que a pessoa é.

Hideki comenta que, com a popularização das redes sociais e mídias que propagam a moda pós-pandemia, a rotatividade de tendências e estilos virou a nova norma: “Isso faz com que, às vezes, as pessoas percam o senso de identidade ao se vestir, sentindo-se pressionadas a seguir padrões do que é aceitável com base nas tendências do momento. Essa pressão pode gerar insegurança e desconforto ao tentar se enquadrar em vestimentas ‘padrão’”.

Além disso, Fred destaca que nessa idade um dos pontos principais é a autodescoberta, a identificação. “Nada mais é do que o adolescente tentando se conhecer. Até então ele vinha bebendo muito das influências dos pais, da família e, quando chega nessa etapa, ele vai buscar os lugares que ele se identifica, os gostos pessoais. Quando a gente acha esses lugares, a gente começa a ser reconhecido”, comenta o psicólogo

A partir de certo momento, por exemplo, você não é mais apenas você, você é a pessoa que gosta de K-pop, que joga Fortnite, que torce para o Corinthians ou que assiste anime. Essa é a importância de poder se expressar: é ser capaz de fazer parte de um todo que seja compatível com quem você é. “Quando a gente se sente o estranho, o patinho feio, diferente, às vezes é difícil. Mas quando eu estou num grupo com pessoas com quem eu me identifico, que eu gosto, que eu me sinto acolhido, eu consigo me expressar da melhor forma”, completa Fred.

Para Hideki, a moda pode ser uma das principais ferramentas no desenvolvimento pessoal de um adolescente, como no seu caso. Os estilos pessoais estão em constante mudança e evolução, bem como nosso entendimento de quem somos.

“Quando as pessoas perguntam online como podem encontrar seu estilo pessoal, a única resposta correta é: experimentando, tentando e errando. Esse processo leva tempo, anos de experimentação e evolução. Por mais que você sinta que seu estilo atual é o ‘definitivo’, conforme mudanças ocorrem em sua vida, sua forma de se vestir também mudará”, comenta.

Um exemplo é o de Daniel, que hoje é um estudante do Ensino Fundamental II e gosta de andar de bicicleta, heróis e computadores. Mas, ele também já foi uma criança de 5 anos que amava a Galinha Pintadinha.

No final, não são passos tão fáceis – na verdade, não existe um passo a passo. Dúvidas, inseguranças, aceitação, comparação: essas palavras serão repetidas muitas e muitas vezes. Mas, os protagonistas também as têm.