Entre o desinteresse e a descrença: por que jovens ainda evitam as urnas

(Imagem: Montagem por Júlia Moreira)

Nos dois últimos anos eleitorais, apenas cerca de 30% dos adolescentes aptos a votar se alistaram para ir às urnas

Por Luana Takahashi

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Em um domingo no final de setembro, milhares se reuniram na avenida Paulista, na região central de São Paulo, para protestar contra a chamada PEC da Blindagem e a anistia aos condenados por tentativa de golpe de Estado. O local, tão costumeiramente tomado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro nos últimos anos, ganhou naquele dia uma nova cara. 

Segundo o Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo), 42,2 mil pessoas teriam comparecido ao ato. No meio da multidão que gritava e levantava cartazes, estava a estudante Sarah Okamura, de 15 anos, ao lado de seus familiares –que fizeram questão de ir vestidos de vermelho. 

A jovem, em sua primeira manifestação, pôde voltar para escola com uma boa história para contar: a proposta de blindar criminalmente deputados e senadores foi barrada no Congresso Nacional quatro dias depois da forte reação negativa da população. 

“Ter ido lá e visto um monte de outras pessoas na Paulista, assim como em todo o Brasil, mostrou que aquele trabalho de formiguinha finalmente deu um resultado, um grande impacto. Foi uma coisa muito emocionante mesmo, de que a gente ainda tem algum tipo de esperança”, conta a garota. 

Depois da experiência, Sarah relata ter se sentido ainda mais motivada para tirar seu título de eleitora no próximo ano, quando completará 16 anos e terá direito ao voto facultativo.

A vontade dela de votar surgiu ainda cedo, observando e participando de conversas políticas em jantares rotineiros de sua casa. “Vim de uma família que desde muito pequena me apresentou pautas sociais e as coisas que aconteciam no mundo. Conversamos e discutimos bastante, apesar das nossas ideias serem bem parecidas”, explica. 

Para ela, uma das motivações para ir às urnas em 2026 é poder escolher candidatas mulheres e da comunidade LGBT que possam representá-la. A estudante também vê a ação como uma chance de expandir a discussão sobre temas políticos em seu meio, frente ao aparente desinteresse no assunto entre jovens: “Quando você vai lá e fala para outras pessoas da sua idade que você votou, você consegue abrir ali um caminho para começar a discutir política”.

Em um levantamento realizado pela Babel*, nos dois últimos anos eleitorais, 2022 e 2024, cerca de 30% do grupo de adolescentes aptos a votar se alistaram para irem às urnas no Brasil. Entre 2008 e 2018, a participação esteve praticamente no mesmo patamar, com variações entre 20% a 40%. A exceção ocorreu em 2020, ano que mobilizou apenas 18% dos jovens em meio à pandemia da Covid-19. 

No estado de São Paulo, os dados são ainda mais baixos. Estatísticas da Justiça Eleitoral mostraram que 163.061 pessoas de 16 e 17 anos tinham título de eleitor até março de 2024. O que significa que a parcela desse grupo com alistamento eleitoral era de apenas 14,2%, já que a população estadual nessa faixa etária era de aproximadamente 1,14 milhão, de acordo com o Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Isadora Maia, de 17 anos, cita a “preguiça, falta de vontade e desinteresse” como desmotivadores.  Além das preocupações com o vestibular, ela conta que trabalha fazendo doces para uma alta demanda de clientes, o que faz com que o voto fique “por último em seus planos”. “Quando eu fizer 18 e for obrigatório, tudo bem. Não acho ruim ter que votar, mas também não é algo que me empolgue”, confessa. 

Agora com 18 anos, Denis Araujo Martins, por sua vez, argumenta que se sentiu desestimulado ao ver o fanatismo político em notícias ou até mesmo no comportamento de pessoas próximas. “Parecia que ou você estava com eles ou contra eles. Isso acabou trazendo para mim uma percepção de que política é um assunto que divide as pessoas”, fala. 

Apesar de saber da importância do voto como uma via de mudança no país, ele abriu mão da possibilidade devido à “polarização política, constantes escândalos de corrupção nas notícias, extremismo em certos grupos de eleitores e constantes reclamações de pessoas a respeito do assunto”. 

Caio Leite, professor de filosofia em escolas particulares de São Paulo, observa há 16 anos o comportamento político de adolescentes de alta renda. Entre esse perfil de estudantes com os quais trabalha, ele conta perceber que não há “nenhum interesse” na maioria em se manifestar por meio do voto, “tão pouco em uma discussão profunda sobre as relações políticas do país”.

“Essa molecada passa por um processo de desacreditação na política. Para eles, o exercício dela é algo medonho, algo danoso e pautado na corrupção. Mas essas bandeiras levantadas por eles são muito mais morais do que pensadas na coletividade”, acrescenta Leite. 

Para Paulo Ramirez, professor de sociologia da ESPM, o desinteresse de Isadora e Denis não são exceção, mas um sintoma: “O voto é facultativo, mas a mídia e a própria política afastam o jovem. Os partidos não representam a diversidade do país, são dominados por homens brancos e ricos, que não têm uma linguagem e uma ideologia clara para conversar com essa geração”. 

Ele ressalta que a omissão da escola no debate público também tem restringido uma formação cidadã. “Aqui em São Paulo as aulas de filosofia, sociologia, história e geografia foram reduzidas. Esse é um alerta para a decadência do processo educativo. Não se trata apenas de destruir os índices de avaliação, mas também o grau de criticidade desses jovens. Isso acaba afastando eles do voto.”

Como estudante, Isadora também conta ter a mesma percepção: discussões que formam o pensamento político são evitadas em sua escola. “Não pode falar dependendo de certos assuntos, não podemos tocar. A gente toca mais em tópicos do passado, que já ocorreram e que a gente precisa saber. Bem raramente, falamos sobre decisões políticas atuais”, fala a aluna. 

Especialistas afirmam que muitos educadores começaram a ser coagidos dentro das instituições por tentar falar sobre assuntos políticos. “Em muitas reuniões, nós ouvimos que é melhor não tocar nesse assunto ou sequer dar este ou aquele conteúdo exatamente para não gerar polêmicas. Nas escolas privadas, os professores morrem de medo de perder os empregos por reclamações dos alunos”, relata Ramirez. 

A resistência vêm, principalmente, das famílias. “A gente entra para fazer discussão do que é democracia, mas é muito desafiador. As famílias literalmente monitoram para ver o que está sendo dito e há um afronto direto, de chamar o professor de esquerdista e militante”, conta Leite, baseado em suas experiências em sala de aula. 

A baixa participação eleitoral também passa por valores sociais e culturais. Ainda de acordo com Ramirez, dentro de uma sociedade liberal e do consumo, o que se estabelece primordialmente é o individualismo e uma satisfação individual acima das comoções coletivas. “Considerando uma população que passa o dia inteiro mergulhada nas redes sociais e só se ouve falar mal da política ou nem se ouve sobre ela, consequentemente há um afastamento cada vez maior do dever cidadão”, avalia.

O cientista político Marcos Agostinho analisa ainda que a participação desse público costuma variar dependendo do momento histórico em que a eleição ocorre. “Nas eleições de 2024, na capital paulista, houve uma disputa intensa pelo voto jovem, sobretudo da periferia, muito influenciada pela presença de candidatos com grande apelo nas redes sociais”, exemplifica. 

Ele destaca, por outro lado, que o aumento da presença desse grupo não reflete necessariamente mais consciência política: “A participação quantitativa não equivale ao qualitativo. Muitos jovens votam, mas acabam sendo usados como moeda de troca por políticos que prometem melhorias locais, como um campo de futebol ou uma escola”. 

Para Agostinho, as pessoas de modo geral ainda costumam votar mais por identificação emocional do que por proposta. A visão é confirmada por uma dinâmica em uma das escolas em que Leite trabalha, onde se simulam eleições e debates. Nela, se propõe que os alunos votem apenas nos projetos de cada candidato, sem saber de quem são. Em seguida, votam nas figuras políticas em si. 

“Quando tivemos aqui a eleição em São Paulo, o Pablo Marçal estava muito bem cotado. O projeto do Pablo Marçal não foi escolhido como interessante, quando não sabiam de quem era, mas ele foi eleito pelos estudantes nessa dinâmica em seguida. É uma leitura de que os estudantes praticamente optam por uma personificação e não por um projeto político”, compartilha o professor. 

Especialistas ouvidos acreditam que reverter a baixa adesão do voto facultativo entre adolescentes passa por um esforço contínuo, e não sazonal.  “A justiça eleitoral faz propaganda só perto das eleições. Isso deveria ser uma política permanente. Enquanto as escolas também precisam criar caminhos para estimular o debate político e não só fingir que eles existem”, opina Ramirez. 

Leite entende que as redes sociais devem ser aliadas nesse processo. Segundo ele, a opinião desses adolescentes têm sido majoritariamente formada por influenciadores digitais, que já têm sido contratados pelo governo federal em épocas eleitorais para campanhas ao voto facultativo. 

Sarah diz que ela e os amigos da mesma idade usam as plataformas digitais como principais meios de acompanhar o noticiário. “Como a nossa atenção hoje em dia está muito ruim, a gente acaba sabendo das coisas que acontecem pelos posts do Instagram, alguns vídeos do TikTok”, fala. 

Ao se deparar com coisas que lhe deixam com uma “pulga atrás da orelha”, a estudante esclarece que busca sobre o assunto em jornais que considera confiável ou tenta tirar dúvidas com a irmã mais velha, que é jornalista. “As mídias sociais têm um papel muito grande em divulgar coisas, mas tem um perigo muito grande: as fake news. Então, é uma ferramenta muito boa se você souber usá-la”, pontua a menina.

“Tem que mobilizar influenciadores a falarem a importância disso e incentivar, além de melhorar os canais de comunicação do próprio Estado. Os perfis oficiais precisam dialogar melhor com a linguagem dessa molecada, não adianta campanha na televisão, tem que ir para as redes sociais”, analisa Leite.

À reportagem, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo afirmou que promove campanhas recorrentes e permanentes voltadas ao público de 16 e 17 anos, com conteúdos divulgados em seu site e nas redes sociais oficiais. Também ressaltou a existência do “Guia do Jovem Eleitor”, uma cartilha que explica o processo de alistamento, a segurança da urna eletrônica e outras informações sobre o sistema eleitoral. A nova edição, referente às eleições de 2026, já está disponível.

No Brasil, o alistamento eleitoral e o voto são obrigatórios para maiores de 18 anos e facultativos para pessoas analfabetas, maiores de 70 e jovens de 16 e 17 anos. Jovens de 15 anos que completarem 16 até a data do 1º turno de uma eleição também podem solicitar a inscrição eleitoral para votar. 

Nas próximas eleições, em 2026, a população votará para presidente da República, governador de estado ou do Distrito Federal, dois senadores, um deputado federal e um deputado estadual. Para solicitar alistamento eleitoral, o jovem deve agendar atendimento presencial no site do TRE de sua região e comparecer na hora marcada no cartório eleitoral ou em postos do Poupatempo com serviços da Justiça Eleitoral para a coleta dos dados biométricos. 

Mesmo diante do cenário, adolescentes como Sarah acreditam que é possível construir outro caminho. Para ela, exercer o direito ao voto é também assumir a responsabilidade política além da urna. “No Brasil, a gente só vota no dia e esquece. […] A gente tem que parar de fazer política para os candidatos e fazer política para a gente, pelo progresso da população brasileira”.

*A metodologia usada para o levantamento foi cruzar os números, disponibilizados pelo TSE, de jovens de 16 e 17 anos que tiraram seu título de eleitor de 2008 a 2024 com a quantidade dessa população nos respectivos anos a partir de dados de projeção populacional do IBGE. Assim, pôde-se obter a porcentagem dos que podiam e efetivamente se alistaram.