(Imagem: Montagem por Thaís Moraes)
Medo e insegurança são sentimentos comuns nesta fase; veja o que pode te ajudar a tomar uma decisão
Por Beatriz Pecinato
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Quando chegou a hora de escolher em qual curso da faculdade gostaria de entrar, Sthefanie Lacerda selecionou o campo “Jornalismo” entre as inúmeras opções disponíveis na hora de preencher o questionário pré-vestibular. Gostar de ler e escrever, hobbies clássicos dos estudantes de humanas, deram pistas de sua afinidade com a profissão da comunicação.
Ela tinha algumas expectativas sobre a graduação: esperava uma atuação dinâmica, em que os jornalistas nunca parassem de estudar, em que seria possível exercitar a criatividade, e que teria bastante contato com assuntos políticos.
Mas tomar essa decisão não foi, exatamente, simples. Nos dois primeiros anos do ensino médio, ela cogitou seguir alguma carreira na área de Química, o que está bem distante das páginas de um jornal e dos portais de notícia. Ela contou que essa era sua matéria preferida na escola, e por isso a dúvida na hora definir seu futuro.
Foi, então, no terceiro ano do ensino médio que ela bateu o martelo e optou por trilhar um caminho na comunicação. “Eu fiz muitas pesquisas e perguntei para muita gente” diz Stefhanie sobre como foi sua estratégia para definir em qual curso deveria entrar.
Mesmo incerta sobre seu futuro, a estudante precisava fazer uma escolha. O que a jovem não sabia, ainda, é que talvez ela não seria tão definitiva.
Adolescência e maturidade
Medo, insegurança e incerteza são algumas das sensações comuns que surgem ao pensar sobre planos a longo prazo e na necessidade de tomar grandes decisões, explica Marina Bello, psicóloga e orientadora de carreiras para jovens. “A preocupação toma conta de algo que infelizmente não está 100% ao seu controle e isso gera muita ansiedade se você não sabe lidar com essa situação” diz.
Ter que definir sua suposta atuação profissional pelo resto da vida aos 17 anos também assusta. A expectativa média de vida de um brasileiro é de 76,4 anos, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2023. Ou seja: com essa idade, os jovens não concluíram ainda nem ¼ da trajetória de vida esperada. Com isso, pode surgir a dúvida: qual o nível de maturidade que os adolescentes têm para fazer essa escolha?
Esse assunto foi objeto de um estudo realizado em 2017, chamado “A Maturidade para a Escolha Profissional em Adolescentes do Ensino Médio”. Conduzido por Camila Cericatto, especialista em diagnóstico e avaliação psicológica, Cássia Ferrazza Alves, mestre em Psicologia, e Naiana Dapieve Patias, doutora em Psicologia, as pesquisadoras analisaram como a idade importa na hora de decidir qual caminho seguir depois da escola.
A pesquisa foi realizada com 234 estudantes do Rio Grande do Sul e utilizou a Escala de Maturidade para a Escolha Profissional (EMEP) para coletar dados. A EMEP tem por objetivo conhecer como esse jovem percebe a realidade, como ele percebe a si mesmo e as questões com o mercado de trabalho, segundo Cássia Ferrazza Alves, psicóloga e uma das autoras da pesquisa. A escala avalia a maturidade a partir dos fatores de independência, determinação, responsabilidade, autoconhecimento e conhecimento da realidade.
Os resultados indicaram que o sexo, a idade e a escolaridade têm influência direta na decisão: as meninas apresentaram maior responsabilidade na escolha profissional, e adolescentes mais velhos demonstraram maior pontuação na EMEP. Ainda, a maturidade aumentou conforme as séries escolares avançaram, especialmente na transição para o terceiro ano do ensino médio.
As diferenças encontradas por sexo, inclusive, podem ser explicadas se o gênero for compreendido a partir de uma construção social. “De modo geral, as meninas tendem a apresentar maiores escores em fatores como responsabilidade […], porque às vezes as mulheres são ensinadas a responder a uma realidade diferente dos homens”, conta Alves.
Mesmo tomados pela incerteza e medo de como será o futuro, os adolescentes tendem a desenvolver mais maturidade com o passar dos anos, o que dá a eles maior confiança para tomar grandes decisões.
O modelo social brasileiro
No país, caso os jovens tenham condições financeiras e o privilégio de conseguir ingressar no ensino superior, é esperado que eles continuem estudando depois da formação no ensino médio. “Principalmente aqui no contexto brasileiro, há uma emergência, até uma certa cobrança social, para que no terceiro ano se escolha [uma faculdade]” pontua Alves.
O Brasil, inclusive, é um país que ainda dá muito prestígio para a graduação, diz a pesquisadora. Ainda que a sociedade tenha passado por inúmeras mudanças, que algumas profissões não exigem um diploma, e que novas práticas surgem no mercado de trabalho todos os dias, existem algumas evidências que comprovam que ter uma faculdade no currículo pode te abrir mais portas, pelo menos no mercado de trabalho mais tradicional.
A FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) realizou um estudo sobre a diferença salarial entre aqueles que têm ensino superior e pessoas que têm ensino médio completo e/ou superior incompleto. A conclusão é que pessoas que completaram a graduação recebem 126% a mais do que aqueles que não possuem um diploma. Além disso, sem faculdade, é muito difícil acessar posições estratégicas, como cargos de diretores e CEOs.
E existe uma diferenciação que parece não estar sempre clara para os jovens: a carreira que decidimos seguir não necessariamente precisa estar ligada com a profissão em que nos graduamos. De acordo com Alves, a carreira tem relação com as “nossas escolhas ao longo da nossa vida ocupacional, que vão se somando às nossas escolhas pessoais e nossos valores de vida”; já a profissão diz respeito a uma escolha ocupacional.
A pesquisadora reitera a importância de entendê-las como conceitos distintos, e pontua que, ao escolher um curso de graduação, não necessariamente você vai seguir com isso a vida toda. “As experiências vão se modificando […] e algumas coisas vão fazendo sentido ou não ao longo da vida” diz.
Estou em dúvida, e agora?
Tenha certeza que esse sentimento é normal. Mas você lembra do que eu acabei de falar sobre o estudo conduzido nas escolas do Rio Grande do Sul? Quanto mais tempo passa, mais maturidade você tem para definir seu futuro.
Ter bastante autoconhecimento é a chave para tomar qualquer decisão, seja pessoal ou profissionalmente. Alves reforça que esse processo não acontece de uma hora pra outra, e sim a partir de vivências e experiências. Com isso, você “desenvolve uma capacidade crítica reflexiva sobre nós mesmos e sobre as experiências que a gente tem”, exemplifica.
A adolescência pode ser entendida a partir de fatores biológicos, como o momento em que o corpo passa por mudanças hormonais e fisiológicas; porém, esse período também pode ser compreendido como um fenômeno social. É nesta faixa etária que os jovens precisam tomar decisões que terão impactos pelo resto de suas vidas, além de ter experiências que resultam em grandes transformações.
Parte do amadurecimento e da entrada na vida adulta é realizar essas decisões sozinho, infelizmente. Você pode conversar com seus amigos e familiares sobre suas expectativas, dúvidas e anseios. Mas cuidado: existem pais, mães e responsáveis que podem influenciar de maneira negativa essas escolhas. O autoconhecimento ajuda na hora de você entender qual o seu caminho, o que gosta, não gosta, e o quanto você é, ou não, parecido com a sua família.
A psicóloga Marina Bello percebe que jovens mais independentes que tem uma relação mais aberta e comunicativa com os pais conseguem ter mais abertura e mais liberdade em relação a escolha; já aqueles mais tímidos, e que possuem uma relação em que os pais são mais “autoritários”, têm menos voz, pelo menos nas primeiras consultas que ela realiza.
Julia Nose, adolescente que está no terceiro ano do ensino médio, conta que sua escola te deu um bom suporte na hora de pensar nos próximos passos depois de se formar. Esse também é um dos caminhos possíveis na hora de tentar decidir o que você quer fazer profissionalmente: conversar com seus professores, coordenadores vocacionais, caso a instituição ofereça algum, e até os coordenadores pedagógicos, para externar seus medos e dúvidas sobre a profissão que gostaria de seguir.
Mesmo com receio, Julia tem grandes expectativas para o futuro: está ansiosa para ter mais independência, o que acredita que alcançará com o trabalho.
E se você ingressar em uma faculdade e perceber que essa não foi a melhor escolha? Isso também faz parte das tentativas de crescimento e de amadurecimento.
Foi no segundo ano da faculdade de Jornalismo na ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo) que Sthefanie percebeu que estava infeliz no curso. “Eu fui começando a ver que talvez fosse um pouco monótono, e não tivesse tanto essa liberdade criativa e não tivesse essa questão de ter que ficar realmente estudando” explica.
Além de perder o encanto que uma vez tinha cultivado pela profissão, a jovem também percebeu que queria estudar coisas diferentes em outras áreas do conhecimento. Depois de pensar e repensar se aquela tinha sido a escolha certa, Sthefanie revisou suas opções do passado e lembrou de sua preferência por Química no ensino médio.
Então, ela procurou seus amigos na Poli (Escola Politécnica) da USP para conversar sobre o dia a dia dos estudantes de Engenharia Química, curso que passou pela sua cabeça há anos, quando ainda estava na escola. A jovem conta que também assistiu a alguns vídeos no YouTube, o que a ajudou a tirar algumas dúvidas.
Munida de novas informações e um desejo por recomeço, Sthefanie decidiu deixar a área da comunicação, saiu da faculdade de Jornalismo e voltou a estudar para prestar o vestibular novamente. Em 2024, ela retornou à USP como aluna de Engenharia Química, aos 20 anos.
Feliz com a nova escolha, ela acredita que, ao pensar nos próximos passos depois da escola, é importante pesquisar bastante sobre suas opções e conversar com pessoas que estão ou estiveram no curso que você pretende ingressar. Também é importante tentar separar seus hobbies, aquilo que gosta de fazer no tempo livre, do que você quer profissionalmente.
Mesmo em um universo das ciências exatas, Sthefanie ainda tem afinidade com ler e escrever, atividades que são mais comumente relacionadas às ciências humanas. Por isso, vale o lembrete: “será que os meus hobbies realmente seriam algo que me fariam feliz e realizado profissionalmente?”, exemplifica a estudante.
Antes de trocar de graduação, ela também aconselha que você faça algumas reflexões: você acha que não gosta das aulas do curso ou não se vê mais atuando nessa profissão? E, mesmo se não gostar da faculdade, ela pode te abrir alguma porta em seu futuro profissional? Responder a essas perguntas te ajuda a direcionar melhor seu descontentamento e a entender se é preciso buscar um novo caminho ou apenas engolir alguns sapos.
