Por que se importar com o clima?

(Imagem: Montagem por Thaís Moraes)

Especialistas e juventude refletem o envolvimento das novas gerações na construção de caminhos para um futuro justo

Por Tulio Gonzaga

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Era uma terça-feira comum no extremo leste de São Paulo (SP), quando as primeiras chuvas de verão pegaram os moradores do Jardim Pantanal desprevenidos. Rapidamente, o pé d’água transbordou o rio Tietê e converteu-se numa inundação que invadiu casas das comunidades da várzea e causou estragos sem precedentes. Uma dessas casas era a da família de Jahzara, que tinha seis anos de idade na época da enchente, em dezembro de 2009. “Eu cresci achando que passar por enchente era normal”, confessa. 

Dias depois da tragédia, durante uma aula na escola, a professora perguntou à Jahzara e às demais crianças se alguém havia perdido alguma coisa na enchente ou tinha sido afetado. “Só eu levantei a mão da sala. E aí, eu falei para minha prima, que estudava comigo: ‘Levanta a mão, a gente passou”, conta ela. Envergonhada, a prima não quis levantar a mão. “Ali, caiu a ficha de que não é normal mesmo, ninguém passou por isso. Por que eu e minha prima perdemos brinquedos por conta disso?”, reflete.

Desde a década de 1980, famílias de moradores do Jardim Pantanal acostumaram-se a ficar desalojadas na temporada chuvosa, a ter de levantar os móveis quando chove — e de ir para a escola com a água no joelho ou perder brinquedos, como Jahzara. Essa é uma história de gerações. É uma história de Jahzara. E de sua mãe, Maria. E de sua avó, Dona Sebastiana, que saiu de Açailândia, no Maranhão, com outras dezenas de famílias para se estabelecer às margens do rio Tietê. E de milhões de pessoas país afora.

Mudanças climáticas

Em 2024, o Brasil registrou o maior número de pessoas desabrigadas e desalojadas por desastres climáticos desde o início da série histórica, em 1991. Segundo dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil, produzido pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), mais de 1,13 milhão de brasileiros foram forçados a abandonar suas casas em decorrência de eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, secas, incêndios, entre outros.

O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), principal órgão responsável pela prevenção e gerenciamento de desastres naturais no Brasil, emitiu um alerta no ano passado que já era testemunhado por comunidades em condições de exposição e vulnerabilidade de todo o país: os eventos climáticos extremos se tornaram realidade. O documento enumera episódios como em 2024, o ano mais quente da história e as recentes inundações no Rio Grande do Sul, considerado o pior desastre climático no Brasil, além das secas recordes na Amazônia e no Pantanal e as queimadas sem precedentes em todo o centro da América do Sul.

Imagens aéreas das áreas devastadas pelo fogo no Pantanal. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

“Foram os diversos desafios socioambientais que me impulsionaram a me tornar uma ativista climática”, explica Jahzara Oná, ativista climática de 21 anos, moradora do Jardim Pantanal e estudante de Geociências na Universidade de São Paulo (USP) e Governança Ambiental e Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas (FGV). A jovem é ex-integrante do Jovens Pelo Clima (Fridays For Future), movimento estudantil internacional de protesto contra a crise climática e de cobrança por ações políticas mais eficazes, protagonizado pela sueca Greta Thumberg.

A preocupação com a exposição da sua comunidade às chuvas motivou o engajamento com ações de educação climática aos 15 anos, como rodas de conversa na escola que frequentava. Esses diálogos faziam parte do cotidiano dos estudantes, diz ela: “Eu tentava encaixar isso com a realidade minha e dos meus colegas, tipo: ‘Gente, sabe quando começa a chover e a gente fica preocupado de ter que ir embora para casa por causa da chuva? Ou quando a gente tem que ir embora mais cedo da escola porque começou a chover?’ Então, são sinais de racismo ambiental”.

A crise climática é o desafio dos direitos humanos e das crianças dessa geração, e já está tendo um impacto devastador no bem-estar dos jovens ao redor do mundo, declara relatório da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A organização revela que, embora 85% dos jovens já tenham ouvido falar sobre mudanças climáticas, somente 50% sabem a definição correta: um aumento nas temperaturas médias mundiais e eventos climáticos mais extremos resultantes de atividades humanas.

Glossário do Clima

Adaptação climática: medidas de ajuste de comunidades e territórios para reduzir a vulnerabilidade frente ao comportamento do clima no presente e no futuro e seus efeitos.

Justiça climática: abordagem ética e política que emerge como evolução da justiça ambiental, focando nas desigualdades sociais amplificadas pelas mudanças climáticas.

Mitigação: estratégia de resposta à crise climática, que consiste na intervenção humana para reduzir as emissões por fontes de gases de efeito estufa e fortalecer as remoções por sumidouros de carbono, tais como florestas e oceanos.

Mudanças climáticas: alterações de fenômenos climáticos, que interferem e modificam as características climáticas do planeta, e são resultantes de atividades humanas.

Racismo ambiental: tipo de injustiça climática que impacta negativamente e de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, como negras, indígenas, quilombolas ou periféricas, em razão da discriminação que essas pessoas historicamente são submetidas. 

Fontes: InfoAmazonia, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e Centro Brasil no Clima.

A geração do futuro

Enquanto o mundo volta os holofotes para os diplomatas e representantes na COP 30 — a 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que acontece em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro — os futuros tomadores de decisão encaminham-se para serem parte da geração mais afetada pela crise do clima.

“Nós estamos vulneráveis e sensíveis aos efeitos das mudanças climáticas”, afirma João Victor da Costa Silva, conhecido como João do Clima, uma referência de ativismo juvenil contra as mudanças climáticas e pelas comunidades insulares na Ilha de Caratateua, localizada na região insular do município de Belém. 

Aos 16 anos, o estudante sente esses impactos todos os dias: os incêndios próximos de sua comunidade, a falta de disponibilidade de peixes e camarões, o calor intenso na sala de aula, entre tantos outros.

João conta que foi uma criança curiosa e que questionou sua realidade desde sempre, mas que ter crescido em meio à fé protestante foi o primeiro passo na reflexão sobre o seu papel no seu território e na sociedade que integra: “Quando saía da igreja, eu via irmãos jogando plástico no chão, não cuidando da natureza. Era totalmente contraditório [porque] não era o que se pregava lá dentro. E aí, eu fui começando a perceber que tem alguma coisa errada”, relembra. 

O estopim para a transformação da curiosidade em ação foi a presença de um lixão na rua de sua casa. Junto da tia, aos 13 anos, João reuniu seus vizinhos, organizou uma manifestação junto à comunidade e bloqueou a rua com os lixos para atrair atenção das autoridades. Mesmo depois de retirado o depósito irregular, o jovem teve de fazer um trabalho de vigilância para que moradores de outros bairros não voltassem a depositar seus descartes no local. 

Consciente da efetividade da organização popular, ele passou a participar de mais espaços de debate público sobre temas locais, como a ocupação urbana desordenada, que teve como consequência a redução da cobertura vegetal e a falta de arborização adequada, a contaminação do solo e da água, e a erosão costeira. Depois, começou a denunciar questões territoriais regionais, e enfim, a ampliar sua voz a nível global. 

Em 2023, participou dos Diálogos Amazônicos, evento que levou propostas de políticas públicas sustentáveis para países com grandes reservas de floresta tropical no mundo na Cúpula da Amazônia. Hoje, ele é coordenador da Juventude pelo Fórum de Desenvolvimento Sustentável das Ilhas, membro do Comitê Popular de Mudanças Climáticas da Ilha e foi empossado como Conselheiro Jovem da UNICEF Brasil. 

Conheça a luta de João do Clima

Apesar de morarem a cerca de 3 mil quilômetros de distância e enfrentarem desafios locais, Jahzara e João revelaram, durante as entrevistas, compartilharem de um mesmo sentimento: a ansiedade climática.

“Eu passo muito por isso”, contempla Jahzara. De acordo com a ativista, o tema é abordado constantemente em seu cotidiano, desde os estudos em geociências até o trabalho com cooperação internacional no Instituto Arapyaú. Durante toda a sua vida, a preocupação com o impacto das mudanças climáticas sempre gerou ansiedade.

“É algo da nossa geração, né? A ecoansiedade vem de diferentes formas para roubar os sonhos da nossa geração. Eu vejo que rouba os sonhos da minha irmãzinha, que já fala que não vai ter filho porque o mundo vai acabar”, relata. Em poucas palavras, ela resume sua opinião: a ansiedade climática coloca as pessoas numa posição limitada sobre as possibilidades de viver a vida.

“Eu já nasci ativista, assim como as mulheres que vieram antes de mim também nasceram, por lutar pela própria sobrevivência”, diz Jahzara Oná.

No ano passado, quando a Ilha de Caratateua enfrentou recorde de queimadas e incêndios criminosos, João recebeu uma ligação de um morador desesperado: “Olha, tá tendo incêndio aqui no meu bairro, aqui do lado de casa. O que eu faço?”. 

Era meia-noite e, ao invés de procurar o corpo de bombeiros, os moradores da ilha começaram a relatar sobre o fogo para João. Ele recebeu as denúncias, ligou para os bombeiros e até enviou pessoal da sua equipe — composta por familiares e colegas de turma — para tentar resolver as questões de incêndio criminoso. “Essa situação me deixou muito frustrado e todo mundo da minha família percebeu isso”, relembra, emotivo.

Em outro momento, na época do vazamento de óleo na ilha, João recebeu em primeira mão alguns vídeos de denúncia enviados por moradores. Como já era madrugada, o seu avô aconselhou que João dormisse, e no dia seguinte, alertasse as autoridades e entrasse em contato com parlamentares para avançar a denúncia no Ministério Público ou na Secretaria de Meio Ambiente. 

O respiro durou pouco. Na manhã seguinte, enquanto estava assistindo aula, João começou a receber ligações de veículos de comunicação pedindo posicionamento do estudante sobre o caso. A insistência foi tanta que ele decidiu sacrificar o momento de ensino para intervir no desastre ambiental: “Não consegui estudar mais, pedi para o professor para sair de aula”.

Jahzara menciona que encontrou duas formas de encarar sua ansiedade climática. A primeira é de pensar nas histórias de sua mãe, de sua avó e dela mesma. “Eu já nasci ativista, assim como as mulheres que vieram antes de mim também nasceram, por lutar pela própria sobrevivência”, diz. Sua motivação em continuar engajada no ativismo socioambiental é uma perspectiva de mudança na próxima geração, a de sua irmã, que tem 10 anos.

“É um olhar para trás para poder olhar para frente”. Na segunda maneira, Jahzara resgata a ancestralidade e os saberes adquiridos com as matriarcas da família para dar sustento às suas expectativas e motivações.

Justiça climática

Em abril deste ano, comunidades de pescadores, ribeirinhos e ambientalistas denunciaram vazamentos de petróleo no Terminal Portuário de Outeiro, na Ilha de Caratateua. O porto tem recebido navios de cruzeiro das delegações e organizações que participam da COP 30, espaço de discussão e negociação sobre as mudanças no clima e que deve debater, entre tantos temas, a justiça climática.

Não tem, ou não deveria ter, como enfrentar a crise climática sem falar de justiça climática, diz Ciro Brito, analista de políticas climáticas no Instituto Socioambiental (ISA) e coordenador do grupo temático Amazônia na Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action (LACLIMA). 

As mudanças climáticas e a profunda desigualdade são indissociáveis, e são um dos maiores desafios da atualidade. De acordo com o especialista, o debate sobre justiça climática deve partir do combate às injustiças sociais, com ações voltadas às populações mais vulneráveis: “Justiça climática é também uma política de reparação histórica aos públicos desfavorecidos no Brasil, parcela que mais sente os efeitos da crise com maior intensidade: mulheres, crianças, populações periféricas, indígenas”, descreve.

Para além das histórias de Jahzara e João, o caso dos povos indígenas exemplifica essa injustiça: Terras Indígenas são as áreas mais preservadas do Brasil, mostra estudo do MapBiomas, divulgado em 2023. 

Porém, o diagnóstico desses territórios, que estão entre as mais conservadas do Brasil e fundamentais no combate às mudanças climáticas, aponta para impactos diretos nos seus modos de vida: insegurança alimentar e desalojamentos causados por secas e grandes enchentes, mudanças no fluxo dos rios gerados por obras de infraestrutura e ondas de calor, por exemplo.

Indígenas de várias etnias que participam do Acampamento Terra Livre 2024 marcham na Esplanada dos Ministérios. Foto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil

O desafio pode ser ainda maior para as novas gerações. Para João do Clima, as organizações climáticas devem atentar-se a como será a participação da juventude nas mesas de diálogo e de tomadas de decisão: “Como essas crianças e adolescentes vão se manter nesses espaços, como eles vão se relacionar e como eles vão ter as vozes deles ouvidas?”, indaga.

As discussões dos espaços de tomada de decisão interferem na abordagem da juventude ativista. João argumenta que essas mesas internacionais, como a COP 30 e a Rio 92, e nacionais, como o Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, são pensadas para homens brancos e adultos do Norte Global — isto é, conjunto de países desenvolvidos, a maioria situada no hemisfério norte, caracterizados por economias avançadas, altos níveis de renda per capita, e um significativo grau de influência nas instituições financeiras e políticas internacionais, como os Estados Unidos, países da Europa Ocidental, o Japão e a Austrália. 

O estudante sinaliza que, apesar das mesas de tomada de decisão não serem abertas para ampla participação popular, em particular das juventudes periféricas e em contexto de vulnerabilidade climática, é preciso organizar uma articulação e estratégia para ocupar o espaço: “Somos adolescentes em meio a um monte de adultos de terno e gravata. Precisamos nos adaptar para ocupar esse espaço, senão não conseguiremos reverter toda essa colonização que existe dentro da agenda climática”.

Em outra perspectiva, João expressa que, às vezes, prefere não receber notícias para não se frustrar na tentativa de resolver as ocorrências. Ele decidiu colocar limites pessoais para não engatilhar a ansiedade climática: “Eu não tenho poder para resolver essas situações porque algumas estão além do meu alcance. O que a gente pode fazer, a gente faz. Mas a gente não pode abraçar o mundo, sabe?”.

Caminhos

Para Ciro Brito, a chave é a comunicação. O especialista comenta que as preocupações geracionais representam mudanças nos seus respectivos modos de comunicar, como a linguagem utilizada, a presença nas redes sociais, o acesso à internet, e principalmente, no potencial em ajudar a sociedade a se apropriar desses instrumentos de comunicação para enfrentar as mudanças climáticas.

Um dos caminhos, sugerido por Thaís Brianezi, docente de Licenciatura em Educomunicação na Escola de Comunicações e Artes da USP, parte da abordagem do tema em sala de aula. Esse é o ponto de partida do projeto “Como a educomunicação pode ampliar e qualificar as práticas de educação climática na Educação Básica no Brasil?”, chamado de Educom & Clima, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O objetivo da pesquisa é mapear as principais organizações de educação e comunicação que trabalham a educação climática nas escolas do Brasil, de forma que os alunos assimilem o conhecimento sobre emergência climática e que ajam a partir desse acúmulo teórico promovendo ações locais para um enfrentamento ativo às mudanças do clima. O Educom & Clima mapeou as iniciativas em diversos estados do país, registradas no Sistema Brasileiro de Monitoramento e Avaliação da Educação Ambiental.

A professora indica que o ambiente escolar pode incentivar a juventude a elaborar suas próprias mensagens para tentar enfrentar a emergência climática: Os jovens com as suas estratégias e as suas vozes são mais potentes para falar para os próprios jovens, para construir as próprias narrativas, explica. Essa ação é feita a partir de três pilares.

O primeiro diz respeito à leitura crítica das mídias, isto é, a habilidade de analisar e interpretar informações com criticidade. Ou seja, os jovens devem saber identificar fontes confiáveis, reconhecer desinformação, questionar as pretensões da mensagem e procurar uma diversidade de perspectivas.

Exemplo da relevância desta competência é vista diante dos perigos do negacionismo climático — expressão usada para definir a manifestação contrária ao fenômeno do aquecimento global provocado por atividades humanas e que recusa os resultados encontrados pela ciência. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em abril deste ano revela que 9% dos brasileiros negam os riscos das mudanças climáticas.

Em segundo lugar, a professora Brianezi recomenda que sejam realizadas ações colaborativas, que sejam conectadas com as vivências e linguagens de cada território. “Não dá para falar da emergência climática só falando do urso polar do Polo Norte”, adverte. 

Curiosamente, a figura do urso polar também apareceu na entrevista com a Jahzara, como um símbolo de uma falsa sensação de distanciamento da crise climática. Cerca de 35% dos entrevistados pela Folha de S. Paulo afirma que as mudanças do clima não são um risco imediato. 

“É preciso acompanhar jovens ativistas que falam sobre o assunto nas redes sociais, apoiar movimentos e organizações que estão fazendo pressão política, que estão fazendo um trabalho dentro da área, e se engajar com esses coletivos. E não olhar a crise climática como algo que acontece só com o urso polar lá longe, mas que acontece aqui e está acontecendo agora”, urge a ativista Jahzara, em recomendações para que os jovens se engajem na pauta climática.

Por fim, é necessária uma gestão compartilhada de iniciativas: a mobilização contra a crise climática deve ser realizada de forma conjunta, com a união de esforços por uma mesma causa, numa agenda de políticas públicas que contemplem os compromissos de comunicação e educação e também de adaptação e mitigação de efeitos.

Tem solução

Eles salvaram vidas porque aprenderam sobre mudanças climáticas na escola. Esse é o título de uma reportagem da Agência Pública que narra um caso emblemático de como o ensino sobre eventos extremos em sala de aula ajudou uma comunidade pernambucana a se proteger de fortes chuvas e evitar mortes, diferentemente da realidade em outros bairros de Jaboatão dos Guararapes (PE), nas quais a água e a vulnerabilidade climática vitimaram 64 pessoas.

Em uma madrugada de maio de 2022, a chuva era incessante. Quando acordou, o estudante Aléxys Gabriel Ferreira, com 16 anos na época, percebeu que desenhava-se um cenário de risco para a comunidade de Retiro, onde morava. O indicador de alerta foi o pluviômetro caseiro, construído durante treinamento do projeto Dados à Prova D’Água, iniciativa idealizada pelo Cemaden, e desenvolvido em colaboração de outras instituições de ensino brasileiras e internacionais.

Então, o jovem decidiu seguir as recomendações de prevenção que aprendeu no projeto: pediu para que os moradores evacuassem suas casas, em articulação junto à Defesa Civil. A ação surtiu efeito: vizinhos deixaram as áreas de risco e seguiram por rotas de fuga desenhadas para a prevenção de riscos em casos de deslizamentos de terra, traçadas pela turma de estudantes. Em três dias, cinco casas desabaram sem deixar mortos, uma resposta enfática do ensino como estratégia de adaptação climática.

“Por que mais crianças e adolescentes estão se tornando ativistas? Por que, em vez de estarem brincando, estudando ou se relacionando com os adolescentes, eles estão ocupando espaços que até então não eram feitos para nós?”, contesta João. O jovem afirma que, para além da alegria com os ativistas serem cada vez mais jovens, é preciso olhar para esse cenário com preocupação. Se crianças e adolescentes estão se tornando ativistas mais cedo, é porque os tomadores de decisão não estão realmente tomando decisões corretas e quem tem o poder nas mãos para mudar não está mudando.

A professora Brianezi reforça que, embora a agenda de políticas públicas contra a crise climática reforce a importância da educação no enfrentamento, essa responsabilidade não pode recair somente sobre as gerações futuras: “Os jovens são fundamentais, mas não suficientes”.

Segundo ela, essa pode ser uma oportunidade de não mais naturalizar e tolerar as injustiças socioambientais e, ao mesmo tempo, de enfrentar as mudanças do clima. “Jovem, a sua luta importa. A emergência climática é uma oportunidade da gente somar forças”, conclui.

Por que se importar com o clima?

Durante a produção da reportagem, a Revista Babel fez a seguinte pergunta aos entrevistados: “Por que se importar com o clima?”. Essas foram as respostas:

Jahzara Ona: A primeira dica que eu daria é que você não está sozinho. É uma luta real, porque às vezes a gente fala de clima e parece algo tão constante, o que faz com que a juventude não queira se engajar. Mas é algo que está muito perto e que tem muita gente nessa luta e que se soma com outras lutas também. 

Jahzara Oná é uma das vozes emergentes no ativismo climático. Foto: Acervo Pessoal.

Falar de clima também é falar sobre meio ambiente, insegurança alimentar, violência policial, saúde, porque todas essas pautas estão ligadas e o indivíduo que está vulnerável a tudo isso também está vulnerável à crise climática. É importante falar sobre porque o clima se liga com todas as outras pautas e todas as outras questões sociais que a gente tem que resolver no mundo. Não tem como falar de justiça climática sem falar de justiça social e vice-versa.

É importante se importar com o clima, porque se trata sobre vida, o futuro e o presente. É simplesmente a coisa mais importante que a gente tem para tratar agora. 

Não pare de lutar, tenha sonhos, tenha esperança. Não deixe que o clima roube seus sonhos, muito pelo contrário, faça dele uma motivação para continuar lutando e movimentando aí esse mundão.

E espero que essa COP seja da juventude, porque a gente é muito protagonista nessa pauta, tanto no Brasil quanto no mundo. 

João do Clima: A juventude é a geração mais afetada pela crise climática. 

Então, já que os tomadores de decisão não estão tomando decisão e quem tem o poder na mão para mudar não está mudando nada, nós — a geração mais impactada por essa crise que o planeta está enfrentando, que é a crise climática — temos que começar a ocupar espaços que não são pensados para nós, que não são feitos para nós, que não são feitos de nós para nós. 

E começar a falar, começar a denunciar questões e direitos que não estão sendo garantidos em nossos territórios, em nossos lares, em nossas famílias, com os nossos povos.

E pensar que a mudança do clima e a crise climática são como uma tempestade. Todos estão dentro dessa tempestade, mas nem todos estão no mesmo barco. Nós temos pessoas em iates, em cruzeiros e outras em canoas e rabetas, que são nós, os [que] menos poluem e somos os mais afetados. É o racismo ambiental. 

Ciro Brito: O clima impacta a vida diretamente, e pode te impedir de fazer suas atividades, do que você mais gosta, seja por calor ou seja por chuvas que causam enchentes. O clima afeta diretamente a cadeia de produção. 

Por exemplo: com a maior frequência de eventos climáticos extremos, a comida que você come pode ficar mais cara, e talvez por um período estará indisponível; o colapso climático pode gerar falta de acesso à internet, uma vez que as mudanças climáticas reforçam a crise hídrica, que interfere na quantidade de água que abastece o sistema de resfriamento de servidores das big techs; espaços que você gosta de frequentar podem não estar mais frequentáveis por enchentes ou secas; e até pessoas com quem você se relaciona e você mesmo são afetados.

Thaís Brianezi: O clima é uma questão chave da nossa sobrevivência hoje, enquanto espécie humana, mas também coloca em risco a sobrevivência das demais espécies, não só animais, mas de plantas. O clima é uma questão não de morte, mas de vida.

Jovens, o problema é enorme, mas tem solução. Tem solução e não é dentro da perspectiva capitalista, mas querem nos fazer crer que é mais fácil acabar o mundo com o capitalismo. Isso não é verdade. E que bom que muitos jovens estão percebendo que isso não é verdade. Existem outros mundos possíveis, outras formas de consumir e produzir.

Thaís Brianezi é coordenadora de projeto de pesquisa sobre educomunicação socioambiental. Foto: Acervo Pessoal.

Quem mais resistiu desde a colonização, por exemplo, no Brasil, as comunidades escravizadas, os quilombolas, os povos originários indígenas, sabem que a face mais visível do problema é a mudança climática, mas o problema começa desde a colonização, pelo menos. 

A emergência climática pode ser uma oportunidade de não mais naturalizar, não mais tolerar [essas injustiças] e por um outro lado, para enfrentar a emergência climática. Jovem, a sua luta importa. Jovem, sindicalista, sem terra, sem teto. A emergência climática é uma oportunidade da gente somar forças.

Se a gente acreditar que não tem jeito, a gente tem mais risco de ser explorado e manipulado. O que querem nos fazer crer, é que não tem mais jeito, tem muito jeito sim.