O que te faz gostar do que você gosta?

(Imagem: Montagem por Thaís Moraes)

O que um sociólogo francês do século XX, Sabrina Carpenter e Fórmula 1 têm em comum

Por Carolina Sena

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Em três regiões diferentes de São Paulo, três adolescentes passam por uma experiência comum: desbloqueiam seus celulares, acessam qualquer rede social e vivem o equivalente contemporâneo à Caixa de Pandora diariamente. Apenas cinco minutos em aplicativos como Tiktok ou Instagram concedem acesso a dezenas de conteúdos e perfis diferentes, sem levar em consideração as propagandas, que costumam aparecer depois de 3 a 5 vídeos assistidos no feed.

Na zona oeste de São Paulo, Laura Perossi, 14 anos, explica como entrou em contato com seu esporte favorito: “O meu interesse pela Fórmula 1 surgiu a partir da grande repercussão que o esporte teve recentemente. Apareceu muito no TikTok e no Twitter. Mas além disso, também me lembra do meu avô”, conta.

Ter a internet e as redes sociais como ponto de partida para apresentação de novos gostos não é um problema para ela. O levantamento TIC Kids Online Brasil de 2025, feito pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), diz que 91% dos jovens de 13 a 14 anos possuem perfil em, pelo menos, uma plataforma digital. Já Laura relata ter um perfil em todas as redes que ela conhece, mesmo que não visite com frequência.

A associação entre a influência familiar e a do ambiente digital possui abrangência para a adolescente quando o assunto é explicar como alguns hábitos foram adquiridos. “Minha paixão pela leitura foi um pouco tardia em relação à minha família. Meu pai é da engenharia e minha mãe é da literatura. Minha irmã mais velha também é uma pessoa que estuda muito, então ler sempre foi visto como algo importante na minha casa. Quando eu fui apresentada para um livro chamado Vermelho, Branco e Sangue Azul, eu percebi que eu gostava, sim, de ler, mas que minha preferência ficava nos romances, como nos livros da Ali Hazelwood.”

Ana Paula Hey, professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, utiliza a obra do sociólogo Pierre Bourdieu para explicar como a divergência entre gostos no contexto familiar – uma adolescente que prefere livros de romance à literatura clássica – possui fundamentação teórica por trás. 

Para o teórico francês, o gosto por filmes, música ou até vestuário é um marcador de classe social, ou seja, ele sinaliza a qual grupo uma pessoa pertence. A professora destaca dois pontos importantes que formam esse “marcador social”: o capital econômico, que é a possibilidade de acesso físico, como dinheiro para pagar por livros, e o capital cultural, que é o conjunto de referências e conhecimento adquirido no núcleo familiar e na escola. O capital cultural orienta o estilo de vida e a busca por bens culturais considerados legítimos: bens da ciência, literatura e  conhecimentos intelectuais. Por isso, serve como um mecanismo de distinção entre classes e estrutura o sistema de “gosto”.

A professora enfatiza que o fato de uma filha se distanciar do “gosto esperado” dos pais, como Laura diz se sentir em relação à própria família, é mais um sinal que reforça essa teoria. “Fugir da expectativa de um gosto demonstra, na verdade, uma incorporação desse capital cultural”, explica Ana Paula. Só é possível escolher sair de um padrão quando se há conhecimento sobre ele: “O capital internalizado permite à pessoa dizer assim: ‘Eu sei que capital cultural é esse [o da minha família], mas eu quero outro’”.

Eu, robô

Se o mapa de gosto de Laura foi desenhado por influências mistas – entre o digital e o grupo familiar –, para Naomi Ohashi, de 18 anos, suas escolhas, como a afeição pela cantora Sabrina Carpenter ou o interesse pelo jogo “Deltarune”, não são justificados por laços familiares. Residente da zona sul de São Paulo, Naomi acredita que as referências que ela carrega foram construídas pelas plataformas digitais, muitas vezes em língua estrangeira.

O interesse pela cantora estadunidense surgiu quando Carpenter viralizou com a canção “Feather”, lançada em 2022. Desde então, a estudante acompanha de perto seus lançamentos. Outros interesses citados também passaram por um processo parecido: a série animada “The Amazing Digital Circus” chamou a atenção pelo sucesso no TikTok. Já o drama “XO Kitty” foi uma recomendação do algoritmo da Netflix. O único hobby apresentado que tem menos contato com o mundo digital é o de assistir filmes: “Sempre vou ao cinema quando um filme novo é lançado. Foi assim que comecei a gostar de ‘Wicked’.”

Outro fator importante destacado por Naomi é a influência linguística, “uma coisa que fica aparente sobre mim é como tudo o que eu consumo é em inglês ou até coreano, mas nunca em português”, conta a jovem. Os Estados Unidos são a localização geográfica de onde grande parte de seu interesse tem origem, já a internet é o meio por onde ele se propaga. “Eu comecei a ver coisas em inglês quando era mais nova para aprender, mas gostei tanto que só vejo coisas estrangeiras agora”, adiciona a adolescente.

A sociologia, claro, também tem algo a dizer sobre isso. Bourdieu fala sobre a existência de um capital linguístico dentro do cultural, no qual é estabelecido uma maneira certa e errada de falar uma determinada língua. A cultura considerada legítima é estabelecida e validada pela classe e instituições dominantes. Em um contexto globalizado, existem idiomas mais valorizados que outros justamente por essa validação. Para Bourdieu, um dos maiores agentes validadores de uma “cultura superior” é a escola.  

Se antes os espaços de socialização de um adolescente envolviam família, colégio, amigos do bairro ou igreja, hoje em dia as redes sociais aparecem como uma opção tão grande quanto as demais. A partir disso existem dois caminhos: quando a internet funciona como continuidade da “vida real” ou quando ela representa uma ruptura.

“Há jovens que vão se relacionar com essas redes sociais, que são de um universo completamente descolado da socialização inicial. Você pode pensar em construir uma identidade a partir desse mundo virtual que é desconectada de um mundo real”, conclui Ana Paula.

Quando os algoritmos são considerados nesta equação, cria-se uma situação de alerta. Mesmo que o algoritmo se baseie inicialmente nas referências de gosto que o usuário traz, externo à plataforma, a tendência é uma tentativa de formatar o gosto naquele universo. 

“Quando a gente tá pensando em adolescentes de 14 a 18 anos, que às vezes não tem um filtro já constituído, ou seja, um modelo cognitivo que permita que ele identifique a ação do algoritmo, ele vai se deixando levar.”, completa a socióloga.

Eu gosto porque sim

Tanto Laura quanto Naomi concordam que ter gostos em comum não é necessário para a construção de laços afetivos, coisa que Mateus Carvalho, de 16 anos, não consegue pensar em separar. O garoto, que saiu da zona leste para morar no extremo norte de São Paulo, em Mairiporã, vê a afinidade de gostos como requisito prioritário para se aproximar de alguém.

“Se eu precisar ficar próximo de alguém que pensa diferente de mim, eu não vou conseguir conversar de uma forma mais solta com ele. Eu iria me sentir um pouco travado na conversa.” Para Mateus, saber o que alguém gosta ajuda a puxar assunto e, mais importante que isso, está intimamente relacionado com quem a pessoa é.

No mundo digital, a história é um pouco diferente. Mateus diz evitar conscientemente seguir páginas sobre os assuntos que ele se interessa. Existe um medo em contaminar a própria opinião a partir da visão do outro, por isso evita assistir reviews de jogos de videogame, ou saber a opinião geral sobre músicos que o interessam, como Tyler the Creator. Nem seu time do coração, o Corinthians, escapa dessa lógica: ele conta que deixou de seguir as páginas voltadas para o time depois de uma fase ruim.

O jovem também não gosta de participar de comunidades virtuais pela hostilidade que alguns ambientes promovem: “Só tem maluco. Se eu falo: ‘Achei esse jogo legal’, as pessoas respondem: ‘Você é um burro. Isso é um lixo.’ Prefiro ter distância desse tipo de gente.”

Para Naomi, essa restrição não é tão radical. Ela se vê como público passivo: apenas não tem interesse em engajar ativamente os conteúdos que assiste e não se considera parte de nenhum fandom. Em contraste com ambos, Laura se vê tanto como influenciada quanto influente em algum ponto, já que além de gravar vídeos no Tiktok, também possui uma conta no X (antigo Twitter) destinada para comentar as competições de Fórmula 1. 

Porque sim não é resposta

Quando questionados sobre por que gostam do que gostam, Laura, Naomi e Mateus partem do mesmo lugar.

Laura recorre à nostalgia: “Tudo que eu gosto são coisas que eu vivi, que eu lembro e que me dão um quentinho do coração. Meu gosto musical é repleto de músicas de 2016, quando eu tinha 5 anos de idade, ou 2011, quando eu estava nascendo.”

Naomi relaciona o gostar com a capacidade de manter o interesse: “Músicas e séries que eu consigo ouvir e ver sem enjoar, videogames que me dão vontade de jogar todos os finais possíveis e ver vários vídeos de teoria sobre”.

Mateus é mais conciso, mas a conclusão é próxima das outras: “O que me faz gostar das coisas é a sensação boa que eu sinto.”

A associação do gosto com sentimentos ou sensações é comentada pela professora – e por Bourdieu também: “As pessoas conectam a ideia do gosto a algo muito natural, como se o gosto não tivesse nenhum tipo de condicionamento social. A forma de justificar o gosto é sempre dar um aspecto de naturalidade: ‘me faz bem’, a ideia da sensação prazerosa. E isso é uma das primeiras falsificações que tem em relação à construção do gostar.”

A participação da internet não apresenta paradigmas tão diferentes quanto aqueles que o sociólogo francês estudou em 1979, quando a primeira edição do livro “A Distinção” foi publicada. O gosto continua sendo construído socialmente – pela família, pela escola, pelos amigos. A diferença é que as redes sociais e as plataformas digitais representam mais uma adição nos círculos sociais definidos anteriormente.

A internet pode ter multiplicado as possibilidades de acesso, criando uma ilusão de escolhas ilimitadas, mas não mudou o que define aquilo que cada um decide acessar. A lógica da seleção, portanto, permanece a mesma. Mesmo em meio à avalanche de recomendações, o que atrai a atenção ainda depende do repertório e das experiências acumuladas para além da tela que moldam a percepção do que é interessante ou prazeroso.

A sensação agradável que aparece ao assistir um vídeo sobre um artista desconhecido numa tarde ensolarada foi construída antes mesmo do primeiro desbloqueio do celular do dia.