Tá todo mundo com TDAH?

(Imagem: Montagem por Cecília de O. Freitas)

Pelos relatos e vídeos no TikTok, a conclusão parece unânime: provavelmente você tem TDAH. Mas será que esse autodiagnóstico tem validade?

Por Mariana Rossi

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“Abaixe um dedo se você, frequentemente, entra em algum cômodo, mas então esquece o que ia fazer. Abaixe um dedo se você já teve uma briga porque alguém estava falando com você e você não prestou atenção. Abaixe um dedo se você tem alguma mania, como morder a unha ou mexer no cabelo. Ou ainda, abaixe um dedo se você se considera uma pessoa preguiçosa, mas hiperativa”. E aí, quantos dedos você abaixou?

Não é preciso passar muito tempo rolando o feed do TikTok para chegar em um conteúdo como esse: vídeos em que pessoas listam “sintomas” para ajudar o usuário a descobrir se tem ou não o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, o famoso TDAH. Na plataforma, não faltam conteúdos sobre o transtorno, que viralizam rápido. Já são mais de 11,6 bilhões de vídeos marcados com a hashtag #tdah. Na sigla em inglês, #adhd, esse número ultrapassa os 62,4 bilhões.

Se você já parou para realizar algum desses testes dos vídeos, é provável que tenha chegado a conclusão de que você tem o transtorno acertei? Na verdade, isso não acontece só com você, mas com muitas pessoas que assistem, como mostram as centenas de comentários desses posts. Falar mais sobre o transtorno e conscientizar as pessoas sobre ele traz mais visibilidade, mas será que essa abundância de conteúdos mais ajuda ou atrapalha? E afinal, será que todo o pessoal que se identifica com os “sintomas” e abaixa os dedos nos testes realmente tem TDAH?

Qual o meu diagnóstico?

“Minha mãe diz que desde sempre sabia que eu tinha algo diferente. Desde a primeira infância, ela dizia que eu era hiperativa, tinha dificuldade para focar em qualquer coisa, uma baixíssima tolerância à frustração e era ansiosa”, recorda a estudante Gabriela Labat. Na terapia desde os oito anos de idade, os pais de Gabriela já ouviram de profissionais para  “largarem a mão” da menina e deixarem a filha repetir de ano na escola para se “endireitar”. O diagnóstico de TDAH veio apenas anos depois, aos 13 anos, quando a escola em que estava matriculada pediu uma avaliação neuropsicológica, caso contrário, ela seria convidada a se retirar do colégio.

Gabriela levou anos para ser diagnosticada porque, ao contrário do que parece – ou do que o TikTok faz parecer ser –, fechar um diagnóstico de TDAH não é uma missão simples. Os sintomas são bem conhecidos – e cotidianos, sendo justamente esse o desafio.

Transtorno de desenvolvimento neurobiológico, o TDAH aparece na infância e, na maioria dos casos, acompanha o indivíduo na fase adulta. “Em resumo, é um transtorno de inquietação mental, de impulsividade ou desatenção. Em 95% dos casos, para não dizer 100%, o TDAH resulta de predisposição genética”, explica o psicólogo Ronaldo Ramos, diretor da Associação Brasileira de Déficit de Atenção e Hiperatividade (ABDA), organização que dissemina informações científicas sobre o transtorno para conscientizar a população e dá suporte para pessoas com TDAH e familiares.

No Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V (DSM-V), uma espécie de “bíblia” que guia os psiquiatras, são listados 18 sintomas para auxiliar no diagnóstico do TDAH. Estes sintomas estão divididos entre nove indicadores para desatenção (como dificuldade de  prestar atenção a detalhes e cometer erros por descuido nos trabalhos escolares, perder coisas necessárias para tarefas e atividades ou ainda ser facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa) e nove para hiperatividade e impulsividade (como falar excessivamente e frequentemente estar “em movimento”, agitando mãos, pés ou se remexendo na cadeira).

À primeira vista, os sintomas parecem simples e corriqueiros, fazendo com que os testes difundidos no TikTok não pareçam de todo errados. Só que se identificar com alguns itens da lista não é suficiente para um diagnóstico. “É normal todos nós termos esquecimentos, um certo grau de impulsividade e desatenção. São características do ser humano. Esquecer o celular em casa não te faz uma pessoa com TDAH”, explica Ramos. “O que diferencia é a intensidade com que isso ocorre. Aquilo acontece de forma tão frequente que está sempre presente na vida da pessoa”, continua o psicólogo.

João Henrique Cartapatti, diagnosticado com TDAH aos 12 anos, entende bem isso. “Eu tinha uma dificuldade absurda de prestar atenção em qualquer coisa que eu não me interessasse. Só que eu sei que todo mundo é assim. Pra mim a diferença está na frequência com que acontece, além daquela dificuldade a mais de ‘como eu não mudei isso ainda?’, ‘como que eu continuo fazendo isso?’”, explica.

A verdade é que não existe um teste único para diagnosticar o transtorno. A investigação é um processo longo, com muitas etapas e detalhes, por isso é necessário que seja feita por um profissional. O psicólogo, psiquiatra, neurologista ou o pediatra realiza questionários e testes padronizados, além de entrevistas clínicas com o paciente e com pessoas próximas que convivem com a criança, como os pais e profissionais da escola. 

Além de um certo número de sintomas e da frequência com que ocorrem, outros fatores são importantes no diagnóstico, como entender há quantos meses o paciente convive com os sintomas, se eles começaram antes dos 12 anos de idade e se estão presentes em mais de um ambiente (como em casa e na escola). Também é preciso um olhar treinado que considere o nível de desenvolvimento natural da criança, afinal, sintomas de desatenção, de hiperatividade ou de impulsividade acontecem mesmo em crianças típicas, mas sem interferência na qualidade de vida. 

A investigação também passa por um levantamento de casos na família além do descarte de outros transtornos mentais, já que, muitas vezes, os sintomas podem estar associados a outros transtornos como depressão e ansiedade. João Camões, por exemplo, procurou terapia em 2021, quando tinha 15 anos, para tratar ansiedade e depressão. “Enquanto fazia o tratamento, a profissional que me acompanhava me sugeriu realizar testes dentro da psicoterapia e acabei diagnosticado com TDAH”, relembra.

Os sintomas do TDAH também podem sofrer variações ao longo do tempo, já que sintomas da hiperatividade diminuem durante a adolescência e vida adulta, enquanto os sintomas de desatenção e impulsividade ganham força. “No decorrer do tempo, o TDAH muda. Na criança, no adolescente, na idade adulta. Muda o cenário, mas os sinais são visíveis”, conclui Ramos.

Já deu para ver que, pela complexidade, não é um vídeo em redes sociais que será capaz de fechar um diagnóstico, e que o autodiagnóstico é um problema a ser enfrentado. Só que, de fato, o número de casos de TDAH no mundo vem aumentando – e a culpa não é do autodiagnóstico. Então, de quem é?

O boom de TDAH

Se em 1997 o TDAH atingia 6,1% das crianças e adolescentes nos Estados Unidos, em 2015 o índice passou para 10,2%. Mais recentemente, em 2022, os Centros Americanos de Controle e Prevenção de Doenças atualizaram o dado, que agora está em 11,4%. Embora os dados se refiram aos EUA, a tendência de aumento no número de casos é global. Nos anos 2000, a prevalência do transtorno no mundo era de 3% a 6%, enquanto uma estimativa de 2022 atualizou esse número para 5% a 8% da população mundial. No Brasil, a estimativa da ABDA é que cerca de 2 milhões de pessoas são afetadas pelo transtorno.

Para Ronaldo Ramos, o aumento é explicado por fatores como o maior conhecimento sobre o transtorno por parte dos psiquiatras e psicólogos, que fecham diagnósticos, e pela possibilidade de um paciente apresentar mais de um transtorno, como TDAH e autismo. Além disso, a presença de orientadores educacionais nas escolas, que fazem a leitura do comportamento dos estudantes e encaminham para profissionais, também ajuda a revelar mais casos. 

O acesso à informação pela população, mesmo que nem sempre de qualidade, também é uma responsável direta por esse aumento. Nesse movimento, não só os pais percebem e identificam comportamentos nas crianças como também adultos procuram diagnóstico tardio, principalmente mulheres.

O aumento de casos, no entanto, não pode ser explicado pelo modo de vida atual, mediado pelo uso excessivo de telas e pela cobrança de produtividade e desempenho. Pelo menos, é isso o que a ciência tem demonstrado no momento. As demandas e os estímulos intensos podem até simular sintomas de TDAH, como redução de tempo de atenção sustentada e aumento de comportamentos impulsivos, mas não “criam” o TDAH, já que ele tem bases genéticas. Para quem já convive com o diagnóstico, o uso intenso da tecnologia pode intensificar os sintomas.

O uso moderado das redes sociais, assim como exercícios físicos e a organização da rotina são algumas recomendações complementares ao tratamento do TDAH, que é baseado principalmente na medicação, na psicoterapia e na informação adequada sobre o transtorno não somente para as pessoas com TDAH, mas também para a família e para a escola, o que inclui professores, alunos e funcionários.

“A escola foi o maior trauma da minha vida”

Ainda criança, Gabriela se recusava a fazer lições de casa e algumas atividades em sala e contrariava os professores. Era comum pedir pra sair da sala para dar uma volta, conversar bastante e querer andar pela sala de aula, sendo sempre restringida. Ao mesmo tempo em que era criativa e querida pelas pessoas, ela sentia que não se encaixava.

À medida que foi crescendo, as matérias foram ficando complexas, e essa hiperatividade e criatividade se transformaram em ansiedade. Muitas vezes, ela chorava implorando para a mãe para faltar na escola. “Peguei recuperação pela primeira vez no 5° ano do ensino fundamental. Eu tinha dez anos, e era certo que, dali em diante, todo ano eu pegaria recuperação de matemática, geografia e inglês”, conta Gabriela. No 8° ano veio o diagnóstico de TDAH, e também a repetência na escola. “E aí as coisas ficaram piores”, lembra.

A maior parte dos diagnósticos de TDAH ocorrem em idade escolar. Para Ronaldo Ramos, o problema não é a escola em si, mas o sistema em que as escolas trabalham até hoje, a educação bancária – aquela aula com um professor na frente falando, sem espaço para diálogo, sem atividades práticas e que exige do aluno apenas memorizar. Você que ainda está na escola sabe bem como é.

“A desatenção que a pessoa com TDAH tem prejudica a memorização, porque ela não tem foco sustentado na sala de aula”, explica o psicólogo. “Então na prova a pessoa erra sinais de matemática, esquece fatos históricos”. O resultado: notas baixas e o fracasso escolar. “Não é a escola que traz o TDAH. É o nosso tipo de cobrança de estudo, da educação bancária”, resume.

Gabriela viveu isso na pele. Do 8° ano até o 3° colegial, foi levando os estudos do jeito que conseguia. Ia mal, ficava de recuperação e precisava de décimos do Conselho de Classe para avançar. Junto com o TDAH veio também a depressão. “Tentaram me reprovar, mas minha mãe fez muita pressão no colégio. Ela queria denunciar eles, pois só o diagnóstico do TDAH em si já me concedia alguns direitos, e além disso eu tinha laudo psiquiátrico de toda a minha situação. Mesmo assim, quiseram me reter, mas acabaram me passando, provavelmente, por medo da denúncia”, relata.

Uma situação da época de escola marcou Gabriela. Aos dez anos, sentia muita dificuldade de aprender os países, estados e capitais. “Eu tinha muita dificuldade, não conseguia decorar e me confundia toda”, lembra. Eis que, como conta Gabriela, a professora resolveu colocá-la no fundo da sala em uma mesa virada para a parede para a menina fazer uma atividade diferente das dos demais colegas. “Isso fez eu me sentir muito mal, me sentir burra e à parte do resto da sala”, desabafa.

“Já passei por muitas situações chatas no ambiente escolar. Não acho que tenha uma específica que resuma tudo, mas basicamente a escola foi o maior trauma da minha vida. Tenho diversos problemas psicológicos por conta da exclusão, do julgamento, da falta de amparo, falta de conhecimento da escola e dos professores”.

“O TDAH acaba associado à estigmas. Uma pessoa com o transtorno frequentemente é vista como uma pessoa preguiçosa ou menos capaz, menos inteligente. Mas isso vai completamente contra o que se mostra nas evidências científicas. Pessoas com TDAH tendem a ter uma inteligência que não é diferente da média das outras pessoas”, esclarece Gustavo Estanislau, psiquiatra da infância e adolescência e membro do Instituto Ame Sua Mente, organização que desenvolve capacitações em saúde mental para educadores, principalmente de escolas públicas, para modificar realidades como a vivida por Gabriela.

De acordo com Estanislau, pessoas com TDAH tendem a ser, desde pequenas, tratadas com disciplina negativa. “Há muita crítica e pouco reforço positivo. Isso afeta a autoestima da criança e a percepção que ela tem dela mesma como estudante, o que pode levar a quadros depressivos. Por isso, é fundamental disseminar conhecimentos em saúde mental nas escolas”, completa o psiquiatra.

Para além do maior conhecimento sobre o transtorno por parte dos professores e de toda a comunidade escolar, Estanislau também destaca estratégias pedagógicas discutidas por pesquisadores que podem ajudar a pessoa com TDAH a viver melhor o dia a dia na escola. Um exemplo é realizar atividades mais interativas e voltadas à resolução de problemas, já que elas tendem a ser mais estimulantes para alunos com o transtorno. Nas lições, instruções mais curtas, a segmentação de tarefas e iniciar pelas atividades mais simples são medidas recomendadas.

O ajuste do ambiente, reduzindo distrações visuais e sonoras e sentando na primeira fileira, também são importantes, assim como uma rotina previsível em sala de aula, com agenda visível, avisos antecipados e transição clara entre as aulas.

O tempo extra para realizar uma prova é uma das poucas medidas que já são implementadas mais amplamente. Do outro lado, ainda há questões polêmicas, como permitir que a criança possa se movimentar na cadeira, assim como que ela possa fazer pausas ou sair da sala de aula de tempos em tempos.

Para o psiquiatra, é fundamental o treinamento dos professores. “Não é que o professor tenha que saber identificar um aluno com TDAH, mas é interessante que ele conheça algumas dessas estratégias que respeitam as características do transtorno, como a dificuldade na manutenção do foco e na tendência ao tédio. Assim a criança pode performar mais próximo do potencial dela”, defende Gustavo Estanislau.

Cenário melhor 

Hoje, Gabriela tem 24 anos. Todas as dificuldades que ela passou na escola e resistência de professores e de colegas com o diagnóstico dela são experiências de meados da década de 2010. Na época, algumas mudanças para apoiar pessoas com TDAH na escola começavam a ser implementadas, como mudanças na prova e maior tempo para executá-la, mas essas medidas ainda não eram realizadas de forma adequada. “Eu tinha um tempo a mais, mas não dava certo porque as demais pessoas da sala acabavam a prova e ficavam conversando, e o tempo a mais não era suficiente. Acho que a intenção da escola era boa, mas a execução precisava de alguém mais especializado e apto a modificar a prova do jeito correto”, opina Gabriela.

Nos últimos anos, a maior compreensão da ciência a respeito do TDAH, o diagnóstico e tratamento corretos aplicados mais rapidamente, assim como o maior conhecimento da população sobre o transtorno – entre outros meios, via internet – parecem estar mudando o cenário de dificuldades dos alunos na escola e em casa. Pessoas com o transtorno, inclusive, encontram maior apoio jurídico. Em 2021, por exemplo, uma lei que assegura o acompanhamento de alunos com TDAH na escola foi sancionada. Mas há muito a ser feito.

“Ainda há resistência de se falar sobre assuntos de saúde mental dentro das escolas, além da dificuldade de se disseminar informações embasadas em evidências científicas em larga escala para os professores, por conta da sobrecarga de trabalho a esses profissionais”, comenta Estanislau.

“Eu sinto que as escolas hoje estão mais preparadas, mais receptivas. Estão realmente tentando”, opina Gabriela, “acho que melhorou porque tem muita informação hoje em dia”. Pensando no público jovem, as redes sociais são o principal meio em que esse público vai buscar informações sobre saúde mental. Nesse meio, o TikTok, recheado de vídeos de testes (como o que abre esse texto), técnicas para lidar com os sintomas, promessas de “cura” e relatos de experiências pessoais sobre o TDAH, se destaca. Mas é preciso abrir o olho.

Em 2022, um estudo fez uma análise dos 100 vídeos mais populares do TikTok sobre TDAH. O resultado mostrou que metade do conteúdo não tinha base científica e continha informações falsas. Nesta situação, há quem veja esses conteúdos na internet como aliados e outros como desserviço.

“Eu não gosto desses conteúdos. Tem muita gente boa, tem. Médicos bons, pessoas que falam coisas úteis, mas infelizmente a maioria dos que eu vejo é um negócio que só corrobora o sentimento de que todo mundo tem o transtorno. Não, você não tem TDAH. Vai fazer um exame primeiro”, comenta João Henrique. Na mesma linha, está João Camões: “Eu tenho muitas ressalvas. Produzir conteúdo que conscientize é muito importante… Mas o transtorno se tornou algo extremamente banalizado e utilizado como adjetivo que não reflete a realidade. É de um extremo mal gosto usar de algo que prejudica tanto o lado cognitivo de uma pessoa como ‘modinha’”.

Gabriela pensa diferente. “Acho que esses conteúdos refletem mais positivamente do que negativamente, porque, mesmo que nem todas essas pessoas tenham TDAH, com a internet, elas sabem mais sobre o transtorno. Muita gente é diagnosticada adulta e até então passou a vida toda com questões e não sabia”, reflete a estudante. “Do ponto de vista democrático, o que se fala ali pode ser positivo ou negativo”, resume Ramos, “tem vídeo com fala coerente, adequada, ao mesmo tempo que tem gente que fala que o TDAH não existe, que é uma forma da indústria farmacêutica vender remédios. Outros falam que com um exercício você pode se curar do TDAH… A parte complicada são as pessoas que não tem conhecimento e criam métodos próprios. Mas não pode desconsiderar também a parte boa”.