(Arte: Lara Paiva)
Fenômeno nas redes sociais, as esposas tradicionais defendem a adoção de um estilo de vida de volta às raízes, com papéis de gênero bem demarcados
Por Yasmin Araújo
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O sol bate na janela de vidro e madeira branca, criando uma atmosfera sublime no cômodo. Logo abaixo, encostada na parede, também branca, uma mesa de madeira clara com sulcos e manchas que indicam o uso frequente do mobiliário.
Na parede perpendicular, um fogão verde musgo com chaminé, uma relíquia de 1991. A poucos centímetros da peça, um pequeno quadro de moldura dourada adorna o ambiente. Nele, é possível distinguir a imagem de uma bailarina esvoaçante. É sutil, como se não estivesse ali para competir o protagonismo com nada mais. Às vezes, um vaso de flores frescas, provavelmente colhidas em uma floreira do quintal, enfeita o canto da cozinha.
O cenário deve soar familiar para os milhões de seguidores de Hannah Neeleman, também conhecida como Ballerina Farm. Mãe de oito filhos, ela compartilha em suas redes sociais a rotina familiar ao estilo “de volta às raízes” na fazenda que é proprietária com o esposo, Daniel, em meio às montanhas de Utah.
O “carro-chefe” de seu perfil são os vídeos cozinhando pratos artesanais. Os ovos, chocados no galinheiro, o leite, ordenhado todas as manhãs e a farinha de trigo orgânica que estampa a marca Ballerina Farm, são a obra prima dos pães e bolos de aparência graciosa. Tudo isso regado a um estilo de vestimenta muito clássico: longos vestidos com padrões floridos e um avental amarrado na cintura ínfima.
As crianças aparecem com frequência na tela, seja para pegar uma porção dos preparos ou ajudar a sovar massa da próxima refeição da família. Aninhado no colo da mãe, o filho mais novo sempre acompanha as atividades com os olhos atentos de quem ainda descobre o mundo.

Hannah é intitulada musa Trad Wife (esposa tradicional), um movimento que ganhou repercussão nas redes sociais nos últimos anos e se refere a mulheres que optam por um estilo de vida com papéis de gênero bem demarcados. Nada do que já não conhecemos há pelo menos alguns séculos: a mulher é encarregada de cuidar da casa e dos filhos e o companheiro fica responsável por financiar as despesas da família, como nos “bons tempos”.
De que bons tempos estamos falando?
Digitei o termo “Trad wife” uma ou duas vezes na barra de pesquisa e o algoritmo tratou de fazer o resto do trabalho. Em poucos dias, as minhas redes se tornaram quase monotemáticas. A minha for you, seção dos aplicativos que exibe conteúdo personalizado com base nos interesses dos usuários, foi inundada por vídeos que reproduziam a estética dos “bons tempos”.
Odir Fontoura, Doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reflete a nebulosa relação entre a reverência desse passado “ideal” e a reascensão de discursos conservadores.
“A idealização dos “bons tempos” é sustentada por discursos nostálgicos que fabricam a imagem de um passado harmônico, perfeito, onde os papéis de gênero seriam mais “claros” e as famílias mais “estruturadas”. É uma fantasia de um passado ideal, de uma era de ouro perdida. Isso é uma construção, um recorte da realidade do passado histórico”, diz Fontoura.
Enquanto dedicava um olhar atento às tramas, percebia a existência inegável de alguma compatibilidade entre os perfis. Atrás das telas eram, em sua maioria, mulheres brancas, jovens e magras. Vestidos longos e mangas bufantes. Cenários bucólicos. Flores e… tempo. Tempo para preparar refeições “do zero”. Tempo para apresentar uma aparência imaculada antes mesmo de servir o café da manhã à mesa e tempo para levar uma vida doméstica quase intocada por atividades mundanas típicas do cuidado com o lar e criação dos filhos. É como se limpar o ladrilho do banheiro ou lavar louça não estivessem no script da vida de uma trad wife.
A questão também colocou uma pulga atrás da orelha de Rachel Ripani. A atriz e diretora mantém uma página no Instagram na qual discute uma série de temas a partir da perspectiva do feminismo conciliatório, uma corrente que propõe o diálogo entre os diferentes setores da sociedade como forma de construir consciência coletiva.
“O grande produto desse estilo de vida é o tempo. As esposas tradicionais são a representação da riqueza de seus parceiros. O seu tempo é a ostentação dele, assim como a sua juventude, beleza e a sua fertilidade. Acima de tudo, é um marcador de classe. Para produzir a própria manteiga é preciso ter gado para tirar leite. Quem são as pessoas que têm gado no quintal?”, diz Ripani em entrevista.
No Brasil? uma parcela muito pequena. Segundo a pesquisa “Síntese de Indicadores Sociais 2023” conduzida pelo IBGE, cerca de 60,1% da população brasileira vive com até um salário mínimo por mês, o qual hoje corresponde a R$1.518. Além disso, o boletim do governo federal “Mulheres no Mercado de Trabalho” aponta que 52,8% delas fazem parte da força de trabalho do Brasil. Outro dado do documento que chama atenção é quanto o critério de observação é o trabalho doméstico, tanto com carteira (82,7%), quanto sem carteira (90%) a participação feminina é substancial.
Privilégio ou escolha?
Hannah tinha uma carreira promissora no balé. Com 17 anos entrou na Juilliard School, o melhor conservatório de artes do mundo. No último verão antes de concluir sua formação, conheceu o então futuro esposo Daniel. Eles casaram e pouco tempo depois tiveram Henry, o primeiro filho do casal. Foi quando as suas prioridades mudaram. Ela e Daniel decidiram entregar a vida “nas mãos de Deus” e fazerem os sacrifícios necessários em nome da família que desejavam construir, é o que conta a pequena biografia de seu site “Ballerina Farm”.
Surpreendentemente, ou não, os sacrifícios em questão não foram de natureza financeira. A família é dona de um patrimônio suntuoso. Além do modesto rancho de 328 hectares (algo como 304 campos de futebol), a família é proprietária da companhia aérea JetBlue, grupo que foi fundado pelo pai de Daniel, David Neeleman, e detém a Azul no Brasil.
Somado a isso, Ballerina Farm se transformou em uma marca fortíssima. A monetização do conteúdo nas suas plataformas, que somam cerca de 20 milhões de seguidores, e os produtos vendidos no site de nome homônimo se tornaram uma fonte altamente rentável para a família. Com alguns cliques, qualquer um pode adquirir a “farinha de alta proteína da fazenda”, “um kit sourdough de utensílios para preparar pães”, ou até mesmo produtos de beleza, como um kit de sabonetes de essências do campo.

E é aí que cabe o questionamento: abandonar a carreira em nome de se dedicar à vida doméstica se trata de uma escolha?
Para Odir Fontoura, “o discurso da “escolha” precisa ser problematizado, pois muitas vezes ele mascara desigualdades estruturais: “enquanto algumas podem optar por não trabalhar, outras sequer têm essa possibilidade. O ideal da trad wife, eu entendo, é bastante marcado por privilégios sociais e econômicos, mesmo quando se apresenta como algo simples e acessível. Na prática, ele não é”.
É o que ecoa nas palavras de Ripani. Durante a nossa conversa perguntei para ela: afinal, viver nos próprios termos não é uma das bandeiras hasteadas pelo feminismo?
“A gente deve respeitar a escolha individual de todas as mulheres, mas, na minha opinião, é preciso citar dados como aquele que aponta que a falta de autonomia financeira é um dos maiores motivadores para mulheres ficarem em relacionamentos que não desejam mais. Questionar não é comandar a vida da outra, mas é alertar para que elas saibam bem onde estão pisando”.
Afinal, o que significa seguir tradições?
Sara Whistler é mãe de quatro filhos e conversa sobre religião e família em sua página do Instagram, Teologia Doméstica. O seu objetivo é mostrar uma rotina de dona de casa e criação das crianças centrada nos princípios bíblicos.
A par da repercussão do segmento das Trad Wives nas redes sociais, Whistler questiona os significados atribuídos à expressão.“Não gosto do termo “mulher tradicional” — afinal, a que tradição estamos nos referindo? Os meus valores centrais incluem fé em Deus, dedicação à família, integridade, humildade e serviço. Para mim, trata-se de viver com propósito: colocando Deus no centro, honrando meu papel como esposa e mãe, e buscando cultivar um lar onde meus filhos cresçam com amor, ordem e valores eternos”, diz Sara, em entrevista à Babel.
Whistler relata que cresceu com uma má impressão da figura da dona de casa — mal-vestidas, mal-humoradas e incapazes de sustentar uma conversa inteligente. Isso, somado à pressão para atender as expectativas modernas e o julgamento externo a fizeram retornar ao mercado de trabalho após o nascimento do primeiro filho.
Mas viver de forma incompatível com os seus valores pessoais não se sustentou. Ressignificar a vida doméstica foi a forma que encontrou de fazer as pazes consigo mesma. “Escolher esse caminho [dona de casa] foi uma decisão consciente, não uma imposição. A verdade é que a minha geração não foi exposta a mulheres interessantes que optaram por uma vida no lar. Nossas mães trabalhavam — e muito. E aquelas que não trabalhavam, muitas vezes, eram donas de casa “forçadas”, ela reflete.
Para Taís Andrade, nome por trás da página “Contrária a este século”, adotar um estilo de vida tradicional é sinônimo de maior flexibilidade e tempo para cuidar dos filhos, o que se torna uma missão complexa quando se mantém uma ocupação externa. “A rotina de trabalho fora se torna exaustiva, uma vez que a mulher tem que conciliar os afazeres domésticos e o papel de mãe e esposa”, diz ela.
Em entrevista para a Folha de São Paulo, a psicanalista Vera Iaconelli avalia que o retorno de muitas mulheres à esfera doméstica exclusivamente, é uma resposta às múltiplas jornadas de trabalho a que estão submetidas. Os avanços do feminismo as colocaram no mercado de trabalho, mas não as destituíram dos deveres do lar.
Efeito backlash
O problema mora numa representação romantizada desse estilo de vida. As Trad Wives de maior reconhecimento frequentemente ocultam informações que permitem com que vivam de tal maneira.
É uma “escolha” é inacessível para a maior parte das mulheres — em especial, “para aquelas que vivem em contextos de vulnerabilidade econômica, pertencem a grupos raciais historicamente marginalizados, ou são mães solo e trabalhadoras”, reforça Odir Fontoura.
Outro ponto de atenção para os especialistas é a romantização de valores patriarcais, a dependência econômica e a fragilidade jurídica dessas mulheres perante os parceiros — o que pode acabar contribuindo para o chamado efeito backlash, que coloca em voga a retração e a exclusão dos importantes direitos femininos conquistados ao longo de séculos.

