Quem é você quando eu não sei nada sobre você?

Entre Provas Circunstanciais e Likes: A Perícia do Primeiro Encontro

Por Julia Magalhães 

Versão em áudio:

Preciso confessar: eu me encantei pelo Rafael antes mesmo de saber se ele gostava mais de doce ou salgado. Antes de ouvir sua voz fora de um story. Antes de saber se ele ria com aquele som de gargalhada solta ou era mais do tipo que ri só com o nariz, aquele “pfff” contido de quem foi educado demais pra escandalizar. Sabia, no entanto, que ele tinha ido pro Atacama em 2016, tinha uma tatuagem escrita em latim na coxa (obviamente feita em Roma, como atestava a legenda) e que já havia terminado, ao menos, dois relacionamentos sérios e um caso complicado com uma tal de Andréia — informação fornecida involuntariamente por um post antigo com dez curtidas e uma legenda melancólica: “Me curando de amores passados”. 

Tudo isso antes de dizer: “oi”. 

Vivemos tempos esquisitos. Tempos em que nos apaixonamos por perfis, e não por pessoas. Como um grande cardápio amoroso, onde investigamos todos os alimentos que tem no prato, antes de se deixar levar pela explosão de sabor da combinação deles. Quem iria acreditar que batata frita com sorvete seria bom? Mas tristemente para mim, sinto que sou um prato de carne vermelha em um restaurante vegano quando o assunto é relacionamentos atuais. 

Essa insegurança faz com que eu queira me preparar. Entro no modo maratona investigativa das 3 da manhã e descubro tudo que posso sobre Rafael para que não erre com mais um possível namorado. Marcamos um encontro para sábado. O que preenche positivamente meu gabarito mental de que ele tem interesse. Gabarito este que foi criado após assistir um vídeo de “5 sinais que ele tá afim de você” no Tiktok. Aparentemente, te chamar para sair no final de semana, e não em dia de semana, é um sinal. Além de falar de você para os amigos, responder suas mensagens, curtir e comentar stories (a parte do comentar é bem importante, curtida já não é mais suficiente) e te elogiar pessoalmente. Chego a conclusão que estou afim de todas as minhas amigas sem saber. 

Passei a tarde anterior ao nosso encontro procurando uma blusa rosa bebê. Cor específica, eu sei. Mas vi um vídeo de uma colorimetrista (acredite, essa profissão existe) dizendo que usar rosa bebê no primeiro encontro faz com que o cara se apaixone por você. E eu preciso que dê certo. Rafael cumpre meus rótulos pré-estabelecidos: alto, engraçado e viajante. Infelizmente tem ex-namoradas, mas nada que um amor verdadeiro por mim não resolva. 

Chego no restaurante que combinamos e ele está sentado em uma mesa de canto. Restaurante italiano, sugerido por ele. Minha comida favorita, mais um ponto para o Rafael. Tento manter minha postura ereta ao comprimentá-lo e os meus movimentos delicados. Uma moça que fala sobre etiquetas na internet que ensinou, mas tenho certeza que tô parecendo um ganso. Isso me desconcentra e não ouço o que ele diz a seguir. Sorrio e torço para não ser uma pergunta. Isso abre margem para um silêncio constrangedor. Merda! Acho que era uma pergunta. Não posso parecer desinteressada, então quebro o silêncio com uma informação que descobri no perfil dele: 

“Nossa! Você viu o último jogo dos Lakers?”. 

Eu não entendo nada sobre basquete. Mas Rafael parece gostar, pois fez diversos stories sobre nos dias anteriores ao nosso encontro. Ele me faz perguntas e eu respondo com os meus vastos conhecimentos sobre o esporte (uma pesquisa bem feita no google). Pedimos nossos pratos e o assunto do basquete já foi esgotado. Ele me pergunta sobre o trabalho, tento parecer admirável, mas sem ser esnobe. Ele tenta falar de si, mas estava ocupada tentando mostrar que valia a pena e não prestei atenção para continuar o assunto. 

“Lembrei de um vídeo fofo de gatos que vi essa semana, você gosta de gatos?”.

Eu sei que ele gosta, outra informação que descobri nas suas redes: ele gosta de gatos e tem um chamado Manuel. Eu tenho alergia a gatos, então não posso chegar nem perto deles, mas comprei um Allegra para quando tiver que conhecer o Manuel. Você pode achar precoce, mas eu prefiro prevenida. 

Conversamos sobre as massas que saboreamos e eu sujo minha blusa com molho de tomate. Péssima ideia vir de rosa bebê. Eu sempre gostei mais de preto e ele pelo menos disfarçaria essa meleca. 

“Poxa, gata, sujou sua blusa”

Constatação desnecessária, afinal o guardanapo que estou usando para limpá-la já deixa claro que sujou. E o uso do vocativo “gata” me incomoda, não gosto que me chamem de gata. Mas vou relevar, eu já construí nossa história de amor na minha cabeça e lá, ela é linda. 

Mas ao mesmo tempo meu futuro marido não me chamaria de gata. Vi um vídeo no Tiktok uma vez que dizia que era mais fácil desistir de um cara se você se perguntar “Meu futuro marido faria isso?” sobre as atitudes dele. Sempre me incomodou essa ideia de decidir sobre alguém só com apenas uma frase. Mas ultimamente as relações vêm sendo definidas por frases prontas e mentiras brandas. Como o meu falso conhecimento em basquete e amor por gatos. 

Rafael tenta me beijar algumas vezes, mas a ideia do nosso primeiro beijo ser temperado com manjericão me assombra. Finjo que não percebo as investidas e fujo do perrengue. Me sinto culpada por dizer não, mesmo que indiretamente. Mas é primeira vez nesta noite inteira que tomo uma decisão pensando em mim e não nele. 

O restante do encontro acontece sem grandes surpresas, mas é só quando chego em casa que percebo que não descobri nada sobre o Rafael além do que estava nas redes. Passei a maior parte do tempo me preocupando com o que ele podia achar de mim e tentando me manter interessante que nem percebi meu desinteresse pelo que ele dizia. Sinto que estava mais preocupada em ser escolhida, do que escolher precisamente. Como se a ideia do relacionamento fosse mais divertida do que a pessoa em si. 

Isso me deprime. Passo o resto do final de semana esperando uma mensagem dele, mais como uma avaliação da minha performance do que por vontade de reencontrá-lo. Fico pensando em tudo que fiz para ser atraente e esqueço que amor não tem funcionalidade. Quanto mais preparada eu estava, menos presente eu me senti. 

Culpo o patriarcado. Ato comum para uma menina de 15 anos leitora assídua da página Quebrando o Tabu na falecida rede social Facebook. Exceto que não tenho mais 15 anos, não sou mais uma menina, ninguém mais lê a Quebrando Tabu e, embora influenciada pela minha criação em uma sociedade machista, tenho que lidar com as consequências das minhas decisões. Sim, essa luta constante por ser uma mulher desejável tem a ver com o patriarcado, mas também tem a ver com a minha baixa autoestima e o meu medo de errar. A combinação destes fatores leva ao desastroso encontro com uma pessoa performática. 

E ninguém quer se apaixonar pela performance. 

Rafael me manda uma mensagem perguntando se eu topo sair de novo. Volto a me sentir uma criança recebendo uma estrelinha da professora por ajudar a distribuir as provas de história na quarta série. A sensação de validação é a mesma. 

Mas agora estou falando de outro ser humano. Um que, embora tenha passado 3 horas em um restaurante com ele, não sei mais do que qualquer pessoa que abra o instagram dele hoje. Quero viver o offline nesse segundo encontro com Rafael. Infelizmente não posso apagar o que já descobri, mas meu novo objetivo é saber o máximo que conseguir sobre ele de acordo com o que ele me contar e prestar atenção. Não quero ser a pessoa admirada, mas me permitir admirá-lo. Ser conquistada e não apenas conquistar. 

Bom, pelo menos essa era a ideia, mas quando chego para o nosso encontro já começo a fazer notas mentais do que comentar e como puxar assunto. Sem contar as horas antes na frente do espelho que fiquei testando a minha risada para conseguir sorrir sem mostrar a gengiva. Alguns hábitos morrem tarde, não é? Decido começar puxando assunto: 

“Você andou escrevendo muito essa semana, né?”

Eu sabia que sim. Rafael é escritor e postou diversos stories escrevendo nestes últimos dias. Então imaginem a minha surpresa quando ele respondeu que: “Não”. 

Por um momento meu cérebro travou. Como assim não? Será que é um daqueles flertes irritantes para parecer divertido? Não parece ser, ele está bem sério me encarando. Não sabia o que responder, passei os últimos dias pesquisando sobre Fernando Pessoa (seu autor favorito) para puxar assunto com ele e agora pelo menos a primeira hora de conversa do nosso encontro foi por água abaixo. 

O meu tempo de raciocínio faz com que Rafael continue. “Foquei mais na pintura”. Pintura? Eu não sabia que ele pintava, não há nada no perfil dele que indique pintura. Mas decido arriscar no assunto (não é como se eu tivesse outra escolha): “Ah, e seu estilo se aproxima de quem: Monet, Van Gogh ou Picasso?” 

São os primeiros pintores que surgem na minha cabeça e ele parece perceber porque responde “São os únicos que você conhece, né?”. Em outro momento ficaria ofendida pela pergunta, mas me diverti com a assertividade dele e sorri genuinamente, sem considerar o meu treino de sorriso sem mostrar a gengiva. 

Rafael me conta um pouco da pintura e percebo que estou prestando atenção, sem ensaiar falas antes. Até porque não tive muita escolha, não sabia dessa sua paixão por quadros. Falo um pouco sobre meu amor pela dança sem medo de soar exagerada ou infantil. Parece que compartilhamos o mesmo amor pela arte. 

Passamos os próximos minutos envolvidos em uma conversa sobre Travis Scott e Rihanna (que também sou tomada pela surpresa que ele gosta, já que não estava no seu perfil do Spotify). Já não me preocupo em seguir o roteiro que tinha em mente e deixo que este novo Rafael me guie pela sua vida e suas ideais. Até que resolvo perguntar: 

“Mas então, qual seu filme favorito, Rafa?” 

“Rafa? Você me chamou de Rafa?”

E ele gargalha (a propósito, descobri assim que ele não era do tipo que ri só com o nariz). Entro em pânico, meu Deus! Eu stalkeei tanto o menino e não consegui acertar o nome dele? Eu sou a pior investigadora de todas. Mas ainda não era possível ele não ser o Rafa, ele é igual o Rafa que eu saí no sábado passado. 

“Eu sou o Ethan, Mia” 

Mia? Quem é Mia? Dessa vez sou eu quem está rindo (também de maneira nada contida). “Bom, eu também não sou a Mia”. Nessa terceira onda de risadas que se seguiu após a minha fala, levamos uma bronca de um dos garçons e decidimos tentar entender essa confusão. Aparentemente, Rafael tem um irmão gêmeo, o Ethan. Eu já sabia da sua existência nas minhas pesquisas prévias, mas seu perfil era fechado, então não descobri muito sobre ele. 

Naquela noite, Rafael disse para o Ethan que apresentaria uma amiga dele para o irmão, a Mia. Os dois combinaram o encontro no mesmo lugar, acontece que eu cheguei primeiro que a Mia e reconheci o Rafael (que no caso era o Ethan) e me sentei com ele. Na cabeça do Ethan, eu era a Mia. Tanto o Rafael verdadeiro quanto a Mia verdadeira chegaram depois e viram nós dois entretidos na conversa e não quiseram atrapalhar. E assim conheci meu namorado. Pronto, final feliz. Brincadeira, nós estamos indo para o 5º encontro. O curioso é que já descobri muitas coisas interessantes sobre o Ethan que ele contou e que não descobriria pelas suas redes. 

Eu passei horas conhecendo o Rafael pelas suas redes, mas não chegou nem perto dos conhecimentos que acumulei sobre o Ethan. E a experiência de sair com ele sem uma pesquisa prévia, me mostrou que eu não tenho tanta inabilidade social como achava. Que nem sempre preciso de uma pesquisa prévia para puxar assunto e mesmo quando o silêncio chegava, era interessante perceber como o preenchemos. Nessa confusão toda eu me permiti errar e questionar, sem medo de incomodar.  Talvez amar, hoje, seja justamente isso: reaprender a perguntar, em vez de pesquisar. E aceitar que o outro é um mistério — não um perfil.

Viver relações offline é mais difícil. Vivemos em um mundo cercado do imediatismo e da alta performance. Se queremos comida, pedimos um ifood. Um carro, um uber. Um amor, o Tinder. Sem contar os momentos em que avaliamos a qualidade de nossas postagens nas nossas próprias redes: “Ah, não tá ‘aesthetic’ suficiente”. Talvez o amor agora precise de algo que a gente desaprendeu: paciência para conhecer, e coragem para se constranger. No final, talvez amar seja mais sobre descobrir do que sobre saber.

Ps: A propósito, no final eu conheci o gato Manuel! Eu falei: prevenida 😉

*Aviso: Esta crônica narra uma história ficcional 

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