O poderoso cinemão

(Arte: Beatriz Ferreira Sousa)

Mesmo com públicos menores em comparação com antes da pandemia, as pessoas continuam indo às salas de cinema

Por Felipe Velames

Vinícius acelerava o carro com medo de chegarem atrasados e perderem os primeiros minutos do jogo. Ele estava levando sua filha Letícia para assistir a uma partida de futebol no dia 31 de maio de 2025. Na semana anterior, ela confessara que sempre foi seu sonho ver a final da Champions League.

Chegando ao local, encontraram pessoas vestindo uniformes azul marinho com uma faixa vermelha no meio e um símbolo da torre Eiffel no canto superior esquerdo, bem como pessoas com uniformes listrados em azul e preto. Era o jogo decisivo entre Paris Saint-Germain (PSG) e Inter de Milão.

Quando o jogo começou, os tradicionais gritos dos torcedores também se iniciaram. “Doue, passa a ***** da bola para o Hakimi”. “Defende a ***** do gol, Sommer”. “Juíz ladrão, filho da ****”.

Curiosa com a quantidade de palavrões, Letícia se perguntava por que as pessoas insistiam em gritar para os jogadores que não iam conseguir ouvi-los.

De repente, o primeiro dos 5 gols do PSG. O público foi à loucura. Começaram a gritar, pular, festejar. Jogaram baldes de pipoca para todo lado.

Curioso com a bagunça, o único pensamento de Vinícius: quem limparia toda essa pipoca da sala de cinema? 

[Imagem: Reprodução/Acervo Vinícius]
Vinícius, Letícia e todos os torcedores estavam vendo o campeonato europeu em uma sala de cinema de São Paulo, há cerca de 10 mil quilômetros de distância do estádio em Munique, Alemanha. Eles são parte dos 52,41 milhões de pessoas que foram aos cinemas em 2025 até o momento (11/06/2025). Um aumento de aproximadamente 25 por cento em relação ao mesmo período no ano anterior  (04/01/2024 – 12/06/2025), quando o número de pessoas nos cinemas foi de 41,6 milhões. 

Apesar do saldo positivo em relação a 2024, os números de público do cinema brasileiro continuam aquém se comparados com anos anteriores à pandemia de COVID-19. Enquanto em 2019 — um ano antes da pandemia — o cinema brasileiro conseguiu um público de 172 milhões de pessoas, em 2024 a conta fechou com 125 milhões, uma queda de aproximadamente 30 por cento.

[Número de pessoas em milhões nos cinemas brasileiros entre 2014 – 2024]
Mas por que as pessoas estão abandonando a experiência da câmera escura? O pessoal do Observatório SPCine, departamento responsável pela coleta, armazenamento e produção de inteligência a partir de dados do setor audiovisual, afirma que a resposta é o fator pandemia, responsável por modificar a forma como o público se relaciona com o cinema. Após a ascensão do streaming durante essa época, muitas pessoas começaram a preferir assistir filmes em casa por causa da segurança e conforto, além da facilidade de assistir lançamentos que chegam aos serviços de vídeo sob demanda poucas semanas após sua estreia nas salas de cinemas.  

E não podemos esquecer do motivo que existe desde quando os irmãos Lumiére cobraram para ver um trem chegar à estação: dinheiro. 

A bilheteria contra-ataca

“Viver o cinema é uma atividade de luxo no Brasil”. Essa foi a resposta de Lívia Oliveira quando perguntada o motivo que a levou a parar de frequentar o cinema.

Recém-formada em jornalismo pela UNIFTC, em Salvador (BA), ela lembra com nostalgia da época em que era estudante e conseguia ir ao cinema uma vez por mês graças à meia entrada. Infelizmente, com a formatura, veio também a inteira. Por conta do preço dos ingressos, ela foi obrigada a assistir mais filmes em casa do que no presencial. “Às vezes o preço que você paga em um ingresso para ver um filme é o preço que você paga em um streaming que consegue usar o mês todo”, comenta a jornalista.

Para contornar essa situação, ela começou a ir em cinemas mais baratos e que oferecem promoções, como a rede de cinemas UCA Orient. Outra visita constante é o Cine Glauber Rocha, que oferece ingressos populares em sessões matinês aos domingos. 

Ela também elogia a Semana Nacional do Cinema, em que os ingressos custam 12 reais em diferentes redes exibidoras no Brasil inteiro. Graças a essa promoção, Lívia conseguiu convencer seus parentes a finalmente irem com ela ao cinema, integrando sua família em atividades que tanto gosta.

“Fico feliz em ver os cinemas lotados durante a Semana [do Cinema], sempre fico imaginando uma pessoa que nunca foi ao cinema e teve a oportunidade de ir pela primeira vez graças a essa promoção”, comentou sobre essa experiência, que frequenta desde 2022. E os dados comprovam que ela está correta. Entre 2022 e 2025, a Semana Nacional do Cinema normalmente foi a quarta semana mais popular dos seus respectivos anos. A iniciativa foi idealizada pela Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (FENEEC) com o objetivo de atrair o público após a pandemia.  

Vestindo máscaras verdes em formato quadrado, pintadas e recortadas à mão, inúmeras crianças foram assistir ao filme do “Minecraft” (2025). Quando abriram a porta da sessão, foram recepcionadas com bexigas decorando o local e sacos de pipocas para comer durante o filme. Ao olharem para frente, ficaram admiradas com aquela tela que ocupava uma parede inteira. Era a primeira vez que elas entravam em uma sala de cinema.

Criado em março de 2016, o Circuito SPCine leva cinemas gratuitos aos Centros Educacionais Unificados (CEUs), com o objetivo de expandir o acesso ao cinema para pessoas em regiões em que não há opções de lazer. “O Circuito é uma forma do cinema voltar para sua função de ser uma atividade cultural barata e popular, que ele tinha no começo de sua criação no século XX, com os Nickelodeons”, afirma um dos seus realizadores.

Enquanto mostra fotos das muitas sessões que frequentou no Circuito SPCine desde a sua criação, o diretor de inovações da empresa, Emiliano Zapata, se lembra com carinho da primeira sessão do circuito azul, voltado para crianças neurodivergentes. “Entendi a importância de uma sessão pensada completamente para pessoas do espectro autista, uma sessão mais intimista, com uma duração de filme ideal, num espaço pensado para essas crianças e suas mães, em que elas se sintam seguras.”

​​Com um aumento de aproximadamente 300 por cento de público entre 2023 e 2024, a iniciativa atingiu seu ápice no dia 25 de janeiro de 2025, no aniversário da cidade de São Paulo, com a exibição gratuita de Ainda Estou Aqui (2024) em um cinema a céu aberto no Centro Cultural São Paulo (CCSP).

 

Era um sábado que amanheceu com um clima quente de 32°, fazendo um sol dos infernos na cabeça dos paulistanos, como bem lembra Pedro. Por sempre ter gostado de passar tempo em filas, o estudante de psicologia resolveu chegar às 12h no local, mesmo que a sessão fosse somente às 19h. 

Aproveitou que iria demorar sete horas naquele local sozinho, começou a puxar assunto com as pessoas que estavam na fila. Falou primeiro com um rapaz que estava na sua frente. Depois com uma moça que estava atrás dele. Quando se deu conta, inesperadamente tinha formado um grupo de cinco amigos, com os quais conversa sobre cinema até hoje, chegando a sair juntos para diferentes salas de cinema.

Conforme as horas passavam, as pessoas também iam chegando. E a fila também aumentava, formando um grande caracol que dava voltas e voltas. Mesmo assustado com a quantidade de pessoas, Pedro se orgulhava de ver tantos brasileiros interessados em consumir cultura e que estavam tendo a oportunidade de assistir ao filme pela primeira vez.

Finalmente, tinha dado 19h e o filme estava prestes a começar. Até que cai um pingo de chuva. E outro. E mais outro. E mais um. De repente, uma grande chuva se alastra pelo CCSP, pegando todos desprevenidos. Mas até com chuva, o público ainda estava ali. Até mesmo aqueles que não haviam conseguido ingresso continuaram no mesmo local, ajeitando-se na parte inferior do cinema a céu aberto.

Quando o filme acabou, um misto de emoções tomou conta do público. Havia pessoas chorando, pessoas gritando “Fernanda Torres” e “O Oscar é nosso!”, e todos os presentes batendo palmas freneticamente. “Foi uma experiência muito divertida, em que pude conhecer pessoas novas, interagir com elas, viver um mesmo sentimento”, relembra Pedro.

Cronograma da exibição de Ainda Estou Aqui no Centro Cultural São Paulo [Vídeo: Reprodução/Acervo Pessoal]

Felizmente, você não precisa ficar 7 horas em uma fila quilométrica, enfrentar chuvas e superlotação para ter uma experiência cinematográfica. Basta sair de casa.

Cinema é meu nuovo paradiso

Enquanto aguardam ansiosamente seu filme começar, dezenas de pessoas se sentam em poltronas estofadas e reclináveis. Misturado com o som levemente agudo de pipocas estourando e um cheiro ligeiramente amadeirado da manteiga, o ambiente também é dominado por conversas de fãs sobre seus filmes favoritos.

“Para quem não assistiu a filmografia dele, O Quarto ao Lado é muito difícil de entender, parece um filme muito cru”. “A minha mãe se conectaria mais com Tudo Sobre Minha Mãe por causa do drama latinoamericano”. “Assassino da Lua das Flores é um filme bastante pesado e denso”. Esses são apenas alguns dos diálogos que Pedro e Daniel tiveram antes das luzes se apagarem e o projetor ligar. 

Os profissionais de Relações Internacionais — e amantes da sétima arte nas horas vagas — tinham ido ao Cinemark no dia 19 de maio para conferir o relançamento de Poderoso Chefão. Segundo eles, assistir um longa-metragem de 52 anos atrás no cinema faz sentido porque a proposta de Francis Ford Coppola foi que seu filme fosse visto nos cinemas, por conta de toda a questão da sonoridade, da fotografia, de um figurino projetado para ser exibido numa tela de 12 metros de altura por 20 metros de comprimento. 

Os cinéfilos também mencionam a magia do cinema, em que você pode se conectar verdadeiramente com um filme estando numa sala escura. “É um momento em que eu me desconecto com a minha realidade, em que realmente estou ali de corpo e alma para experienciar o que o diretor quer passar para mim. É um momento em que a gente se isola e se envolve com o filme, tendo prazer com o ato de ver o filme”, explica Daniel sobre essa experiência que não consegue ter em casa.

O amor pela sétima arte é tão grande que as redes de cinema estão pensando em diferentes formas de proporcionar uma experiência cinematográfica para seu público. O Reag Belas Artes — localizado na Rua da Consolação, 2.423, em São Paulo — é uma dessas redes que realiza diversos eventos para reunir pessoas apaixonadas por audiovisual afim de viverem o cinema na própria pele.

 Com um vestido longo vermelho com glitter, um cabelo liso moreno e segurando uma lanterna amarela, dezenas de pessoas se fantasiaram de Silene Seagal, personagem do filme Saneamento Básico (2007). Elas estavam participando de um concurso de sósias promovido pelo cinema de rua da Consolação. Aisha, uma das pessoas que estava assistindo (e torcendo) ao concurso no dia, disse que foi uma experiência bem diferente, em que as pessoas do local vibraram e comemoraram juntas. 

Frequentadora assídua do Noitão Belas Artes —  maratona de filmes exibidos durante a madrugada, com foco em um tema específico —, ela comenta que já viu de tudo durante essas exibições, desde pessoas fantasiadas de Edward Mãos de Tesoura quando houve o Noitão Besouro Suco até pessoas dormindo em Coringa 2 (2024) no Noitão Coringa. Mas sem dúvidas, a sua memória favorita dos noitões é quando o público não sabe qual vai ser um dos filmes surpresas e começa a soltar palpites enquanto os créditos iniciais estão começando, numa espécie de aposta cinematográfica coletiva.

Também existem situações em que a experiência cinematográfica ultrapassa as quatro paredes de uma sala de cinema e chega nas quatro paredes da sua casa. 

Participantes do concurso de sósias da Silene Seagal de Saneamento Básico no Reag Belas Artes [Imagem: Reprodução/Acervo Aisha]
Enquanto mostra suas prateleiras da sala com diferentes objetos de personagens da Disney, Marcelo comenta que sua primeira coleção foi um conjunto de pelúcias da turma do Ursinho Pooh, adquiridos no McDonald’s. Sua coleção atual: baldes de pipoca e copos temáticos.

As mais novas adições são um Stitch em tamanho real que possui seu corpo preenchido por pipoca e um copo no formato do alienígena azul que tem um canudo no meio da sua cabeça. Ele conta que precisou ir em duas redes de cinema diferentes, respectivamente Cinépolis e Cinemark, para conseguir comprar os baldes e copos com a maior qualidade oferecida no mercado. Uma prática comum para ele, que costuma escolher a rede de cinema em que vai assistir seu filme favorito de acordo com o balde que está sendo vendido em cada uma. E as redes de cinema adoram esse consumo por produtos de sua bomboniere, porque é justamente a venda da pipoca que sustenta essa indústria. 

Apesar dos responsáveis por redes de cinema em território nacional — Cinemark, Cinépolis e Reag Belas Artes — terem se recusado a conceder uma entrevista para a Revista Babel porque não divulgam dados de bilheteria e de público, o lucro da pipoca é uma prática conhecida no mundo inteiro. Como aponta reportagem da rádio americana NPR, os cinemas investem cada vez mais em itens colecionáveis, como baldes de pipoca temáticos, para atrair a atenção de volta do público e conseguir obter lucro com essa venda.

E essa iniciativa dos cinemas realmente funciona e gera retorno para eles, já que esses baldes temáticos acabam se tornando objeto de desejo de inúmeros colecionadores, como o Marcelo. Quando perguntado qual objeto foi um dos mais concorridos, ele mostra uma manopla dourada com seis jóias coloridas — o balde temático de Vingadores: Ultimato (2019). Ele lembra que no dia havia uma fila quilométrica com dezenas de pessoas querendo comer pipoca na manopla do infinito. “Na hora, você acaba indo pela onda. Tem toda a questão de você estar animado com o filme e também querer participar dessa experiência de viver o filme com outras pessoas”, responde o fã sobre o motivo pelo qual ficou naquela fila.

O colecionador também explica que, geralmente, os maiores compradores são adultos nostálgicos, que lembram de filmes que assistiram na infância, como Lilo e Stitch (2008). “Enquanto as crianças estão comprando brinquedos do McDonald’s, nós estamos comprando baldes de pipoca no cinema”, ele brinca.

(Não) Matou a família e foi ao cinema

Que atire a primeira pipoca quem nunca foi ao cinema com os pais. Ou com um irmão. Ou com um filho. Ou com um namorado. Ou com os amigos. 

Marcos estava ansioso para assistir o último filme de Missão Impossível, uma saga que acompanha desde a época da série de televisão protagonizada por Steven Hill. Sua filha, Maria Valentina, também estava ansiosa para descobrir mais sobre esses filmes que encantam tanto o pai.

Eles costumam frequentar o cinema juntos para passar um tempo de qualidade entre pai e filha. “É bem divertido ver outros filmes enquanto estamos juntos, aproveitar o dia com ele”, comenta a jovem.

Mas o cinema não é só o local favorito para pais e filhos, ele também é o local favorito para Roses e Jacks do mundo todo.

Sentados em um dos bancos do Centro Cultural São Paulo, Rodrigo e Daniela ficam de mãos dadas olhando os jovens que dançam pelo local. Eles aguardam o início da sessão de um dos filmes da mostra Suburbia, realizada pelo Circuito SPCine num dos cinemas que eles frequentam desde a adolescência.

O casal de cinéfilos conta que o lugar favorito deles para ter encontros amorosos é o cinema, especialmente aqueles com sofás confortáveis para ficarem deitados no colo um do outro, como o Cinesala. 

Mais do que assistir ao filme juntos, eles também gostam da experiência depois do cinema, em que podem discutir o que acabaram de assistir. “É uma forma de compartilhar um momento. Passar por aquela experiência juntos e depois trocar essa experiência, ver como aquela história que assistimos se conecta com a nossa história”, explica o casal.

E como disse Daniel, minutos antes de conhecer pela primeira vez a história da família Corleone, essa experiência do cinema continua viva para todos que querem vivenciar. Ela se adapta aos novos gostos e tecnologias, mas continua viva. Então, seja para rever os 123 anos de um homem viajando à Lua, seja para ver o show da sua cantora loira favorita ou até para ver a final de um jogo de futebol, o cinema vai continuar lá para você.