Na Avenida São João, 1119, no Centro Histórico de São Paulo, tem um. Caminhando mais um pouco, até a Avenida Ipiranga, 808, tem outro. Mais uma pernada e chega-se ao mais fácil de ser acessado pelo transporte público no número 752. Para alcançá-lo, depois de vencer os vagões lotados da Linha 3-Vermelha e saltar na estação República, basta subir as escadas rolantes, seguir pela direita e atravessar a Rua 24 de Maio.
Fica ao lado de um McDonald’s e satisfaz fomes de outro tipo. A fachada completamente preta e o pequeno letreiro “Cine República” são inúteis: quanto mais discreto tenta ser, mais chama atenção pela tentativa de se camuflar na paisagem urbana. Na entrada, um sulfite impresso anuncia as novidades: “Novos horários: sessões 10h e 22h. Estamos funcionando aos sábados 24h”.
A bilheteria tem uma catraca que só pode ser ultrapassada depois que os R$ 22 forem pagos – estudantes pagam meia. Site para comprar os ingressos? Não tem. Possibilidade de escolher o filme? Esquece.
Lá dentro, ainda antes de entrar no cinema de fato, um corredor barra a visão de quem está do lado de fora e protege os clientes do julgamento alheio enquanto abrem a carteira para comprar a entrada.
O sigilo é parte do jogo. Entre espiadelas dos pedestres, a catraca não fica parada por muito tempo, alguns entram por curiosidade e outros são frequentadores assíduos. Nas paredes, cartazes de filmes com mulheres e homens nus, informativos do Governo Federal sobre a importância do uso de preservativos e um alvará sanitário indicando que o espaço está livre de insetos e ratos.
Pouco do que se vê lá dentro é o que se espera de um cinema no senso comum. Afinal, entre uma sala de exibição comercial e um cinema de pegação – o República é assim –, as únicas semelhanças são as poltronas e telas. No térreo do estabelecimento da Avenida Ipiranga, há duas salas de filmes pornográficos héteros. No segundo andar, outra de filmes gays, um bar e dois dark rooms, que são ambientes ainda mais discretos e escuros para a prática de atividades sexuais.
Em cinemões, como são apelidados, os cheiros não são de manteiga de pipoca, mas sim água sanitária ou fluidos corporais que deixam o chão pegajoso, dependendo do momento do dia. No lugar dos milhos estourando, os sons vêm de sussurros, conversas abafadas, gemidos e cusparadas.
Os olhos apertados demoram a se acostumar com a escuridão intensa e o tato é uma das formas de comunicação. Dos toques sugestivos ao sexo, há um leque de possibilidades a ser explorado.
Quando as luzes se apagam
“Um bicho alimentando os desejos carnais mais obscuros e animalescos”, é como Marcos*, 23, se sente nos cinemões desde os 19 anos, quando foi pela primeira vez. “Dá um pouco de nojo também, mas é tipo um vício, que sempre dá vontade de repetir”, comparou, antes de atender ao assobio de uma pessoa na fileira de cima.
Quebrar o silêncio é um dos maiores ultrajes em um cinema convencional, mas essa regra não faz parte do código de conduta dos cinemões, movidos a interações nada silenciosas entre os frequentadores, ainda que sejam discretas. O público vagueia a esmo pelas fileiras buscando alguém que retribua um olhar ou gesto.
“Essa sociabilidade está muito relacionada com a possibilidade de homens nos anos 1960, 1970 e 1980 terem contatos eróticos, afetivos e sexuais com outros homens”, explica Eros Sester, doutor em Antropologia Social pela USP, sobre a dinâmica dos cinemões. As salas são majoritariamente frequentadas por um público masculino LGBTQIAP+ na faixa dos 40 anos.
Entre os cinemões, o Cine República é um dos sobreviventes do Centro de São Paulo. Muitos fecharam desde a década de 1990, quando os cinemas da região ganharam infraestrutura especial, como funcionamento 24 horas, dark rooms e bares.
Tendo como base um mapeamento feito em 2008 por Alexandre Juliete Rosa e outros graduandos em Ciências Sociais pela USP, que contabilizou 21 salas de pegação na cidade, a reportagem realizou outro levantamento, a partir de visitas presenciais e pesquisas no Google Maps, e encontrou oito endereços ainda em atividade. O mapa abaixo detalha a localização:
Antes das luzes se apagarem
Os cinemas de pegação se consolidaram como parte do circuito LGBTQIAP+ e são sugestões de roteiros, como no site Guia Gay São Paulo. Mas, se hoje a pornografia e o escuro do cinema são pretextos para encontros sexuais na sala, na década de 1950, o cenário era outro.
Às 10h do dia 25 de dezembro de 1953, filas intermináveis se estendiam em ambos os lados da entrada do Cine República para a exibição do primeiro filme em 3D em São Paulo. No letreiro, lia-se “Veio do Espaço”, filme de ficção científica.
Já dentro do cinema, homens de black tie e mulheres com vestidos de gala pagavam 10 cruzeiros por um par de óculos importados – sem os quais não seria possível desfrutar da experiência – e aguardavam ansiosamente a sessão em uma das 2.350 poltronas da sala.
A inauguração da terceira dimensão no cinema foi descrita pelo semanário Cine Repórter, em 31 de outubro de 1953, como “uma cousa louca”. As filas se repetiram por dias e noites no Cine República, que esteve à frente de outras inovações tecnológicas, como a inauguração da maior tela do mundo, com 250 metros, em 1955.

A sala construída em 1922 replicava a arquitetura de um teatro, com um único ambiente de exibição e camarotes. Nas páginas do Cine Repórter, o Cine República foi descrito como “grandiosamente simples; suas instalações, perfeitíssimas; decorações discretas, artisticamente entrelaçando o moderno e o clássico. Tudo ali tem um ar de renovação, um perfume de progresso” em 16 de abril de 1952, após uma reforma.
Do estilo colonial mineiro do Cine Bandeirantes, no Largo do Paissandu, 138, ao mármore travertino do Cine Paissandu, no número 60, e à fonte luminosa do Cine Marrocos, na Rua Conselheiro Crispiniano, 397, percebe-se que a pompa era característica comum aos cinemas que se instalaram nos corredores das Avenidas Ipiranga e São João naquela época.
Entre o Largo do Paissandu e a Praça Júlio de Mesquita, a Cinelândia paulistana brilhou na década de 1940 e começou a se apagar nos anos 1960. Em 1945, seis das dez salas com maior público de São Paulo estavam localizadas na região, de acordo com o Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).
Ir ao cinema era uma das representações máximas de lazer da classe média e elite paulistanas. Nas telas, filmes hollywoodianos, chanchadas, neo-realismo italiano e produções francesas. Mas a experiência ia além dos filmes em si. O Cine Marrocos, por exemplo, apresentava recitais de piano antes das sessões em uma plataforma móvel que descia palco abaixo quando a película começava a rodar.
O apogeu da Cinelândia coincidiu com o auge do Centro de São Paulo nos anos 1940, quando a região fervilhava com outros tipos de arte e tinha uma vida cultural movimentada, como provam a Biblioteca Mário de Andrade, o Theatro Municipal e as dezenas de galerias que promoviam exposições.
As quedas também foram simultâneas: a partir da década de 1960, ocorreu o deslocamento do centro financeiro para a Avenida Paulista e a Faria Lima e a crise da Cinelândia.
O primeiro golpe baixo ocorreu com a popularização dos televisores nas casas, porque a mesma classe média que frequentava as salas de exibição conseguiu comprar os aparelhos, explica Sester. A criação de cinemas em shoppings centers também contribuiu para a Cinelândia ser preterida. O primeiro deles foi em 1968, no Shopping Iguatemi.
Nesse momento, os glamourosos palácios cinematográficos começaram a dividir suas salas únicas para promover sessões simultâneas e tentar diminuir os prejuízos financeiros. Sester adiciona que, no fim da Ditadura Militar, na década de 1980, houve uma flexibilização sobre o que poderia passar nos cinemas, que começaram a exibir pornochanchadas.
O pesquisador ressalta que, antes mesmo do erotismo sugerido das chanchadas e do sexo escancarado da pornografia, os cinemas foram apropriados como lugares de pegação desde a popularização dos televisores e a debandada da classe média das salas. “Eram lugares de permissividade de encontro de pessoas anônimas em um grande centro urbano”, diz.
Entre os demais cinemas clássicos, a maior parte fechou as portas e hoje faz as vezes de igrejas e estacionamentos. O Cine Olido, na Avenida São João, 473, foi recuperado pela Spcine, em 2016 e é um endereço que resistiu entre idas e vindas com sua programação comercial. O Cine Marabá, na Avenida Ipiranga, 757, reformado em 2009 pela distribuidora Playarte, é outro.
No anonimato do cinemão
Para Sester, “mudanças nas práticas sexuais entre homens em grandes centros urbanos e políticas de higienização do espaço culminam no fechamento desses estabelecimentos”. Ainda assim, os cinemões resistem porque tornam possível um afeto que não é visto como praticável em lugares afastados do centro, explica o antropólogo.
Os cinemas pornô e outros espaços de sociabilidade LGBTQIAP+ se concentram nas regiões centrais, de modo que a livre expressão desse grupo social se mantém confinada a determinados endereços, detalha Bruna Quintero, mestra em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade São Judas Tadeu. A pesquisadora explica que há um apego histórico ao local, reconhecido como mais seguro.
A atmosfera de segredo colabora para essa sensação e apareceu de forma recorrente no relato dos entrevistados como motivo para frequentar as salas, até porque depois da pegação frenética e do gozo, é raro se encontrar com a mesma pessoa do lado de fora.
Paulo, 27, foi ao Cine Arouche pela primeira vez aos 19 anos, depois de se sentir inspirado pelo personagem de Robert De Niro, em Taxi Driver, de 1976, que marca um encontro em um cinema pornô. Oito anos mais tarde, continua indo aos estabelecimentos em busca de “sexo fácil, rápido e anônimo”.

A pegação e os encontros em espaços privados nos espaços públicos marcam a forma como homens gays se relacionam e como eles aprendem a viver sua sexualidade, diz Sester. Esse é um dos motivos pelos quais o público dos cinemas de pegação é predominantemente masculino.
O pesquisador explica que “a forma como mulheres são socializadas ainda cria um contraste muito grande no que se refere à busca por parceria sexual” e os homens historicamente se sentem mais à vontade para usufruir do espaço público.
Em um contexto pré-internet, quando não existiam aplicativos de relacionamento, os encontros dependiam do cara a cara. “As pessoas aprendiam noções de gênero e sexualidade a partir desses espaços de sociabilidade de rua, tanto em lugares específicos para esse público [LGBTQIAP+], como saunas, quanto em lugares com outras funções que foram apropriados pela comunidade”, diz Yuri Fraccaroli, mestre em Psicologia pela USP, sobre os cinemões.
No escuro que exige olhos apertados, na profusão de odores corporais, na atmosfera abafada e na sinfonia incomum de sons, o República, uma testemunha e um agente das transformações do Centro de São Paulo, formou um público cativo que encontra prazer em suas poltronas.
*Nome fictício para preservar a identidade da fonte
