Quando se aplica um olhar atento para as ruas de São Paulo em 2024, uma tendência fica evidente quase de imediato. Nunca se viu tantos veículos eletrificados na capital paulista.
E não é difícil identificá-los. Eles são silenciosos e quase sempre possuem um design diferente de outros veículos tradicionais. Passam um certo ar futurístico, como se por um segundo fosse possível ser transportado décadas à frente do nosso tempo. No entanto, essas máquinas são, de fato, realidade. E não apenas na maior cidade do país.
Segundo levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), mais de 138 mil veículos eletrificados – híbridos ou 100% elétricos – foram vendidos até outubro deste ano em todo o Brasil, número que supera com folga as vendas para todo o ano anterior, em torno de 94 mil.
Em 2022, haviam sido pouco mais de 49 mil vendas.
Assim como outras tendências, a onda de carros eletrificados

possui um impulsionador principal. No mercado brasileiro desde 2015, quando abriu uma fábrica em Campinas, a montadora chinesa BYD deu seus primeiros passos no país com a produção de ônibus elétricos, adentrando no campo dos carros de passeio somente no final de 2021.
Quase uma década depois de chegar ao Brasil, a empresa chinesa, que hoje é a maior montadora de carros eletrificados do planeta, já possui 42% de participação no mercado de veículos eletrificados do país, de acordo com dados da ABVE para este ano, o que representa mais que o dobro da participação de qualquer outra montadora. Três de seus modelos aparecem no topo do ranking de carros eletrificados mais vendidos em 2024.

Por trás desse sucesso, está a batalha de uma potência em busca de novos mercados para sua enorme produção industrial. Vítima de uma crise de demanda desde a pandemia da Covid-19, a China tem cada vez mais descolado o foco de seu robusto mercado consumidor interno para o encontro de consumidores em outros locais, provocando a ira de montadoras rivais devido, principalmente, aos seus preços relativamente baixos.
A Tesla, segunda maior montadora de carros eletrificados do mundo, por exemplo, tem como seu modelo mais barato no Brasil o Model 3, por R$ 400.000,00, um veículo quase quatro vezes mais caro do que o automóvel mais acessível da BYD, o Dolphin Mini, por R$ 117.600,00.
| BYD Dolphin Mini x “Carros Populares” (Fonte: Fipe) | |
| Modelo (zero KM) | Preço (R$) |
| BYD Dolphin Mini | 117.600 |
| Hyundai HB20 Comfort | 82.271 |
| Chevrolet Onix Hatch | 88.278 |
| Fiat Argo | 82.813 |
| Volkswagen Polo TSI | 104.430 |
| Renault Kwid Intense | 70.130 |
O foco aqui, no entanto, é dar atenção especial a um outro aspecto desse fenômeno. Enquanto os motivos por trás da oferta desses veículos está evidente, pouco se conhece sobre o lado da demanda, especialmente no Brasil. Afinal, o que leva um brasileiro a adquirir um veículo eletrificado?
“É uma economia absurda mesmo”
Fazer contas nunca foi um problema para Thiago Freire, 32. Mas no início deste ano, o auditor contábil chegou a uma conclusão em que não foi necessário o uso de suas habilidades profissionais, consequência de uma situação que lhe gerava incômodo há alguns anos: “Estava muito caro ir trabalhar com o preço da gasolina.”
Depois de alguns anos de certa estabilidade, os preços da gasolina nos postos de combustíveis do Brasil dispararam a partir de 2021, durante a pandemia da Covid-19, na esteira de um movimento inflacionário observado em todo o mundo. A emergência de saúde pública global trouxe consigo problemas para as cadeias de suprimento de muitos setores, incluindo o de energia, elevando os preços de diversos produtos.
Em fevereiro do ano seguinte, a invasão da Ucrânia pela Rússia trouxe um outro obstáculo para o setor. As sanções ocidentais ao segundo maior exportador de petróleo do mundo reduziram a oferta da commodity no mercado internacional, contribuindo também para o salto nos preços da gasolina.
Em abril de 2022, em meio ao conflito e quando a atividade econômica global começava a retomar a normalidade após as paralisações sanitárias, o preço médio da gasolina atingiu o pico no Brasil: R$7,27 por litro, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Desde então, os preços recuaram um pouco. No Rio de Janeiro, onde Thiago reside, o litro da gasolina ainda estava precificado em torno de R$ 6 no início de 2024, um valor que considerava muito custoso. “Pesava muito no bolso. Eu queria poder viver bem financeiramente.”
Em maio deste ano, após realizar pesquisas próprias, Thiago foi um dos 2.104 consumidores, segundo dados da ABVE, que adquiriu um Dolphin Mini no Brasil, modelo então recém-lançado da BYD no país que foi o veículo eletrificado mais vendido daquele mês e, até outubro, o segundo mais vendido de 2024.
Os custos iniciais, no entanto, não deixaram o bolso de Thiago mais leve. O Dolphin Mini, modelo mais barato da BYD, custa em torno de RS 117.600,00, um valor acima do que se pode considerar um veículo popular. Além disso, houve a despesa adicional para instalar um carregador elétrico em sua residência, acumulando algo entre R$2.000,00 e R$3.000,00 a mais em custos.
No caso de Thiago, uma vez instalada a infraestrutura em sua residência, seu bolso finalmente ficou mais leve. Para recarregar o Dolphin Mini, levando em conta sua bateria de 38 kWh e a tarifa de energia no Rio de Janeiro de R$ 0,754 por kWh – determinada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) –, Thiago gasta menos de R$ 30, podendo rodar uma distância em torno de 280 quilômetros, o que calcula ser um custo “cinco vezes menor” comparado ao seu carro anterior.
O auditor contábil também relatou que sua experiência com um veículo 100% elétrico também o ajudou a afastar um receio comum entre potenciais compradores: o medo de não encontrar um ponto de recarga. Segundo ele, os 73 pontos existentes no Rio de Janeiro, de acordo com números da Electromaps, são suficientes no momento.
Agora, Thiago dedica parte de seu tempo com a criação de conteúdo para o Instagram, em que ajuda a desmentir alguns dos temores que ele próprio tinha antes de adquirir seu Dolphin Mini, com um foco especial em auxiliar consumidores a tomarem as melhores decisões financeiras.
“Muita gente pergunta como está sendo viver com um carro elétrico no dia a dia, mas tem muita gente que vem falar besteira. Eu quero desmentir essas pessoas. É uma economia absurda mesmo.”
“Se quiser investir em algo, tem que ser na linha do futuro”
Há outras razões além da economia para adquirir um carro eletrificado. Não existem estudos amplos ainda, mas os usuários indicam seus motivos. Em junho deste ano, Elda Nova Terra, 49, comunicou ao marido que havia tido uma ideia inédita. O casal, que reside em São Paulo, costuma trocar de um de seus dois carros a cada dois anos, pois considera a compra de veículos como um “investimento”. O momento bianual havia chegado.
“Falei para o meu esposo que o futuro está para os carros híbridos. Se quiser investir em algo, tem que ser na linha do futuro.”
Após pesquisa profunda sobre veículos eletrificados, Elda encontrou exatamente o que queria. Desta vez, o casal paulistano adquiriu um Song Plus híbrido, o modelo da BYD que é, até o momento, o veículo eletrificado mais vendido no Brasil. Ele soma cerca de 15.700 vendas somente em 2024, por um valor de cerca de R$ 239.800,00.
Assim como muitos consumidores da BYD, Elda nunca havia posto as mãos num veículo produzido por uma montadora chinesa.
Mesmo com o boom de vendas dos últimos dois anos, a empresa continua sendo apenas a décima colocada em participação no mercado brasileiro de veículos comerciais leves – com 3,92%, segundo levantamento da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) –, uma vez que o consumo de veículos eletrificados no Brasil ainda é bem inferior ao de veículos de motor a combustão, representando menos de 10% das vendas totais de automóveis em 2024.
Contra o apelo da BYD, ainda havia outros dois fatores: de um lado, um preconceito generalizado na sociedade brasileira com produtos chineses, vistos como de qualidade inferior, enquanto de outro, pesava o histórico de outras montadoras chinesas no Brasil.
No início dos anos 2000, compatriotas da BYD já haviam tentado o sucesso no mercado brasileiro. A estratégia de trazer veículos ultrabaratos e com pouca originalidade de design não funcionou.
Em Elda, a BYD encontrou uma cliente mais consciente do que a média.
“Eu admiro os produtos da China. Esse povo é admirável, eles trabalham muito. Não tem quem não tenha uma peça chinesa em casa. Por que não comprar um carro da China?”.
Mas para o encontro de consumidores mais receosos do que a dona de casa paulistana, a montadora chinesa montou uma estratégia rigorosamente diferente de suas antecessoras, apostando em modelos altamente tecnológicos e, segundo Elda, “confortáveis”.
Elda admitiu que a tecnologia avançada de seu Song Plus trouxe enormes dificuldades no início. Ela relatou ter precisado ver muitos vídeos para finalmente compreender o funcionamento do veículo, mas que agora já começou a “dominar”, sabendo como solucionar uma das questões mais pertinentes sobre o híbridos: os momentos exatos de usar a bateria elétrica ou o motor a combustão.
Para daqui a dois anos, quando ela e seu esposo trocarão novamente de veículo, Elda já tomou a decisão de adquirir um veículo 100% elétrico, o que espera que servirá de exemplo para outros brasileiros que continuam “teimosos” com esse tipo de automóvel.
“Eu acho que o principal desafio é o preconceito e a falta de conhecimento das pessoas. As pessoas têm que pesquisar mais. Eu mesma não peguei o 100% elétrico por medo e preconceito.”
“Se for pagar caro, que pegue uma coisa boa pelo menos”
Em 2022, Bella Grandchamp, 28, e o marido fizeram suas malas e se mudaram de volta para o Brasil, encerrando uma fase importante de suas vidas em que viveram no Reino Unido e na Irlanda. Após anos do outro lado do oceano, conhecendo elementos de outras culturas e outras formas de se ver o mundo do que em seu país natal, o casal aprendeu aquilo que lhes é fundamental na hora de tomar decisões relevantes: o conforto.
A busca pelo conforto levou os dois a fugir de grandes cidades, distanciando-se do caos urbano, e a seguir suas vidas em Taubaté, na região do Vale do Paraíba, também mais perto de suas famílias. Um dos desafios de viver em uma cidade do interior, no entanto, é o deslocamento, pois não conta com a infraestrutura de transporte público presente em uma capital, como São Paulo. A movimentação é quase dependente do uso de um automóvel.
Foi no Reino Unido onde Bella se deparou com um veículo eletrificado pela primeira vez. No país, quase 30% da frota automobilística já é representada por carros elétricos ou híbridos, segundo dados da Statista, tornando a transição aqui no Brasil mais digerível pela treinadora de vendedores e seu esposo, que tomou a iniciativa de fazer as pesquisas iniciais.
“Meu marido se interessou mais pelo assunto. Começamos a colocar no lápis se valia a pena financeiramente. Eu precisava conhecer a marca, o conforto mesmo.”
Depois de concluir que a escolha pelo veículo eletrificado fazia sentido do ponto de vista financeiro, o casal optou por adquirir um Song Plus híbrido, da BYD, em agosto de 2023. Segundo Bella, o que lhe chamou atenção imediatamente nos modelos da montadora chinesa foi o interior, afinal ela não gostaria de “gastar qualquer valor para ser um carro que fosse todo de plástico. Se for pagar caro, que pegue uma coisa boa pelo menos”.

Durante o processo de decisão, Bella consultou grupos de Whatsapp compostos por donos de veículos da BYD, o que se tornou bastante comum desde a entrada da marca chinesa no Brasil. A troca de informações fez o casal optar por um modelo híbrido, uma vez que a disponibilidade de pontos de recarga continua concentrada em grandes capitais, gerando um obstáculo adicional para quem vive no interior.
Um fator que chamou a atenção do casal já depois de comprar o veículo foi a questão ambiental. Diferente de carros movidos a motor de combustão, os veículos eletrificados, quando utilizam as baterias elétricas, não emitem gases de efeito estufa. Na prática, isso provocou uma característica que Bella não esperava: a falta de poluição sonora.
“Antes de ter um carro elétrico, não era algo visível. Mas ao ter, você pensa o tanto de gasolina que gasta, o tanto de poluente. Você não escuta barulho. Eu fico pensando o silêncio que ia ser a cidade com carros elétricos, sem falar da poluição”.
A obsessão pelo novo carro fez Bella, que já tinha uma presença ativa nas redes sociais, começar a produzir conteúdo sobre o Song Plus para as plataformas digitais, apresentando aos seus quase 9 mil seguidores um pouco das razões pelas quais ela está tão satisfeita com o veículo.
Não demorou para ela ser abordada pela própria BYD, que a incentivou a criar ainda mais conteúdos, convidando-a para eventos de lançamento de modelos a fim de poder divulgar a marca, uma estratégia que, segundo Bella, tornou-se comum para a empresa chinesa.
“É muito fácil pagar uma pessoa pública que não tem o carro para fazer propaganda. Eles viram essa possibilidade de fazer uma parceria com alguém que é usuária do carro e me deixam tranquila para criar o conteúdo que eu acho relevante.”
