Ele não tem nome. Vou chamá-lo de Chico. Macaco-prego Chico. Um dos primatas mais inteligentes da natureza, originária das florestas tropicais e subtropicais da América do Sul. Sua espécie tem pelagem que varia desde do amarelo ao cinzento escuro, passando pelo preto e marrom. Não ultrapassa 45 centímetros e seu peso não chega a 4 quilos. As fêmeas têm apenas um filhote por vez, que é gestado de 5 a 6 meses.
No seio familiar natural, o macaco-prego constrói laços e cultura. Uma sociedade, não como vemos nos filmes de ficção, mas com hábitos, apegos e comportamentos pertinentes ao modo de vida dos primatas não humanos na floresta.
Foi na natureza que a vida de Chico começou. Hoje, porém, a imagem dele só é lembrada no universo digital, vestido com tutu, toquinha de bebê e montado em um triciclo. Foi transformado em figurinha de WhatsApp, virou estrela de Reels no Instagram, protagonista de stories de ‘pais de pet’ no TikTok que querem agradar seus seguidores.
Ele vive agora para entreter outra espécie.

Capturado, traficado, longe de casa e sem família, Chico vive confinado e sob a lente feroz da câmera que capta seus movimentos abobalhados e artificialmente coreografados no triciclo. Você já pode imaginar o “POV: vc tem um macaco de estimação” no TikTok. O predador, agora, é outro. Sem garras e presas, mas sedento por notificações sobre o macaco-prego Chico na tela do celular.
Venda e compra de animais nas redes
Quem me ajuda a fazer esse paralelo entre as redes sociais, tráfico ilegal e a história do Chico são Cristina Harumi e Samuel Nunes, respectivamente, coordenadora de fauna e educador ambiental da Mata Ciliar, ONG dedicada à preservação e proteção da flora e fauna em Jundiaí.
E lá que Chico vive hoje em dia.
Chico tem por volta de 11 anos de idade. Um jovem adulto para os padrões dos primatas. No entanto, Cristina e Samuel me contam que ele foi sequestrado ainda na infância, por volta do primeiro ano de vida.
“Deve ter tido a mãe assassinada, os demais membros do grupo divididos durante a fuga, ou se raptados, traficados. Foi resgatado com 7 anos aproximadamente”, conta a coordenadora de fauna da Mata Ciliar. “Ele chegou obeso, com movimentos repetitivos, como se fosse “tics”, muito comum de animais confinados e que vivem na presença de pessoas. Foi traficado para virar ‘pet’. Isso é certeza”, completa.
Chico foi encaminhado ao centro de proteção de animais silvestres, ali, em Jundiaí, por meio da ação dos Guardas Ambientais da cidade, em 2020, em plena pandemia. Os entrevistados contam que ele foi abandonado em uma caixa próximo a um bairro, e a guarda foi acionada para fazer o resgate.
Existe algum motivo? “É difícil afirmar, mas deve ter sido porque começa a dar trabalho, medo da polícia apreender, multar. Enfim, as causas do abandono são sempre variadas, mas acreditamos que é porque cresce e não tem mais aquele comportamento fofinho que as pessoas gostam. Eles ficam mais enérgicos e bagunceiros, igual aos adolescentes. Difíceis de controlar”, diz Samuel.
Ao falar das redes sociais, em particular, o Facebook, a coordenadora destaca que a venda e compra illegal de animais como Chico foram facilitadas por esses meios. Cristina diz que trata-se de um ecossistema online. “Você tem as redes que não têm mecanismos adequados, alguém que cria um grupo [no Facebook], publica as fotos dos animais, coloca valor e, pronto, o negócio é feito. O envio pode ser por Correios – Sedex – ou, até mesmo, por encontro para entrega do animal”.

No caso de Chico, sua venda e compra devem ter sido feitas pelo Facebook e o transporte em uma gaiola, com um ponto de entrega. “Muito comum para animais de sua espécie, aqui, no Brasil”.

Esse cenário, conforme Samuel, tem como uma de suas causas “a exposição sem filtro a torto e direito dos animais, que, muitas vezes, cria um apelo visual que atrai compradores”. Ele pontua que o fato de um animal silvestre como o Chico estar em um contexto doméstico, infantilizado, vestido com roupinhas ou em situações engraçadas, desperta “aquela curiosidade: ‘poxa, olha que legal’, ‘fofinho’, ‘vai ser um bom companheiro’. A partir daí, vem aquele desejo de posse do animal e aí, você já viu”.
Sobre as táticas de caça, elas podem ser variadas. “Pode ser por meio da violência. Mas eles podem usar também de armadilhas ou tranquilizantes em frutas que deixam para dopar os animais”, exemplifica Cristina.

Mas só os filhotes tem valor no mercado ilegal? “Quanto mais jovem, melhor. Pegar uma fêmea adulta, impediria que ela tivesse novos filhotes para o tráfico. Pegar um macho-alfa estabelecido seria mais difícil para traficar e manter em cativeiro, domesticar. Então a resposta é relativa nesse sentido, porque depende de quem tá na ponta comprando esse animal”, adiciona Samuel.
Abusos que você não vê
O caso da exploração de Chico nas redes sociais se conecta com um problema global mais profundo: os maus-tratos não aparentes de animais nas redes.
Embora as imagens de primatas vestidos com roupinhas ou realizando atividades humanas pareçam inofensivas, elas mascaram o sofrimento real dos animais.
O relatório “A crueldade que você não vê: O sofrimento de macacos nas redes sociais”, da Coalizão de Crueldade Animal nas Redes Sociais, aponta que, entre setembro de 2021 e março de 2023, mais de 1,2 mil links publicados no Facebook, Instagram, TikTok e YouTube exibiram primatas de diferentes espécies como animais de estimação.
Conforme a entidade, esses conteúdos, embora apresentem animais em uma situação fofa e domesticada, frequentemente envolvem abusos disfarçados, como estresse psicológico, lesões físicas e até o risco real de morte. O relatório revela que 13% dos vídeos analisados indicaram tortura psicológica, 12% abuso físico e 60% sofrimento físico explícito.

Para exemplificar melhor a tortura piscológica e sofrimento físico que os primatas são submetidos, imagine um vídeo em que um macaco do tamanho de Chico – 45 centímetros – aparece com seu braço preso à boca de um peixe, ou pior, à boca de um crocodilo, tentando por instinto sair dessa situação de “risco de vida”, como se a qualquer momento pudesse ser engolido vivo ou dilacerado.
De imediato, um vídeo muito curioso e que chama a atenção. No entanto, se observarmos mais a fundo, tanto o peixe como o crocodilo estão mortos e o macaco foi colocado naquela situação encenada apenas para aguçar a curiosidade sobre o conteúdo.

Busca por engajamento
Vitor Filiputti, biólogo e produtor de conteúdo educacional sobre fauna e flora no canal Pido Biologia, que soma milhares de seguidores nas redes sociais, explica porque conteúdos desse tipo geram tanto engajamento.
Para ele, “os criadores de conteúdo sabem que o drama, especialmente envolvendo animais como macacos – que são mais expressivos –, atrai muita atenção. Mas o que as pessoas não sabem é que muitas dessas situações são artificiais”.
Essa tendência de criar situações falsas para viralizar, conforme Filiputti, tem se espalhado rapidamente, com grandes implicações para a percepção pública sobre o trato com os animais. “Infelizmente, quando um vídeo como esse começa a viralizar, outros começam a buscar maneiras de replicar o formato, muitas vezes intensificando o sofrimento de outros animais”, acrescenta.

No entanto, ao observar mais a fundo, os conteúdos “fofinhos” com animais são os que mais geram engajamento nas redes sociais. É o que aponta o estudo “Lucrando com a crueldade: criadores de conteúdo digital abusam de animais em todo o mundo para obter lucro”, publicado na revista Biological Conservation, liderado pelo brasileiro Antônio de Carvalho, biólogo e especialista sobre tráfico de animais silvestres na WCS.
“O público está mais disposto a compartilhar cenas de araras vivendo em casas ou de macacos brincando em ambientes domésticos do que de animais sendo brutalmente caçados ou mortos”
Para a Babel, ele aponta que vídeos que mostram animais silvestres no geral como pet são especialmente lucrativos, justamente, porque exploram a “fofura” e a falsa impressão de cuidado. “O público está mais disposto a compartilhar cenas de araras vivendo em casas ou de macacos brincando em ambientes domésticos do que de animais sendo brutalmente caçados ou mortos”, explica.

Dados da análise de abril de 2022 a agosto de 2023 liderada por Carvalho mostram que os criadores de conteúdo digital com animais lucraram cerca de US$ 1,14 milhão (aproximadamente R$ 5,7 milhões) exibindo cenas de primatas, aves e outros animais silvestres em cenários domésticos ou em interações artificiais/ensaiadas no habitat natural do animal.
“É o tipo de conteúdo que gera mais renda para os donos dos canais, porque é menos perturbador para o público e tem maior apelo emocional, apesar de mascarar práticas abusivas e ilegais”, completa o pesquisador. Em contrapartida, vídeos que mostram explicitamente crueldade – como caçadas violentas ou maus-tratos – tendem a gerar “ojeriza”, nas palavras de Antônio, sendo menos compartilhados e, consequentemente, menos rentáveis.
Jornada interrompida
Chico é natural da Mata Atlântica que rodeia a cidade de Jundiaí, região metropolitana da cidade de São Paulo. Possivelmente, sua família era constituída por até oito membros, mas os grupos de sua espécie podem chegar a até 30 integrantes. A maturidade sexual desses animais é alcançada com 5 anos de idade, e os machos só se reproduzem quando asseguram posições elevadas na hierarquia do grupo.
Ele foi sequestrado ainda pequenino, agarrado à mãe e totalmente dependente do seu leite. Nessa fase, estava em pleno aprendizado sobre a vida na floresta: onde encontrar alimentos, os melhores lugares para dormir e como se proteger dos predadores.
Mas teve a sua jornada de aprendizado interrompida. Foi raptado, traficado e criado como pet.
Sua história não tem um final tão fofo como os stories do Instagram ou TikTok. Ele viverá o resto de sua vida sob os cuidados da ONG Mata Ciliar, recebendo atenção e proteção, mas sem a possibilidade de voltar à vida na Mata Atlântica.
Sua história é um lembrete de que cada curtida ou compartilhamento nas redes pode alimentar um sistema que reduz a fauna silvestre a ferramentas de entretenimento e lucro de um mercado que não você vê.
Foi na natureza que a vida de Chico começou.
Colaboração: Renan Carletti, psicológo e professor na FAAP e FAM
