O preço do vício: como as apostas online afetam a realidade de milhões de brasileiros

“Eu pedi para uma colega passar mil reais no cartão de crédito para que eu pudesse pegar o dinheiro. Então, ela passou os mil reais pra mim e eu peguei o dinheiro. E eu fiz o depósito desse dinheiro pra usar como Pix. Eu mandei ela parcelar em três vezes pra eu ir pagando. Ou seja, eu fiz uma dívida no cartão dos outros para poder jogar [no Tigrinho]. Aí eu tirava dinheiro do auxílio [Bolsa Família] pra poder pagar as parcelas desse cartão.”

Esse relato de Rosana da Silva, 35, reflete a realidade de milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade que sofrem com o vício em apostas online e acabam comprometendo grande parte do orçamento com esse tipo de atividade. De acordo com um relatório da XP Investimentos, o montante de dinheiro movimentado com as apostas online compromete 20% do orçamento livre das famílias mais pobres.

Mas Rosana não começou no mundo das apostas com dinheiro emprestado. Ela conheceu o famoso Jogo do Tigrinho através de uma colega de trabalho, que a apresentou à plataforma e a convidou para participar de pequenas apostas com o dinheiro que sobrava no fim do mês.

 O Jogo do Tigrinho é um jogo de azar popular no Brasil que ganhou notoriedade principalmente em plataformas online. Frequentemente associado a sites de apostas e jogos de cassino, é uma variação de máquinas caça-níqueis, ou slots, onde os jogadores precisam alinhar três símbolos iguais para ganhar prêmios em dinheiro.

No início, o jogo parecia inofensivo, uma forma divertida de tentar aumentar a renda com apostas de baixo valor. No entanto, o que começou como uma atividade inocente e de puro entretenimento nas horas vagas logo se transformou em um pesadelo. 

Com pequenas quantias, Rosana, foi se envolvendo cada vez mais, até se ver presa em uma espiral de apostas: quanto mais ela perdia, mais jogava. O que antes era um simples hábito de lazer se tornou uma necessidade, comprometendo a renda familiar.

“Comecei a deixar as contas atrasarem, deixava de pagar a conta de luz para jogar e atrasei o convênio médico do meu filho também. Eu estava perdendo a noção das coisas da vida. Eu trabalhava o dia todo fazendo faxina; quando chegava o fim da tarde, eu torrava o dinheiro todo no jogo. E as dívidas que tinha, deixava para trás.”

E, assim como muitas pessoas de várias famílias, o dinheiro recebido do Bolsa Família para complementar a renda da casa também passou a ser utilizado para as apostas online. 

Segundo estimativas do Banco Central (BC), 5 milhões de pessoas beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas por Pix em agosto de 2024. A entidade estimou que pelo menos 15% desse valor é retido pelas plataformas, implicando diretamente na renda de milhões de brasileiros. “Até o dinheiro do Bolsa Família eu utilizava para jogar.”

Rosana da Silva, esposa e mãe de dois filhos, que trabalha como diarista, sentiu na pele os efeitos do vício em jogos de azar. O dinheiro que ela ganhava com o trabalho ia direto para as apostas: “Eu tenho uma faxina a cada 15 dias, que é R$ 200 que eu faço. Aí, todo dinheiro que entrava na minha conta eu pegava e gastava com joguinho.” 

Durante mais de dois anos, entre abril de 2022 e junho de 2024, ela ficou sob o domínio do “Tigrinho”: “É um jogo muito viciante, ele começa pagando, e quando você pensa que não, ele só vai tirando. Ralava o dia todo para ganhar R$ 200, para, no fim das contas, não ter nenhum real desse dinheiro.”

Apesar das apostas feitas por Rosana serem de valores baixos – cerca de R$ 10 por vez -, o vício se agravou a ponto de ela perder mais de R$ 10 mil ao longo de mais de dois anos (abril de 2022 a junho de 2024). Isso ocorreu devido à alta frequência com que apostava: “Eu jogava o dia todo, enquanto eu tivesse dinheiro lá que desse para ir jogando.”

O fator psicológico das apostas

O vício em apostas online, como o relatado por Rosana, está intimamente ligado a fatores psicológicos que vão além da simples busca por diversão ou lucro. 

Pesquisadores apontam que jogos de azar ativam os circuitos de recompensa no cérebro, liberando dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer e à sensação de conquista. Essa liberação frequente pode levar à dependência, semelhante à observada em pessoas com vícios em substâncias químicas.

Segundo Bruna Mayara Lopes, neuropsicóloga supervisora do Ambulatório do Transtorno do Jogo (AMJO), a maioria dos jogadores entra no universo dos jogos de azar com o objetivo de obter uma renda extra.

“O que a gente percebe em relação à dependência de apostas é que a sua progressão acontece de uma maneira muito silenciosa. Quando é divulgada a questão das casas de apostas, existe uma ideia de que se a pessoa jogar ela vai ter sucesso, e, muitas vezes, até colocam como uma maneira de ter uma renda extra”, explica a neuropsicóloga.

De acordo com Lopes, os jogos de azar no Brasil estão sendo associados a questões positivas, fazendo com que as pessoas acreditem que vale a pena jogar. “Claro que há diferenças entre aqueles que jogam por diversão e aqueles que possuem algum tipo de transtorno, e é na hora da perda que essa distinção se torna mais evidente.”

“Se é um jogador social, ele entende que é hora de parar. Agora, um jogador que tem transtorno do jogo começa a buscar maneiras de recuperar o dinheiro perdido,” comenta Bruna. “É aí que surge o sinal de que a aposta deixou de ser uma simples jogatina para se tornar um vício. Ela continua jogando, e depois se depara com um momento não só de perdas, mas de desespero por conta dessas perdas.”

Esse desespero fez com que Rosana não tivesse outra alternativa a não ser se endividar para continuar apostando. “Vou usar esse dinheiro que eu vou ganhar. Na minha cabeça, eu ia ganhar, porque a gente joga com esse pensamento. Você tá perdendo, aí você fala: ‘Vou jogar de novo, agora eu ganho!’ E aí fica nessa. Quando você vê, gastou tudo.”

O impacto do vício em apostas online na família

O vício em apostas online não afeta somente os apostadores, mas também os familiares, que muitas vezes são os principais prejudicados. Em muitos casos, o viciado não reconhece a gravidade do problema, e as consequências recaem sobre aqueles que estão ao seu redor, causando sofrimento e desequilíbrio nas relações familiares.

Rosana conta que chegou ao ponto de pegar dinheiro escondido do marido: “O meu marido ia dormir e eu fazia Pix do celular dele para mim”. Ela também relata que o marido sempre a alertava sobre os perigos do vício, dizendo que ela estava perdendo o controle da vida e gastando o dinheiro apenas para jogar, sem cumprir as responsabilidades em casa. 

“Ele nunca foi a favor, sempre foi contra, e eu jogava escondido. Quer dizer, eu pensava que era escondido, mas ele via que eu estava jogando. Só que ele dizia que o dinheiro era meu e que a consciência era minha,” comenta Rosana.

De acordo com Bruna Mayara Lopes, o vício em jogos compromete a dinâmica familiar e fragiliza as relações entre a família e o jogador. “A questão da família, em relação a quem tem dependência, envolve principalmente uma quebra de confiança. O familiar passa a desconfiar do jogador devido às mentiras e ao uso indevido do dinheiro, que deveria ser destinado às contas da casa,” explica.

E o impacto do vício em apostas online vai além do comprometimento da dinâmica familiar e da perda financeira. Ele também desencadeia problemas psicológicos significativos, como estresse crônico, ansiedade e até depressão. 

A constante exposição a perdas e ganhos cria uma montanha-russa emocional, que leva os jogadores a experimentar altos níveis de tensão, principalmente quando o jogo se torna um meio para tentar aliviar dificuldades financeiras ou compensar derrotas.

“Então a gente percebe o quanto a família toda pode ser afetada, não só pela questão financeira, mas também pelas alterações psicológicas observadas no jogador,” explica Lopes.

“Mas eu passava o dia triste e ficava um pouco estressada, uma tristeza misturada com estresse, sabe? Mas, mesmo assim, não aprendi. Quando caía o dinheiro na conta, eu falava: ‘Opa, eu vou jogar de novo, que agora eu vou recuperar o que eu perdi’. No fim das contas, eu só perdia tudo,” conta Rosana.

Os efeitos na economia

Para além dos impactos nas vidas pessoais e nas residências das famílias, o vício em apostas online também representa um peso financeiro significativo ao país. O  relatório da XP Investimentos também mostrou que o montante movimentado pelas plataformas de apostas no Brasil já representa cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB). 

Esse cenário implica em uma redistribuição prejudicial de recursos, drenando o poder de compra e limitando o consumo em outros setores da economia.

De acordo com a economista da Fecomercio Kelly Carvalho, as plataformas de apostas online podem gerar dois tipos de impactos na economia: os impactos diretos e os indiretos. “Diretamente, a gente pode pensar na questão da geração de empregos, no aumento da arrecadação de impostos. E indiretamente, a própria movimentação de dinheiro na economia,” explica.

Por outro lado, ela também ressalta: “Temos uma grande preocupação com o risco de redistribuição de renda. Isso porque as famílias mais pobres acabam comprometendo o seu orçamento, levando, no curto prazo, a um nível elevado de endividamento.”

Esse cenário pode agravar ainda mais a desigualdade social no Brasil. “Esses gastos acabam reduzindo os recursos disponíveis até mesmo para as necessidades básicas, como alimentação, educação e saúde,” afirma a economista. 

Ela destaca a preocupação com a ilusão de ganhar dinheiro fácil, o que pode gerar ciclos de individualização. “Isso impacta, inclusive, a mobilidade econômica, perpetuando e intensificando a pobreza, especialmente entre aqueles que já estavam inseridos no mercado informal.”

Para Kelly as pessoas enxergam nas apostas uma oportunidade de melhorar sua situação financeira, o que é um grande equívoco. Esse engano é reforçado pela crença de que jogos de azar podem ser comparados a formas de investimento, quando, na realidade, são bem diferentes. “As chances de perda em relação a essas apostas online são muito maiores do que as de ganho. E existem alternativas no mercado muito mais consolidadas, estruturadas e que permitem maior segurança”, exemplifica a especialista.

O papel da família na recuperação

Apesar das perdas significativas causadas pelo vício, Rosana conseguiu superar essa condição, muito por conta do apoio de sua família. Ela percebeu que as apostas estavam tirando o controle de sua vida, e foi esse reconhecimento, junto ao suporte familiar, que a ajudou a se recuperar. Além das orientações do marido, Rosana conta que também ouviu os conselhos de sua filha, de seu pai e, principalmente, de sua mãe, que foi quem mais a orientou nesse momento.

“Minha mãe pegava muito no meu pé, falava para eu largar disso, porque isso não era vida de ninguém. Ela me dizia que muita gente se afundou, que destruiu a família. Quem mais me ajudou foi ela.”

Para Bruna, o apoio familiar é um dos principais fatores na recuperação de pessoas com problemas de vícios, como o transtorno do jogo, que é uma forma de dependência e não uma questão associada à falta de caráter. “Existe todo um trabalho dos familiares, tanto em relação à consciência quanto à quebra desse estigma, e também porque o jogador vai precisar muito da rede de apoio.”

Ela complementa que é “importantíssimo o envolvimento dos familiares que estão dispostos e com autorização do jogador nesse trabalho de recuperação da pessoa que tem transtorno do jogo”.