“Vi o fogo e pensei: ‘vou pular’”. 50 anos depois, sobreviventes, bombeiro e testemunhas revivem a tragédia do Joelma

Um pedaço disforme de cor cinza um pouco maior que a mão de um homem adulto, pesado, frio, está guardado dentro de um armário em uma casa no centro de Santo André, cidade do ABC paulista. Há 50 anos, o objeto tinha outra forma.“Isso aqui são os metais da janela que derretiam com a temperatura altíssima e se juntavam com o vidro também derretido. Ele ficou no chão e criou uma imagem. Mas, como tem cinquenta anos, quebrou uma parte. Antes, parecia uma imagem de um santo… Jesus”. 

O objeto em questão não foi retirado de nenhum dos 579.798 estabelecimentos religiosos do Brasil, nas contas do Censo de 2022. Eduardo Boanerges, que é quem narra sua formação, não é padre ou pastor. Eduardo, que na verdade é o major Boanerges, é bombeiro de salvamento e, no dia 1 de fevereiro de 1974, retirou o metal do Edifício Joelma, durante o maior incêndio da cidade de São Paulo, que matou 187 pessoas.

Major Boanerges segura a estrutura metálica que retirou do Joelma. Foto: Damaris Lopes

Na época, Boanerges era cabo e tinha apenas cinco anos de experiência no Corpo de Bombeiros. Hoje, 50 anos depois do ocorrido, o experiente major lembra com detalhes do dia que ficou marcado na vida dele e de milhares de brasileiros. 

“Quando começou o incêndio, por volta das 8 da manhã, recebemos a notícia deque estava tendo um fogaréu grande no centro. Logo tocou nosso rádio, já estávamos vendo pela televisão, vimos que era num prédio, que o negócio estava feio. Mas, quando chegamos, era ainda pior”.

Do lado de fora, por volta das 9 da manhã, centenas de bombeiros chegavam à Avenida Nove de Julho, 225. Com apenas três anos de existência, o Joelma foi tomado por um um fogo que começou em uma falha no ar-condicionado de um banco no 12° andar e se alastrou pelo prédio. A carga de incêndio do local era alta. O prédio tinha tudo que pegava fogo com facilidade: mesa, madeira, cortinas e carpete. A fachada, sem proteção contra as chamas, também foi tomada e se tornou uma imagem de terror no meio do centro histórico de São Paulo.

Major Boanerges mostra capa de revista com fachada do Joelma em chamas. Foto: Damaris Lopes  

“Eu estava no 22° andar com a secretária e o meu chefe quando ouvimos as janelas estourarem e as pessoas gritarem ‘desce, tá pegando fogo’. Em menos de 3 minutos, o fogo subiu quase dez andares e estava chegando onde estávamos “.  O relato é de Mauro Ligere, sobrevivente do incêndio que na época tinha 23 anos e era funcionário do Citibank, sediado no Joelma.

Enquanto o grupo de combate ao fogo iniciava a jornada para apagar o incêndio, o grupo de salvamento, do qual o major Boanerges pertencia, tinha outro caos para conter: o pânico das mais de 700 pessoas que estavam encurraladas dentro do prédio, assim como Mauro.

“Metade das pessoas do 12° andar começou a correr para baixo e a outra metade subiu, algumas até a cobertura. O pânico contagia e esse contágio se deu em todos os andares, então quase todo mundo subiu, esse foi o grande problema”, relata Boanerges.

O cenário pode ser explicado por uma teoria matemática. A Teoria dos Jogos é um campo da matemática que analisa decisões estratégicas. Ela oferece uma perspectiva interessante sobre o comportamento humano em situações de pânico, como o incêndio no Joelma. 

Imagine um cenário em que cada pessoa precisa decidir como agir para aumentar suas chances de escapar com vida. Mas suas escolhas não são tomadas isoladamente, já que elas dependem diretamente das ações das outras pessoas ao redor. Se todos colaborarem, as chances de sobrevivência coletiva aumentam. Porém, quando o pânico domina e atitudes competitivas, como empurrões, correria e pisoteamento tomam conta, o risco de acidentes e bloqueios cresce, dificultando a fuga e o próprio salvamento.  

Edifício Praça da Bandeira, ex-edifício Joelma
Edifício Joelma, atual Edifício Praça da Bandeira. Foto por drone: Mateus Cerqueira

A perspectiva de Boanerges também era comprovada por quem via a Teoria dos Jogos ser aplicada bem a sua frente: “Quando a gente começou a ter noção do incêndio, decidimos descer, mas vimos que algumas pessoas estavam subindo e outras descendo, foi um verdadeiro caos. Pensei: ferrou! E voltei para onde eu estava”.

Em meio ao pânico e a necessidade de tomar uma decisão rápida, Mauro e mais seis pessoas ficaram no 22° andar. Sob o comando de Hiroshi Shimuta, o mais velho do grupo, na época com 30 anos, eles decidiram ficar no mesmo piso para não arriscar subir ou descer pelo prédio em chamas. “Eu falei para arrancar todas as cortinas, já que o fogo vinha pelas janelas e começava pelas cortinas, que eram feitas de juta, um material altamente inflamável”, relembra Shimuta.

A alternativa não foi suficiente para impedir a chegada devastadora das chamas. Por isso, o grupo resolveu procurar abrigo, novamente sob o comando de Shimuta: “Lembro que falei: ‘pessoal, nós temos que ficar neste banheiro, na lateral do prédio, perto da av  Nove de Julho’. E ficamos eu e outros seis, ali no banheirinho. Estávamos amassados e sufocados, mas pensando que daqui a pouco o fogo iria embora e a gente sairia com vida”.

Hiroshi e Mauro em frente ao Edifício Praça da Bandeira, antigo Joelma. Foto Karime Xavier / Folhapress

Mas do lado de fora do banheiro o incêndio estava longe de ser contido. Como registram reportagens da época, os botijões de gás nas copas das empresas explodiram e ajudaram a espalhar ainda mais o fogaréu. Como o prédio não tinha heliponto, quem subiu e tentou se abrigar na cobertura do prédio, que era coberto com telhas de amianto, outro material tóxico, não conseguiu se salvar. 60 corpos foram encontrados carbonizados no local. 

“O que mais me marcou foi uma cena quando chegamos na cobertura do prédio. Encontrei um casal, eles estavam de mãos dadas, estavam mortos os dois, eu vi que era um casal, pois estavam de aliança. E na hora de tirar, eu pensei ‘caramba, o que será que eles pensaram, o que passou na cabeça deles antes de morrerem”, relembra Boanerges. 

Enquanto a equipe de salvamento buscava as vítimas com ou sem vida, o grupo de Mauro e Hiroshi seguia dentro do banheiro. Ainda que protegidos do fogo, a fumaça entrava pelas frestas da porta.  “Enquanto estávamos no banheiro, eu lembrava do que aconteceu, em 72, no Edifício Andraus. Eu tinha um amigo que era office boy lá e ele contava as histórias das pessoas que morreram no incêndio. Então, eu tinha em mente que não podia desmaiar, porque se eu desmaiasse, eu iria morrer”, Mauro relembra.

Permanecer no banheiro, mesmo que protegidos do fogo, teria custado a vida deles. 

 A Associação Brasileira de Pneumologia e Tisiologia diz que a maior parte das vítimas de incêndio não morrem por causa das queimaduras, mas sim pela inalação de fumaça, pois as vias aéreas sofrem lesões após a inalação da fumaça. Além disso, quanto mais escura essa fumaça, maior a quantidade de monóxido de carbono, ou seja, mais tóxica e mais fatal, exatamente como era a fumaça no Joelma.

Minutos após estarem dentro do banheiro, Mauro percebeu que permanecer ali seria uma sentença de morte. Voltar para a sala era impossível, o fogo já havia se alastrado. “Quando eu não conseguia mais respirar, abri a janela do banheiro, que por sorte era de correr e não basculante. Falei: ‘vou pular’. Não queria morrer queimado, queria que minha família pudesse reconhecer meu corpo. Mas quando abri, notei que tinha um parapeito, onde poderíamos ficar”.

Queda Livre 

A ideia de pular do edifício em chamas não foi exclusiva de Mauro Ligere. A TV Globo cobriu em tempo real toda a tragédia e, no Jornal Nacional daquele 1º de fevereiro, foram ao ar as imagens do incêndio e da ação dos bombeiros. Em meio à cobertura, a imagem da queda de um homem do último andar do prédio foi captada pelo cinegrafista Reynaldo Cabrera. Ele não registrou o momento do impacto no solo. 

Pessoas tentam escapar do Edifício Joelma em chamas. Foto de arquivo/Agência O GLOBO

Não se sabe se o homem que apareceu nas telas de todo Brasil caiu ou se jogou. Quem estava do lado de fora do Joelma apenas via pessoas despencando em queda livre. “Eu estava aqui na Praça da Bandeira. De repente começou uma muvuca em frente ao Joelma, então eu vi a chama por todo o prédio, parecia uma imagem do inferno”. O relato é de Toshio Arima, na época ele tinha 16 anos e era office boy na região central de São Paulo. 

Hoje, aos 67 anos, ele lembra com detalhes da maior tragédia que presenciou. Toshio ficou cerca de 30 minutos parado em frente ao Joelma. Durante esse tempo presenciou senhoras, jovens e adultos caindo ou se jogando do prédio, mas, não foi o que seus olhos viram que mais o chorou. “O que nunca mais saiu da minha mente foi ouvir a multidão pedindo para as pessoas pularem. Eu moleque já sabia que esse tipo de atitude era de gente irracional, ver e ouvir toda aquela situação foi tenebroso”. 

     

Toshio Arima olhando para o Edifício Praça da Bandeira, antigo Joelma. Foto: Damaris Lopes

Não há o número oficial de pessoas que morreram após se jogarem ou caírem do prédio. Entre os sobreviventes está Lesly Theiny Beisahatt, mulher de origem hindu que sobreviveu à tragédia após pular do Joelma em chamas. Ela ficou em coma por 20 meses e perdeu seis familiares no incêndio. Mesmo com dificuldade de lembrar-se do 1 de fevereiro de 74,  para ela, ali nasceu a missão de cuidar e promover o bem estar de todas as pessoas que surgissem em seu caminho. 

Lesly formou-se como terapeuta holística e, junto com seu avô, fundou o Instituto Irmãos Sem Fronteiras, uma organização dedicada ao acolhimento e à educação de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Para Maria Julia Kóvacs, professora do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Estudos Sobre a Morte, após uma tragédia ou grande perda, muitos não conseguem se lembrar ou até mesmo retomar a vida devido à dor intensa. “É  muito importante contar com a ajuda de outras pessoas e também encontrar algum caminho, que pode ser religioso ou de outra ordem. Isso ajuda a seguir adiante com um novo propósito de vida”. 

A escada alemã 

Ao ver o parapeito e perceber que ele e o restante do grupo poderiam passar pela janela, Mauro desistiu de pular e sugeriu de irem para o local externo. Eles abriram a janela e se jogaram, um por um, no minúsculo retângulo ao lado de fora do prédio. 

“No dia 18 de janeiro de 74, eu tive um casal de gêmeos que eu não tinha nem segurado no colo, só pensava que eles não podiam viver órfãos de pai”. Enquanto Shimuta pensava nos filhos recém-nascidos, ele via o edifício sucumbir. “A porta do banheiro, que estava fechada, caiu repentinamente: ‘Ploft’. Foi então que eu vi o andar inteiro, todo cinzento e preto. O fogo tinha invadido e destruído tudo por onde passava. Nunca vou esquecer essa cena”. 

Após três horas de luta contra adestruição de 14 andares, o Corpo de Bombeiros conseguiu apagar o fogo. Nesse momento, a equipe de salvamento conseguiu intensificar os resgates pelo prédio, mas pela quantidade de fumaça dentro dos pavimentos, o melhor caminho era salvar as pessoas pela parte externa do prédio. 

Após seis horas espremidos no parapeito, o grupo de Mauro e Hiroshi começoua ter esperança de salvamento no exato momento em que perceberam que a estratégia do Corpo de Bombeiro iria alcançá-los. “Usávamos uma escada alemã de alumínio com dois ganchos na ponta. Então, nós enganchávamos a escada no andar de cima e subíamos conforme encontrávamos as vítimas, elas desciam sozinhas pela escada, pois não tinha bombeiro para acompanhar”, relembra o major.

Major Boanerges segurando escada alemã que guarda em casa. Foto: Damaris Lopes

Não foi Boanerges e sua escada alemã que salvaram o grupo, mas a estratégia que o bombeiro usou para retirá-los do 22° andar foi a mesma, como relembram Mauro e Hirosi, eles foram “descendo degrau em degrau, de andar em andar. Até chegar no chão e estar a salvo”. 

Às 15 horas o Corpo de Bombeiros informou que não havia mais ninguém vivo dentro do prédio. Dentre as mais de 700 pessoas que estavam no edifício naquele dia, 187 morreram. Todas as outras ficaram com as memórias da tragédia. “Muita gente morreu, mas muita gente sobreviveu. Na psicologia, tratamos de forma individual como cada um lida com o trauma. Mas em princípio, uma situação de trauma é complexa e as memórias são, muitas vezes, revividas exatamente como elas foram naquele dia, mesmo após muitos anos”, explica Kovács. 

Os sobreviventes carregam também cicatrizes físicas deixadas após o incêndio. Mauro Ligere, por exemplo, teve pequenas queimaduras causadas pelo alumínio da janela que derreteu e pingou em seu braço. O mesmo material que formou o pedaço de aço que o Major Boanerges guarda até hoje dentro de seu armário.