Expectativa: 0,9%. Realidade: 1,4%. Por que o mercado financeiro tem subestimado o PIB brasileiro?

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se reúne com Isaac Sidney, Presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) / Divulgação: Washington Costa/MF

O Produto Interno Bruto (PIB) é o principal termômetro da atividade econômica de um país, medindo a soma de todos os bens e serviços produzidos em determinado período. No Brasil, a julgar pela aferição dos atores do mercado, o medidor está quebrado. E faz tempo. 

A verdade é que a história de medições diferentes da realidade tem se repetido nos últimos anos, mas especialmente após a pandemia de covid-19, em 2020. As previsões dos agentes financeiros conhecidos por habitarem a Avenida Faria Lima, na cidade de São Paulo, contrastam, trimestre após trimestre, com o que alguns chegam a chamar de “pibão”. 

Um dos erros mais recentes da Faria Lima, uma sonhadora versão brasileira do centro financeiro mundial, Wall Street, veio à tona com a divulgação do PIB brasileiro do segundo trimestre de 2024. 

Enquanto o consenso do mercado apontava um crescimento tímido de 0,9% na comparação trimestral, ou seja, que compara o trimestre em questão com o imediatamente anterior, o IBGE jogou um balde de água fria – ou quente – ao atestar uma expansão de 1,4%. O valor aferido não apenas superou o consenso, como veio ainda acima de todas as projeções dos economistas.

Pareceu um flashback de um ano antes. No segundo trimestre de 2023, a Faria Lima esperava um crescimento de 0,3% na comparação trimestral. O avanço foi de 0,8%. Os erros também saltam aos olhos quando se olham os números que fazem a comparação anual dos trimestres. 

Ao final dos três primeiros meses do governo Lula 3, o mercado tinha uma expectativa de crescimento do PIB de 3,10% a/a. E, mais uma vez, ele foi pego de surpresa: o avanço foi de 4,44% na comparação entre os primeiros trimestres de 2022 e 2023, segundo o IBGE.

Ideologia dos “faria limers”? Modelos estatísticos superados? Variáveis fora dos cálculos? Antipatia ao governo? A resposta é mais complicada do que isso. 

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Bráulio Borges, economista-sênior de macroeconomia da LCA e pesquisador-associado do FGV IBRE / Reprodução: LinkedIn

Bráulio Borges, economista-sênior de macroeconomia da LCA e pesquisador-associado do FGV IBRE, enfatiza que o ambiente econômico é extremamente complexo e depende não apenas de variáveis econômicas, mas também de fatores climáticos, decisões políticas e questões geopolíticas.

“Tudo isso, obviamente, se mudar um pouquinho de maneira inesperada, já afeta os cenários econômicos. Por isso que a gente atualiza os cenários econômicos o tempo todo”, argumenta.

O pesquisador explica que as discrepâncias entre as projeções do PIB estão relacionadas aos choques na economia, que são eventos não antecipados capazes de afetar a economia constantemente. Ele ressalta que os choques podem ser pequenos ou grandes, como uma pandemia, e positivos ou negativos, como um clima favorável que gera uma safra melhor que o esperado ou uma guerra que impacta negativamente os preços do petróleo. 

Na ocorrência desses choques, a resposta da política econômica dos países tem um papel fundamental para determinar a reação da economia local. Um exemplo local e recente, relembra o economista da LCA, foi a tragédia climática no Rio Grande Sul em maio deste ano. Naquele mês, chuvas catastróficas e inundações em larga escala devastaram 478 dos 497 municípios gaúchos, afetaram 2,4 milhões de pessoas e deixaram mais de 4 mil desalojados, e mais de 170 mortos.

O tamanho da resposta estatal – um pacote de R$ 50 bilhões do governo Lula para ajudar as famílias e reconstruir o estado –, assim como a tragédia, não eram esperados, diz ele. “Se o governo federal não tivesse reagido a isso, provavelmente o PIB deste ano no Brasil cresceria menos”, complementa Borges.

Uma explicação em três pilares

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Rodolfo Margato, vice-presidente de pesquisa econômica da XP Investimentos / Reprodução: LinkedIn

Rodolfo Margato, vice-presidente de pesquisa econômica da XP Investimentos, tem a percepção de que os erros de projeção se tornaram mais comuns ou foram ampliados após a pandemia. Para ele, existem três fatores principais para explicar esses desvios.

“O primeiro, que afetou não apenas as projeções de crescimento econômico, mas também outras variáveis macroeconômicas, foram as mudanças nos comportamentos de empresas, das famílias e de investidores depois da pandemia”. 

Inicialmente, durante o período de distanciamento social, os brasileiros formaram uma “poupança circunstancial”, composta pelo dinheiro usado até então para gastos fora de casa, como um almoço especial. Depois, entretanto, essa poupança passou a ser utilizada para aumentar o consumo. 

“A modelagem que vinha sendo utilizada não capturou, e talvez hoje ainda não capture totalmente, algumas quebras estruturais”, diz Margato, que salienta não ser imediato o aprendizado sobre impactos nas decisões de consumo e investimento, depois de um choque econômico como o pandêmico.

O segundo fator destacado pelo economista da XP como possível explicação é o impulso fiscal promovido por políticas econômicas e bancos centrais em resposta à pandemia. 

Para Margato, embora os estímulos fossem esperados pelo mercado, “a magnitude e o volume de recursos despejados no sistema econômico se mostrou maior do que o inicialmente esperado pelos analistas”. 

Bráulio Borges compartilha da mesma visão. “Os estímulos fiscais foram gigantescos, e isso gerou uma recessão em 2020 muito menor do que se imaginava”, diz o economista-sênior da LCA. Os números atestam isso: o PIB do Brasil em 2020 caiu 3,3%, contra uma expectativa de queda de 4,2%. Esse valor leva em conta o PIB  acumulado dos quatro trimestres daquele ano.

Por fim, o terceiro elemento apontado por Margato está ligado aos ganhos estruturais em setores específicos da economia, como informação e comunicação, intermediação financeira e serviços de utilidade pública. Em comum, eles são menos sensíveis aos movimentos de juros e de outras variáveis econômicas, explica. 

Dentre os fenômenos que deram impulso com ganho de produtividade para esses setores, segundo Margato, estão a popularização de aplicativos do streaming, o uso de inteligência artificial e de novas tecnologias de eficiência dos serviços financeiros – tais como o Pix e o Open Finance –, somados às aprovações da reforma trabalhista, teto de gastos, a substituição da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) pela TLP (Taxa de Longo Prazo) e marcos regulatórios setoriais em energia elétrica, saneamento, cabotagem e ferrovias, além das leis das estatais e das falências.

Melhoras não creditadas

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Rodrigo de Losso, professor titular da Economia da USP / Reprodução: FEA-USP

O professor titular da Economia da USP Rodrigo de Losso diz que, antes, as previsões costumavam ser otimistas tanto para PIB quanto para inflação, mas sustenta que os agentes econômicos se tornaram pessimistas especialmente por causa da pandemia. 

“A pandemia pode ter distorcido um pouco a percepção da maioria deles, pois foi um evento muito impactante. A percepção era de que a equipe econômica não conseguiria manejar as consequências adversas, o que se revelou falso para o Brasil, mas verdadeiro para muitos outros países”, avalia.

De Losso, embora ressalte que sua avaliação é uma “mera especulação”, argumenta que parte do desempenho favorável atual pode ser resultado de reformas microeconômicas com efeitos duradouros do governo anterior, entre os quais ele destaca a redução de tributos, melhora no ambiente de negócios e avanços em infraestrutura.

Segundo ele, a rigor, nenhuma das medidas adotadas pelo governo Lula 3 justificaria o desempenho favorável da economia, incluindo as surpresas do PIB. Dentre as medidas prejudiciais, na avaliação de De Losso, estão o aumento de impostos, descontrole de gastos públicos, rombo nas estatais, política externa com efeitos adversos para o comércio e descontrole ambiental que prejudica o agronegócio.

“Daí que minha hipótese para o desempenho favorável do PIB e inflação deste governo resulta de políticas acertadas do governo anterior, ainda que pouco repercutidas”, conclui.

O que fica de fora

A recorrência dos erros de projeção do PIB chama atenção dos próprios economistas. “A despeito de ser difícil projetar a economia, eu acredito haver, sim, algumas falhas de modelo de previsão”, diz Bráulio Borges, da FGV IBRE.

Segundo ele, as mudanças climáticas e seus impactos sobre o PIB estão entre os elementos desconsiderados nos modelos de previsão.  “Eu tenho enfatizado que na nossa década perdida de 2010, na qual o PIB praticamente andou de lado em termos per capita, parte daquilo tem a ver com uma estiagem crônica que o Brasil está enfrentando desde 2012”, argumenta Bráulio.

A desconsideração desses fenômenos implica em falhas nas projeções, segundo o pesquisador. “Isso não é pouco relevante em um país como o Brasil, em que o agronegócio é 25% do PIB e depende de chuva. A geração de eletricidade no Brasil é quase 60% hidrelétrica, enquanto a média no mundo é de 15%”. 

Além disso, Borges critica a projeção agregada do PIB. “O PIB tem vários componentes e setores com dinâmicas muito diferentes. Por questões metodológicas, também, alguns componentes do PIB são muito mais voláteis do que outros”, explica. 

Desse modo, ele acredita ser necessário realizar uma projeção mais desagregada para melhorar a acurácia das previsões. Mas pondera que pode haver relutância, já que o indicador leva em conta 12 setores econômicos distintos, complicando os cálculos. 

A solução apresentada por Borges é dividir o PIB brasileiro em três grandes componentes e analisá-los separadamente: setores mais sensíveis à política monetária — em outras palavras, à taxa de juros —, setores mais dependentes da oferta – como agropecuária e extração de petróleo e gás –, e setores de baixa volatilidade – como aluguéis e administração pública.

Há ainda um aspecto comportamental no mercado financeiro que influencia as projeções, diz o professor De Losso: o risco profissional de divergir do consenso. “Se os agentes erram em conjunto com o mercado, dificilmente perdem seu emprego. Daí que errar sozinho x acertar sozinho é um risco que nem todos querem correr em suas previsões”, argumenta. 

Essa dinâmica pode explicar por que, mesmo quando analistas individualmente acreditam em um cenário mais otimista, acabam optando por projeções mais conservadoras alinhadas ao consenso do mercado.

Errando é que se aprende

O consenso dos três economistas é que a complexidade das previsões econômicas continua desafiando analistas e acadêmicos. 

Para Rodolfo Margato, da XP, se for para errar o PIB – ou qualquer outro indicador –, é melhor que a realidade supere positivamente a expectativa dos agentes econômicos. 

“Além do papel de economista, de tentar de forma imparcial e neutra prever o cenário econômico, como cidadão, como residente do país, sempre há expectativa de maior crescimento. A gente torce e trabalha para  maior crescimento da economia, geração de emprego e de renda”, diz.

Já Bráulio Borges se mostra mais conformado com os erros de projeções. “Economia é assim, o tempo todo surgem choques novos que não eram antecipados”, diz ele. “É assim que funciona a profissão de economia. Erramos bastante e depois ao menos tentamos aprender com os erros para que esse mesmo tipo se repita no futuro”. 

Borges destaca que o processo de aprendizado é contínuo na profissão e que, mesmo com todas as ferramentas disponíveis, a incerteza permanece como uma característica inerente às previsões econômicas.

De Losso compartilha com Bráulio Borges uma visão sobre certa normalidade quanto aos erros nas previsões do PIB, mas faz uma ressalva. “As discrepâncias sempre existiram em maior ou menor grau, tanto aqui como no exterior. O curioso é que o padrão da discrepância mudou recentemente”, diz, em referência ao contexto pós-pandemia.

Caminhando para cima

O FMI revisou em outubro suas projeções para o crescimento brasileiro, prevendo uma expansão de 3% em 2024. André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no FMI, destacou que “foi o maior ajuste que o fundo fez em termos de crescimento para todos os países que ele acompanha”.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, interpreta os resultados positivamente: “Essa revisão já no fim do ano, que demonstra que a economia brasileira está crescendo com uma inflação relativamente controlada, é sinal de que nós temos um potencial de crescimento sustentável”.

Rodrigo De Losso alerta, contudo, para possíveis desafios futuros quanto ao pessimismo generalizado atual, que, em sua avaliação, tem fundamento nas decisões econômicas adotadas no governo Lula 3. “A questão é que essas políticas ainda não evidenciaram seu caráter adverso, mas tudo indica que suas consequências aparecerão em breve”. 

Desse modo, ele sugere que, embora as projeções pessimistas tenham se mostrado equivocadas no curto prazo, pode haver fundamentos para preocupações de médio prazo que ainda não se materializaram.

Os dados do PIB do terceiro trimestre de 2024, divulgados em 3 de dezembro, podem corroborar com De Losso: na comparação trimestral, o PIB cresceu 0,9%, valor próximo à expectativa de 0,8%, enquanto na comparação anual, o indicador subiu 4,0%, levemente acima do consenso de 3,9%. Já no acumulado de quatro trimestres, o IBGE atestou um avanço de 3,1% contra projeção de 3,0%.

Em comum, os três indicadores ficaram apenas 0,1 ponto percentual acima do valor estimado pelos economistas. Porém, será preciso aguardar mais divulgações para identificar se a Faria Lima fez o dever de casa ao englobar fatores anteriormente negligenciados, como as questões climáticas e os impactos de avanços estruturais na economia brasileira, ou se este foi apenas um momento de sorte.