{"id":58,"date":"2017-07-01T00:04:00","date_gmt":"2017-07-01T03:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/?p=58"},"modified":"2020-06-18T11:57:25","modified_gmt":"2020-06-18T14:57:25","slug":"desbravadoras-da-arquibancada-ao-microfone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=58","title":{"rendered":"Desbravadoras: da arquibancada ao microfone"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os desafios das mulheres que trabalham na cobertura esportiva<\/h4>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">L\u00edvia Laranjeira, do SporTV; Renata Mendon\u00e7a, do Dibradoras; Monique Danello, do Esporte Interativo; Mayara Munhos, da ESPN; Gabriela Moreira, da ESPN; Clara Albuquerque, do Esporte Interativo; Olga Bagatini, do Lance! e Myussa Camillo, do Esporte Interativo: elas contaram os percal\u00e7os que enfrentam na carreira por serem mulheres<\/h6>\n\n\n\n<p><em>\u201cNa hora que voc\u00ea chega no jogo, \u00e9 de gostosa pra baixo. Gostosa \u00e9 levinho.\u201d<\/em><br><em>\u201cSe a Mancha come\u00e7ar a gritar \u2018vaaaacaa\u2019 voc\u00ea vai entender o recado.\u201d<\/em><br><em>\u201cMas o que foi que voc\u00ea fez pra entrar na ESPN?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Canal 1. Mesa redonda p\u00f3s-jogo. Quatro comentaristas, quatro homens.<br>Canal 2. Uma reportagem sobre o jogo A. No campo, um rep\u00f3rter entrevista o jogador. De homem. Para homem.<br>Canal 3. VT de uma partida rec\u00e9m-terminada. A voz que narra os lances? Homem, \u00e9 claro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 domingo, oito da noite. Fim de mais uma rodada do Campeonato Brasileiro de futebol masculino da s\u00e9rie A. Milh\u00f5es de boleiros se posicionam em frente a suas m\u00faltiplas telas \u2014 para os espectadores do s\u00e9culo 21, um combo de celular, TV e computador \u2014 e degustam absortos os coment\u00e1rios e an\u00e1lises dos acontecimentos da tarde (\u201cmas afinal, foi m\u00e3o na bola, ou bola na m\u00e3o?\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Para os que saciam a sede dos 150 milh\u00f5es de brasileiros f\u00e3s de futebol \u2014 segundo o Censo de 2010 do IBGE \u2014, as tarefas s\u00e3o infinitas num domingo \u00e0 noite. S\u00f3 na TV, entre canais abertos e pagos, as emissoras brasileiras transmitem mais de 400 horas de programa\u00e7\u00e3o esportiva por semana, sem contar as transmiss\u00f5es n\u00e3o previstas na grade. Com todo esse conte\u00fado, daria para encher pelo menos 17 dias ininterruptos com conte\u00fado esportivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esporte que n\u00e3o acaba mais. No entanto, nessas 400 horas de programa\u00e7\u00e3o, parece n\u00e3o haver espa\u00e7o para nada al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o masculina. Nos canais de esporte da TV fechada, apenas 13% dos profissionais que aparecem na tela s\u00e3o mulheres, segundo um&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.uol\/esporte\/especiais\/mulheres-e-o-jornalismo-esportivo-na-tv.htm\">levantamento do UOL Esporte<\/a>&nbsp;feito no ano passado. O boleiro, com \u201cO\u201d, j\u00e1 se acostumou a ligar a TV e encontrar por l\u00e1 outros homens, no campo ou na mesa redonda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as 13% resistem. Mesmo que em&nbsp;menor n\u00famero, l\u00e1 est\u00e3o elas. As jornalistas esportivas. Mulheres. Sempre minorias nas reda\u00e7\u00f5es, respondendo a chefes homens e falando para uma audi\u00eancia majoritariamente masculina, elas desbravam a cada dia um mundo que ainda lhes parece pouco amig\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cVoc\u00ea tem que pular obst\u00e1culos muito maiores para provar que \u00e9 capaz\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Faz cinco anos desde que Gabriela Moreira decidiu trocar o cargo de rep\u00f3rter especial de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u2019<em>O Dia<\/em>&nbsp;pelos bastidores das institui\u00e7\u00f5es esportivas na ESPN. E de l\u00e1 para c\u00e1, \u201cprovar\u201d \u00e9 algo que ela faz todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, apesar do amor por esporte e das frequentes tardes no Maracan\u00e3, Gabi n\u00e3o havia trabalhado efetivamente na \u00e1rea, e cobria seguran\u00e7a p\u00fablica em ve\u00edculos como&nbsp;<em>EXTRA<\/em>, CBN e&nbsp;<em>O Globo<\/em>. O futebol, no entanto, sempre esteve presente. Ela come\u00e7ou a jogar no interior de Minas, em meio aos empregados da fazenda do pai. \u201cEra eu no meio de um monte de homens adultos\u201d, lembra. Saiu de casa aos 14 anos, jogou no pr\u00e9-universit\u00e1rio dos Estados Unidos e, quando voltou e foi morar no Rio, chegou at\u00e9 a passar em uma peneira do Fluminense, mas logo trocou o futebol profissional pela faculdade de jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Anos depois, a cobertura do vi\u00e9s mais pol\u00edtico do esporte rendeu a Gabi o posto de refer\u00eancia na \u00e1rea. Hoje, ela \u00e9 a \u00fanica jornalista mulher da ESPN a&nbsp;<a href=\"http:\/\/espn.uol.com.br\/blogs\/gabrielamoreira\">comandar um blog<\/a>&nbsp;no portal principal da emissora, e suas reportagens, frequentemente trazendo algum furo dos bastidores esportivos, a tornaram presen\u00e7a constante nos programas da grade.<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cdn.espn.com.br\/thumb\/622_eebe5734-d48c-31c9-8050-e956f2e55e0e.jpg\" alt=\"Gabriela Moreira em uma de suas participa\u00e7\u00f5es no Bate-Bola, da ESPN. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ESPN\" title=\"Gabriela Moreira em uma de suas participa\u00e7\u00f5es no Bate-Bola, da ESPN. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ESPN\"\/><figcaption>Gabriela Moreira em uma de suas participa\u00e7\u00f5es no Bate-Bola. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ESPN<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Todo esse cacife, contudo, n\u00e3o impede as sobrancelhas de se levantarem com desconfian\u00e7a, de novo e de novo, cada vez que ela d\u00e1 uma informa\u00e7\u00e3o. Um dia antes de nossa conversa, Gabi havia acabado de publicar que a Mancha Verde, principal organizada do Palmeiras, passaria a proibir os gritos de \u201cbicha\u201d no est\u00e1dio. A torcida, contudo, resolveu negar que esse grito sequer existia. Foram dias intensos. \u201cAs redes sociais deixaram a gente muito exposta a opini\u00f5es completamente degradantes. Geralmente as not\u00edcias que eu escrevo n\u00e3o agradam. Mas te convido a olhar quando um colega homem escreve, como \u00e9 que eles s\u00e3o recebidos. Que tipo de coment\u00e1rios s\u00e3o feito deles e que tipo de coment\u00e1rios s\u00e3o feitos a respeito das mulheres.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E nem sempre os coment\u00e1rios desestimulantes v\u00eam s\u00f3 dos fan\u00e1ticos em redes sociais. \u201cO seu interlocutor, o jogador ou dirigente que voc\u00ea t\u00e1 confrontando, sempre te olha com um olhar desconfiado e excludente. Do tipo \u2018n\u00e3o, essa menina n\u00e3o sabe do que ela t\u00e1 falando. Ela n\u00e3o entende de futebol, essa pergunta dela n\u00e3o faz sentido por isso\u2019. E dos colegas tamb\u00e9m. O tempo todo. \u00c9 claro que tem muita gente que n\u00e3o \u00e9 machista ou preconceituoso. Mas tem TV\u2019s importantes no Brasil que, por exemplo, n\u00e3o escalam mulheres pra fazer transmiss\u00f5es de finais, de cl\u00e1ssicos. Voc\u00ea tem que pular obst\u00e1culos muito maiores para provar que \u00e9 capaz.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A baiana Clara Albuquerque, do Esporte Interativo, foi por muito tempo a \u00fanica mulher comentarista de jogos de futebol masculinos. Ela come\u00e7ou a comentar na TV Bahia, durante o Campeonato Baiano de 2011. Depois, foi para o Premiere FC e o SporTV, ambos da Globosat, antes de chegar ao Esporte Interativo \u2014 onde comentou a s\u00e9rie C antes de virar correspondente na It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o papel de comentarista, de partidas ou nos programas de debate, ainda \u00e9 majoritariamente restrito aos homens. Para Clara, h\u00e1, sim, uma barreira \u2014 dos torcedores e dos que contratam. \u201cN\u00e3o tenho d\u00favida de que ainda h\u00e1 preconceito. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que n\u00e3o tem comentarista mulher na televis\u00e3o. E com certeza existe muito mais mulher que tem conte\u00fado e conhecimento para isso, mas que n\u00e3o teve a chance\u201d, diz. \u201cQuando um cara est\u00e1 ali te assistindo e recebendo sua informa\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea \u00e9 um comentarista homem e ele discorda de voc\u00ea, o primeiro ataque \u00e9 dizer que o comentarista torce para o time rival ou est\u00e1 tentando manipular alguma coisa. Mas se voc\u00ea \u00e9 mulher, o cara j\u00e1 diz que voc\u00ea n\u00e3o entende de futebol e parte at\u00e9 para ofensas mais pesadas, em rela\u00e7\u00e3o a assuntos pessoais, que a gente tem de relevar para seguir em frente. Isso mostra que existe um preconceito e a mulher tem um trabalho maior pra mostrar que entende.\u201d<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm5.staticflickr.com\/4351\/36775640775_4bb842fa74_b.jpg\" alt=\"Clara Albuquerque em transmiss\u00e3o da Copa do Nordeste pelo Esporte Interativo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/EI\" width=\"554\" height=\"413\" title=\"Clara Albuquerque foi pioneira ao ser escalada para comentar partidas de futebol ao vivo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/EI\"\/><figcaption>Clara Albuquerque em uma de suas participa\u00e7\u00f5es como comentarista na Copa do Nordeste. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/EI<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>\u201cA mulher tem que ser perfeita. Ela n\u00e3o tem direito de errar\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Rep\u00f3rter do SporTV h\u00e1 quatro anos e ativa nas redes sociais, L\u00edvia Laranjeira n\u00e3o se cala quando o assunto \u00e9 desrespeito \u00e0s mulheres no esporte. O dia em que nos encontramos foi logo ap\u00f3s a bandeirinha Tatiane Sacilotti anular incorretamente um gol do Botafogo pelas oitavas de final da Copa do Brasil, que daria aos cariocas uma vantagem de 2&#215;0 sob o Sport&nbsp;\u2014&nbsp;o Botafogo se classificou mesmo assim, mas com mais dificuldade do que se o gol tivesse sido validado. Inconformada com as ofensas da torcida \u00e0 auxiliar, L\u00edvia reuniu em seu Facebook imagens de coment\u00e1rios que iam de \u201cVai pra pia\u201d a \u201cMulher bandeirinha j\u00e1 ficou provado que n\u00e3o d\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente tem que cobrar, tem que exigir que os \u00e1rbitros estejam mais bem preparados? Claro. Mas ela n\u00e3o est\u00e1 sendo criticada por um erro; est\u00e1 sendo criticada por ser mulher, por achar que ela podia OUSAR trabalhar com futebol sendo mulher. &#8216;T\u00e1 vendo, eu avisei que futebol n\u00e3o \u00e9 ambiente pra voc\u00ea&#8217;\u201d, diz a rep\u00f3rter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"680\" height=\"434\" src=\"https:\/\/farm5.staticflickr.com\/4369\/35966579513_ea467e1700_b.jpg\" alt=\"Coment\u00e1rios sobre a bandeirinha Tatiane Sacilotti, reunidos por Livia em seu Facebook. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Coment\u00e1rios sobre a bandeirinha Tatiane Sacilotti, reunidos por L\u00edvia em seu Facebook. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00edvia, que ficou conhecida por cobrir o acidente envolvendo o avi\u00e3o da Chapecoense no ano passado, acredita que o caso da bandeirinha mostra como mulheres ainda n\u00e3o s\u00e3o bem-vindas no meio do futebol. \u201cEm jornalismo \u00e9 a mesma coisa. Pra tudo que voc\u00ea faz, questiona-se a sua vida sexual, a sua compet\u00eancia. \u2018O que voc\u00ea fez pra conseguir essa exclusiva? Deve ter aberto as pernas pra algu\u00e9m\u2019. Os homens nunca v\u00e3o saber o que \u00e9 passar por isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o-paulina e nascida no interior paulista, Renata Mendon\u00e7a e mais quatro amigas criaram em 2015 o portal Dibradoras \u2014 um site esportivo feito por mulheres e com cobertura de esporte feminino. Para al\u00e9m dos milhares de seguidores do Dibradoras, Renata tamb\u00e9m foi estagi\u00e1ria na ESPN, produziu conte\u00fado sobre a Copa do Mundo de 2014 na BBC e segue trabalhando com esporte na emissora brit\u00e2nica. Ela nunca teve d\u00favidas de que queria atuar no jornalismo esportivo, mas aponta que a desconfian\u00e7a pr\u00e9via exige que as jornalistas sejam sempre impec\u00e1veis. \u201cMesmo que voc\u00ea n\u00e3o tenha dado motivo algum, editores desconfiam que voc\u00ea n\u00e3o vai saber isso ou aquilo. A mulher tem que ser perfeita, ela n\u00e3o tem direito de errar nem uma v\u00edrgula quando ela t\u00e1 fazendo esporte. Se ela errar, \u00e9 porque \u2018\u00f3, t\u00e1 vendo, n\u00e3o \u00e9 pra mulher isso a\u00ed\u2019. O homem tem mais licen\u00e7a pra errar; a mulher, n\u00e3o. No esporte ela precisa ser 150% boa, sen\u00e3o, n\u00e3o vai ser contratada. Enquanto o homem, se for bonzinho, j\u00e1 tem o espa\u00e7o dele. Exige-se mais da mulher porque j\u00e1 se parte do pressuposto de que ela n\u00e3o vai ser boa o suficiente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVoc\u00ea tem que provar tudo o tempo todo. E \u00e9 muito legal quando voc\u00ea consegue. Mas voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir responder tudo o tempo todo, porque ningu\u00e9m \u00e9 impec\u00e1vel\u201d, completa L\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cImagina quando eu crescer\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das primeiras jornalistas esportivas de que se tem not\u00edcia foi Isabela Scalabrini, que fez parte da primeira equipe do Globo Esporte, em 1979. Se fazer jornalismo esportivo para uma mulher j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil hoje, imagine na d\u00e9cada de 1980. Gra\u00e7as a uma \u201cchefia moderna\u201d, como ela mesma declarou mais tarde, a jornalista ganhou seu espa\u00e7o e, embora cobrisse mais esportes ol\u00edmpicos do que futebol, ficou marcada na hist\u00f3ria da televis\u00e3o brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de Scalabrini, entre os anos 1990 e 2010, vieram nomes como Mylena Ciribelli, na Manchete e na Globo; Soninha Francine, na ESPN; Milly Lacombe, no SporTV; Marluci Martins, no&nbsp;<em>Dia&nbsp;<\/em>e no&nbsp;<em>EXTRA<\/em>; Renata Fan, na Band.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/memoriaglobo.globo.com\/data\/files\/90\/17\/B3\/FE\/DA2CE31082C97BE3494B07A8\/globo__Jornalismo-Isabela%20Scalabrini%20I0000773__gallefull.JPG\" alt=\"Isabela Scalabrini. Foto: TV Globo\" title=\"Isabela Scalabrini. Foto: TV Globo\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Isabela Scalabrini fez parte da primeira equipe do Globo Esporte, em 1979. Foto: Arquivo TV Globo<\/p>\n\n\n\n<p>Para essa primeira gera\u00e7\u00e3o de desbravadoras, os obst\u00e1culos eram, h\u00e1 apenas dez anos, quase t\u00e3o grandes quanto os de Isabela Scalabrini em 1979. Soninha, ex-VJ da MTV e hoje trabalhando na pol\u00edtica, ouviu do t\u00e9cnico Vanderlei Luxemburgo, no ar, que era \u201cuma boa entrevistadora\u201d e \u201cmuito inteligente\u201d, mas \u201cn\u00e3o entende nada de futebol\u201d; Marluci, por sua vez, diz ter sobrevivido a d\u00e9cadas de jornalismo esportivo sem passar por epis\u00f3dios de discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, mas, h\u00e1 alguns meses, fez sua amarga estreia nesse rol \u2014 ao ouvir nas redes sociais que, \u201cse tivesse algu\u00e9m que a amasse e preenchesse seu tempo, n\u00e3o o perderia fazendo o mal e exercendo sua profiss\u00e3o de forma t\u00e3o suja\u201d, gra\u00e7as a uma not\u00edcia sobre o Flamengo que desagradou \u00e0 torcida; Milly, conquistando a duras penas seu espa\u00e7o nas mesas redondas ent\u00e3o 100% masculinas do SporTV, teve a carreira esportiva abreviada ao se desentender no ar com o ent\u00e3o goleiro do S\u00e3o Paulo, Rog\u00e9rio Ceni (fosse Milly um homem, a carreira teria acabado tamb\u00e9m?).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos percal\u00e7os, assistir a Mylena Ciribelli no Esporte Espetacular nos anos 2000 foi justamente uma das coisas que motivou Myussa Camillo, ent\u00e3o uma jovem corinthiana apaixonada por futebol e hoje coordenadora de reportagem do Esporte Interativo. \u201cEu j\u00e1 achava ela incr\u00edvel. Desde pequena eu olhava e falava &#8216;olha, imagina quando eu crescer&#8230;&#8217;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Paulistana da zona leste, Myussa cresceu assistindo ao pai em peladas de futebol e levando conte\u00fado esportivo a qualquer lugar que pudesse \u2014 at\u00e9 ao gr\u00eamio da escola. Mas, na hora de ligar a TV, eram poucas as refer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA parte de futebol ainda era muito masculinizada. Era um universo bem dos homens. Por mais que voc\u00ea visse mulheres na apresenta\u00e7\u00e3o, quando via reportagem feminina era de esportes que n\u00e3o eram massificados \u2014 todos os outros menos futebol. Se tinha uma reportagem foda de badminton, quem fez foi uma mulher. Pela sensibilidade, pela nossa facilidade de trabalhar com emo\u00e7\u00e3o, de ter percep\u00e7\u00e3o&#8230; Por todas as coisas que Freud explica. E \u00e0s vezes a gente at\u00e9 pode contar hist\u00f3rias melhor, mesmo. Ent\u00e3o, as mulheres eram colocadas muito nessa situa\u00e7\u00e3o: pra acompanhar o v\u00f4lei, o basquete\u201d, lembra. \u201cO futebol a gente demorou pra engrenar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm5.staticflickr.com\/4335\/35966578433_f4d9c424d5_o.jpg\" alt=\"Myussa, coordenadora de reportagem do Esporte Interativo, faz grava\u00e7\u00e3o na cobertura das Olimp\u00edadas de Londres, em 2012. Foto: Acervo pessoal\"\/><figcaption>Myussa na cobertura das Olimp\u00edadas de Londres, em 2012. Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Myussa, no fim, n\u00e3o tornou-se a Mylena Ciribelli: escolheu os bastidores. Se formou em R\u00e1dio e TV, e hoje coordena uma equipe de 12 pessoas na sucursal paulista do EI. Agora, \u00e9 ela quem manda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu, como gestora, entrevisto pessoas. E os candidatos homens, num primeiro momento, \u00e9 meio &#8216;olha, ela \u00e9 coordenadora de reportagem, ela t\u00e1 mandando nos rep\u00f3rteres aqui&#8217;. Tem isso. Durante a entrevista, \u00e9 super respeitoso, \u00f3bvio, a pessoa est\u00e1 nervosa. Mas tem um &#8216;ah, oi&#8217;. Sabe? Tem um lado de olharem pra mim e &#8216;nossa, caramba, olha onde ela t\u00e1&#8217; \u2014 mesmo que subjetivo. \u00c9 um estranhamento gostoso. Eu gosto de sentir essa sensa\u00e7\u00e3o. Sim, eu estou aqui. Sim, sou eu que vou te entrevistar. Um beijo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cEnt\u00e3o explica a\u00ed a regra do impedimento&#8230;\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro argumento para a aus\u00eancia de mulheres na imprensa esportiva \u00e9 a falta de interesse delas por esporte e o consequente despreparo para lidar com o assunto. Afinal, mulher, dizem, n\u00e3o gosta de futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ser\u00e1 mesmo? Segundo o censo de 2010 do IBGE, a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 51% feminina. S\u00e3o 103 milh\u00f5es de mulheres segundo dados atualizados em 2013. Em 2010, quando o Censo foi realizado, quase 70% delas \u2014 mais de 67 milh\u00f5es de mulheres \u2014 se declarou torcedora de algum time. \u00c9 mais ou menos uns 40% de todos os torcedores do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A audi\u00eancia feminina j\u00e1 representa um ter\u00e7o do total nas maiores emissoras esportivas por aqui, segundo&nbsp;<a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/uma-audiencia-que-veio-para-ficar\/\">dados internos<\/a>&nbsp;de ESPN, Esporte Interativo e Globosat (que responde pelos canais SporTV, Combate e Premiere). Na transmiss\u00e3o de 2016 da NFL, liga de futebol americano, a ESPN afirma que as mulheres foram mais de 40% dos espectadores atingidos. Na final da Copa do Mundo de 2014, metade da audi\u00eancia nas televis\u00f5es brasileiras veio das mulheres, segundo um estudo da ag\u00eancia de pesquisas Repucom. O mesmo levantamento aponta que, no Brasil, 34% das mulheres se interessam por eventos esportivos e 47% se interessam por assisti-los na TV.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros provam, portanto, que as mulheres tamb\u00e9m se interessam por esporte. Mas a desconfian\u00e7a e o preconceito tornam a vida delas muito mais dif\u00edcil nesse meio, e antes mesmo de chegarem ao jornalismo. \u201c\u2018Ah, voc\u00ea gosta de futebol? Explica a\u00ed a lei de impedimento, ent\u00e3o\u2019\u201d \u00e9 pergunta recorrente na vida de L\u00edvia \u2014 e na de muitas mulheres. \u201cQuantas vezes voc\u00ea j\u00e1 ouviu algu\u00e9m falar isso pra um homem?\u201d, questiona a rep\u00f3rter do SporTV.<\/p>\n\n\n\n<p>A exclus\u00e3o costuma come\u00e7ar logo na inf\u00e2ncia. Foi o caso de Mayara Munhos, que trabalha com edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos na ESPN e \u00e9 autora de um&nbsp;<a href=\"http:\/\/adminespnw.espn.com.br\/author\/mayara-munhos\/\">blog sobre jiu-jitsu<\/a>&nbsp;no ESPNw \u2014 portal da emissora dedicado a conte\u00fado sobre esporte feminino. Embora sua modalidade preferida seja mesmo o &#8220;jiu&#8221;, que ela luta desde os 13 anos, Mayara tamb\u00e9m se arriscava no futebol. Mas na hora de jogar na escola, n\u00e3o era tratada da mesma forma que os meninos. \u201cHoje eu paro pra pensar e era &#8216;ah, a Mayara vai jogar futebol, vai l\u00e1 pro gol&#8217;. Eu ficava triste de ir pro gol, mas ia. Na \u00e9poca, eu n\u00e3o percebia. Se fosse hoje em dia, ia dar \u2018aloka\u2019\u201d, brinca.<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm5.staticflickr.com\/4425\/35966578943_5f7c46d69a_o.jpg\" alt=\"A editora e blogueira Mayra Munhos, \u00e0 direita, em uma de suas competi\u00e7\u00f5es de jiu-jitsu. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Instagram\/sinistrophotofilm\" width=\"535\" height=\"280\" title=\"A editora e blogueira Mayra Munhos, \u00e0 direita, em uma de suas competi\u00e7\u00f5es de jiu-jitsu. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Instagram\/sinistrophotofilm\"\/><figcaption>A editora Mayara Munhos, \u00e0 direita, em uma competi\u00e7\u00e3o de jiu-jitsu. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/sinistrophotofilm<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>\u201cVoc\u00ea \u00e9 mulher e, de repente, n\u00e3o jogou\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Herdando o amor por esporte da fam\u00edlia ga\u00facha, Olga Bagatini tamb\u00e9m nunca se limitou a assistir. A jornalista, que j\u00e1 trabalhou na Gazeta Esportiva e hoje escreve para o jornal Lance!, vivia com os joelhos ralados na inf\u00e2ncia, e j\u00e1 praticou muitos esportes diferentes \u2014 antes de o basquete se tornar o preferido. \u201cTeve um ano na quarta s\u00e9rie que eles come\u00e7aram a separar menino e menina na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. E a professora que dava aula pra menina dava alongamento, dan\u00e7a&#8230; eu odiava, odiava! Morria de inveja dos meninos que ficavam jogando. E lembro que eu enchi tanto o saco dela, que ela me colocou pra jogar com eles. E jogava de igual pra igual\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogar \u201cde igual pra igual\u201d tamb\u00e9m foi um jeito de Olga se afirmar como torcedora. \u201cComo eu jogava, os caras meio que me respeitavam na rodinha, sabe?&#8221;. A hist\u00f3ria dela \u00e9 uma constante entre as meninas, e foi demonstrada \u00e0s claras neste m\u00eas por Guto Ferreira, treinador do Internacional. Ao ser questionado pela rep\u00f3rter Kelly Costa sobre o baixo rendimento do Inter na vit\u00f3ria contra o Luverdense, pela 15\u00aa rodada da s\u00e9rie B do Campeonato Brasileiro, Ferreira disparou um sonoro \u201cn\u00e3o vou te fazer essa pergunta porque voc\u00ea \u00e9 mulher e, de repente, n\u00e3o jogou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s de responder sobre as dificuldades de seu time em campo, o t\u00e9cnico preferiu desacreditar a rep\u00f3rter usando, como argumento, seu g\u00eanero. Jogar, ent\u00e3o, tornou-se pr\u00e9-requisito para entender de futebol? S\u00f3 para as mulheres, ao que parece.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUm bom rep\u00f3rter n\u00e3o precisa saber jogar bola, precisa ser bem informado e saber fazer boas perguntas\u201d, escreveu L\u00edvia em seu Twitter ap\u00f3s o epis\u00f3dio. A l\u00f3gica do \u201cassisto, logo, jogo\u201d n\u00e3o se repetiu para ela, que n\u00e3o se encaixava muito no estere\u00f3tipo da menina-moleca que \u00e9 frequentemente empregado \u00e0s mulheres no esporte. Futebol, para L\u00edvia, era no sof\u00e1 com o pai, aos domingos \u2014 o que n\u00e3o a faz menos apaixonada e nem menos apta a exercer sua profiss\u00e3o. \u201cIsso d\u00e1 tilt na cabe\u00e7a das pessoas: \u2018Como voc\u00ea gosta de futebol mas n\u00e3o sabe jogar?\u2019. Mas eu n\u00e3o era boa, achava que eu passava vergonha. N\u00e3o era a minha\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na faculdade, L\u00edvia estagiou por dois anos nas revistas femininas&nbsp;<em>Criativa<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Glamour<\/em>, e chegou a ser contratada como rep\u00f3rter por l\u00e1 antes de ser selecionada para o Passaporte SporTV, que a trouxe ao jornalismo esportivo. Estere\u00f3tipo, portanto, n\u00e3o \u00e9 com ela. \u201cEu era bem patricinha, bem menininha, bem meiga e fofa&#8230; Ent\u00e3o, circulava bem entre as duas polariza\u00e7\u00f5es. Eu era muito amiga das meninas e gostava de falar de menino e maquiagem e, por outro lado, tamb\u00e9m conversava com os meninos e falava de jogo. Isso causava um estranhamento.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm5.staticflickr.com\/4391\/35966579493_30fdf59662_o.jpg\" alt=\"L\u00edvia Laranjeira em cobertura de partida da Chapecoense, no ano passado. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\" title=\"L\u00edvia Laranjeira em cobertura de partida da Chapecoense, no ano passado. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\"\/><figcaption>L\u00edvia Laranjeira em cobertura de partida da Chapecoense, no ano passado. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Jogando ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que, para toda menina apaixonada por futebol, o respeito nunca vem f\u00e1cil. Renata, do Dibradoras, conta que, quando era crian\u00e7a e morava em Sorocaba, no interior de S\u00e3o Paulo, o pai decidiu levar o irm\u00e3o ao est\u00e1dio, mas n\u00e3o a convidou. \u201cL\u00f3gico que na \u00e9poca eu n\u00e3o fazia essa rela\u00e7\u00e3o, de que ele n\u00e3o me chamou porque eu sou menina e menina n\u00e3o ia querer ir ao jogo. Mas hoje isso \u00e9 muito claro para mim.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA vida toda voc\u00ea vai enfrentar isso, de pessoas desconfiando da sua capacidade de entender, de gostar, de saber. Quando voc\u00ea pede pra taxistas colocarem no jogo, fica um &#8216;ah, mas voc\u00ea gosta de futebol?&#8217;\u201d, diz Renata.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo jogando e trabalhando com esporte, Olga diz que ainda hoje precisa dar \u201ca famosa carteirada\u201d. \u201cDepois de um tempo de discuss\u00e3o, quando o cara come\u00e7a a me diminuir, eu falo &#8216;n\u00e3o, mas eu trabalho na Gazeta, trabalho no Lance!, sei do que eu t\u00f4 falando.\u2019\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cApesar de voc\u00ea ser muito bonita\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de todas as dificuldades, as jornalistas ainda carregam o fardo de lidar, diariamente, com a hipersexualiza\u00e7\u00e3o da figura feminina no esporte. De &#8220;inocentes&#8221; rankings de musa a situa\u00e7\u00f5es extremamente degradantes, o ass\u00e9dio atinge n\u00e3o s\u00f3 as mulheres da imprensa, mas tamb\u00e9m torcedoras, atletas, dirigentes e profissinais de arbitragem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu vou discordar de voc\u00ea, apesar de voc\u00ea ser muito bonita\u201d. O coment\u00e1rio veio do ent\u00e3o treinador do Fluminense, Levir Culpi, para uma rep\u00f3rter que lhe fazia uma pergunta durante uma coletiva de imprensa do clube, no ano passado. Assistindo ao epis\u00f3dio em casa, L\u00edvia reproduziu a frase no Twitter, ao lado de um \u201cat\u00e9 quando?\u201d. Mais de 300 compartilhamentos depois, o caso chegou aos ouvidos do pr\u00f3prio treinador.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi uma enxurrada de \u2018feminazi\u2019 ou \u2018voc\u00ea preferia que chamassem ela de feia?\u2019\u201d, lembra a rep\u00f3rter do SporTV. \u201cEu gosto do Levir, ele \u00e9 um cara legal. Mas foi uma quest\u00e3o de pensar um pouco. Primeiro que, em termos de sintaxe, essa frase n\u00e3o faz sentido. Qual a rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito entre uma coisa e outra? E isso n\u00e3o tem que ser colocado em quest\u00e3o quando ela est\u00e1 exercendo o trabalho dela. N\u00e3o \u00e9 legal. A gente n\u00e3o se sente elogiada, valorizada. N\u00e3o importa toda a an\u00e1lise que eu to fazendo, o que \u00e9 importa \u00e9 se eu sou ou n\u00e3o sou bonita\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Monique Danello, rep\u00f3rter do Esporte Interativo e hoje setorista do Flamengo, tem no curr\u00edculo uma cobertura de Champions League, duas Olimp\u00edadas, o primeiro t\u00edtulo mundial de handebol do Brasil e outros tantos momentos marcantes. Um curr\u00edculo de dar inveja. Mas quando ela aparece em transmiss\u00f5es do EI no Facebook, ningu\u00e9m liga muito para o que ela tem a dizer. \u201cQuando a gente come\u00e7ou a fazer os&nbsp;<em>lives<\/em>, ningu\u00e9m comentava sobre os assuntos que a gente tava falando. Era uma enxurrada de coment\u00e1rio de \u2018linda\u2019, \u2018aparece na frente da c\u00e2mera, voc\u00ea \u00e9 linda\u2019. O que \u00e9 uma idiotice\u201d, diz Monique.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/farm5.staticflickr.com\/4347\/36605594182_b30ee88647_o.jpg\" alt=\"Monique Danello, do Esporte Interativo, em entrevista com o atacante Marinho. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Facebook\" width=\"426\" height=\"368\" title=\"Monique Danello, do Esporte Interativo, em entrevista com o atacante Marinho. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Facebook\"\/><figcaption>L\u00edvia Laranjeira em cobertura de partida da Chapecoense, no ano passado. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na final da Copa do Brasil de 2015, entre Palmeiras e Santos, Gabi Moreira passou a partida ouvindo gritos de \u201cvagabunda\u201d. \u201c\u2018Voc\u00ea vai ver eu te chupando todinha, sua vagabunda\u2019, foi um dos gritos que ouvi por longos 40 minutos. Gritado por dezenas de torcedores, na frente de pessoas com as quais me relaciono diariamente. N\u00e3o pisquei, n\u00e3o desviei o olhar. Respirei bem de perto. [&#8230;]\u201d, escreveu a rep\u00f3rter, na ocasi\u00e3o, em sua p\u00e1gina no Facebook. \u201cO machismo n\u00e3o se instala somente no futebol. \u00c9 que aqui, ele ganha ares de licen\u00e7a po\u00e9tica. O machismo que vi na pol\u00edcia e na pol\u00edtica \u00e9 o mesmo. Mas aqui, ele sai entre um \u2018ol\u00ea, ol\u00ea, ol\u00e1\u2019, e vez em quando, depois de um \u2018chupa\u2019. [&#8230;]\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ofensas \u00e0s jornalistas mulheres n\u00e3o v\u00eam s\u00f3 dos torcedores, mas acontecem tamb\u00e9m dentro das reda\u00e7\u00f5es. Ou ao vivo, em programas cuja \u00fanica fun\u00e7\u00e3o da profissional \u00e9 ser \u201celogiada\u201d por colegas homens. L\u00edvia conta que, hoje, virou a \u201cfeminista chata\u201d, e esse tipo de coment\u00e1rio parou \u2014 com ela, mas n\u00e3o com as outras meninas. \u201cEles tentam te intimidar, e se voc\u00ea mostra fraqueza, \u00e9 menininha. Se voc\u00ea d\u00e1 na cara, a\u00ed sim merece respeito\u201d, diz. \u201cS\u00e3o poucas as meninas que falam [sobre ass\u00e9dio]. Porque a gente tem medo. Tem horas que voc\u00ea n\u00e3o quer falar, voc\u00ea n\u00e3o quer se indispor. P\u00f4, a gente est\u00e1 falando de carreira. Porque acaba. Com a da bandeirinha, com a da rep\u00f3rter, com a da mulher que tem a pachorra de querer trabalhar com esporte\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o, voltamos naquilo de que a menina tem de ser muito, muito apaixonada por futebol para passar por cima de todas essas coisas, sen\u00e3o ela acaba desistindo em algum momento\u201d, completa Clara. \u201cPorque n\u00e3o faz sentido voc\u00ea ficar batendo em algo que n\u00e3o \u00e9 aceita e com o qual n\u00e3o consegue se divertir. Provavelmente, o caminho de muitas meninas que poderiam gostar de futebol \u00e9 interrompido por causa disso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas apesar dos desafios, para todas elas, o sentimento \u00e9 um s\u00f3: as coisas est\u00e3o mudando, ainda que lentamente. E ter mais mulheres falando de esporte na imprensa \u00e9 um grande passo. Para que mais meninas entrem no mundo esportivo e para que mais delas, quem sabe, tornem-se jornalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mayara, no fim, faz uma analogia com o jiu-jitsu: \u201cno jiu, eu j\u00e1 fui treinar em academias em que n\u00e3o tinha menina. Mas a partir do momento em que entra uma, come\u00e7am a surgir muitas, porque uma vai indo atr\u00e1s da outra. E em tudo \u00e9 assim\u201d. Representatividade importa, sim \u2014 e tamb\u00e9m no jornalismo esportivo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Por&nbsp;<\/strong><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/heycaks\"><strong>Carol Oliveira<\/strong><br><\/a><\/em><em>carolinaoliveirafr@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os desafios das mulheres que trabalham na cobertura esportiva L\u00edvia Laranjeira, do SporTV; Renata Mendon\u00e7a, do Dibradoras; Monique Danello, do Esporte Interativo; Mayara \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=58\"> <\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":60,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-58","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-babel-julho-2017"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Desbravadoras: da arquibancada ao microfone - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=58\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Desbravadoras: da arquibancada ao microfone - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Os desafios das mulheres que trabalham na cobertura esportiva L\u00edvia Laranjeira, do SporTV; 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