{"id":565,"date":"2022-10-21T12:02:31","date_gmt":"2022-10-21T15:02:31","guid":{"rendered":"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=565"},"modified":"2022-12-13T20:30:52","modified_gmt":"2022-12-13T23:30:52","slug":"tcheca-com-tcheca-o-que-esta-por-traz-do-hit","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=565","title":{"rendered":"Tcheca com tcheca: o que est\u00e1 por traz do hit"},"content":{"rendered":"\r\n<p><em>O mashup que misturou Say So de Doja Cat com Danny Bond, cantora trans nordestina, reflete a industria musical contempor\u00e2nea<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Por <em>Daniel Terra e Jo\u00e3o Gabriel Telles<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A partir do instante em que voc\u00ea d\u00e1 <em>play<\/em>, vai crescendo uma batidinha pop suave, produzindo um ambiente pretensiosamente leve; \u00e9 como se voc\u00ea j\u00e1 soubesse o que vem pela frente: em suma, uma m\u00fasica que todos j\u00e1 ouviram alguma vez no shopping. Mas antes mesmo dos primeiros dez segundos, um an\u00fancio desvirtua a mensagem, e ele vem numa voz um tanto quanto estridente. \u201cIsso \u00e9 Danny Bond!\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00e3o, aquela batida an\u00f3dina n\u00e3o pausa de repente numa freada do disco do DJ; ela continua, surge ent\u00e3o um refr\u00e3o cantado em ingl\u00eas que passa despercebido, e novamente voc\u00ea se surpreende com os versos que se seguem:\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cTcheca com tcheca<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>balan\u00e7a essa perereca<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>o meu nome \u00e9 Danny Bond<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>e eu tenho uma pepeca<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o acredita,<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>vou mostrar para voc\u00ea.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Mas quando eu mostrar,<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>voc\u00ea vai ter que lamber<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00e3o vem com desculpinha,<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>n\u00e3o vem com piadinha<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Eu fa\u00e7o o que eu quiser<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>porque a tcheca \u00e9 minha\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Com rimas alternadas e redondilhas maiores (falhas em alguns versos, mas predominantes na maioria das estrofes) que remetem \u00e0 estrutura de quadras po\u00e9ticas, e um tom agressivo, ou melhor, afrontoso, que lembra composi\u00e7\u00f5es de rap, a cantora trans Danny Bond al\u00e7ou seu \u00f3rg\u00e3o sexual a uma fama raras vezes vista na hist\u00f3ria recente da m\u00fasica brasileira.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>LEIA MAIS <\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=543\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=543\">Discos de vinil movimentam ind\u00fastria fonogr\u00e1fica durante a pandemia<\/a><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=551\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=551\">Transi\u00e7\u00f5es de carreira mostram que sempre \u00e9 poss\u00edvel se reinventar<\/a><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Lan\u00e7ada no \u00e1lbum \u201cEpica\u201d, de 2017, a letra de \u201cTcheca\u201d estourou mesmo tr\u00eas anos depois, quando foi relan\u00e7ada na vers\u00e3o de um mashup, uma esp\u00e9cie de remix que mistura duas m\u00fasicas diferentes para criar uma terceira. Em vez do ritmo brega funk da can\u00e7\u00e3o original, adicionou-se a base pop retr\u00f4 de \u201cSay So\u201d, de Doja Cat, cuja voz tamb\u00e9m pode ser ouvida ao fundo cantando o refr\u00e3o \u2014 de \u201cSay So\u201d, n\u00e3o de \u201cTcheca\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O resultado, o v\u00eddeo \u201cDanny Bond x Doja Cat | Tcheca x Say So\u201d, que rapidamente chegou a milh\u00f5es de espectadores no YouTube e no TikTok, s\u00f3 foi poss\u00edvel porque Kika Boom, cantora drag queen e amiga de Bond, afirmou numa live que qualquer m\u00fasica fica boa quando tocada em cima do hit da artista californiana. A partir da dica, Bond convidou um colega em comum para realizar a colagem com sua m\u00fasica, o DJ e produtor S4TAN.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Natural de Santo Andr\u00e9, munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, o jovem de 27 anos preferiu n\u00e3o revelar o nome \u00e0 reportagem. Instado pela amiga, ele conta que \u00e0 \u00e9poca ficou com o p\u00e9 atr\u00e1s, pois n\u00e3o achava que o mashup faria sucesso. Ele mudou de ideia \u2014 ou melhor, foi finalmente convencido \u2014 quando a sugest\u00e3o parou nas redes sociais, \u201ca\u00ed as pessoas encheram minha inbox pedindo para eu fazer o mashup\u201d, e ele fez.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Embora fale sobre a m\u00fasica com orgulho, S4TAN n\u00e3o demonstra, em entrevista por Zoom, grande empolga\u00e7\u00e3o. Isso porque, poucos meses ap\u00f3s o sucesso inicial de \u201cTcheca x Say So\u201d, a produtora de Doja Cat queixou-se ao YouTube, que derrubou o canal do DJ, tirando do ar o v\u00eddeo com o mashup, que at\u00e9 ent\u00e3o somava mais de dois milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es, um n\u00famero animador para uma produ\u00e7\u00e3o independente. O v\u00eddeo ficou um bom tempo fora do ar e teve seu sucesso interrompido abruptamente, visto que o YouTube \u00e9 uma das principais plataformas de consumo de m\u00fasica da internet.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>S4TAN, portanto, teve de criar outro canal, o \u201cMashuka\u201d, pelo qual relan\u00e7ou o famoso remix, que hoje contabiliza cerca de 4,2 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es, ainda que, como ele afirma, esse n\u00famero a rigor seja bem maior, pois no per\u00edodo em que esteve banido surgiram diversos canais paralelos que republicaram o v\u00eddeo, dissipando a audi\u00eancia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cOs mashups que fa\u00e7o n\u00e3o d\u00e3o nenhum impulsionamento ao meu trabalho hoje, porque eles n\u00e3o mostram a minha produ\u00e7\u00e3o musical. Com mashups, n\u00e3o ganho nenhum dinheiro\u201d, ele afirma, contrariando a intui\u00e7\u00e3o de quem o conhece apenas pelo seu trabalho mais famoso. Sua renda atual, ele diz, vem sobretudo da produ\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o de shows e de m\u00fasicas suas ou de quem o contrata.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cEu ainda fa\u00e7o [mashups], mas \u00e9 pelo gosto, porque eu gosto de fazer isso e continuo produzindo. S\u00e3o coisas que meus seguidores tamb\u00e9m gostam. Tanto que, hoje, eu posto esporadicamente: n\u00e3o fa\u00e7o toda semana, a cada quinze dias. Eu posto uma vez no m\u00eas ou uma vez a cada dois meses, quando surge alguma ideia e eu falo \u2018Nossa, esse aqui ficou muito legal!\u2019.\u201d\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Um hit instant\u00e2neo formado a partir de duas can\u00e7\u00f5es que aparentemente n\u00e3o t\u00eam nada a ver; um grande impulsionamento atrav\u00e9s de redes sociais; a den\u00fancia de uma das partes que se julga v\u00edtima de pl\u00e1gio; o banimento por parte da plataforma que popularizou o produto. A soma de elementos desse caso n\u00e3o deixa d\u00favidas: a hist\u00f3ria de \u201cDanny Bond x Doja Cat | Tcheca x Say So\u201d \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o fiel do est\u00e1gio contempor\u00e2neo da ind\u00fastria cultural, no qual conte\u00fados s\u00e3o facilmente produzidos, facilmente editados, e cujas autorias s\u00e3o constantemente questionadas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>\u2018Everything Is a Remix\u2019<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O termo \u201cind\u00fastria cultural\u201d foi empregado pela primeira vez pelos fil\u00f3sofos Theodor Adorno e Max Horkheimer no livro \u201cDial\u00e9tica do Esclarecimento\u201d, publicado em 1949. Pedra angular do grupo de pensadores que ficou conhecido como Escola de Frankfurt, o livro foi uma das obras que primeiro e melhor discutiu a imita\u00e7\u00e3o e a repeti\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas que j\u00e1 vigoravam nos produtos culturais da \u00e9poca. De tend\u00eancia marxista, os autores tamb\u00e9m tinham um olhar bastante cr\u00edtico sobre as transforma\u00e7\u00f5es pelas quais passavam os meios de comunica\u00e7\u00e3o, cada vez mais soterrados pela l\u00f3gica capitalista de mercado.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Mais de 70 anos depois, o conceito criado pelos intelectuais que se instalaram nos Estados Unidos fugindo do nazismo tem suas defini\u00e7\u00f5es atualizadas a partir da emerg\u00eancia da internet. Agora, n\u00e3o se trata mais de meio, mas de softwares; n\u00e3o se trata mais de reprodu\u00e7\u00e3o ou imita\u00e7\u00e3o, mas de remix, samples e mashups. Talvez Adorno e Horkheimer n\u00e3o fizessem ideia da influ\u00eancia que o meio viria a ter sobre as cria\u00e7\u00f5es culturais. J\u00e1 Marshal McLuhan, intelectual candense que prosseguiu os estudos inaugurados por essa escola de pensamento, talvez j\u00e1 imaginasse o que estava por vir quando escreveu o famoso lema: \u201cO meio \u00e9 a mensagem\u201d. Fato \u00e9 que estavam ali descritas as bases do sistema de produ\u00e7\u00e3o cultural que impera atualmente.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Considerando que Adorno criticava o jazz, g\u00eanero musical avaliado pelo fil\u00f3sofo nos anos 1950 como produto de baix\u00edssimo valor art\u00edstico e atualmente associado \u00e0 alta cultura, pode-se imaginar o que ele diria quando os DJs novaiorquinos do Bronx Grandmaster Flash e Kool Herc misturaram batidas de diferentes m\u00fasicas sobre rimas improvisadas, inaugurando as cenas do hip-hop e do rap nos anos 1970. N\u00e3o demorou at\u00e9 essa esp\u00e9cie de enxerto musical ganhar outros g\u00eaneros como o R&amp;B e o funk. Nascia ent\u00e3o o sampleamento.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Tal inova\u00e7\u00e3o, ensejada pelo surgimento das chamadas \u201cturntables\u201d, isto \u00e9, aquelas mesas com toca-discos pilotadas por DJs, revolucionaria a hist\u00f3ria da m\u00fasica ao permitir a algu\u00e9m que n\u00e3o soubesse tocar nenhum instrumento criar novas m\u00fasicas a partir de outras preexistentes.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa \u00e9, em linhas gerais, a tese da s\u00e9rie documental \u201cEverything Is a Remix\u201d, criada entre 2010 e 2012 por Kirby Ferguson, que defende que a pr\u00e1tica de copiar, transformar e recombinar \u00e9 uma das bases da cultura ocidental. Tomando a m\u00fasica pop americana como fio condutor da narrativa, o filme mostra como os samples tornaram-se mais complexos e ecl\u00e9ticos \u00e0 medida que se popularizaram.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Formado em 1982, o grupo Public Enemy ficou conhecido por ser um dos primeiros a adicionar n\u00e3o apenas sons mel\u00f3dicos em suas can\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m falas, barulhos e trechos de discursos, o que desde logo acarretou acusa\u00e7\u00f5es de pl\u00e1gio e contendas judiciais. Na letra de \u201cCaught, Can We Get a Witness\u201d, de 1988, o vocalista Chuck D diz: \u201cFlagrado, agora no tribunal porque eu roubei uma batida \/ Este \u00e9 um esporte de sampling\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Um caso exemplar exposto no filme \u00e9 o da banda francesa Daft Punk, cujo hit \u201cOne More Time\u201d, lan\u00e7ado em 2000, \u00e9 fruto da recombina\u00e7\u00e3o integral da melodia de \u201cMore Spell on You\u201d, faixa do \u00e1lbum hom\u00f4nimo do cantor soul Eddie Jones, lan\u00e7ado em 1979.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em poucos anos, a internet estaria disseminada, aumentando ainda mais o acesso praticamente infinito ao acervo universal de todas as m\u00fasicas j\u00e1 gravadas. Um dos primeiros a se aproveitar de tal contexto foi Gregg Gillis, artista americano por tr\u00e1s de Girl Talk. Engenheiro biom\u00e9dico de forma\u00e7\u00e3o, Gillis se especializou paralelamente em fazer remixes e tornou-se um mestre do mashup. Girl Talk \u00e9 o nome que deu ao projeto que o celebrizou e que consistia numa s\u00e9rie de \u00e1lbuns flagrantemente copiados feitos para serem baixados online de gra\u00e7a. Com o prop\u00f3sito de desafiar o conceito de propriedade no universo da m\u00fasica, cada uma das m\u00fasicas foi feita a partir de mashups de in\u00fameros\u00a0 artistas famosos sem que fosse pedido qualquer permiss\u00e3o pelo uso. \u00c9 o que ele faz ao juntar, por exemplo, \u201cNew Soul\u201d, a m\u00fasica mais famosa da franco-israelense Yael Naim, com \u201cGet Me Bodied\u201d, de Beyonc\u00e9, redundando num trecho da can\u00e7\u00e3o \u201cNo Pause\u201d.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Tamb\u00e9m considerado mestre na arte do remix, o rapper Kanye West \u2014 agora rebatizado Ye \u2014 mudou a trajet\u00f3ria recente do hip-hop ao resgatar o autotune, recurso que altera a voz modulando-a \u00e0 maneira como o artista quiser, e principalmente ao misturar g\u00eaneros que parecem inconcili\u00e1veis em can\u00e7\u00f5es que alcan\u00e7am resultados surpreendentes. \u00c9 o que acontece na faixa \u201cFamous\u201d, do disco \u201cLife of Pablo\u201d, de 2016, em cujo trecho final o reggae de Sister Nancy \u00e9 combinado com Nina Simone, que \u201cfaz um dueto\u201d com Rihanna.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Nada se cria, tudo se transforma?<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em \u201cCultura Digital entre Distribui\u00e7\u00e3o e Remix\u201d, os professores Peter Krapp, da Universidade da Calif\u00f3rnia, e Gustavo Fischer, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), constroem um hist\u00f3rico da chamada \u201csoftwariza\u00e7\u00e3o da cultura\u201d. No artigo, publicado na revista Fronteiras em 2020, os autores argumentam que se, por um lado, a c\u00f3pia de conte\u00fados aconteceu em todas as \u00e9pocas, por outro, o computador \u2014 seja ele um desktop, notebook ou celular \u2014 \u00e9 atualmente n\u00e3o s\u00f3 obrigat\u00f3rio para produzir cultura, mas a condiciona.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Permitindo n\u00e3o apenas o acesso como tamb\u00e9m a manipula\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas, v\u00eddeos, imagens e textos, o software \u2014 ou os programas de computador, em outras palavras \u2014 tornaram-se, de certo modo, autores. Conforme explica Gustavo Fischer em entrevista \u00e0 reportagem, \u201cessa ideia de recortar e colar, essa funcionalidade quase banal que usamos no nosso dia a dia, cont\u00e9m na verdade um gesto est\u00e9tico, no sentido de que hoje muita gente manipula e modifica conte\u00fados para lan\u00e7\u00e1-los num novo contexto\u201d \u2014 e exibi-los sem se preocupar em parecer original.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No universo da m\u00fasica, tais interfer\u00eancias tecnol\u00f3gicas s\u00e3o vis\u00edveis. \u201cA gente est\u00e1 numa \u00e9poca um tanto paradoxal, por causa desse acesso total \u00e0 mem\u00f3ria audiovisual e sonora que est\u00e1 dispon\u00edvel a partir da internet. A gente tem a impress\u00e3o de que o tempo se achatou\u201d, diz Marcelo Bergamin Conter, que realizou um doutorado sobre como o g\u00eanero musical lo-fi foi impactado pela baixa defini\u00e7\u00e3o dos materiais de grava\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ele explica que, a partir dos anos 2000, \u00e9 poss\u00edvel dizer que houve uma tend\u00eancia de rever movimentos da m\u00fasica do s\u00e9culo 20 e reproduzi-los com uma \u201ccara nova\u201d. A banda Strokes revisitou o punk rock americano dos anos 1970, j\u00e1 Amy Winehouse revisitou o jazz e o blues dos anos 1950, para citar dois m\u00fasicos c\u00e9lebres. E quanto mais jovens os artistas, mais distantes s\u00e3o essas refer\u00eancias, o que faz com que eles criem can\u00e7\u00f5es a partir de uma esp\u00e9cie de nostalgia do que n\u00e3o viveram.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cA gente alimenta o computador como se ele fosse a partitura, como um pintor que mexe na obra at\u00e9 que as sensa\u00e7\u00f5es que ele gostaria de expressar surjam\u201d, afirma Conter.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Compondo letras e melodias a partir do quarto, o artista contempor\u00e2neo n\u00e3o tem como fugir da internet \u2014 o jeito \u00e9 fazer m\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o e abusar da ironia para tentar criar algo novo.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nesse estado em que \u201cnada est\u00e1 \u00e0 salvo\u201d da interven\u00e7\u00e3o alheia, em que tudo torna-se poss\u00edvel de editar, surge a pergunta inevit\u00e1vel: como regular os direitos autorais? Com suas produ\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis no torrent, no 4shared ou outros sites de download gratuito, os autores continuar\u00e3o tendo \u00e2nimo para continuar a compor? Ou, num jarg\u00e3o do mundo do direito, como fazer vigorar o Artigo 1, Se\u00e7\u00e3o 8 da constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, segundo o qual se deve \u201cpromover o progresso da ci\u00eancia e das artes \u00fateis, assegurando por tempo limitado aos autores e inventores o direito exclusivo aos seus respectivos escritos e descobertas\u201d?\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E mais: estaria a criatividade em risco com tamanho \u201ccopia e cola\u201d? Estaria a cultura, e a m\u00fasica em particular, fadada a um futuro feito de sucessivos passados?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Longe de propor respostas a essa quest\u00e3o, mas encarando-as de frente do ponto de vista criativo, artistas que se dedicam \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de remix, mashups e samples provocam o status de perman\u00eancia das obras de arte e nos lembram que, se algum dia a criatividade foi propriedade, esse tempo acabou.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O mashup que misturou Say So de Doja Cat com Danny Bond, cantora trans nordestina, reflete a industria musical contempor\u00e2nea Por Daniel Terra \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=565\"> <\/a>","protected":false},"author":113,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-565","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-revista-babel-julho-2017"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - 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