{"id":545,"date":"2021-06-21T11:28:50","date_gmt":"2021-06-21T14:28:50","guid":{"rendered":"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545"},"modified":"2022-12-13T21:53:31","modified_gmt":"2022-12-14T00:53:31","slug":"maternidade-real-as-diferentes-faces-do-exercicio-materno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545","title":{"rendered":"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno"},"content":{"rendered":"\r\n<p><em>A falta da exposi\u00e7\u00e3o das dificuldades da maternidade gera um silenciamento coletivo que aprisiona m\u00e3es em press\u00f5es sociais.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Por Mariana Cotrim e Samantha Prado<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cMaternidade compuls\u00f3ria\u201d \u00e9 o termo que define a ideia de que mulheres s\u00e3o incompletas sem filhos. Gerar descendentes \u00e9 visto como um passo essencial de suas vidas, n\u00e3o cumpri-lo \u00e9 estar obrigatoriamente desajustada \u00e0s \u201cleis naturais\u201d. A ideia de compuls\u00f3rio vem diretamente de compuls\u00e3o &#8211; ou seja, a perda da autonomia da decis\u00e3o. Essa \u00e9 uma press\u00e3o invis\u00edvel, condicionada \u00e0s meninas desde seus primeiros momentos na inf\u00e2ncia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nesse contexto, tornar-se m\u00e3e tem um teor que passa longe de poder ser classificado como uma liberdade &#8211; e essa caracter\u00edstica atravessa diferentes esferas. Criar crian\u00e7as em um mundo no qual o cuidado n\u00e3o \u00e9 um of\u00edcio remunerado e homens ainda n\u00e3o se sentem respons\u00e1veis pela carga mental e f\u00edsica desse exerc\u00edcio \u00e9 um trabalho exaustivo e sem fim.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00e3o h\u00e1 infraestrutura suficiente em creches p\u00fablicas e hor\u00e1rios compat\u00edveis com trabalhos formais, refor\u00e7ando estere\u00f3tipos que diminuem a capacidade feminina de dedicar-se ao mundo do trabalho. Quando n\u00e3o h\u00e1 estrutura de apoio, sempre s\u00e3o outras mulheres encarregadas do cuidado das crian\u00e7as &#8211; nunca homens. Locais p\u00fablicos n\u00e3o s\u00e3o preparados para crian\u00e7as, o que empurra m\u00e3es e filhos ainda mais para dentro de suas casas. Nosso pa\u00eds \u00e9 marcado pela viol\u00eancia de n\u00e3o dar op\u00e7\u00e3o para mulheres escolherem sobre a viabilidade de suas gravidezes, e mesmo assim \u00e9 um territ\u00f3rio com taxas alt\u00edssimas de viol\u00eancia obst\u00e9trica. Nesse ambiente hostil, mulheres m\u00e3es sentem-se solit\u00e1rias e, muitas vezes, pressionadas a gostar dessa maternidade que inviabiliza suas individualidades.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Leia mais:<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=249\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=249\">Brasil, o pa\u00eds que mais matou gr\u00e1vidas em meio \u00e0 pandemia<\/a><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=194\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=194\">\u201cN\u00e3o amava o meu beb\u00ea; quase o matei\u201d<\/a><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Evidentemente a experi\u00eancia de ser m\u00e3e \u00e9 extremamente multifacetada e subjetiva &#8211; por\u00e9m todas elas existem dentro do contexto de exig\u00eancias e sobrecarga que recaem sobre as mulheres, ao mesmo tempo que as pressiona a gostar dessa maternidade que as exclui, gerando culpa por terem emo\u00e7\u00f5es conflitantes em rela\u00e7\u00e3o ao exerc\u00edcio de ser m\u00e3e. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, algo tem mudado: in\u00fameras mulheres t\u00eam encontrado abertura para manifestarem suas experi\u00eancias de maneira mais real, quebrando parte do grosso silenciamento que ainda recobre a maternidade. Entre redes sociais, grupos privados e redes de apoio, elas compartilham suas mais diferentes viv\u00eancias e sentimentos em rela\u00e7\u00e3o ao cotidiano do trabalho materno. Esses compartilhamentos, por\u00e9m, nem sempre s\u00e3o bem vistos pela sociedade &#8211; que at\u00e9 aceita um reconhecimento ou outro das dificuldades de ser m\u00e3e, mas nada muito mais profundo que isso. Aquelas que ousam \u201cultrapassar limites\u201d sofrem repres\u00e1lias.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma dessas vozes \u00e9 a de Karla Ten\u00f3rio, criadora do grupo M\u00e3e Arrependida. Com o intuito de dar voz \u00e0s dores e problem\u00e1ticas da maternidade, o perfil no Instagram conta com quase 30 mil seguidores e compartilha relatos semanais para que mulheres possam desabafar entre si e se acolherem. O ponto de partida dessa constru\u00e7\u00e3o foi a pr\u00f3pria aceita\u00e7\u00e3o de Karla como uma m\u00e3e arrependida: \u201ceu sempre\u00a0 fui uma m\u00e3e arrependida, mas pra falar isso pra voc\u00ea desse jeito, com essa cara dura, eu precisei de muito trabalho pra me auto aceitar\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A atriz conta que sua jornada com a maternidade, ao contr\u00e1rio do muitos esperam, foi muito desejada e idealizada. Karla descobriu que queria ser m\u00e3e em uma viagem que fez \u00e0 \u00cdndia: &#8220;nunca tive o perfil de m\u00e3e, mesmo depois de casada, mas sempre fui muito espiritualista. Em 2008 fiz a viagem e ali, meditando no Rio Ganges, tive uma vis\u00e3o na qual eu ficava gr\u00e1vida, abria meu ventre para poder parir\u201d. A partir de ent\u00e3o, ela come\u00e7ou a se preparar: meditava muito, fazia aromaterapia, estudava partos em casa &#8211; passou cerca de um ano se planejando, entrando em um molde de idealiza\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00e3e divina\u201d, segundo ela. \u201cPor incr\u00edvel que pare\u00e7a, eu descobri que estava gr\u00e1vida mais ou menos no mesmo dia um ano depois, quando estava na \u00cdndia de novo. Eu fiquei muito feliz, minha gravidez foi iluminada, fiquei uma gr\u00e1vida maravilhosa\u201d, conta.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>As coisas mudaram, por\u00e9m, no seu momento de dar \u00e0 luz.\u00a0 Karla diz que o exato instante em que percebeu que n\u00e3o queria ser m\u00e3e, foi quando a cabe\u00e7a de sua filha saiu no parto: \u201calgumas pessoas se assustam, ficam sem gra\u00e7a quando eu conto, mas essa \u00e9 a verdade: a cabe\u00e7a saiu e eu tive meu primeiro arrependimento n\u00e3o cognitivo. Foi um arrependimento instintivo, costumo dizer que senti nas minhas c\u00e9lulas e a\u00ed pensei instintivamente \u2018cara, fudeu\u2019\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O choque de realidade que teve in\u00edcio no parto, prolongou-se nas suas experi\u00eancias seguintes, levando Karla a entender que nada do que ela tinha lido e se preparado at\u00e9 aquele momento era verdade. \u201cNos pr\u00f3ximos dias, ap\u00f3s o parto, voc\u00ea s\u00f3 sente dor. Mesmo que tenha sido pela vagina ou pela barriga. O meu parto foi normal, em casa e com uma parteira. N\u00e3o tive anestesia, n\u00e3o cortei o per\u00edneo e nem nada, mas doeu para um cacete. Foi extremamente traumatizante. Voc\u00ea precisa de um tempo para se recuperar mentalmente, psicologicamente, e isso n\u00e3o existe. Na hora seguinte a crian\u00e7a j\u00e1 t\u00e1 chorando porque t\u00e1 respirando mal, porque precisa de comida, ela j\u00e1 t\u00e1 fazendo coc\u00f4\u2026 ent\u00e3o voc\u00ea fala \u2018gente, o que aconteceu?\u201d, relata ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A atriz conta que a falta de refer\u00eancia para essa nova realidade que estava enfrentando, a fez sentir-se tra\u00edda por todas as mulheres que j\u00e1 haviam parido antes dela. \u201cEu considero que fui muito ing\u00eanua, inocente, burra em realmente acreditar que a crian\u00e7a nasce e d\u00e1 tudo certo. N\u00e3o existe essa realidade na literatura. Eu lia que a crian\u00e7a nasce e o amor \u00e9 incodicional. Ou isso \u00e9 coisa de m\u00e3e iluminada ou essa pessoa t\u00e1 se enganando. Quando o bebe nasce, voc\u00ea perde um lugar na sua hist\u00f3ria. Aquela que voc\u00ea era antes, morreu. Voc\u00ea passa a ficar cada segundo ligada \u00e0s necessidades daquela crian\u00e7a\u201d, diz Karla.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma das poucas exce\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que trazem \u00e0 tona os lados mais complexos do exerc\u00edcio materno \u00e9 a obra A maternidade e o encontro da pr\u00f3pria sombra, da autora argentina Laura Gutman. O livro trata de aspectos da psique feminina que s\u00e3o desvelados com a chegada dos filhos, abrindo a possibilidade de reformular ideias preconcebidas e autoritaritarismos encarnados em opini\u00f5es discut\u00edveis sobre a maternidade, cria\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos entre adultos e crian\u00e7as. Karla conta que s\u00f3 descobriu a obra ap\u00f3s ter tido sua filha, quando j\u00e1 estava imersa na dor.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A partir de ent\u00e3o, a idealizadora do M\u00e3e Arrependida come\u00e7ou a notar a exist\u00eancia de um c\u00f3digo de silenciamento entre as mulheres \u00e0 sua volta: \u201csolid\u00e3o e trai\u00e7\u00e3o foi o que eu senti, eu n\u00e3o podia falar nada porque as mulheres tinham um silenciamento. Para cada m\u00e3e que passava, eu ficava com aquele olh\u00e3o, esperando que algu\u00e9m me falasse \u2018olha, eu to fodida tamb\u00e9m. Voc\u00ea quer conversar sobre isso?\u2019. Mas n\u00e3o, elas passavam por mim e diziam \u2018ah \u00e9 um amor t\u00e3o grande n\u00e9?\u2019 e eu respondia \u2018nossa, muito\u2019, mas falava para mim mesma \u2018fodeu, eu sou um monstro\u2019. A\u00ed come\u00e7ou meu processo de me achar uma monstra, entende?\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Karla conta que os primeiros meses com sua rec\u00e9m nascida foram duros. A beb\u00ea passou sete meses ininterruptos sem dormir, realizando cochilos de 10 a 15 minutos a cada 24 horas, o que a levou a um estado psic\u00f3tico.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A psicose p\u00f3s-parto \u00e9 um dist\u00farbio psiqui\u00e1trico que pode atingir m\u00e3es ap\u00f3s algumas semanas de dar \u00e0 luz. Rara, ela acomete uma a cada mil pessoas &#8211; em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 depress\u00e3o puerperal que atinge uma a cada cinco mulheres &#8211; e pode levar a alguns sintomas como alucina\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00e3o de desconex\u00e3o com o beb\u00ea. Gravidez tardia, priva\u00e7\u00e3o de sono, hist\u00f3rico de transtorno bipolar e de casos anteriores de psicose na fam\u00edlia s\u00e3o considerados fatores de risco para desenvolvimento do dist\u00farbio. \u201cFoi um momento muito dif\u00edcil. Fisicamente eu tinha lapsos de tempo, ent\u00e3o eu estava aqui, piscava e j\u00e1 era de noite. As vezes eu achava que estava dando de mamar, mas ela n\u00e3o estava no meu peito. Isso durou vinte dias, um m\u00eas no m\u00e1ximo, por conta da falta de sono e do trauma do parto\u201d, compartilha Karla.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A atriz conta que, muito amedrontada, passou a anotar tudo o que fazia como uma t\u00e9cnica para se manter presente. \u201cEu anotava absolutamente cada segundo que se passava. \u2018Mamou 3 minutos no peito esquerdo, mamou 30 segundos no peito direito, fui na geladeira pegar \u00e1gua, fui ao banheiro&#8217;. Ficava com o rel\u00f3gio de um lado e a caneta com o caderno do outro. Isso foi me ajudando, mas era muita tristeza. \u00c9 como se eu estivesse dentro de um buraco, um vazio muito grande, e gritando por socorro, mas ningu\u00e9m me ouvia\u201d, diz ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Apesar de se sentir uma m\u00e3e arrependida desde o parto, Karla conta que passou por um longo processo de aceita\u00e7\u00e3o. \u201cA verdade \u00e9 que at\u00e9 hoje eu n\u00e3o me curei, n\u00e3o tem salva\u00e7\u00e3o. As pessoas veem que amo minha filha, que a gente tem uma vida saud\u00e1vel e muito bacana e me perguntam se agora eu n\u00e3o sou mais arrependida. Eu falo que n\u00e3o \u00e9 assim que as coisas funcionam. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma autoaceita\u00e7\u00e3o\u201d, declara a atriz.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O projeto M\u00e3e Arrependida nasceu por for\u00e7a da pr\u00f3pria natureza, segundo sua idealizadora. Karla diz que optou por ser radicalmente honesta com sua filha e, com seu entendimento e apoio, deu in\u00edcio \u00e0 pe\u00e7a que leva o nome do movimento. \u201cFiz o teatro de forma online, por conta da pandemia, e foi super legal, foi um grito de catarse. Era um espet\u00e1culo de curta temporada, at\u00e9 porque era uma pe\u00e7a muito forte, nem todo mundo entenderia\u201d, conta ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Apesar da excelente repercuss\u00e3o no meio cultural &#8211; sendo inclusive considerado pela Virada Cultural uma nova forma de fazer teatro &#8211; Karla diz que o impacto da pe\u00e7a n\u00e3o foi muito abrangente, muitos achavam que a situa\u00e7\u00e3o de m\u00e3e arrependida era uma experi\u00eancia pessoal e n\u00e3o algo que pudesse ser compartilhado. \u201cQuase ningu\u00e9m levou muito em considera\u00e7\u00e3o, achavam que era uma coisa minha. At\u00e9 amigas pr\u00f3ximas que me deram for\u00e7a e tudo mais n\u00e3o conseguiam entender. Eu compreendi como algo novo chegando e muito dif\u00edcil de ser digerido pela pr\u00f3pria mulher, pela pr\u00f3pria m\u00e3e\u201d, diz ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Tudo mudou, por\u00e9m, em maio deste ano, quando sua hist\u00f3ria e seu projeto foram noticiados em um depoimento para o Uol Universa sob o t\u00edtulo <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/noticias\/redacao\/2021\/05\/07\/sou-uma-mae-arrependida-desde-o-parto-da-minha-filha-diz-atriz.htm\">&#8220;Detesto ser m\u00e3e e ajudo outras mulheres a lidar com esse sentimento\u201d<\/a>. Ap\u00f3s a libera\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, Karla diz que recebeu uma enxurrada de mensagens: \u201cquando vem um ve\u00edculo e te reconhece, a\u00ed \u00e9 como se tivesse liderado voc\u00ea a assumir, entende? Ent\u00e3o at\u00e9 mulheres que antes achavam que ser uma m\u00e3e arrependida era algo muito subjetivo meu, vieram falar \u2018agora entendo completamente\u2019. Depois dessa mat\u00e9ria, centenas de milhares de pessoas vieram at\u00e9 mim falar\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Por conta disso, Karla compreende que o movimento nasceu da necessidade das pessoas de refletir e desabafar sobre aquilo: \u201cn\u00e3o fui eu que criei o movimento, ele que nasceu porque foi uma necessidade\u201d. Apesar disso, ele n\u00e3o foi muito bem recebido por certa parcela da sociedade. A atriz relata ter sofrido diversos ataques ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. \u201cFui amea\u00e7ada de morte, xingada de todos os nomes, \u2018diagnosticada\u2019 por diversos profissionais com transtorno narcisista, minha filha foi dada como uma futura deprimida e suicida\u2026 Foi, assim, absurdo\u201d, conta.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O movimento chegou at\u00e9 mesmo a chamar aten\u00e7\u00e3o de grandes personagens do governo Bolsonaro, incluindo a ativista Sarah Winter e o deputado Eduardo Bolsonaro que realizaram coment\u00e1rios nas redes sociais. Em meio a tantos ataques, Karla foi diversas vezes taxada como anticristo para alguns e como salvadora para outros, mas a idealizadora diz que n\u00e3o identifica seu projeto em nenhum desses papeis. \u201cEu sou s\u00f3 o que sou, t\u00f4 no meu processo. Acredito que cada pessoa quando se converte para seu pr\u00f3prio processo de cura, ela cura a sociedade &#8211; independente da bandeira que for. Eu entendo que minha bandeira \u00e9 um tabuz\u00e3o, mas n\u00e3o esperava, de verdade, tanta repercurs\u00e3o\u201d, diz ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Dentre tantas mensagens incomodadas que Karla recebe, v\u00e1rias incluem mulheres que dizem diagnostic\u00e1-la com algum transtorno psiqui\u00e1trico, encaix\u00e1-la em algum tipo de anormalidade como uma forma de afastamento das suas ideias. \u201cEu sinto que teve uma rea\u00e7\u00e3o das mulheres que s\u00e3o arrependidas e n\u00e3o tem coragem de assumir. Muitas m\u00e3es t\u00eam essa pegada de se mostrarem muito guerreiras e maravilhosas, mas a vontade que elas t\u00eam \u00e9 de mandar todo mundo para os ares. A\u00ed vem algu\u00e9m, fala isso abertamente e elas ficam \u2018como assim? Eu to aqui h\u00e1 d\u00e9cadas com esse peso, fingindo que gosto de ser m\u00e3e e voc\u00ea diz que pode se assumir m\u00e3e arrependida desse jeito?\u2019\u201d.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Outra caixinha que muitos tentam encaixar a idealizadora do movimento, \u00e9 de uma ex-m\u00e3e arrependida. \u201cAlguns caem nessa asneira de me salvar, de dizer \u2018ah, mas agora voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais arrependida, n\u00e9?\u2019 e eu sempre respondo que n\u00e3o \u00e9 assim que funciona. O que acontece n\u00e3o \u00e9 uma salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 um processo de auto aceita\u00e7\u00e3o que faz a culpa sair do sistema. A culpa \u00e9 o grande denominador comum nessa \u00e9tica crist\u00e3 que vivemos e que aprisiona os corpos femininos, mais propriamente os corpos das m\u00e3es\u201d, diz ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Justamente por isso, n\u00e3o \u00e9 uma surpresa a quantidade de ataques que M\u00e3e Arrependida recebe de pastores e de outras entidades religiosas: \u201c\u00e9 importante, pela \u00e9tica crist\u00e3, que uma m\u00e3e sinta culpa, porque assim ela fica mais conformada. Imagina uma mulher que n\u00e3o tem culpa do seu arrependimento e deixa o filho ser criado pela av\u00f3 ou pelo pai, ela \u00e9 vista como uma mulher perigosa\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para Karla, a aceita\u00e7\u00e3o como m\u00e3e arrependida passa n\u00e3o pela inviabiliza\u00e7\u00e3o da vida dos filhos, mas por um auto perd\u00e3o que leva \u00e0 lucidez de que o arrependimento em nada tem a ver com a crian\u00e7a e sim com o sistema no qual estamos inseridos. \u201cEssa culpa \u00e9 dif\u00edcil porque uma m\u00e3e que n\u00e3o tem a maturidade de separar essas coisas, come\u00e7a a depositar essa frustra\u00e7\u00e3o na crian\u00e7a e pode se tornar abusiva. Quando ela n\u00e3o consegue separar o que \u00e9 estrutura, o que \u00e9 esse peso do patriarcado, ela vai colocar a culpa na crian\u00e7a\u201d, diz a idealizadora do projeto.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Desde novembro de 2020, a conta no Instagram @maearrpendida j\u00e1 conta com mais de 29 mil seguidores e, h\u00e1 cinco meses, compartilha cotidianamente relatos de m\u00e3es que optam pela sinceridade de compartilhar suas experi\u00eancias e situa\u00e7\u00f5es de vida. Karla conta que nesse per\u00edodo do projeto j\u00e1 viveu in\u00fameros momentos marcantes e que, na maioria das vezes, s\u00e3o pesados de lidar. \u201cInfelizmente \u00e9 muito cruel a realidade das mulheres, a maior parte em vulnerabilidade social e psicol\u00f3gica. A maioria absoluta s\u00e3o m\u00e3es solos, que passaram por abandono dos maridos, sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica\u2026 \u00e9 muito dif\u00edcil. Eu fa\u00e7o amizade com essas manas, entro em contato com elas, nunca fica s\u00f3 ali no Instagram\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ela conta que uma situa\u00e7\u00e3o forte que passou nos \u00faltimos meses, foi o recebimento de mensagens de uma m\u00e3e dizendo que pretendia se suicidar. \u201cRecebi mensagem dizendo \u2018vou me matar\u2019 eu falei pera\u00ed, vamos conversar. Ela n\u00e3o se matou, mas est\u00e1 num estado super grave. Conseguimos psic\u00f3loga para ela, mas \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o muito complicada. Tudo o que eu t\u00f4 aqui te falando agora passa por escolaridade, por acesso a terapia\u2026 Imagina essas mulheres que nascem num n\u00edvel de vulnerabilidade e de viol\u00eancia que \u00e9 a realidade da maior parte do Brasil. Para conseguir sair dessa areia movedi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de escolha, tem algumas m\u00e3es que n\u00e3o tem nem no\u00e7\u00e3o de como conseguir sair dessa situa\u00e7\u00e3o\u201d, conta Karla.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E, de fato, \u00e9 imposs\u00edvel ignorar a maneira como a desigualdade social no pa\u00eds abala as estruturas familiares e, em especial, as condi\u00e7\u00f5es de vida das m\u00e3es. O ano de 2020, em especial, foi um per\u00edodo de retrocesso hist\u00f3rico para as latino-americanas em termos financeiros e profissionais acarretados pela pandemia. No Brasil, o oitavo pa\u00eds mais desigual do mundo, quase 8,5 milh\u00f5es de mulheres sa\u00edram do mercado de trabalho no terceiro trimestre do ano &#8211; atualmente, sua participa\u00e7\u00e3o representa o n\u00edvel mais baixo em tr\u00eas d\u00e9cadas segundo o IBGE. Dados divulgados pelo relat\u00f3rio das ONGs G\u00eanero e N\u00famero e da Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista (SOF), revelam que 50% das brasileiras passaram a cuidar de outra pessoa durante a pandemia. Quase 40% das entrevistadas afirmaram que o isolamento social colocou em risco o sustento da fam\u00edlia &#8211; afetando especialmente mulheres negras, que representavam cerca de 55% das impactadas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nessa equa\u00e7\u00e3o, as mais de 11,5 milh\u00f5es de m\u00e3es solo no pa\u00eds enfrentam maiores riscos e dificuldades na quest\u00e3o financeira, mas tamb\u00e9m nos impactos psicol\u00f3gicos da sobrecarga de tarefas. L\u00edderes comunit\u00e1rias do Rio de Janeiro, respons\u00e1veis pelo projeto Segura a Curva das M\u00e3es, relataram em entrevista ao jornal <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-53644826\">BBC News Brasil<\/a> a complexidade das circunst\u00e2ncias atravessadas por m\u00e3es em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social durante a pandemia. \u201cTodo dia chega para mim alguma m\u00e3e com pensamento suicida s\u00e9rio, ou algu\u00e9m dizendo &#8216;fala com aquela m\u00e3e, que ela n\u00e3o t\u00e1 bem&#8221;&#8217;, relatou Thais Ferreira, uma das ativistas engajadas no projeto criado em meio a crise da Covid-19. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, cerca de 80% das mulheres acompanhadas pelo projeto precisam de apoio psicol\u00f3gico com urg\u00eancia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Por fim, Karla enfatiza que o movimento M\u00e3e Arrependida em nada se relaciona a uma apologia ao \u00f3dio da maternidade: \u201cmuito pelo contr\u00e1rio, eu amo a minha filha. Esse \u00e9 um movimento de conscientiza\u00e7\u00e3o, de apropria\u00e7\u00e3o da mulher do seu corpo feminino e, acima de tudo, um movimento de express\u00e3o. S\u00f3 queremos poder ser honestas e desabafar para que essa culpa saia do sistema e n\u00e3o recaia sobre os nossos filhos. O que me preocupa nisso tudo s\u00e3o as crian\u00e7as, para que elas n\u00e3o sejam culpadas pelos seus nascimentos\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A maternidade real est\u00e1 muito longe da maternidade idealizada<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No Brasil, mulheres com filhos se sentem culpadas, cansadas e distantes do estere\u00f3tipo de m\u00e3e perfeita. Essa \u00e9 a conclus\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.institutoqualibest.com\/blog\/comunicacao-e-midia\/a-nova-mae-brasileira\/\">estudo \u201cA Nova M\u00e3e Brasileira\u201d<\/a>, realizado atrav\u00e9s de uma parceria entre o Instituto QualiBest e o blog Mulheres Incr\u00edveis, em 2016.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Das entrevistas, 46% afirmam que n\u00e3o se identificam com a ideia de \u201cm\u00e3e perfeita\u201d &#8211; sempre felizes, multitarefas, guerreiras e que vencem todo tipo de sacrif\u00edcio por seus filhos. 41% delas tamb\u00e9m admitiram n\u00e3o se sentirem representadas pela imagem da m\u00e3e na m\u00eddia em filmes, novelas e redes sociais &#8211; como \u00e9 o caso das influenciadoras digitais. \u201cA maternidade \u00e9 complicada, principalmente nos dias de hoje, quando existem v\u00e1rias m\u00e3es influencers, mostrando uma maternidade que n\u00e3o existe, mostrando apenas o lado bom\u201d, concorda Larissa Belinati, hoje m\u00e3e solo de uma menina.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>J\u00e1 Carolina Bezutt conta que n\u00e3o demorou muito para se deparar com o abismo de diferen\u00e7as entre a realidade e o mundo materno apresentado pela m\u00eddia: \u201ca minha rela\u00e7\u00e3o com a maternidade mudou quando descobri que ser m\u00e3e n\u00e3o tem nada a ver com aquela fantasia das capas de revistas, sites, blogs, influencers e tudo mais\u201d. Ela conta que ao longo da sua experi\u00eancia passou a notar que o exerc\u00edcio de ser m\u00e3e pode ser muitas vezes limitante. \u201cDescobri que a maternidade \u00e9 uma luta di\u00e1ria, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o na qual a gente tem que viver e sobreviver. A m\u00e3e n\u00e3o pode ficar doente, n\u00e3o pode marcar um compromisso sem ter a certeza que algu\u00e9m possa ficar com o beb\u00ea, buscar na escola, ajudar na alimenta\u00e7\u00e3o\u2026 Tudo \u00e9 muito diferente da maternidade que a gente v\u00ea em que a m\u00e3e sai para trabalhar e leva tranquilamente o filho para a escola. Eu at\u00e9 tentei ir por essa linha, mas quando eu me deparei com os pre\u00e7os de uma escola, o ensino, tudo isso\u2026 Foi a\u00ed que tive a maior decep\u00e7\u00e3o com a maternidade\u201d, relata ela.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa aus\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o entre a realidade e a imagem do \u201cser m\u00e3e\u201d \u00e9 um dos principais motores da cria\u00e7\u00e3o do movimento de maternidade real &#8211; algo que tem se disseminado principalmente pelas redes em forma de grupos de apoio. Para essas m\u00e3es, a oportunidade de compartilhar e admitir as dificuldades do mundo real e de suas experi\u00eancias n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de ajuste de expectativas, mas tamb\u00e9m uma maneira de se sentirem mais livres. \u201cPara mim \u00e9 uma forma de liberdade porque, em outros tempos, mulheres que diziam ter dificuldades eram vistas como m\u00e3es relapsas, m\u00e3es que n\u00e3o amavam os seus filhos. Ent\u00e3o poder dizer que tem perrengue, que tem hora que a gente fala \u2018meu Deus, onde eu tava com a cabe\u00e7a?\u2019 isso \u00e9 uma forma de liberdade. N\u00e3o significa que a gente n\u00e3o ame nossos filhos, mas que passamos por apuros tamb\u00e9m, que d\u00e1 vontade de sentar e chorar como eu j\u00e1 fiz debaixo do chuveiro\u201d, conta Alessandra Aparecida. Apesar das dificuldades, a t\u00e9cnica de enfermagem faz quest\u00e3o de ressaltar que a maternidade lhe deu uma nova perspectiva de vida: \u201cvieram meus tr\u00eas filhos e ent\u00e3o tudo mudou. Eu larguei minha carreira e me dediquei, e ainda me dedico, exclusivamente aos meninos. A maternidade foi uma dire\u00e7\u00e3o na minha vida, sabe?\u201d.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ang\u00e9lica Amarantes tamb\u00e9m v\u00ea o compartilhamento das dificuldades maternas da mesma forma: \u201c\u00e9 necess\u00e1rio se expressar mesmo porque nem tudo \u00e9 um mar de rosas. A gente tem que reformular um monte de coisa, reaprender muita coisa. Essa hist\u00f3ria antiga de que \u2018ser m\u00e3e \u00e9 padecer no para\u00edso\u2019, que a maternidade \u00e9 uma coisa maravilhosa 100% do tempo, isso \u00e9 realmente um mito\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em meio a esse movimento de encontrar liberdade nas confiss\u00f5es das dificuldades maternas, \u201camo meus filhos, mas odeio ser m\u00e3e\u201d tornou-se um testemunho comum entre muitas mulheres. Ainda que mal compreendida por muitos, a frase abrange a necessidade radical de desmistifica\u00e7\u00e3o da maternidade &#8211; o carinho, o cuidado e o amor pelos filhos n\u00e3o tem uma liga\u00e7\u00e3o direta com o exerc\u00edcio de ser m\u00e3e em si. \u201cEu odeio ser m\u00e3e por conta da responsabilidade que tenho de cuidar de um ser que depende de mim. N\u00e3o \u00e9 algo que eu gostaria de estar fazendo, mas fa\u00e7o porque Deus me concedeu essa d\u00e1diva\u201d, declara Roberta Silva*. Ela conta que n\u00e3o queria ser m\u00e3e e que n\u00e3o sente prazer em realizar as cansativas jornadas di\u00e1rias de cuidado, mas que isso n\u00e3o afeta o amor por suas crian\u00e7as: \u201ceu n\u00e3o gosto dessa coisa de ser m\u00e3e, mas amo os meus filhos porque sa\u00edram de dentro de mim. Tenho muito amor, muito carinho por eles, mas n\u00e3o gosto de fazer a mesma coisa todos os dias e viver esse extremo cansa\u00e7o\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Amanda Oliveira conta que tamb\u00e9m se identifica com a frase, especialmente por sua experi\u00eancia com a maternidade ter sido solit\u00e1ria. \u201cEu amo meus filhos, mas eu odeio a maternidade, odeio mesmo. \u00c9 muito sofrido para m\u00e3e, sabe? Eu, em especial, n\u00e3o tive a av\u00f3 deles para me ajudar. Ela mora em Curitiba e eu morava em S\u00e3o Paulo, ent\u00e3o ela ficou comigo at\u00e9 a bebe completar 21 dias e depois eu tive que assumir toda a responsabilidade\u201d, relata. Ela tamb\u00e9m conta que seu ex-marido nunca foi um pai presente, o que tornava a experi\u00eancia ainda mais dif\u00edcil: \u201cele n\u00e3o me ajudava. Eu passava v\u00e1rias noites sem dormir, chorava porque meus seios inchavam e eu n\u00e3o conseguia tirar o leite, tinha febre. Isso me deixou muito traumatizada. E todo mundo falava \u2018ah \u00e9 lindo a maternidade\u2019, mas eu n\u00e3o vi nada de lindo\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ainda segundo a pesquisa \u201cA Nova M\u00e3e Brasileira\u201d, outra mudan\u00e7a significativa pode ser vista na maneira como as m\u00e3es veem a si mesmas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade. Enquanto 51% das entrevistadas identificaram-se com a op\u00e7\u00e3o \u201ca m\u00e3e que ama seus filhos, mas tamb\u00e9m ama seu trabalho, seu parceiro e tem outros interesses na vida\u201d, apenas 18% elegeram a frase \u201ca m\u00e3e tem seus filhos como prioridade\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Biessa Diniz \u00e9 jornalista e, ap\u00f3s o nascimento de seu filho, uma m\u00e3e que exp\u00f5e e fala sobre maternidade real em suas redes sociais. Ela se encaixa no grupo de m\u00e3es que n\u00e3o se sentem reduzidas ao exerc\u00edcio da maternidade e que n\u00e3o acredita que isso anule suas outras partes como indiv\u00edduo. \u201cEu acho que a maternidade, de fato, toma muito do seu tempo, mas eu ainda acho que sou uma excelente profissional, uma \u00f3tima amiga. Eu ainda sou filha, esposa, uma pessoa divertida\u2026 Ent\u00e3o s\u00e3o diversas facetas que tenho. Antes eu adorava pintar, agora eu n\u00e3o tenho tido tempo, mas isso ainda faz parte de mim. N\u00e3o \u00e9 porque eu n\u00e3o tenho tempo para fazer que isso anula o que eu sou, o que eu gosto e outras milhares de coisas que sou\u201d, diz ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Mom-shaming: o peso dos palpites constantes na maternidade<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O excesso de palpites e sugest\u00f5es sobre gesta\u00e7\u00e3o, parto e cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o exatamente uma novidade no universo da maternidade. Em uma r\u00e1pida pesquisa na internet, \u00e9 poss\u00edvel achar uma dezena de artigos intitulados \u201ccomo driblar os palpites na cria\u00e7\u00e3o dos filhos?\u201d, oferecendo dicas para m\u00e3es sobrecarregadas de sugest\u00f5es alheias.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o comum, criou-se at\u00e9 mesmo um termo que sintetiza as opini\u00f5es e palpites que pessoas pr\u00f3ximas \u00e0 m\u00e3e oferecem, mesmo sem serem solicitadas: \u201cmom-shaming\u201d. A recorr\u00eancia desse tipo de epis\u00f3dio apenas refor\u00e7a o estere\u00f3tipo exaustivo da necessidade de ser \u2018a m\u00e3e perfeita\u2019.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Danielle Winner, m\u00e3e solo de 31 anos, conta que ao longo da sua experi\u00eancia como m\u00e3e o que n\u00e3o faltaram foram as \u201cfamosas cr\u00edticas encapsuladas em forma de conselhos\u201d, como ela mesma define. \u201cNossa, como eu ouvi \u2018voc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 sabendo amamentar sua filha, n\u00e3o \u00e9 assim que faz\u2019 ou \u2018meu deus, voc\u00ea colocou roupa demais nela, t\u00e1 sufocando a menina&#8221;&#8217;, conta. Danielle tamb\u00e9m relata a desigualdade das cobran\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao pai nesse excessivo palpitar da cria\u00e7\u00e3o: \u201cse seu filho se machuca voc\u00ea ouve \u2018onde t\u00e1 a m\u00e3e dessa crian\u00e7a?\u2019. Se ele fica doente, \u2018nossa, a m\u00e3e n\u00e3o deve cuidar bem, t\u00e1 sempre doente\u2019. E o pai? Qual \u00e9 o papel dele, n\u00e9? O duro \u00e9 que s\u00e3o mulheres julgando outras, sororidade zero\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E, de fato, boa parte dos coment\u00e1rios partem de outras mulheres. Em um estudo realizado no Hospital Infantil CS Mott, da Universidade de Michigan nos Estados Unidos, mais da metade das m\u00e3es de crian\u00e7as pequenas relatam ouvir cr\u00edticas sobre o modo como criam seus filhos. A maioria delas parte de seus pr\u00f3prios pais (37% dos casos) e sogros (36% dos casos), por\u00e9m tamb\u00e9m \u00e9 frequente os palpites partirem de outras m\u00e3es que encontram em p\u00fablico &#8211; representando cerca de 12% dos casos.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Amanda relata que faz parte da porcentagem mais alta da pesquisa. Ela conta que desde que sua filha era rec\u00e9m nascida at\u00e9 os dias de hoje, j\u00e1 adolescente, escuta intromiss\u00f5es constantes da m\u00e3e sobre a cria\u00e7\u00e3o de sua filha. \u201cQuando minha filha nasceu, eu s\u00f3 pegava ela para amamentar porque minha m\u00e3e n\u00e3o deixava eu tomar frente para cuidar dela. Ela falava \u2018ah, n\u00e3o cuida assim\u2019, \u2018desse jeito voc\u00ea acaba sufocando ela, tem que dar de mamar de outro jeito\u2019, \u2018banho n\u00e3o \u00e9 assim, \u00e9 desse jeito\u2019. Tudo o que eu fa\u00e7o ta errado, sabe?\u201d, desabafa ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>J\u00e1 Roberta conta que adentra a segunda maior porcentagem do estudo. Atualmente residindo na casa da sogra, ela lida constantemente com palpita\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia do marido e sente que muitas vezes tentam tomar \u00e0 frente no seu papel de m\u00e3e. \u201cEu n\u00e3o acho isso bacana porque \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que oprime. Acredito que cada m\u00e3e, mesmo do seu jeito simples, sabe o que \u00e9 melhor para o filho. Acredito que os palpites n\u00e3o s\u00e3o bem-vindos\u201d, relata ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>De fato, o \u2018mom-shaming\u2019 carrega um peso opressor para as m\u00e3es, podendo provocar inseguran\u00e7a, humilha\u00e7\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o e raiva. Segundo os especialistas a frente do estudo, o excesso de criticismo aumenta as tens\u00f5es envolvidas na cria\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e geram a sensa\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia de apoio. 42% das entrevistadas relataram sentirem-se mais inseguras com suas escolhas devido aos constantes palpites.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Larissa conta que al\u00e9m de lidar com cr\u00edticas e palpites, tamb\u00e9m vive situa\u00e7\u00f5es nas quais outros passam por cima da autoridade de m\u00e3e. Aos seis meses de idade, sua filha recebia danoninho enquanto ela estava fora de casa trabalhando, mesmo deixando claro que n\u00e3o queria que a alimentassem com a guloseima. \u201cEsse foi s\u00f3 um dos muitos casos\u201d, diz ela, tamb\u00e9m citando a fase da amamenta\u00e7\u00e3o: \u201ceu chorava para amamentar porque do\u00eda e me falavam muitas coisas. Chorava por me sentir a pior m\u00e3e do mundo\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para al\u00e9m de toda a press\u00e3o familiar, hoje em dia muitas m\u00e3es ainda lidam com um novo canal de recebimento de palpites: as redes sociais. Biessa, que compartilha sua jornada com a maternidade no Instagram, conta que um caso marcante entre os coment\u00e1rios e palpites que recebe nas redes, foi em rela\u00e7\u00e3o ao atraso da fala do seu filho. \u201cEu abri uma caixinha de perguntas sobre isso no Instagram e me perguntaram se ele tinha probabilidade de ter autismo. Eu expliquei que ele j\u00e1 passou por triagem com a neuro e que o laudo n\u00e3o foi conclusivo, ent\u00e3o o que tratamos agora \u00e9 o sintoma do atraso de fala em si. Nisso, veio outra pessoa me dizer \u2018ai gente, eu n\u00e3o aguento mais essa coisa de autismo, parece que virou moda. Toda m\u00e3e para se afirmar tem que ter um filho com problema\u2019. Essa eu nem dei o trabalho de responder, s\u00f3 bloqueei mesmo\u201d, conta ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Apesar dessa vigil\u00e2ncia virtual que tem contato, Biessa relata que o caso que a mais irritou partiu de uma desconhecida no meio da rua: \u201cquando meu beb\u00ea era bem pequeno eu ficava sozinha com ele em casa porque meu marido estava no trabalho e eu n\u00e3o tenho uma rede de apoio muito extensa. Sai com ele para dar um passeio e no meio da rua ele abriu um berreiro\u201d. Ela narra que estava voltando para casa ao perceber que o bebe n\u00e3o estava bem naquele ambiente, quando foi abordada por uma senhora desconhecida. \u201cPrimeiro que ela chegou e abriu o mosqueteiro do carrinho e eu j\u00e1 achei aquilo horr\u00edvel. Ent\u00e3o me passou um serm\u00e3o, falando que n\u00e3o devia estar na rua com ele. Eu virei para ela e disse \u2018minha senhora, vai tomar no olho do seu cu porque eu n\u00e3o perguntei nada\u2019\u201d. Rindo, ela conta que n\u00e3o esquece o epis\u00f3dio porque tinha respondido com muito gosto: \u201ceu era pu\u00e9rpera, estava sem dormir, ficava sozinha com ele, n\u00e3o tinha almo\u00e7ado e sai justamente para ir na lanchonete comer um sandu\u00edche. Ent\u00e3o me chega uma doida que nunca vi na minha vida para palpitar. Fala s\u00e9rio!\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>M\u00e3es solo: a realidade das mulheres que criam seus filhos sozinhas<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Amanda Oliveira deu fim ao relacionamento com seu marido em 2017. A bab\u00e1 e cuidadora de idosos tinha que equilibrar o relacionamento abusivo que vivia com a cria\u00e7\u00e3o de seus dois filhos. Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, ela se mudou de S\u00e3o Paulo, alugou uma casa e, agora, \u00e9 uma m\u00e3e solo que n\u00e3o conta com nenhuma ajuda financeira do ex-marido. \u201cEu me encontrei num momento de proteger meus filhos, abri m\u00e3o dessa minha vida de casa, de esposa para cuidar deles sozinha\u201d relata ela, que hoje se divide entre dois empregos e a cria\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Amanda enfrenta todas as dificuldades de uma m\u00e3e solo &#8211; mulheres que, sozinhas, s\u00e3o respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o dos filhos, no \u00e2mbito emocional e financeiro. O termo deixa de lado o uso da express\u00e3o \u201cm\u00e3e solteira\u201d, por se tratar de uma denomina\u00e7\u00e3o equivocada, j\u00e1 que a maternidade n\u00e3o se trata de um estado civil, mas sim de uma sobrecarga financeira e psicol\u00f3gica que essas m\u00e3es sofrem, como conta Hayeska Costa, em uma entrevista ao Podcast O Assunto, produzido pelo G1.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Segundo dados publicados no estudo \u201c<a href=\"https:\/\/www.ens.edu.br\/arquivos\/mulheres-chefes-de-familia-no-brasil-estudo-sobre-seguro-edicao-32_1.pdf\">Mulheres Chefes de Fam\u00edlia no Brasil: Avan\u00e7os e Desafios<\/a>\u201d, existem pelo menos 11,5 milh\u00f5es de m\u00e3es solo no pa\u00eds. A pesquisa aponta que o percentual de fam\u00edlias chefiadas por mulheres aumentou de 2001 a 2015, indo de 27,4% para 40,5%. Em entrevista ao <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/podcast\/o-assunto\/noticia\/2021\/08\/03\/o-assunto-508-maes-solo-a-realidade-no-brasil.ghtml\">Podcast O Assunto<\/a>, do G1, Suzana Cavenaghi explica esse aumento se deu pelo fato da amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o da\u00a0 mulher no mercado de trabalho &#8211; que n\u00e3o foi acompanhado por uma maior presen\u00e7a de homens ocupando as atividades dom\u00e9sticas, fazendo com que a responsabilidade dos filhos ainda seja majoritariamente feminina.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A carga psicol\u00f3gica que uma m\u00e3e solo \u00e9 encarregada pode ser gigantesca. Larissa Belinati a define como extremamente exaustiva. \u201cEu sempre tive uma rede de apoio e isso ajudou muito, mas a experi\u00eancia mais marcante foi ver minha filha rejeitando o seio, t\u00e3o pequena, foi muito frustrante. Ela tinha dois meses e chorava muito por n\u00e3o querer mamar, e todas as mamadas eram assim. Durou at\u00e9 os quatro meses, quando, por fim, ela realmente n\u00e3o queria mais o leite. Eu estava sozinha, muito frustrada\u201d, recorda.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Daniella Winner tamb\u00e9m passou por dificuldades depois que ficou com total responsabilidade da cria\u00e7\u00e3o de sua beb\u00ea. Ap\u00f3s algumas tentativas frustradas, Daniella engravidou em novembro de 2019, mas a preocupa\u00e7\u00e3o tomou o lugar de sua felicidade quando a pandemia do Coronav\u00edrus teve in\u00edcio, em mar\u00e7o de 2020. \u201cO medo de perder a minha filha era gigante. Eu n\u00e3o sabia a causa de tantas perdas gestacionais e eu lutei muito para que a Alice viesse ao mundo, me consultava num hospital de alto risco e fiz uso de heparina\u201d, relata. Logo nos primeiros meses ap\u00f3s o parto Daniella se tornou uma m\u00e3e solo &#8211; duas palavras que, para ela, tinham um peso muito grande. \u201cEm qualquer consulta que eu ia e o pai da minha filha n\u00e3o estivesse, perguntavam sobre o meu suposto marido, foi entristecedor. Vi os casais com suas fam\u00edlias e eu n\u00e3o tinha mais a minha\u201d, desabafa.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Al\u00e9m da falta de apoio, h\u00e1 aquelas que sofrem com os julgamentos. Amanda \u00e9 uma dessas m\u00e3es, que relata ser muito criticada na igreja em que frequenta. Em uma dessas situa\u00e7\u00f5es, um funcion\u00e1rio do local fez um coment\u00e1rio sobre Amanda ter um caso com um homem casado. Houveram outras situa\u00e7\u00f5es mas, para ela, \u00e9 importante n\u00e3o levar esses atos para o cora\u00e7\u00e3o: \u201ceu falo, gente coitada de mim! Eu levanto 6h40 da manh\u00e3, chego 7h30 da noite, a pessoa inventa cada hist\u00f3ria, sabe, ent\u00e3o essas coisas deixam a gente chateado\u201d. Para ela, a sociedade ainda tem grande preconceito com m\u00e3es solo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>M\u00e3es por ado\u00e7\u00e3o: n\u00e3o s\u00f3 a d\u00e1diva, mas tamb\u00e9m os desafios<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Outro tipo de maternidade comum e que ainda tem suas dificuldades \u00e9 a adotiva. Segundo dados do Sistema Nacional de Ado\u00e7\u00e3o e Acolhimento (SNA), h\u00e1 em torno de 39 mil crian\u00e7as acolhidas no territ\u00f3rio nacional e 4 mil dispon\u00edveis para ado\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, dados retirados do <a href=\"https:\/\/geracaoamanha.org.br\/ebook-adocao\/\">Guia da Ado\u00e7\u00e3o<\/a> feito pelo Instituto Gera\u00e7\u00e3o Amanh\u00e3,\u00a0 durante a pandemia o n\u00famero de ado\u00e7\u00f5es teve uma grande queda. Segundo o guia, dados do SNA de maio de 2021 mostram que muitas crian\u00e7as dispon\u00edveis para ado\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguir\u00e3o encontrar fam\u00edlias pois n\u00e3o correspondem aos perfis mais desejados pelos pretendentes. H\u00e1 abrigos que perdem a esperan\u00e7a de uma crian\u00e7a ser adotada por isso.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Foi o caso dos tr\u00eas filhos de Alessandra Aparecida &#8211; Everton, Felipe e Fernando. Alessandra tinha o sonho de ter filhos mas n\u00e3o conseguia ger\u00e1-los por causa de uma endometriose, e foi assim que decidiu, com seu marido, iniciar o processo de ado\u00e7\u00e3o. No entanto, o companheiro descobriu uma doen\u00e7a terminal e faleceu em poucos meses, colocando uma pausa no sonho de Alessandra. Seis meses ap\u00f3s o epis\u00f3dio, ela foi contatada pela Vara da Inf\u00e2ncia, mas como ainda n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de prosseguir com a ado\u00e7\u00e3o, iniciou um acompanhamento em grupos de apoio por um per\u00edodo at\u00e9 se sentir preparada para visitar abrigos. \u201cA princ\u00edpio eu fui m\u00e3e de apoio, n\u00e3o comecei com a ado\u00e7\u00e3o propriamente dita, eu ia nos finais de semana e escolhia a crian\u00e7a dentre as quais eu podia trazer para passar o final de semana comigo\u201d, conta Alessandra.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ela se recorda de como conheceu um de seus filhos, na primeira vez que foi ao abrigo: \u201ca assistente social conversou, me apresentou o abrigo e ela ia falando das crian\u00e7as. Ela passava por uma crian\u00e7a, descrevia e ela ia me passando por todas. Quando chegou no que seria o meu filho ela desviou, falou \u2018ah esse aqui n\u00e3o, ent\u00e3o esse aqui\u2026\u2019 Ela desviou dele, a\u00ed ela foi apresentando, chegando no Felipe ela tamb\u00e9m desviou e apresentou todos os outros\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quando as apresenta\u00e7\u00f5es terminaram, Alessandra quis saber porque a assistente social n\u00e3o havia detalhado as duas crian\u00e7as e, segundo a funcion\u00e1ria, aqueles eram meninos que h\u00e1 tempos ningu\u00e9m queria. Naquele fim de semana, Alessandra pediu para levar o que estava l\u00e1 h\u00e1 mais tempo, um dos que n\u00e3o haviam sido apresentados. Ele seria o seu mais novo, Everton, que na \u00e9poca tinha 2 anos de idade. No segundo fim de semana, ela pediu para levar o outro menino que n\u00e3o foi detalhado, irm\u00e3o de Everton. Felipe, que foi diagnosticado com S\u00edndrome de Asperger, passou um fim de semana tranquilo em sua casa. No terceiro final de semana ela quis conhecer o terceiro irm\u00e3o, Fernando, sobre o qual a assistente social s\u00f3 havia mencionado, mas nunca o mostrou e a rea\u00e7\u00e3o foi surpreendente: \u201cquando eu vi o Fernando, eu identifiquei na hora, falei \u2018gente, achei meu filho\u2019. T\u00e3o lindo, um pr\u00edncipe\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em sua estadia, Fernando contou \u00e0 Alessandra que precisava ficar com os irm\u00e3os se fosse adotado e a m\u00e3e come\u00e7ou a cogitar adotar as tr\u00eas crian\u00e7as. Depois de devolver o mais velho ao abrigo, ela relata que teve que tirar um tempo para tomar a decis\u00e3o final. Ap\u00f3s duas semanas longe do local, ela voltou ao abrigo e decidiu adotar os tr\u00eas. Depois de um longo processo de adapta\u00e7\u00e3o, em que os meninos tinham que voltar ao abrigo toda semana, Alessandra finalmente ganhou a guarda definitiva de seus tr\u00eas filhos. \u201cFoi o melhor dia da minha vida, meus tr\u00eas filhos comigo, aqui em casa todo dia, mudan\u00e7a de escola&#8230; e eu era uma pessoa sozinha, vi\u00fava, pisquei o olho e era m\u00e3e de tr\u00eas\u201d, recorda.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Com a ado\u00e7\u00e3o, Alessandra, que era t\u00e9cnica de enfermagem e professora de ingl\u00eas, abriu m\u00e3o de sua profiss\u00e3o para se dedicar exclusivamente \u00e0 maternidade. Ela atualmente tamb\u00e9m est\u00e1 no processo para adotar outra crian\u00e7a, dessa vez uma menina, e descreve estar sendo uma experi\u00eancia incr\u00edvel.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A satisfa\u00e7\u00e3o com a maternidade, entretanto, n\u00e3o tira das m\u00e3es a culpa. Para Alessandra, as m\u00e3es se sentem culpadas o tempo inteiro &#8211;\u00a0 ela n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, e conta que o sentimento veio pelo fato de ela ter largado sua profiss\u00e3o. \u201cEu queria ter podido continuar minha carreira, mas eles eram tr\u00eas, eu era solteira, e n\u00e3o tinha como continuar. Ent\u00e3o a gente se sente culpada o tempo inteiro mesmo, por \u00e0s vezes dar bronca, por ralhar, dar um tapa na bunda, mas de maneira geral a culpa tem muito a ver, no meu caso espec\u00edfico, com o excesso de amor. Eu queria sempre poder fazer mais. N\u00e3o os mimo, pelo contr\u00e1rio, mas eu sempre queria poder fazer mais\u201d, reflete Alessandra.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para Ang\u00e9lica Amarante dos Anjos, m\u00e3e adotiva de um menino de 15 anos, a culpa tem uma liga\u00e7\u00e3o com uma das fases da ado\u00e7\u00e3o &#8211; a dos testes. Essa fase, segundo a autora e criadora da p\u00e1gina do Facebook Anjos da Guarda Servi\u00e7os de Apoio \u00e0 Ado\u00e7\u00e3o, caracteriza-se por um momento em que a crian\u00e7a testa seus pais para sentir-se segura e garantir que pode confiar em seus futuros respons\u00e1veis. Quando esse momento chegou \u00e0 fam\u00edlia de Ang\u00e9lica, ela diz ter passado por situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o havia previsto.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cFilho n\u00e3o vem com um manual de instru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sabia direito como eu tinha que agir, mas eu fui descobrindo os caminhos. Confesso que foram situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis pra mim e me senti culpada porque eu tive sentimentos muito intensos de cansa\u00e7o, de raiva, de culpa. Eu precisei me encontrar como m\u00e3e, como ser respons\u00e1vel por um filho, e que tinha que fazer tudo pra dar certo, realmente foi um per\u00edodo dif\u00edcil\u201d, recorda Ang\u00e9lica. Apesar das dificuldades, ela ressalta que esse processo foi importante para fortalecer a rela\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Para ela, com muito carinho, amor, ajuda e preparo \u00e9 poss\u00edvel driblar essa fase e todas as dificuldades que v\u00eam com ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ang\u00e9lica sabe da import\u00e2ncia de estar em uma rede de discuss\u00e3o sobre a ado\u00e7\u00e3o para encarar todas as etapas desse processo. Para ela, a maternidade por via da ado\u00e7\u00e3o \u00e9 um tanto solit\u00e1ria, j\u00e1 que ela acredita que ainda existe, na sociedade, uma ideia equivocada de que a ado\u00e7\u00e3o seria uma \u201cmaternidade de segunda linha\u201d. Isso n\u00e3o a desanima, no entanto: \u201cantes de me entristecer ou de me aborrecer, isso apenas me mostra o quanto n\u00f3s temos que atuar na \u00e1rea da ado\u00e7\u00e3o pra mostrar para as pessoas que a maternidade atrav\u00e9s da ado\u00e7\u00e3o \u00e9 uma maternidade riqu\u00edssima nas alegrias, nas felicidades, nas descobertas, nas situa\u00e7\u00f5es desafiadoras, \u00e9 riqu\u00edssimo\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Na vis\u00e3o de Ang\u00e9lica, no momento em que ela adotou seu filho, ela tamb\u00e9m adotou toda uma rede ao redor dela: seu marido como pai, ela pr\u00f3pria como m\u00e3e e, ainda, todos os adotantes do mundo da ado\u00e7\u00e3o &#8211; e seus filhos tamb\u00e9m. Foi isso que a fez criar a p\u00e1gina no Facebook: dar apoio e compartilhar seus conhecimentos, o que a fez mergulhar cada vez mais nesse universo. Hoje, ela \u00e9 autora de dois livros, com hist\u00f3rias que pretendem ajudar pessoas a reavaliarem seus preconceitos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ang\u00e9lica ainda adiciona que n\u00e3o acredita que seja sorte de uma crian\u00e7a encontrar uma fam\u00edlia, como ela\u00a0 j\u00e1 ouviu antes de outras pessoas. \u201cN\u00e3o \u00e9 sorte, \u00e9 d\u00e1diva. Voc\u00ea querer ser m\u00e3e, se tornar m\u00e3e e ent\u00e3o o filho vem porque tinha que ser nosso mesmo, \u00e9 incr\u00edvel esse processo, essa afinidade\u201d, explica. Ao falar sobre isso, ela ainda se lembra de um epis\u00f3dio do in\u00edcio do processo de ado\u00e7\u00e3o: \u201ceu perguntei pro meu filho uma vez, quando ele ainda estava no abrigo, quais eram as comidas preferidas dele. Ele falou assim, &#8216;ah, eu gosto de pizza&#8217; e eu lembrei que o meu marido faz uma pizza maravilhosa, e fiquei imaginando \u2018ah meu deus, o meu filho n\u00e3o sabe aonde que ele foi parar, justo numa casa de pizzaiolo\u2019\u201d. Atualmente, na maioria dos s\u00e1bados, a principal atividade de pai e filho se resume a preparar uma pizza juntos. Para Ang\u00e9lica, a maternidade lhe deu mais que um filho maravilhoso, mas tamb\u00e9m plenitude e profunda comunh\u00e3o com outros seres humanos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>No parto e nas escolhas, a mulher nunca est\u00e1 no controle<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para Amanda, a maternidade chegou com alguns traumas. Em sua primeira gravidez, ela teve sua filha aos 17 anos. Al\u00e9m da falta de apoio que teve ap\u00f3s o parto, relata ter ouvido das enfermeiras coment\u00e1rios como \u201cna hora de fazer tava bom, agora vamo, vamo que tem o nen\u00e9m\u201d ou at\u00e9 \u201cano que vem ela t\u00e1 aqui de novo\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Segundo a Cartilha \u201c<a href=\"https:\/\/www.defensoria.sp.def.br\/dpesp\/repositorio\/34\/documentos\/cartilhas\/Cartilha_VO.pdf\">Conversando sobre Viol\u00eancia Obst\u00e9trica<\/a>\u201d, publicada pela Defensoria P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo, uma em quatro mulheres brasileiras sofre algum tipo de viol\u00eancia durante o atendimento do parto. Esse dado, retirado da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, abrange atos de desrespeito, ass\u00e9dio moral, viol\u00eancia f\u00edsica ou psicol\u00f3gica e neglig\u00eancia. Ainda, o inqu\u00e9rito \u201c<a href=\"https:\/\/nascernobrasil.ensp.fiocruz.br\/?us_portfolio=nascer-no-brasil\">Nascer no Brasil<\/a>\u201d, que coletou dados de 2011 e 2012, mostrou que 45% das gestantes atendidas pelo SUS sofrem algum tipo de abuso. A maioria dessas ocorr\u00eancias acontece em um momento de vulnerabilidade da mulher, quando ela n\u00e3o tem capacidade de tomar alguma medida pr\u00e1tica para interromper essa viol\u00eancia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A cartilha ainda d\u00e1 alguns exemplos do que \u00e9 considerado viol\u00eancia obst\u00e9trica, dentre eles o atendimento sem acolhimento \u00e0s necessidades, coment\u00e1rios constrangedores \u00e0 mulher, ofensas direcionadas a algum membro da fam\u00edlia, infus\u00e3o intravenosa para acelerar o processo do parto, dentre outros.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>De acordo com a ONG Artemis, criada com o intuito de erradicar a viol\u00eancia obst\u00e9trica, o tipo de viol\u00eancia mais comum na Am\u00e9rica Latina \u00e9 a episiotomia indiscriminada. O procedimento pode ser feito durante o trabalho de parto normal, e consiste em uma incis\u00e3o no per\u00edneo para facilitar a passagem do beb\u00ea. Evid\u00eancias\u00a0 cient\u00edficas mostram que a indica\u00e7\u00e3o \u00e9 de uso em 10% a 15% dos casos. Na Am\u00e9rica Latina, ela \u00e9 praticada em mais de 90% dos casos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ainda, segundo o artigo \u201cViol\u00eancia Obst\u00e9trica: um desafio para sa\u00fade p\u00fablica no Brasil\u201d, h\u00e1 resist\u00eancia de parte dos profissionais em usar esse termo. Inclusive, em maio de 2019, o pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Sa\u00fade emitiu um despacho defendendo abolir das pol\u00edticas p\u00fablicas o termo \u201cviol\u00eancia obst\u00e9trica\u201d. Quase dois meses depois, em junho de 2019, o Minist\u00e9rio voltou atr\u00e1s e reconheceu o termo e o direito leg\u00edtimo das mulheres de o utilizarem.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Segundo o artigo mencionado, \u00e9 comum esse desconforto entre profissionais da sa\u00fade em usar o termo, afinal de contas ele vai de encontro a pr\u00e1ticas que s\u00e3o rotineiras. Um exemplo que ilustra isso est\u00e1 no inqu\u00e9rito \u201cNascer no Brasil\u201d. Segundo o documento, as cesarianas no setor privado chegam a uma taxa de 88%, e no setor p\u00fablico, de 46%, sendo que a OMS recomenda que essa taxa n\u00e3o exceda 15%.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em seu segundo parto, Amanda teve complica\u00e7\u00f5es por conta de um erro m\u00e9dico decorrente de uma episiotomia. \u201cA enfermeira mal deu aten\u00e7\u00e3o a mim, o meu filho, quando ele foi sair na passagem dele, rasgou meu canal da urina, ent\u00e3o eu tive que fazer uma cirurgia e eu fiquei usando sonda por 50 dias\u201d, recorda. Os epis\u00f3dios que t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com isso s\u00e3o parte da raz\u00e3o pela qual Amanda, hoje, odeia a maternidade e ainda se sente traumatizada: \u201cfoi uma merda, n\u00e3o gosto nem de lembrar\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Carolina \u00e9 outra m\u00e3e que tamb\u00e9m sofreu esse tipo de viol\u00eancia quando teve seu filho. \u201cEu j\u00e1 estava com 39 semanas, fui para a maternidade com algumas dores e a m\u00e9dica diagnosticou que eu estava com uma infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria. Ela falou que teria que tirar o beb\u00ea, perguntou se as malas estavam no carro porque ela ia me internar para fazer a ces\u00e1rea\u201d, relembra. Carolina disse que a sensa\u00e7\u00e3o que ela tinha era de que sua filha foi arrancada, pois ela n\u00e3o estava a par de como ocorria o procedimento: \u201cquando eu me vi tomando soro, passando sonda, parada numa maca, indo para o centro cir\u00fargico, aquela emo\u00e7\u00e3o bateu e eu n\u00e3o sabia mais o que estava fazendo ali\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ap\u00f3s o nascimento, a beb\u00ea teve um desconforto respirat\u00f3rio, mas Carolina\u00a0 foi levada a uma sala p\u00f3s-parto para esperar o efeito da anestesia passar. Ela queria ver sua filha, mas a anestesia a impedia e s\u00f3 conseguiu v\u00ea-la \u00e0s 20h, oito horas depois do parto e, mesmo ap\u00f3s acordar, ela relata que disse \u00e0s enfermeiras que se sentia fraca e que n\u00e3o conseguia levantar da cama, mas mesmo assim a colocaram em uma cadeira de rodas para tomar banho. \u201cEu n\u00e3o conseguia controlar minha respira\u00e7\u00e3o, acabei vomitando, senti a dor horr\u00edvel do corte pela primeira vez e foi uma experi\u00eancia completamente desagrad\u00e1vel\u201d, relata. Meses depois, quando foi fazer a consulta pr\u00e9-natal de seu segundo filho, descobriu que, na maternidade onde teve seu primeiro parto, enfermeiros normalmente \u201cpesavam a m\u00e3o\u201d na quantidade de anestesia para que as m\u00e3es n\u00e3o incomodassem os enfermeiros.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essas situa\u00e7\u00f5es, somadas a outras que acontecem ao longo da maternidade, podem ter impactos para que mulheres n\u00e3o queiram mais ser m\u00e3es. Amanda \u00e9 uma dessas mulheres e atualmente luta na justi\u00e7a para que consiga fazer a laqueadura, at\u00e9 agora sem sucesso. \u201cEu j\u00e1 tenho dois filhos e a idade para poder operar, s\u00f3 que os psic\u00f3logos acham que eu posso casar de novo e meu outro marido futuramente pode querer ter um filho e eu n\u00e3o poder ter, essas coisas que eles ficam na cabe\u00e7a. Mesmo eu sabendo que n\u00e3o quero ser m\u00e3e\u201d, conta. N\u00e3o s\u00f3 pela falta de vontade de ser m\u00e3e, a laqueadura garantiria sua sa\u00fade: \u201co m\u00e9dico fala pra voc\u00ea que se voc\u00ea tiver outro filho voc\u00ea morre, voc\u00ea vai querer ter outro filho? N\u00e3o, eu n\u00e3o quero ter outro filho\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No Brasil, o direito de uma mulher de conseguir fazer uma laqueadura \u00e9 protegido pela Lei n\u00ba 9.263, na qual consta que mulheres acima de 25 anos ou com pelo menos dois filhos podem se submeter \u00e0 esteriliza\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria. Apesar dos direitos, s\u00e3o muitos os relatos de mulheres que n\u00e3o conseguem fazer o procedimento por recusa dos m\u00e9dicos, mesmo que elas tenham a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o querem ser m\u00e3es.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>H\u00e1 mulheres que, antes de engravidarem, n\u00e3o tinham o desejo de ser m\u00e3e, apesar de o assunto parecer um tabu. Roberta n\u00e3o tinha como objetivo de vida a maternidade: ela frequentava um curso t\u00e9cnico de est\u00e9tica e trabalhava para arcar com todos os custos de seus estudos. Para ela, ap\u00f3s ter se tornado m\u00e3e, a liberdade e privacidade foram duas coisas que mudaram na sua vida: \u201ceu n\u00e3o tenho mais a liberdade que eu tinha de sair, voltar a hora que eu queria, h\u00e1 a quest\u00e3o tamb\u00e9m do trabalho, por enquanto eu ainda n\u00e3o consegui trabalhar porque foram praticamente dois anos seguidos que eu fiquei gr\u00e1vida e que tive o beb\u00ea, ent\u00e3o n\u00e3o consegui trabalhar, somente por conta\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Roberta ainda conta que at\u00e9 queria recorrer ao aborto: \u201ceu sabia que a partir dali os meus sonhos seriam todos interrompidos durante um tempo, os meus sonhos iriam ficar estacionados, ent\u00e3o se o aborto fosse algo legalizado eu acho que nessa \u00e9poca eu teria feito\u201d. O aborto do Brasil s\u00f3 \u00e9 permitido se a gravidez decorreu de um estupro, se oferece risco \u00e0 vida da mulher, ou se h\u00e1 casos de anencefalia do feto.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Hoje, com os dois filhos em casa, ela j\u00e1 n\u00e3o pensa mais da mesma forma, mas diz ainda n\u00e3o saber o que \u00e9 maternidade e que se encontra em um processo de aceitar essa condi\u00e7\u00e3o. Mesmo pensando de forma diferente, Roberta ainda defende que \u00e9 importante que a mulher tenha liberdade para escolher se quer ser m\u00e3e ou n\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A desvaloriza\u00e7\u00e3o materna pela sociedade \u00e9 uma unanimidade<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Entre as nove m\u00e3es entrevistadas para essa reportagem, muitas foram as diverg\u00eancias e pontos em comum que encontramos entre suas opini\u00f5es, experi\u00eancias e hist\u00f3rias. Por\u00e9m, algo se ressalta como uma concord\u00e2ncia un\u00e2nime entre elas: a sociedade n\u00e3o valoriza o suficiente o trabalho das m\u00e3es.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para Carolina, a cobran\u00e7a a todo tempo \u00e9 o retrato da desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho materno. \u201cA m\u00e3e n\u00e3o pode ter erros, precisa ser perfeita. Ela precisa dar conta de tudo e se pedir ajuda \u00e9 considerada incapaz de cuidar do seu filho. Ela precisa ser 100% as 24 horas do dia e eu acho que isso \u00e9 muito, muito pesado\u201d, desabafa ela. \u201cEu mesma n\u00e3o consigo ficar o dia inteiro em casa, preciso ocupar minha mente nem que seja meia hora por dia no trabalho para poder tirar o foco da obriga\u00e7\u00e3o de ser m\u00e3e, de dar conta de tudo, de ter uma casa sempre impec\u00e1vel, filho arrumado e cheiroso, enfim\u2026 As pessoas s\u00f3 veem o lado negativo\u201d, conta.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>De fato, essa sensa\u00e7\u00e3o de exaust\u00e3o com a vida dom\u00e9stica e o cuidado materno s\u00f3 tem se agravado em meio aos \u00faltimos meses de pandemia. Em pesquisa do Atlas Pol\u00edtico, encomendada pelo <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021-05-11\/80-das-maes-brasileiras-se-sentem-cansadas-com-as-responsabilidades-domesticas-na-pandemia-entre-pais-indice-e-48.html#:~:text=Pesquisa%20Atlas%3A%2080%25%20das%20m%C3%A3es,esp%20Espa%C3%B1a\">El Pa\u00eds<\/a>, 80% das m\u00e3es alegaram cansa\u00e7o rotineiro pela situa\u00e7\u00e3o provocada pela crise sanit\u00e1ria, enquanto 74% afirmaram que o trabalho dom\u00e9stico e com os filhos aumentou neste per\u00edodo.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cMuitas vezes uma mulher sonha em ser m\u00e3e de forma totalmente fantasiada, como aconteceu comigo. Uma maternidade perfeita: a crian\u00e7a vai para escolinha, a gente trabalha, depois ficamos com eles\u2026 Mas vai muito al\u00e9m disso. E as pessoas n\u00e3o entendem, somos muito julgadas. Se a m\u00e3e trabalha fora o dia inteiro com a crian\u00e7a na escola: \u2018para que teve filho?\u2019. Se a m\u00e3e fica em casa o dia inteiro cuidando da crian\u00e7a: \u2018porque foi inventar de engravidar? Poderia estar trabalhando e ter uma vida melhor\u2019. Sempre tem um apontamento e isso d\u00f3i demais na maternidade porque a gente sempre tenta dar o nosso melhor\u201d, relata Carolina.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A mesma pesquisa realizada pelo Atlas Pol\u00edtico tamb\u00e9m traz um ponto interessante: em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3es, os pais s\u00e3o minoria no que se trata em sentir cansa\u00e7o ou aumento das responsabilidades de cuidado ao longo da pandemia. Enquanto 80% das m\u00e3es alegaram cansa\u00e7o pelo aumento das tarefas dom\u00e9sticas, apenas 48% dos pais concordavam com essa alega\u00e7\u00e3o. Esse pode ser apontado apenas como um dos ind\u00edcios das persistentes desigualdades no papel do cuidado e nas cobran\u00e7as na cria\u00e7\u00e3o de um filho entre m\u00e3e e pais.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cAcho que a sociedade n\u00e3o valoriza nenhum pouco o trabalho de ser m\u00e3e porque ao mesmo tempo que as pessoas acham que \u00e9 moleza, elas exigem uma demanda insana das mulheres e n\u00e3o pedem o mesmo dos pais\u201d, diz Biessa. Ela relata que as mesmas tarefas feitas por pais e m\u00e3es t\u00eam pesos diferentes &#8211; no caso das mulheres s\u00e3o vistas como meras obriga\u00e7\u00f5es; enquanto no caso dos homens, os fazem parecer um \u2018super pai\u2019: \u201cum bom pai n\u00e3o chega aos p\u00e9s do que uma m\u00e3e faz\u201d.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Dados do IBGE de 2018 apresentam que mulheres, em m\u00e9dia, dedicam 21,3 horas por semana a afazeres dom\u00e9sticos e cuidado de pessoas &#8211; quase o dobro de homens, cujo tempo gasto com as mesmas tarefas \u00e9 de 10,9 horas. Al\u00e9m disso, em<a href=\"https:\/\/outline.com\/8Ccu5A\"> pesquisa <\/a>realizada pela Ipsos em parceria com a universidade brit\u00e2nica King\u2019s College London, o Brasil aparece em terceiro lugar na lista de pa\u00edses que mais concordam com a afirma\u00e7\u00e3o \u201cum homem que fica em casa para cuidar dos filhos \u00e9 menos homem\u201d. Segundo o estudo, um quarto dos brasileiros (26%) concordam com a frase, deixando o pa\u00eds para tr\u00e1s apenas da Coreia do Sul e \u00cdndia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Biessa tamb\u00e9m relata as dificuldades empregat\u00edcias encontradas quando se \u00e9 m\u00e3e. \u201cSer m\u00e3e \u00e9 uma tarefa muito ingl\u00f3ria, porque a sociedade de fato n\u00e3o parece se importar &#8211; isso inclusive no mercado de trabalho. Parece que quando voc\u00ea vira m\u00e3e, anula todas as suas outras partes do seu ser. Voc\u00ea vai procurar um emprego e te perguntam \u2018quem fica com seu filho?\u2019, \u2018mas voc\u00ea tem um filho pequeno, como vai se dedicar\u2019. Eu ainda escuto muito minhas amigas falando disso e eu mesma j\u00e1 passei por algumas situa\u00e7\u00f5es assim\u201d, conta ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa \u00e9 a mesma situa\u00e7\u00e3o vivida por Larissa, que passa por dificuldades para retornar ao mercado de trabalho n\u00e3o apenas por conta da pandemia, mas pelo fato de ser m\u00e3e. \u201cQuando chega na entrevista, a empresa sempre opta por um profissional sem filhos. J\u00e1 trabalhei em RH e muitas empresas solicitam esse perfil para os recrutadores. Claro que eles n\u00e3o falam isso quando te d\u00e3o um retorno negativo, por\u00e9m no momento em que perguntam se voc\u00ea tem filho, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ver a fei\u00e7\u00e3o mudar\u201d, conta ela.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em um levantamento realizado pela plataforma empregat\u00edcia Vagas.com, no ano de 2018, 70,79% das candidatas entrevistadas relataram ter respondido perguntas sobre filhos ou planos de engravidar em seu \u00faltimo processo seletivo. O constrangimento no ambiente de trabalho tamb\u00e9m \u00e9 recorrente: 52% das m\u00e3es dizem ter passado por esse tipo de situa\u00e7\u00e3o durante a gravidez ou retorno da licen\u00e7a-maternidade.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa e muitas outras problem\u00e1ticas que as m\u00e3es enfrentam para criar seus filhos ou conciliar outras \u00e1reas da vida para al\u00e9m da maternidade s\u00e3o sintom\u00e1ticas de que, em nossa sociedade, as m\u00e3es n\u00e3o est\u00e3o sendo ouvidas em n\u00edvel social. Pr\u00e1ticas t\u00e3o essenciais para reprodu\u00e7\u00e3o humana como gerar, parir, amamentar e cuidar s\u00e3o profundamente ignoradas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cSem d\u00favida, \u00e9 preciso de muito mais para trazer conforto, tranquilidade e valoriza\u00e7\u00e3o para uma m\u00e3e. Em primeiro lugar, acho que a sociedade precisa valorizar mais o papel da mulher &#8211; como ser pensante, criador, cheio de potencial. A sociedade precisa ser mais inclusiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e. A quest\u00e3o de trabalhar, por exemplo, \u00e9 sempre complicada. Precisamos de mais estrutura e apoio\u201d, compartilha Ang\u00e9lica.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Neste sentido, nosso pa\u00eds vizinho j\u00e1 deu um primeiro passo. Em uma decis\u00e3o hist\u00f3rica no \u00faltimo m\u00eas de julho, a Argentina instituiu o decreto que reconhece o direito \u00e0 aposentadoria de m\u00e3es que dedicaram anos de suas vidas aos cuidados maternos. O benef\u00edcio \u00e9 direcionado a mulheres que est\u00e3o em idade de se aposentar e n\u00e3o t\u00eam os 30 anos m\u00ednimos exigidos de contribui\u00e7\u00e3o trabalhista. A medida modifica a Lei de Aposentadoria e Pens\u00f5es e tem a proje\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7ar cerca de 155 mil mulheres que poder\u00e3o acrescentar de um a tr\u00eas anos de tempo de servi\u00e7o por filho.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ang\u00e9lica tamb\u00e9m aponta a falta de medidas de lazer voltadas ao apoio materno. \u201cUma pol\u00edtica cultural e de lazer voltada a crian\u00e7as seria \u00f3timo &#8211; centros de conviv\u00eancia, centros de lazer, centros culturais\u2026 Muito mais do que temos hoje! Geralmente se associa muito o papel da mulher a apenas tarefas dom\u00e9sticas e cuidados com os filhos, mas eu acho que a pandemia trouxe uma no\u00e7\u00e3o mais real, de que a responsabilidade perante a casa e os filhos \u00e9 uma responsabilidade do casal\u201d, diz ela.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>J\u00e1 Roberta n\u00e3o esquece de pontuar que a valoriza\u00e7\u00e3o do papel da m\u00e3e tamb\u00e9m passa por maior respeito e empatia com suas experi\u00eancias. \u201cEu acho que a sociedade poderia ajudar n\u00e3o dando palpites, respeitando a vontade e o espa\u00e7o de cada uma, oferecendo ajuda quando precisamos e n\u00e3o julgando por nada nesse mundo. O que mais vejo em grupos s\u00e3o as pr\u00f3prias mulheres criticando e julgando outras, a maioria das cr\u00edticas n\u00e3o vem de homens. Ent\u00e3o eu acho que dever\u00edamos ter mais empatia e nos colocarmos no lugar da outra\u201d, opina ela.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A falta da exposi\u00e7\u00e3o das dificuldades da maternidade gera um silenciamento coletivo que aprisiona m\u00e3es em press\u00f5es sociais. Por Mariana Cotrim e Samantha \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545\"> <\/a>","protected":false},"author":107,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-545","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-revista-babel-julho-2021"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A falta da exposi\u00e7\u00e3o das dificuldades da maternidade gera um silenciamento coletivo que aprisiona m\u00e3es em press\u00f5es sociais. Por Mariana Cotrim e Samantha\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2021-06-21T14:28:50+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2022-12-14T00:53:31+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"MariSam SamMari\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"MariSam SamMari\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"53 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545\",\"url\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545\",\"name\":\"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno - Revista Babel\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#website\"},\"datePublished\":\"2021-06-21T14:28:50+00:00\",\"dateModified\":\"2022-12-14T00:53:31+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#\/schema\/person\/3c93b65a41be3e71e7a24b4cbf57c7d4\"},\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"Home\",\"item\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#website\",\"url\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/\",\"name\":\"Revista Babel\",\"description\":\"\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#\/schema\/person\/3c93b65a41be3e71e7a24b4cbf57c7d4\",\"name\":\"MariSam SamMari\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#\/schema\/person\/image\/\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/1ae902b554e3fbad5cafe6c35a2da1d113bdca646b21c85487b9ac91af79833a?s=96&d=mm&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/1ae902b554e3fbad5cafe6c35a2da1d113bdca646b21c85487b9ac91af79833a?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"MariSam SamMari\"},\"url\":\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?author=107\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno - Revista Babel","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545","og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno - Revista Babel","og_description":"A falta da exposi\u00e7\u00e3o das dificuldades da maternidade gera um silenciamento coletivo que aprisiona m\u00e3es em press\u00f5es sociais. Por Mariana Cotrim e Samantha","og_url":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545","og_site_name":"Revista Babel","article_published_time":"2021-06-21T14:28:50+00:00","article_modified_time":"2022-12-14T00:53:31+00:00","author":"MariSam SamMari","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"MariSam SamMari","Est. reading time":"53 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545","url":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545","name":"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno - Revista Babel","isPartOf":{"@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#website"},"datePublished":"2021-06-21T14:28:50+00:00","dateModified":"2022-12-14T00:53:31+00:00","author":{"@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#\/schema\/person\/3c93b65a41be3e71e7a24b4cbf57c7d4"},"breadcrumb":{"@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=545#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"Home","item":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Maternidade real: as diferentes faces do exerc\u00edcio materno"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#website","url":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/","name":"Revista Babel","description":"","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":"required name=search_term_string"}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#\/schema\/person\/3c93b65a41be3e71e7a24b4cbf57c7d4","name":"MariSam SamMari","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/#\/schema\/person\/image\/","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/1ae902b554e3fbad5cafe6c35a2da1d113bdca646b21c85487b9ac91af79833a?s=96&d=mm&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/1ae902b554e3fbad5cafe6c35a2da1d113bdca646b21c85487b9ac91af79833a?s=96&d=mm&r=g","caption":"MariSam SamMari"},"url":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?author=107"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/545","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/107"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=545"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/545\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":707,"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/545\/revisions\/707"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=545"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=545"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=545"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}