{"id":2187,"date":"2025-11-11T22:07:54","date_gmt":"2025-11-12T01:07:54","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2187"},"modified":"2025-11-14T20:30:54","modified_gmt":"2025-11-14T23:30:54","slug":"piada-zoacao-bullying","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2187","title":{"rendered":"Piada, zoa\u00e7\u00e3o, bullying\u2026"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(Imagem: Montagem Canva\/Maria Fernanda Barros)<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Da provoca\u00e7\u00e3o repetida aos discursos de \u00f3dio nas fam\u00edlias, escolas e internet<br \/>\n<\/span><\/i><\/p>\n<p><strong>Por <\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">Gabriel Bussolotti Silveira<\/span><\/p>\n<p>Vers\u00e3o em \u00e1udio:<\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: Audiodescri\u00e7\u00e3o - Piada, zoa\u00e7\u00e3o, bullying\u2026 \" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/5WpYs63p91zosiNv8bqyE7?si=4eea6046973745f4&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Thomas (nome fict\u00edcio) mora em S\u00e3o Paulo e come\u00e7ou a ter aulas de nata\u00e7\u00e3o h\u00e1 um m\u00eas. Ele faz duas vezes por semana e diz estar \u201caprendendo respira\u00e7\u00e3o\u201d. Em casa, o garoto de 9 anos gosta de jogar video-game. Seus jogos preferidos s\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">GTA<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Grand Theft Auto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Street Fighter<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, \u201ceu gosto mais do carequinha\u201d, comenta referindo-se a um personagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando pergunto se vai todo dia \u00e0 escola, Thomas responde \u201cmais ou menos, porque eu n\u00e3o gosto\u201d. Ele acorda \u00e0s seis horas da manh\u00e3 e come um \u201cp\u00e3o assado\u201d. Vai a p\u00e9 junto da m\u00e3e ao col\u00e9gio e suas aulas come\u00e7am \u00e0s sete horas. L\u00e1, diz estar aprendendo divis\u00e3o em matem\u00e1tica, sua mat\u00e9ria preferida. Em hist\u00f3ria, o assunto \u00e9 o \u201cpai da avia\u00e7\u00e3o\u201d, que \u201cmorreu em 1932 e nasceu em 1893\u201d, recorda de cabe\u00e7a as datas referentes a Santos Dumont.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 tr\u00eas anos, Thomas faz terapia. \u201cConverso sobre a minha vida, sobre a escola, sobre comida\u201d. Indago em rela\u00e7\u00e3o ao \u00faltimo t\u00f3pico. \u201cPorque eu tenho coisas no alimento\u201d, esclarece. Nara (nome fict\u00edcio), sua m\u00e3e, corrige dizendo que ele tem restritividade alimentar. Thomas menciona n\u00e3o poder ingerir corante, \u201cmas eu como\u201d, completa com um sorriso envergonhado. Revela adorar doce, principalmente o \u201cpirulito vermelho\u201d. No dia em que conversamos, ele tentou fazer um bolo de caneca. Ao inv\u00e9s de esquentar no microondas, colocou sobre uma boca de fog\u00e3o, o recipiente explodiu. Ningu\u00e9m se machucou, mas a cozinha ficou toda suja. Pergunto qual \u00e9 seu doce preferido. Empolgado, ele responde: \u201cdoce de leite!\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Faz tr\u00eas meses que Thomas mudou de col\u00e9gio. Ele diz que prefere a nova escola,\u00a0 \u201cporque eles me zoavam muito na outra. Falavam que eu era feio, que eu era chato, horroroso\u201d. Todos os dias, os colegas de turma passavam em sua mesa e o xingavam. Ele se sentia triste e n\u00e3o sabia explicar porque continuavam. Nara come\u00e7ou a perceber uma transforma\u00e7\u00e3o em seu comportamento: Thomas n\u00e3o queria ir mais para escola. \u201cAt\u00e9 que um dia no caminho de volta para casa, vimos uns meninos brigando, eram seis contra um. Falei para eles dispersarem e, quando chegamos em casa, o Thomas perguntou por que eu n\u00e3o o protegia dessa forma. Perguntei o que estava acontecendo e ele come\u00e7ou a relatar [sobre o Bullying]\u201d.<\/span><\/p>\n<h2><b><i>\u201cComecei a estudar Freud, como ele era egoc\u00eantrico e machista\u201d*<\/i><\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o fim da inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia s\u00e3o momentos turbulentos. Esse \u00e9 um tema recorrentemente tratado em livros, reportagens e conversas, mas, muitas vezes, de maneira pouco emp\u00e1tica. Uma das formas de entender o surgimento de conflitos nesse per\u00edodo da vida \u00e9 atrav\u00e9s da psican\u00e1lise.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tha\u00eds <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Z\u00e9lia do Santos, psiquiatra, psicanalista e professora do Departamento de Sa\u00fade Mental da Faculdade de Medicina Santa Casa de S\u00e3o Paulo<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, explica que \u201cpor conta, principalmente, da escola, a crian\u00e7a vai cada vez mais saindo de um lugar de fam\u00edlia e indo para um lugar de sociedade\u201d. Nesse processo, inicia-se um aprendizado de regras que orientam o conv\u00edvio social. O contato com quem \u00e9 considerado diferente envolve normas diversas do ambiente familiar, contrariando as no\u00e7\u00f5es anteriores. \u201cOs adolescentes j\u00e1 v\u00e3o para lugares com outras regras sociais comparadas \u00e0quelas da fam\u00edlia e da escola, o que gera os primeiros conflitos\u201d, completa Tha\u00eds.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em outras palavras, deseja-se fazer tudo nessa fase da vida, mas falta clareza do que se pode realizar, exatamente por cada situa\u00e7\u00e3o impor diferentes limites. O resultado disso s\u00e3o tens\u00f5es psicol\u00f3gicas, como exemplifica Tha\u00eds: \u201cA bebida alco\u00f3lica no nosso pa\u00eds \u00e9 s\u00f3 para maiores de 18 anos. Beber n\u00e3o \u00e9 natural, \u00e9 contra a lei. Mas existem diversos trabalhos e dados que mostram que o primeiro uso de bebida alco\u00f3lica \u00e9 dentro de casa, na adolesc\u00eancia. Vemos jovens bebendo por essa naturaliza\u00e7\u00e3o do comportamento. Isso j\u00e1 \u00e9 um conflito de regras muito bem estabelecido\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As consequ\u00eancia desses conflitos podem ser o aparecimento de sintomas ps\u00edquicos \u2013 por exemplo, ansiedade \u2013, assim como a manifesta\u00e7\u00e3o dos \u201ccomportamentos de experimenta\u00e7\u00e3o\u201d, como explica Tha\u00eds: \u201cN\u00f3s temos um tempo para entender todas essas regras sociais. N\u00e3o virou uma chavinha e as compreendemos. Existe um lugar muito comum na adolesc\u00eancia do at\u00e9 onde eu posso ir, at\u00e9 onde eu posso pisar, cutucar\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 nesse momento, ent\u00e3o, em que o bullying come\u00e7a a ser praticado. Christian Dunker, psicanalista e professor no Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, sintetiza em um <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=B7s8mSanUlo\"><span style=\"font-weight: 400;\">v\u00eddeo sobre bullying no seu canal de Youtube<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> da seguinte maneira: o adolescente se sente \u201cmarginalizado, desencontrado e fragilizado\u201d \u2013 muitas vezes, devido aos conflitos. Uma das formas de \u201cgerenciar\u201d esses\u00a0 sentimentos \u00e9 atrav\u00e9s da \u201cintimida\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o social\u201d ao outro \u2013 um \u201ccomportamento de experimenta\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/span><\/p>\n<h2><b><i>\u201cMuito doido ele odiar o pai e o imitar ao mesmo tempo\u201d<\/i><\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O bullying, na maioria das vezes, n\u00e3o surge ao acaso. Esse tipo de agress\u00e3o origina-se geralmente da reprodu\u00e7\u00e3o de um comportamento. De acordo com Tha\u00eds, \u00e9 comum do ser humano aprender e copiar, inclusive atitudes violentas. E um dos maiores modelos na adolesc\u00eancia \u00e9 a fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cQuando a gente tem uma situa\u00e7\u00e3o de bullying no qual o provocador \u00e9 muito cruel, geralmente \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o do que acontece no ambiente familiar. O lugar da provoca\u00e7\u00e3o, do apontamento de uma caracter\u00edstica f\u00edsica, preconceituosa, muitas vezes, \u00e9 cotidiano na fam\u00edlia e isso \u00e9 levado para a escola\u201d, explica a psiquiatra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A provoca\u00e7\u00e3o pode come\u00e7ar de uma maneira inconsciente, isto \u00e9, reproduzido sem inten\u00e7\u00e3o clara. Mas o funcionamento do bullying tem como base a repeti\u00e7\u00e3o. Em casos de adolescentes que sofrem algum tipo de viol\u00eancia em casa, ao reproduzirem esse comportamento, os mesmos deixam de estar no lugar da v\u00edtima e passam para o posto de opressor. A partir desse momento, evita-se o sofrimento, um al\u00edvio \u00e9 sentido e, consequentemente, obt\u00e9m-se um prazer. Dunker descreve o movimento do bullying como a corre\u00e7\u00e3o de um \u201cd\u00e9ficit de poder\u201d. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">bullie <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">agride e se coloca em um lugar de superioridade, invertendo o papel que lhe \u00e9 imposto no ambiente familiar. Expondo a v\u00edtima ao riso e ao rid\u00edculo, o agressor obt\u00e9m autoridade e subordina\u00e7\u00e3o dos colegas, criando para si um poder paralelo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As consequ\u00eancias s\u00e3o diversas para a v\u00edtima e para o agressor. Aquele que sofre bullying, por n\u00e3o denunciar, passa a se isolar socialmente, aumentando mais ainda a \u201csensa\u00e7\u00e3o de marginalidade\u201d. Do outro lado, o agressor, quando n\u00e3o conscientizado, pode se sentir acima das regras. \u201cEle conhece as normas e at\u00e9 as consequ\u00eancias, mas escolhe fazer mesmo assim. Esse pode ser um comportamento de algu\u00e9m que se engloba dentro de um espectro antissocial\u201d, afirma Tha\u00eds.<\/span><\/p>\n<h2><b><i>\u201cN\u00e3o se pode fazer uma piada?? Que gera\u00e7\u00e3o mais sem gra\u00e7a\u201d<\/i><\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde o nascimento de Thomas, Nara teve que deixar o emprego e se dedicar ao cuidado do filho. \u201c\u00c9 uma crian\u00e7a com alergia alimentar m\u00faltipla e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m para ficar com ele\u201d, explica. Quando Thomas completou seis anos, foi diagnosticado com TDAH (Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o com Hiperatividade) e, no in\u00edcio de 2025, ele recebeu o diagn\u00f3stico de TEA (Transtorno do Espectro Autista). Nara diz que os diagn\u00f3sticos ajudaram a compreender a situa\u00e7\u00e3o, mas confessa que se sentiu frustrada ao receber a not\u00edcia: \u201cEle \u00e9 o \u00fanico filho e, \u00e0s vezes, [sinto] uma culpa por n\u00e3o saber lidar com esse tipo de coisa\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Thomas faz acompanhamento com uma psic\u00f3loga, uma psicopedagoga, uma terapeuta ocupacional (TO) e uma psiquiatra. Ele vai a uma cl\u00ednica perto de sua casa toda segunda, ter\u00e7a e quarta-feira para receber os atendimentos. Sua preferida \u00e9 a TO, \u201ca gente conversa, brinca de massinha\u201d, relata Thomas. Apesar do apoio de profissionais da sa\u00fade, Nara conta sobre a dificuldade de receber aux\u00edlios governamentais: \u201cJ\u00e1 foi negado v\u00e1rias vezes, o governo fala que a defici\u00eancia dele \u00e9 leve. Mas estamos tentando\u201d. A justificativa foi a mesma quando a m\u00e3e da crian\u00e7a solicitou um Acompanhante Terap\u00eautico dentro da escola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O garoto come\u00e7ou a sofrer bullying no in\u00edcio do ano, mas Nara descobriu apenas em julho. \u201cSaber que a sua crian\u00e7a est\u00e1 sofrendo e passando por coisas que voc\u00ea n\u00e3o pode estar ali para proteger, d\u00f3i bastante\u201d. Thomas n\u00e3o conseguia contar sobre esses problemas por uma falta de regula\u00e7\u00e3o emocional, segundo a m\u00e3e. Isso obrigou-o a resolver do seu modo. \u201cEle me relatou que era exclu\u00eddo. Algumas vezes, a crian\u00e7a o xingava, ele revidava e ela o amea\u00e7ava de morte. O Thomas n\u00e3o tem o controle inibit\u00f3rio, ao inv\u00e9s de ir conversar com a professora, ele brigava e batia\u201d, ela descreve.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O primeiro conselho que Thomas recebeu das terapeutas foi se afastar, mas n\u00e3o deu certo. Nara resolveu pedir para o trocarem de sala, por\u00e9m a escola comunicou que n\u00e3o era poss\u00edvel. As terapeutas ligaram para a orienta\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio e n\u00e3o obtiveram retorno. \u201cA situa\u00e7\u00e3o estava insustent\u00e1vel\u201d, o que fez Nara procurar o Conselho Tutelar. Tr\u00eas dias depois, Thomas j\u00e1 estava frequentando outro instituto de educa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse processo trouxe consequ\u00eancias significativas ao menino de nove anos: ele n\u00e3o tem mais vontade de ir para escola e ficou bem apegado \u00e0 m\u00e3e. \u201c[Algumas crises] j\u00e1 aconteciam antes do diagn\u00f3stico, porque ele n\u00e3o tomava medica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tinha acompanhamento. Depois dos rem\u00e9dios e terapia, [as crises] cessaram muito, s\u00f3 que agora voltou muita coisa\u201d, conta Nara.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atualmente, Thomas recebe um apoio maior na nova escola e assume estar feliz, menos quando tem futebol na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica: \u201cOs meninos gostam muito. Da\u00ed, n\u00e3o tem o que fazer, n\u00e9? Eles ficam [gritando]: futebol! futebol!\u2019, fala rindo. Nara diz se sentir mais aliviada e entende que os professores possuem um papel central na adapta\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as neurodivergentes: \u201cEu sinto que enxergam ele como uma crian\u00e7a que passou por algumas dificuldades. E isso depende muito dos educadores, eles precisam se atualizar e entender os transtornos.\u201d.<\/span><\/p>\n<h2><b><i>\u201cPodia at\u00e9 me importar mas infelizmente eu s\u00f3 ligo pra mim\u201d<\/i><\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O bullying \u00e9 um fen\u00f4meno tipicamente escolar e, a partir da entrada de crian\u00e7as e adolescentes no mundo digital, sua presen\u00e7a na internet se tornou inevit\u00e1vel. Segundo Raquel Wachholz Strelhow, professora do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento Humano na PUC-SP e especialista em temas da inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e bem-estar, e Dunker, a dissemina\u00e7\u00e3o desse tipo de agress\u00e3o foi beneficiada pelo formato das redes sociais. Dentre diversos aspectos da natureza virtual, os pesquisadores destacam o p\u00fablico ampliado, que possibilita um alcance e valida\u00e7\u00e3o maior ao agressor; a dist\u00e2ncia, que gera uma \u201cmenor empatia \u00e0 v\u00edtima\u201d; e o anonimato, que produz uma \u201cpercep\u00e7\u00e3o menor das consequ\u00eancias diretas das a\u00e7\u00f5es\u201d. Raquel explica porqu\u00ea adolescentes s\u00e3o levados a reproduzir ofensas no digital:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cNessa fase, eles querem ser aceitos, querem pertencer a grupos de pares, com quem se identificam. O online valoriza o engajamento, e muitas vezes esse comportamento mais provocativo, que chama a aten\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Assim, mesmo que sejam intera\u00e7\u00f5es negativas, podem ser percebidas de maneira favor\u00e1vel para quem as escreve\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tha\u00eds acredita que o ambiente virtual gera uma \u201csensa\u00e7\u00e3o falsa de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser pego\u201d, o que d\u00e1 a ilus\u00f3ria liberdade ao autor para reproduzir, por exemplo, discursos de \u00f3dio.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a defini\u00e7\u00e3o dada por Cristina Godoy Bernardo de Oliveira, professora da Faculdade de Direito de Ribeir\u00e3o Preto da USP e coordenadora do grupo de pesquisa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tech Law<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP, no programa <\/span><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/7iJvNDzw4E0WwztjFL8qbb?si=m4qagYAORuSf1S2XPZCQEQ&amp;context=spotify%3Aplaylist%3A37i9dQZF1FgnTBfUlzkeKt\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">USP Analisa #78<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, o discurso de \u00f3dio \u00e9 um \u201ctipo de viol\u00eancia pautada na intoler\u00e2ncia que tem como base a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as culturais, religiosas, \u00e9tnicas, pol\u00edticas e de orienta\u00e7\u00e3o sexual\u201d. Esse discurso sempre esteve presente na hist\u00f3ria, mas a internet contribuiu de maneira significativa para sua dissemina\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As redes sociais, segundo Vivian Lemes Moreira,<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> mestre em Ci\u00eancias pelo Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o Preto da USP e pesquisadora do E-L@DIS, Laborat\u00f3rio Discursivo &#8211; sujeito, rede eletr\u00f4nica e sentidos em movimentos, permitiram \u201ca <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">exposi\u00e7\u00e3o e a aproxima\u00e7\u00e3o dos sujeitos atrav\u00e9s dos discursos\u201d. A intera\u00e7\u00e3o com outro passou a ser amparada por posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, circuladas de maneira ampla e irrestrita. \u201cDessa maneira, discursos que muitas vezes n\u00e3o iriam difundir no offline, s\u00e3o naturalizados no online\u201d, explica a pesquisadora. Esse fen\u00f4meno apenas se intensificou com os algoritmos, pois esses possibilitaram a cria\u00e7\u00e3o de \u201cilhas de \u00f3dio que se espalham por toda a plataforma e ganham legitimidade pela repeti\u00e7\u00e3o\u201d, completa.<\/span><\/p>\n<h2><b><i>\u201cQuem sofre o bullying n esquece, quem faz n\u00e3o lembra<\/i><\/b><b>\u201d<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Laura tem 24 anos e mora no Rio de Janeiro. Ela estudou quase a sua vida inteira em um col\u00e9gio de aplica\u00e7\u00e3o, e cursou psicologia em uma universidade cat\u00f3lica privada de sua cidade. Mas n\u00e3o conseguiu terminar nenhum dos dois por conta do bullying. Quando crian\u00e7a, era muito apegada ao av\u00f4. Ela diz que iam juntos \u00e0 praia, cinema, lanchonete e, at\u00e9 mesmo, ao mercado. \u201cCom ele era tudo muito novo, era uma surpresa\u201d, comenta sobre seu av\u00f4.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Laura gostava de estudar l\u00edngua portuguesa, ingl\u00eas, hist\u00f3ria e, mais para frente, biologia. Segundo ela, lia muito. Mas todas essas atividades eram sempre feitas em casa. \u201cEu enfrentei muito bullying na escola, ent\u00e3o eu n\u00e3o tinha vontade de ir. Come\u00e7ava a aparecer quando j\u00e1 estava ali na mira para reprovar\u201d, recorda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A rejei\u00e7\u00e3o, afirma Laura, come\u00e7ou em seu primeiro dia de aula. Seus colegas de turma a olhavam com \u201ccara de nojo\u201d e n\u00e3o a deixavam sentar na mesma mesa. Ela era chamada de magrela, dentu\u00e7a, e feia. A carioca conta que nasceu com uma condi\u00e7\u00e3o em seu p\u00e9 chamada sindactilia. Essa m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita faz com que os dedos nas\u00e7am grudados. E quando uma parte de sua turma viu, relata, o col\u00e9gio inteiro ficou sabendo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAs crian\u00e7as tiravam meu sapato e jogavam em um rio. Elas puxavam o meu p\u00e9 e ficavam chegando com a faca perto dizendo que iam operar meu dedo. Eu sentia p\u00e2nico porque achava que realmente iria acontecer. Voltava para casa sem sapato, minha m\u00e3e tinha que comprar um novo o tempo inteiro\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, diferente de Thomas, as provoca\u00e7\u00f5es direcionadas a Laura se estenderam na internet. N\u00e3o a deixavam entrar no grupo de WhatsApp da turma, faziam xingamentos pelo X (antigo Twitter) e divulgavam informa\u00e7\u00f5es pessoais como CPF e endere\u00e7o em diferentes redes sociais. Em 2017, aos 16 anos, o pai a tirou da escola. Laura esperou fazer 18 anos e concluiu o ensino m\u00e9dio atrav\u00e9s de supletivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na \u00e9poca, a carioca diz que n\u00e3o entendia o motivo pelo qual sofria bullying, mas hoje, ela percebe que essas agress\u00f5es s\u00e3o resultado de uma raiva acumulada. \u201cA pessoa que mais fez bullying comigo era agredida em casa\u201d, acrescenta. E na faculdade isso continuou. \u201cPostavam meu nome completo falando que era louca, sociopata, narcisista, borderline, que tinha problemas na fam\u00edlia para [um perfil com] 3.489 pessoas. Fui chamada de prostituta. J\u00e1 teve gente mandando mensagem no meu WhatsApp perguntando quanto eu cobrava por meia hora\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As provoca\u00e7\u00f5es no online trouxeram consequ\u00eancias para sua vida universit\u00e1ria. Ela encontrava fotos suas nos corredores, n\u00e3o era aceita para cursar mat\u00e9rias e sofria amea\u00e7as constantes. Isso fez com que Laura parasse de estudar. Ela relata que tinha dores de barriga, vomitava e desmaiava frequentemente, seu corpo chegou ao limite por conta da viol\u00eancia sofrida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c[Na escola, eu n\u00e3o pensava] nada. Eu vivia sem rea\u00e7\u00e3o nenhuma, s\u00f3 queria ficar em casa assistindo Disney. Eu percebi, j\u00e1 adulta, que n\u00e3o me via como pessoa, n\u00e3o me via como digna de amor. Eu me escondia\u201d. Mas, na universidade, Laura diz que o sentimento era outro: \u201cPela primeira vez na minha vida eu senti nojo, repulsa, raiva. Uma revolta de que ningu\u00e9m tem direito de me tirar aquilo. Eu tentava me manter estudando com esse pensamento\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Laura pretende voltar a cursar psicologia, mas sua grande motiva\u00e7\u00e3o de vida \u00e9 lutar pela visibilidade de c\u00e3es de suporte emocional. \u201cSe eu n\u00e3o tivesse dos 9 aos 17 anos a minha labradora, eu n\u00e3o estaria viva para contar essa hist\u00f3ria\u201d, afirma. Hoje em dia, a companheira de Laura \u00e9 Sophie, uma golden retriever serelepe de quatro meses. \u201cCom a Sophie, sou capaz de enfrentar os meus agressores e, agora, estou em uma batalha para crescer sua rede social.\u201d. Caso tenha interesse, o perfil de Sophie, a cadela de suporte emocional de Laura, \u00e9 @goldensophieclaire.<\/span><\/p>\n<h2><b><i>\u201cbullying fez falta nessa gera\u00e7\u00e3o\u201d<\/i><\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De acordo com os dados do <\/span><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/escola-que-protege\/BOLETIMdadossobreviolenciasnasescolas.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">Boletim T\u00e9cnico \u201cEscola que Protege: Dados sobre Viol\u00eancias nas Escolas\u201d<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> produzido pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania e F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, os casos de pessoas atendidas em servi\u00e7os privados e p\u00fablicos de sa\u00fade com les\u00f5es autoprovocadas, v\u00edtimas de agress\u00f5es f\u00edsicas ou verbais em ambiente escolar aumentou de 3.771 para 13.117. Segundo o <\/span><a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/institucional\/datasenado\/arquivos\/relatorio_violencianasescolas_flavioarns_resumo.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">levantamento do DataSenado<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, o instituto de pesquisa do Senado, 6,7 milh\u00f5es de estudantes sofreram alguma viol\u00eancia na escola nos \u00faltimos doze meses.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O bullying, apesar de ser uma pr\u00e1tica antiga, vem aumentando significativamente. Alguns casos repercutem na m\u00eddia, mas o problema permanece. Em 2024<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, Pedro Henrique Oliveira dos Santos, aluno negro e bolsista do col\u00e9gio Bandeirantes, se suicidou ap\u00f3s sofrer diversos ass\u00e9dios, como relatado pela <\/span><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/suicidio-aluno-colegio-bandeirantes\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">revista Piau\u00ed<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Em janeiro deste ano, um grupo de alunos do <\/span><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/noticia\/2025\/01\/31\/pedidos-de-pix-racismo-agressao-e-humilhacao-de-meninas-entenda-o-que-motivou-34-suspensoes-em-colegio-de-elite-de-sp.ghtml\"><span style=\"font-weight: 400;\">col\u00e9gio Santa Cruz disseminava discursos de \u00f3dio e amea\u00e7ava novatos em um grupo no WhatsApp<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo Luana de Souza Gomez, psiquiatra da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia e coordenadora da psiquiatria do hospital HSANP, a melhor forma de combate ao bullying \u00e9 atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o. A psiquiatra diz que esse tipo de agress\u00e3o se tornou cultural e, por conta disso, se pactuou que \u00e9 normal. \u201cMuita gente repete frases prontas como: \u2018Eu passei por isso e n\u00e3o morri\u2019. Mas quantas\u00a0 pessoas que j\u00e1 passaram por isso carregam traumas diversos\u201d, completa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se o indiv\u00edduo, desde pequeno, entender que esse tipo de comportamento pode ser bastante prejudicial ao outro, ele n\u00e3o seguir\u00e1 fazendo: \u201cCrian\u00e7as e adolescentes n\u00e3o s\u00e3o maldosas, uma ideia difundida, elas aprendem e repetem\u201d, explica Luana. Para impedir as agress\u00f5es, a psiquiatra entende que deve haver um acompanhamento conjunto, incluindo fam\u00edlia, escola e profissionais da sa\u00fade, e amplo, com v\u00edtimas e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">bullies<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para Raquel, o combate ao bullying deve ser tamb\u00e9m feito atrav\u00e9s da conscientiza\u00e7\u00e3o do ambiente virtual e de crimes cibern\u00e9ticos. \u201cO adolescente \u00e9 um cidad\u00e3o brasileiro, ele tamb\u00e9m o \u00e9 na internet. Dessa forma, \u00e9 fundamental que ele busque se informar sobre seus direitos e deveres.\u201d A professora da PUC-SP recomenda pesquisar nos sites de institui\u00e7\u00f5es como <\/span><a href=\"https:\/\/www.safernet.org.br\/guiameninaemrede.pdf);\"><span style=\"font-weight: 400;\">Safernet<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e <\/span><a href=\"https:\/\/navegarcomseguranca.childhood.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Childhood<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<h2><b><i>\u201camo esse lugar posso xingar quem eu quiser sem consequ\u00eancias\u201d<\/i><\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vitor Blotta<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, mestre e doutor em Direito pelo Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP, professor do Departamento de Jornalismo e Editora\u00e7\u00e3o da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da USP e coordenador do N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da USP (NEV-USP),<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> conta que n\u00e3o h\u00e1 uma se\u00e7\u00e3o expressa na constitui\u00e7\u00e3o brasileira que descreve a conduta e a pena espec\u00edfica para quem reproduz discursos de \u00f3dio. \u201cO que existe \u00e9 uma s\u00e9rie <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">de normas jur\u00eddicas que fazem a gente entender que crimes desse tipo s\u00e3o altamente repudiados e criminalizados pela lei. A principal \u00e9 o rep\u00fadio ao racismo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A legisla\u00e7\u00e3o brasileira, segundo o advogado, tem como um dos cernes a <\/span><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l7716.htm\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lei n. 7.716<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que define crimes relacionados ao preconceito de ra\u00e7a ou de cor. Esse \u00e9 um dos princ\u00edpios fundamentais da Rep\u00fablica, o que d\u00e1 forma ao entendimento da liberdade de express\u00e3o. \u201cO rep\u00fadio ao racismo serve de modelo para conduzir qualquer tipo de crime relacionado ao discurso de \u00f3dio\u201d, completa. O Art. 20-C da Lei de Racismo exemplifica essa rela\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cNa interpreta\u00e7\u00e3o dessa Lei, o juiz deve considerar como discriminat\u00f3ria qualquer atitude ou tratamento dado \u00e0 pessoa ou a grupos minorit\u00e1rios que cause constrangimento, humilha\u00e7\u00e3o, vergonha, medo ou exposi\u00e7\u00e3o indevida, e que usualmente n\u00e3o se dispensaria a outros grupos em raz\u00e3o da cor, etnia, religi\u00e3o ou proced\u00eancia.\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar da legisla\u00e7\u00e3o brasileira repudiar discursos de \u00f3dio, ainda circulam diariamente conte\u00fados discriminat\u00f3rios no ambiente virtual. Essa grande dissemina\u00e7\u00e3o ilegal fez o\u00a0 Supremo Tribunal Federal rever o Marc o Civil da Internet, a principal norma que regulamenta as redes em nosso pa\u00eds. Com o objetivo de atualiz\u00e1-la, os ministros <\/span><a href=\"https:\/\/noticias.stf.jus.br\/postsnoticias\/stf-define-parametros-para-responsabilizacao-de-plataformas-por-conteudos-de-terceiros\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">fizeram mudan\u00e7as<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e as principais foram a responsabiliza\u00e7\u00e3o das plataformas pela circula\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio, a remo\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de conte\u00fados caso um usu\u00e1rio pe\u00e7a e a necessidade de representa\u00e7\u00e3o legal das empresas de redes sociais no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo Blotta, foi um passo importante, mas n\u00e3o o suficiente: \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">at\u00e9 que as plataformas mudem suas condutas, ainda vai demorar. \u00c9 preciso uma mudan\u00e7a legislativa para dar mais detalhes de como aplicar e fiscalizar. \u00c9 dif\u00edcil de verificar se mudar\u00e1\u201d. A legisla\u00e7\u00e3o que busca regulamentar as redes sociais, de acordo com o advogado, deveria seguir por dois modelos: o primeiro se relaciona a transpar\u00eancia, isto \u00e9, \u201cexigir relat\u00f3rios e dados das plataformas\u201d e \u201cobrigar explica\u00e7\u00f5es para retirada de conte\u00fado\u201d; o segundo modelo atua na \u201csa\u00fade do ecossistema informacional\u201d, ou seja, impedir a dissemina\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de puni\u00e7\u00f5es de \u201cdesmonetiza\u00e7\u00e3o de canais e, no limite, na derrubada de perfis\u201d para os autores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o combate ao discurso de \u00f3dio, para Blotta, deve se concentrar em um n\u00edvel educacional e cultural. \u201cN\u00f3s temos que mudar essa cultura de que o corpo do outro pode ser objeto de esc\u00e1rnio, ridiculariza\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o\u201d. Para mudar, o advogado diz que \u00e9 preciso atuar em tr\u00eas frentes: \u201ccombater as discrimina\u00e7\u00f5es diretas, isto \u00e9, criminalizando-as, criando tipos penais, o que gera uma restri\u00e7\u00e3o da conduta\u201d; \u201ca outra frente s\u00e3o pol\u00edticas de equidade estruturais como a\u00e7\u00f5es afirmativas. Por exemplo, cotas raciais, cotas de g\u00eanero, o que influencia esses grupos exclu\u00eddos a ocuparem mais espa\u00e7os e exigirem respeito na dimens\u00e3o social e estrutural\u201d; \u201ce a terceira [frente] s\u00e3o pol\u00edticas valorativas para enaltecer culturas como africana, brasileira e ind\u00edgena\u201d. A partir dessas pol\u00edticas, \u201c\u00e9 poss\u00edvel atuar na preven\u00e7\u00e3o do discurso de \u00f3dio.\u201d, completa.<\/span><\/p>\n<h2><b>\u201c<\/b><b><i>eu quero parar de usar o twitter pq pqp s\u00f3 tem \u00f3dio nesse site<\/i><\/b><b>\u201d<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A presen\u00e7a de discrimina\u00e7\u00f5es e a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o tornam a internet um lugar possivelmente hostil. Essa propriedade, segundo Tha\u00eds, tamb\u00e9m pode ser explicada por interesses comerciais. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAs redes s\u00e3o um neg\u00f3cio. A regra que domina n\u00e3o \u00e9 org\u00e2nica, como a da escola e da sociedade de fora, \u00e9 feita para vender um produto. Ent\u00e3o, se a gente tivesse organicamente no mundo, talvez aquilo n\u00e3o estivesse sendo visto.\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Devido a esse contexto, Raquel acredita que a introdu\u00e7\u00e3o ao ambiente virtual para qualquer um deve ocorrer de forma gradual e com a supervis\u00e3o de respons\u00e1veis. Isso possibilitar\u00e1, segundo ela, o conhecimento de suas potencialidades e riscos como, por exemplo, a naturaliza\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio e do bullying.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que fazer se estiver sofrendo bullying ou qualquer tipo de descrimina\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Raquel recomenda buscar apoio e ajuda de adultos de confian\u00e7a. Caso a provoca\u00e7\u00e3o esteja acontecendo pela internet, Blotta aconselha tirar prints e <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">procurar uma delegacia de crimes cibern\u00e9ticos. Se ficou com d\u00favidas, confira o <\/span><a href=\"https:\/\/new.safernet.org.br\/content\/infografico-bullying\"><span style=\"font-weight: 400;\">infogr\u00e1fico da Safernet com as instru\u00e7\u00f5es<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> de como evitar, denunciar e ajudar uma v\u00edtima de bullying.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">*Os intert\u00edtulos s\u00e3o trechos de postagens de usu\u00e1rios da rede social X. A identidade dos autores foi preservada.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Da provoca\u00e7\u00e3o repetida aos discursos de \u00f3dio nas fam\u00edlias, escolas e internet &#8211; por Gabriel Bussolotti Silveira\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2187\"> <\/a>","protected":false},"author":138,"featured_media":2203,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[688],"tags":[695,713],"class_list":["post-2187","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-babel-2025-ed-novembro","tag-cyberbullying","tag-sociedade-e-comportamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Piada, zoa\u00e7\u00e3o, bullying\u2026 - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Da provoca\u00e7\u00e3o repetida aos discursos de \u00f3dio nas fam\u00edlias, escolas e internet\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2187\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Piada, zoa\u00e7\u00e3o, bullying\u2026 - 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